Desporto

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Aquecimento Global; a nova arma socialista

 

 Al Gore, baseado nos trabalhos de Michael Mann, Raymond Bradley e Malcom Hughes, realizados em 1999, na universidade de Columbia - de que resultou o famoso gráfico designado por hockey stick - assume tacitamente uma relação linear entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na verdade esta relação é logarítmica - com efeito marginal decrescente; o efeito térmico de um certo diferencial é menor que o efeito do mesmo diferencial que o precedeu. Por outro lado, as suas projeções da evolução da concentração de CO2 - 620 ppm em 2050 -, estão muito longe de vir a verificar-se.

Desde 1977 que os teores de CO2 têm vindo a aumentar à razão de 1,5 ppm/ano, ou seja; se a média dos últimos 30 anos se mantiver, por 2050, a concentração de CO2 será de 446 ppm, tendo sido , em 1987, de de 348 ppm, muito longe do que preconiza Al Gore. O hockey stick, de Mann, que serviu de base às recomendações do IPCC, foi elaborado com base num modelo matemático que Stephen McIntyre e Ross McKitrick, num trabalho publicado em 2003 na revista Energy and Environment, e, em 2005, na Geophysical Research Letters, demonstraram estar errado e ainda, que o ano mais quente do século XX terá sido o de 1934 e não o de 1978 como se pensava então. Gore, a partir de análises próxy aos 650 mil anos antecedentes da era pré-industrial, afirma que as concentrações de CO2 foram sempre inferiores às atuais - cerca de 380 ppm -, mas, segundo as análises próxy de Wagner at al - à densidade dos póros das folhas de bétula na Holanda -, estimou-se que, por exemplo, no período do Holoceno, durante séculos, as concentrações de CO2 ultrapassaram os 300 ppm, chegando a atingir os 348 ppm - idêntica à concentração medida em 1987. Noutros períodos mais recentes, ter-se-ão registado valores do mesmo tipo.

Por outro lado, Gore, baseado no mesmo gráfico, procura induzir a ideia da relação de causalidade entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na realidade sucedeu o contrário; as variações de temperatura global precederam, de centenas de milhares de anos, as variações dos teores do CO2 segundo trabalhos de H.Fisher, M.Wahlen, J. Smith, D. Mastroianni e B. Deck; quando muito, as variações de CO2 tiveram um efeito amplificador nas variações térmicas em curso. O aumento do teor do CO2 referido deve-se ao aquecimento dos oceanos ao libertarem parte do CO2 dissolvido para a atmosfera. Em suma; o teor de CO2 tem aumentado à razão de 1 ppm/ano e tem um efeito marginal no aquecimento global - por exemplo; o aumento do teor de CO2 de 100 ppm provoca um efeito de aquecimento da ordem dos 2 W/m2; no passado pré-industrial verificaram-se teores de CO2 próximos dos atuais e temperaturas globais mais altas que as atuais.

A evolução térmica média entre 1977 e 2006 foi de 0,17 ºC/década, sendo que, nos ultimos 20 anos, não se tem verificado variação assinalável - na verdade tem-se verificado ligeiro declínio, conforme medição por satélite - iniciada em 1978. O IPCC tem, ostensivamente, ignorado os trabalhos científicos contrários às teses de Mann e consta que proibiu a análise de trabalhos publicados a partir de 2005. A minha convicção, fundamentada nas análises de; John Casey, Luis Carlos Molion, Rui Moura, Jorge Oliveira, Bjorn Lomborg, Marlo Lewis Jr, Stephen McIntyre, e outros, é que a teoria do Aquecimento Global é uma fraude, cuja finalidade é eminentemente política e multifacetada. Esgotadas as teses marxistas, os seus defensores, abraçaram a causa do ambiente como instrumento de combate ao capitalismo, em particular, o americano.

Por outro lado, é uma nova forma de colonialismo na medida em que condiciona o desenvolvimento dos países pobres deixando-os dependentes dos países tecnológicos, em especial, os do norte da Europa. Finalmente, a consequente pressão para a redução de produção de recursos alimentares e outros bens - pescas, agricultura e processados -, quanto a mim, tem como finalidade, forçar pela fome a regressão demográfica, cuja prodigiosa expansão no século XX se deveu à Revolução Industrial e ao Capitalismo, ao proporcionar o aumento da produção alimentar em 8 vezes contra o aumento de 6 vezes da população mundial - de cerca de 1 bilião no início do século e para 6 biliões do final. Finalmente; o Acordo de Paris preconiza medidas para a limitação do aumento térmico a 1,5 ºC em 2050. Este processo está em marcha em Portugal e está a dizimar a nossa produção agroalimentar que, nos próximos anos, ficará reduzida à marginalidade. Uma nota final; exerço uma atividade relacionada com este tema. Consultei; "A Ficção Científica de Al Gore" de Marlo Lewis Jr e "Calma" de Bjorn Lomborg.
 
Peniche, 09 de Dezembro de 2018
António J.R..Barreto

terça-feira, 1 de junho de 2021

Benfica 2020/2021 - Um olhar sobre a época (2)

 

   A normalidade competitiva da equipa do Benfica ocorreria já na 2ª volta, após a 20ª jornada, na sequência de dois desaires sucessivos; dois empates, um com o Moreirense outro com o Farense. Demasiado tarde. O aparente otimismo de Jorge Jesus ao reiterar confiança no primeiro lugar não convenceu os adeptos. O atraso era demasiado, 15 pontos! Nesta altura, dada a boa campanha que o Braga vinha fazendo, a prioridade da equipa do Benfica era de garantir o terceiro lugar e tentar o segundo.

   Um novo deslize, desta vez com o Gil Vicente, confirmaria as fragilidades já apontadas; se o título era uma utopia, o segundo lugar parecia possível. Era, mas gorou-se quando foi necessário afirmá-lo no terreno. O empate em casa com o rival direto comprometeu a derradeira oportunidade.

   Quando chegou o momento do “ajuste de contas” com o grande rival, tudo estava já decidido. Providencialmente decidido. Jogou-se a feijões; o travo amargo da vitória só foi atenuado pela inviabilização do perseguido recorde pelo rival, que ambicionava terminar o campeonato sem derrotas.

   Na derradeira jornada, com horários providencialmente diferidos, haveria Seferovic de perder a possibilidade de vencer o troféu de melhor marcador. Muitos então se perguntaram, se o “Pote” marcaria quatro golos ao Marítimo caso Seferovic tivesse marcado três golos ao Guimarães.

   De igual modo se foi a possibilidade de vencer a Taça de Portugal quando, aos dezoito minutos de jogo, providencialmente, a equipa do Benfica se viu reduzida a dez unidades.

   Deixando, por agora de lado, todas as peripécias ocorridas nas margens da competição, olhando para trás, até parece que todos os deuses se uniram para tramar o clube da Luz. Ainda assim, pergunto-me qual teria sido a classificação caso o Benfica tivesse sido “agraciado” com o mesmo número de penaltis que teve o Porto, ou mesmo os que teve o Sporting. Igualmente faz sentido perguntar, porque foi permitido ao Sporting competir com dois jogadores positivos ao teste COVID efetuado pelo laboratório oficial. E por carga de água foi suspenso ad eternum, o castigo ao Palhinha, por intervenção providencial de um juiz sportinguista em serviço no Tribunal Administrativo do Sul (salvo o erro)? E porque raio de coincidência só foi tornado público após o termo do campeonato, o incidente de Pote com doping, quando ainda militava no Famalicão (salvo o erro)? É aqui que faz sentido perguntar se os campeonatos são decididos nos campos de futebol ou nos gabinetes dos deuses onde a divina Providência parece inspirar-se.

André Lhote


Peniche, 31 de Maio de 2021

António Barreto

domingo, 30 de maio de 2021

Benfica 2020/2021 - Um olhar sobre a época (1)

 

   A aura de sucesso que acompanhava Jorge Jesus no seu regresso ao Benfica criou um clima de otimismo entre os adeptos para a nova época. Trunfo eleitoral de Filipe Vieira, o novo Treinador, apesar de alguns anticorpos internos - há, entre benfiquistas, quem não lhe perdoe a forma como saiu do clube - prometia uma equipa competitiva, a jogar o triplo, à qual todos os sonhos eram permitidos. Assim o entenderam a generalidade dos benfiquistas. Assim o temeram os adversários.

   O primeiro desaire ocorreu com a não qualificação para a Liga dos Campeões. O afastamento pelo modesto PAOK, com o contributo do ex-benfiquista Zivkovic, recém-chegado à equipa grega, afetou a moral dos jogadores e adeptos, provocando um rombo de monta na tesouraria do clube, que felizmente, ostentava, à época, uma robustez única entre clubes portugueses.

   Apesar disso a temporada teve um início prometedor, logo ameaçado no final de Setembro com a saída de Ruben Dias para o Manchester City. Uma oferta irrecusável privou o Benfica da “pedra de toque” da equipa. De facto, o jovem central, formado nas escolas do clube, cedo se distinguiu pela determinação e liderança que punha em campo, sendo visto pelos adeptos como o primeiro pilar da futura equipa de jogadores da casa. Com a sua saída desmoronava-se mais um projeto que, afinal, só existia no imaginário dos crédulos benfiquistas.

   A remodelação da linha defensiva ocorreu em plena competição, com Grimaldo e André Almeida lesionados e Ventonghen, Otamendi e Jardel sem ritmo competitivo. Por outro lado, Nuno Tavares revelava falhas táticas frequentes e o recém-chegado Gilberto dava os primeiros passos na adaptação à equipa. A estabilização do setor ocorreu, tardiamente, com a chegada de Lucas Veríssimo, um central sereno, taticamente evoluído e concentrado, com o regresso de Grimaldo e com a adaptação de Diogo Gonçalves a defesa-direito. Trabalho árduo que deveria ter ocorrida na pré-época.

   Apesar de tudo, com alguns erros defensivos infantis pelo caminho, a equipa teve um início de campeonato auspicioso, chegando a isolar-se, folgadamente, na liderança. Darwin revelava-se um avançado demolidor. Contudo, o jogo no Bessa, a 2 de Novembro, viria a revelar as fragilidades da equipa que nem uma arbitragem hostil disfarçou. Fragilidades transitadas da época anterior, que se traduziam, basicamente, em falta de criatividade e solidez no meio-campo, falta de intensidade, profundidade e criatividade nas alas, e instabilidade no capítulo da finalização.

   Apesar do desaire aguardava-se uma melhoria competitiva contínua resultante, sobretudo, da esperada evolução da consistência tática e da subida de forma dos reforços brasileiros. O empate no Dragão, revelando grande atitude geral, permitiu manter a diferença pontual para o clube do Porto, injetando nova confiança nas hostes encarnadas. A equipa parecia ter entrado numa fase de maior intensidade competitiva; parecia pronta para “voar”.

   E voou, mas baixinho! Desgraçadamente, de forma algo surpreendente, um surto infecioso abateu-se sobre as hostes vermelhas. Soube-se mais tarde que, entre jogadores e técnicos, cerca de cinquenta elementos foram infetados com o coronavírus SARS COV 2! Neste período jogou-se com atletas titulares fragilizados, outros menos rodados, alguns da equipa B, e sem treinos. Uma equipa errática, sem força, previsível, a perder pontos sucessivamente, sem complacência dos adversários, nem dos árbitros. Enquanto aqueles se negavam a aceitar os pedidos de adiamento, caso do “ingrato” Nacional, estes negavam-se a assinalar as faltas passíveis de grande penalidade favoráveis ao clube da Luz. Mais uma vez começaram a desenhar-se as habituais teorias da conspiração entre os adeptos do clube; onde teria ocorrido a contaminação? Teria alguma relação com o jogo no Dragão? Porque não eram assinalados os penaltis favoráveis ao clube? Seriam “ordens” da tutela desportiva? Haveria um entendimento para afastar o Benfica do título? E teria isso algo a ver com o estado financeiro caótico dos principais rivais? Haveria condicionantes de natureza política? Uma espiral de dúvidas com raiz na frustração pelos maus resultados e no ambiente geral francamente hostil ao clube no espaço público, pacientemente cultivado ao longo das últimas décadas pelos rivais e outros agentes.

   (Cont.)

Armando Barrios - 1990

Peniche, 30 de Maio de 2021

António Barreto

sábado, 29 de maio de 2021

A final da Taça 2020-2021

 

    Com uma derrota na Taça de Portugal terminou da pior forma, para o Benfica, a época 2020-2021. Uma vitória atenuaria os efeitos duma época desastrada projetando alguma esperança no futuro imediato da equipa. Os adeptos viam nesta final a possibilidade de consolidação da melhoria da qualidade de jogo da equipa, um primeiro passo na preparação da próxima época, ao nível da constituição do plantel e no restabelecimento da confiança do universo encarnado.

   O primeiro sinal adverso surgiu com a lesão, na última jornada da Liga, do central Lucas Veríssimo. De facto, o brasileiro trouxe à equipa a estabilidade defensiva perdida com a saída de Ruben Dias. Por outro lado, a semana que antecedeu a final foi marcada pela audição do Presidente do Benfica, a título pessoal, em sede de Comissão de Inquérito da Assembleia da República aos grandes devedores do Novo Banco. Uma coincidência que agravou o ambiente negativo junto dos adeptos encarnados e, creio, junto de toda a correspondente estrutura.

   Pelo contrário, as hostes adversárias exibiam confiança; Presidente, Treinador, jogadores e adeptos, publicamente, mostravam determinação inabalável na vitória. E, se é certo que tal faz parte dos habituais jogos mentais que visam desmoralizar o adversário, a verdade é que tal otimismo radicava no inegável valor da equipa, já demonstrado ao longo da época.

   Com um posicionamento e articulação irrepreensíveis, elevada intensidade e agressividade em todas as zonas do terreno, o Braga dificultou o processo de construção e desenvolvimento das jogadas ofensivas ao Benfica, subindo no terreno em rápidas transições, sempre com vários atacantes na zona de finalização.  E foi num desses lances que ocorreu a decisão polémica que viria a ser decisiva no desfecho do jogo. Talvez consequência da quebra de entrosamento defensivo provocado pela ausência de Lucas Veríssimo, o guarda-redes Helton tem uma saída extemporânea que provocou a sua expulsão em consequência da falta que cometeu sobre o avançado contrário à saída da sua área. Uma decisão drástica do árbitro que deixou indignadas as hostes encarnadas, por não ter recorrido ao VAR e por um histórico de decisões polémicas que protagonizou na Liga com custos na pontuação da equipa da Luz.

       Ao cair do pano da primeira parte, em mais um duplo erro defensivo da equipa do Benfica, o Braga adianta-se no marcador com um magnífico chapéu longo. Um banho de água fria no pior momento, para a equipa de Jorge Jesus, quando se esperava o intervalo para refrescamento das ideias táticas. Mais uma vez se verificou descoordenação defensiva, com Vertonghen a fazer um corte oportuno mas infeliz - para a zona frontal -, e Odisseias a sair sem possibilidade de disputar o lance.

   As alterações introduzidas na segunda parte pelo Benfica não mudaram o padrão de jogo. O meio-campo pertencia ao Braga que não permitia veleidades ao adversário, não hesitando os seus jogadores em recorrer à falta e ao antijogo sempre que necessário. Em inferioridade numérica, frente a uma equipa bem articulada e a uma arbitragem permissiva, os jogadores do Benfica, chegando quase sempre tarde aos lances, raramente construíram oportunidades de golo, apesar de o tentarem afincadamente. O tento da confirmação chegou com naturalidade já na ponta final, quando a equipa de Jorge Jesus arriscava tudo, arrumando as contas da Taça.  

   A vitória assenta bem à equipa de Marcelo Rebelo de Sousa, premiando a sua qualidade de jogo e determinação, apesar de se ter batido contra um adversário em inferioridade numérica a maior parte do tempo.

   Quanto ao Benfica, apesar da arbitragem adversa, revelou as debilidades conhecidas, nomeadamente, falta de coordenação defensiva, falta de criatividade e consistência no meio-campo, falta de intensidade nas alas, instabilidade na finalização e défice de confiança.

   Se é verdade que a estabilidade diretiva é necessária ao progresso dum clube, também é verdade que de nada serve quando tal não se traduz em estabilidade desportiva. É o caso do Benfica que, nos últimos anos, tem desbaratado recursos sem retorno desportivo. A conturbada vida profissional do seu Presidente acaba por ter reflexos negativos na gestão do clube e no ambiente geral que o rodeia, seja entre adeptos, seja na sociedade civil, municiando os adversários com argumentos pejorativos.


Marina - 1933 - Armando Barrios

Peniche, 29 de Maio de 2021

António Barreto

sábado, 15 de maio de 2021

“Os Grandes Devedores”

    As Comissões de Inquérito Parlamentar são necessárias para aprofundar e analisar assuntos de especial interesse público. Destinam-se a dotar os Grupos Parlamentares de matéria fidedigna para enriquecimento do debate político, elaboração de propostas de lei decorrentes dos casos, bem como identificar e encaminhar eventuais ilícitos para a esfera judicial.

   A sucessiva e aparente falta de resultados práticos, ao longo do tempo, induziu-me a concluir que, em Portugal, o seu préstimo se circunscreve, quase exclusivamente, a municiar o partido ou partidos de suporte do Governo do momento, de instrumentos de luta partidária. Outras vezes não passam de manobras de diversão destinadas a desviar as atenções do público de casos efetivamente graves da atualidade, potencialmente penalizadores da ação governativa.

   Um exemplo recente: Carlos Moedas foi anunciado candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Pois constou há dias, a propósito de um assunto qualquer já com barbas e esquecido, a intenção de alguns Deputados da área da Governação o chamarem a depor numa Comissão de Inquérito Parlamentar nomeada para o efeito! O caso até pode ter relevância, mas o que parece é que se trata de antecipação da luta eleitoral com o objetivo de desgastar a imagem pública do opositor. Indigno!

   No caso da Comissão de Inquérito ao Novo Banco em curso, não sei quantas auditorias foram feitas, sei que várias, mas parece que nunca são suficientes. Desta vez o propósito, em minha opinião, é duplo; por um lado encontrar bodes expiatórios para o desastre da operação de venda do banco, e por outro fazer passar, sem alarido, uma lei de censura digna da que vigorava no Estado Novo.

   As vicissitudes que têm vindo a público relacionadas com Deputados; viagens fantasma, moradas falsas, faltas não registadas, duplo vínculo, levam-me a duvidar da autoridade moral de muitos Deputados para inquirir eventuais delitos de terceiros. No caso do Novo Banco, não deixa de ser caricato que, Deputados do partido do Governo ou dos partidos que o apoiam, ainda que indiretamente, envolvidos no desastroso contrato da venda do banco à Lone Star, responsabilizem outros, “grandes devedores”, pelos fracos resultados da gestão do banco.

   No caso concreto, atribuir a uma imparidade de cerca de 160 milhões de euros, salvo o erro, a causa da falência do banco quando o défice acumulado, por enquanto, é de cerca de 4 mil milhões de euros, é patético.

   O tom vexatório, ora jocoso ora intimidatório e agressivo, com que certos deputados interpelam os envolvidos, destina-se a condená-los e humilha-los na praça pública, antes mesmo de serem apuradas as respetivas responsabilidades. Um ato de exibicionismo público indigno de quem detém a responsabilidade da representação da soberania popular e que viola o direito à dignidade, constitucionalmente consagrado, de qualquer cidadão, até do Presidente do Benfica! E, se é verdade que qualquer reestruturação de dívida é consequência de incumprimento, também é verdade que os respetivos pressupostos radicam no reconhecimento de causas circunstanciais e da viabilidade económica do projeto subjacente mediante o desaparecimento de tais causas.    

   Porém, há uma virtude no atual inquérito; tem suscitado algum esclarecimento especializado que permite aos “leigos” na matéria, como eu, tirarem conclusões nada abonatórias para os Governos envolvidos no caso da resolução do BES e na venda do NB. Por ocasião da resolução do BES, disse-se, com exceção do PCP, que não traria custos para o contribuinte. Tem!  E avultados! Especialmente graves dada a grave crise que o país atravessa. O ressarcimento, a ocorrer, será a muito longo prazo.

   Quando se optou pela divisão do BES em “banco bom” e “banco mau”, solução geralmente considerada adequada, pensei, com “os meus botões”, que o que estava em causa era a identidade dos titulares dos ativos e não a qualidade dos mesmos. Hoje, esta ideia, face ao que se vai conhecendo, ganhou consistência, senão vejamos:

   O banco acumula prejuízos sistemáticos e com isso garante a injeção de capital do Fundo de Resolução financiado pelo Governo. Pergunto-me se a gerência do banco se destina a viabilizá-lo ou a garantir a efetivação do financiamento público, gerando défices sucessivos. Estou tentado a pensar que sim. Por outro lado, têm vindo a público vários casos de alienação de ativos em condições deploráveis. Noticiam-se perdas da ordem dos 90 % dos valores contratualizados, havendo indícios de que alguns ativos foram recomprados, a preço de saldo, por sócios ou amigos dos titulares das respetiva imparidades! Lamentável! Acresce, para cúmulo, que a Lone Star, segundo consta, se prepara para vender o Novo Banco, já saneado financeiramente, com ganhos substanciais! A ser verdade, é vergonhoso e deveria conduzir à severa punição dos responsáveis por tal desastre.

   Será o cidadão eleitor, que será fiscalmente penalizado, tão distraído que ainda irá premiar eleitoralmente os responsáveis por esta catástrofe? Eu não!

Amedeo Modigliani

Peniche, 15 de Maio de 2021

António Barreto

sábado, 24 de abril de 2021

O caso de Moçambique: Da falta de vergonha ou de coragem

 


   O novo Estado de Moçambique foi configurado segundo o modelo marxista soviético, na mais pura tradição das democracias populares. Assim o determinou o Comité Central da Frelimo, que se constituíra como a suprema autoridade da nação. Uma minoria impôs a sua vontade a nove milhões de pessoas sem um esboço de legitimação democrática. O acordo Samora Machel-Melo Antunes tinha deixado em aberto a possibilidade deste desfecho.

   Vasco Gonçalves, que presidira à Comissão Diretora do MFA quando foi elaborado o seu programa, traiu-o, quando, enquanto Primeiro-Ministro de Portugal presente na cerimónia da independência, classificou, comovidamente, como honrosa libertação de um povo, o que não passava de um processo neocolonial. Ao rebaixar-se, pedindo servilmente perdão, quando abundavam motivos de orgulho, desonrou a farda que vestira sem convicção. Paradoxalmente, saíram de Samora Machel as palavras de enaltecimento dos que tinham sabido bater-se e de desprezo pelos covardes. O guerrilheiro, ainda com memória dos seus tempos de combatente, corrigiu o “general”. A persistente doutrinação marxista que o envolvia acabou por converter aquela em servo dos novos senhores.

   Ato contínuo iniciaram-se, sem qualquer discriminação, as perseguições aos dissidentes ou, simplesmente, intelectualmente autónomos. Médicos, advogados, engenheiros e professores fugiram como puderam, deixando um vazio de que a população seria vítima. Sucederam-se as prisões arbitrárias; as vítimas, transportadas em camiões de gado, foram tratadas brutalmente nos campos de trabalho. Descoberta acidentalmente a infâmia, esta foi abafada nos meios de comunicação social portugueses e internacionais. Estes, que denunciaram os excessos da PIDE, calaram-se perante as incomparáveis monstruosidades cometidas pela SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular).

   Igualmente perseguidas foram todas as confissões religiosas. Os islâmicos, habituados à cordialidade da administração portuguesa, na pessoa de Baltasar Rebelo de Sousa, foram desrespeitados por Samora Machel, no templo da Ilha de Moçambique, por se recusarem a aderir à ideologia marxista. Cristãos ortodoxos foram também perseguidos, obrigados a fugir de templos, escolas e hospitais, sob ameaça das armas dos milicianos da Frelimo. A maior chacina ocorreu entre os cerca de 40 mil Testemunhas de Jeová, refugiados junto à fronteira de Moçambique, na sequência da perseguição que lhes era movida pelos países vizinhos. Acolhidos pela administração portuguesa que, conjuntamente com o Malawi, lhes prestava assistência, foram obrigados, pela Frelimo, a cruzar a fronteira para caírem nas mãos dos seus perseguidores. Cerca de 3 mil foram assassinados sumariamente a tiro, à baioneta ou à pancada. A Igreja Católica também não escapou à fúria frelimista, sendo acusada de reacionária. Quis-se separar a Igreja de Moçambique do Vaticano e até de alteração da liturgia. O bispo de Nampula, ativo frelimista do tempo colonial, foi impedido de pregar na Catedral e proibido de sair do Paço episcopal.

   Os bispos moçambicanos, que sempre encontraram fórmulas de criticar as autoridades portuguesas e de as afrontar nos seus relatórios para Roma, remeteram-se ao silêncio envergonhado. Os missionários espanhóis, defensores entusiastas do seu povo cristão, desta vez mantiveram-se calados. D. Eurico de Noronha, respeitado bispo de Vila Cabral - depois de Sá da Bandeira -, que se oferecera para advogado dos padres marxistas do Macuti, não fez ouvir a sua voz.

   E quanto à Igreja Católica, porque se calou? Porque desapareceu a coragem do Núncio Apostólico de Lisboa, sempre lesto a denunciar as prepotências portuguesas? Porque se calou o padre Hastings, que denunciara do massacre de Wiryamu ao The Times londrino, perante os comprovados genocídios ainda mais graves, que se cometeram em Moçambique no processo da independência?

   Quanto a D. António Ferreira Gomes, o célebre Bispo do Porto, fértil no apoio às acusações contra a guerra colonial, porque não se lhe ouviu uma palavra de caridade para com os cristãos vítimas da mais violenta perseguição dos tempos modernos? Onde estiveram as cartas pastorais e as homilias versando “Paz e Justiça”?

   Houve em tudo isto um silêncio cúmplice e uma vergonhosa falta de coragem, com exceção reconfortante do Arcebispo de Braga, Primaz das Espanhas, que, de acordo com a sua ímpar personalidade, disse o que havia a dizer.


Fonte: “Moçambique Terra Queimada” (Jorge Jardim)

Peniche, 24 de Abril de 2021

António Barreto

quarta-feira, 14 de abril de 2021

O Fogueiro Fadista

 O pesado silêncio do quarto noturno era apenas quebrado pelo surdo rumor da combustão das caldeiras. Frente a cada uma, os três fogueiros, imóveis, fixavam o olhar, ora nos visores de nível de água, ora nos manómetros, assegurando-se de que se mantinham no regime de trabalho: visor a meio e pressão a 42 bar.


O Vítor d’Alfama, ainda jovem, de serviço à caldeira de bombordo e sempre a cantarolar, destacava-se pelo aprumo e penteado, donde sobressaía uma brilhante, volumosa e perfeita popa.

De pé, junto à escrivaninha, em silêncio, imerso nos pensamentos próprios dum jovem de 19 anos, cabia-me supervisionar o grupo, atento a tudo.

Do seu canto, perguntou o Vítor: “Oh “sou” terceiro, conhece o fado das duas fotografias?” “Não”, respondi, a pensar no que iria sair dali. “É um fado muito bonito! Gosto muito deste fado!" Posso cantá-lo?”. “Pode." Respondi, percebendo a compulsão da saudade que o atingia, enfiado num caixote de aço e perante os cerca de dois meses de viagem que tinhamos pela frente.

Então, O Vítor d’Alfama virou-se para a caldeira, aquele mostrengo cinzento a roncar, como se estivesse perante uma sala de espetáculos cheia de gente, respirou fundo e começou a cantar, a plenos pulmões e a preceito, o fado das duas fotografias,

“No meu pequenino quarto
Há duas fotografias,
De mirá-las não me farto
É com elas que eu reparto tristezas e alegrias.
De mirá-las não me farto,
É com elas que reparto, tristezas e alegrias.

Há dias fui-me deitar,
E tive a impressão que ouvi,
As duas p’ra mim falar
Dizendo vai descansar
Que nós velamos por ti.
As duas p’ra mim falar,
Dizendo vai descansar,
Que nós velamos por ti,

De manhã quando acordei
Sorridente e satisfeito,
Para as duas fotos olhei
Falei, os bons dias dei,
Aos guardiões do meu leito.
Para as duas fotos olhei
Falei, os bons dias dei,
Aos guardiões do meu leito.

Decerto as duas trocaram,
Um sorrisinho contente,
Eu saí elas ficaram
E como sempre esperaram
Que eu voltasse novamente.
Eu saí elas ficaram
E como sempre esperaram
Que eu voltasse novamente.

São fotos são fantasias,
Há quem diga mas porém,
Não me afetam ironias,
Pois essas fotografias,
São meu pai e minha mãe,
Não me afetam ironias,
Pois essas fotografias,
São meu pai e minha mãe!”

Calou-se o Vítor, voltando a fazer-se ouvir o surdo roncar das caldeiras, entrecortado por breves aplausos da escassa assistência.

Já no camarote, apesar de achar o tema algo lamechas, lá fui esgravatar na viola, que comprara precisamente em Alfama, mesmo frente ao Limoeiro, a ver se tirava os respetivos acordes, algo que não me saiu lá muito bem às primeiras tentativas.

O Vítor d’Alfama sofria do mal dos marinheiros. Sofria de saudade.

(Episódio passado no Infante Dom Henrique, lá pelos idos de 1971)


Peniche, 14 de Abril de 2021
António Barreto