quarta-feira, 5 de maio de 2021
segunda-feira, 3 de maio de 2021
sábado, 24 de abril de 2021
O caso de Moçambique: Da falta de vergonha ou de coragem
O novo Estado de
Moçambique foi configurado segundo o modelo marxista soviético, na mais pura
tradição das democracias populares. Assim o determinou o Comité Central da
Frelimo, que se constituíra como a suprema autoridade da nação. Uma minoria
impôs a sua vontade a nove milhões de pessoas sem um esboço de legitimação
democrática. O acordo Samora Machel-Melo Antunes tinha deixado em aberto a
possibilidade deste desfecho.
Vasco Gonçalves, que presidira à Comissão Diretora do MFA quando foi elaborado
o seu programa, traiu-o, quando, enquanto Primeiro-Ministro de Portugal
presente na cerimónia da independência, classificou, comovidamente, como
honrosa libertação de um povo, o que não passava de um processo neocolonial. Ao
rebaixar-se, pedindo servilmente perdão, quando abundavam motivos de orgulho,
desonrou a farda que vestira sem convicção. Paradoxalmente, saíram de Samora
Machel as palavras de enaltecimento dos que tinham sabido bater-se e de
desprezo pelos covardes. O guerrilheiro, ainda com memória dos seus tempos de
combatente, corrigiu o “general”. A persistente doutrinação marxista que o
envolvia acabou por converter aquela em servo dos novos senhores.
Ato contínuo iniciaram-se, sem qualquer discriminação, as perseguições
aos dissidentes ou, simplesmente, intelectualmente autónomos. Médicos,
advogados, engenheiros e professores fugiram como puderam, deixando um vazio de
que a população seria vítima. Sucederam-se as prisões arbitrárias; as vítimas,
transportadas em camiões de gado, foram tratadas brutalmente nos campos de
trabalho. Descoberta acidentalmente a infâmia, esta foi abafada nos meios de
comunicação social portugueses e internacionais. Estes, que denunciaram os
excessos da PIDE, calaram-se perante as incomparáveis monstruosidades cometidas
pela SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular).
Igualmente perseguidas foram todas as confissões religiosas. Os
islâmicos, habituados à cordialidade da administração portuguesa, na pessoa de
Baltasar Rebelo de Sousa, foram desrespeitados por Samora Machel, no templo da
Ilha de Moçambique, por se recusarem a aderir à ideologia marxista. Cristãos
ortodoxos foram também perseguidos, obrigados a fugir de templos, escolas e
hospitais, sob ameaça das armas dos milicianos da Frelimo. A maior chacina
ocorreu entre os cerca de 40 mil Testemunhas de Jeová, refugiados junto à
fronteira de Moçambique, na sequência da perseguição que lhes era movida pelos países
vizinhos. Acolhidos pela administração portuguesa que, conjuntamente com o
Malawi, lhes prestava assistência, foram obrigados, pela Frelimo, a cruzar a
fronteira para caírem nas mãos dos seus perseguidores. Cerca de 3 mil foram
assassinados sumariamente a tiro, à baioneta ou à pancada. A Igreja Católica
também não escapou à fúria frelimista, sendo acusada de reacionária. Quis-se
separar a Igreja de Moçambique do Vaticano e até de alteração da liturgia. O
bispo de Nampula, ativo frelimista do tempo colonial, foi impedido de pregar na
Catedral e proibido de sair do Paço episcopal.
Os bispos moçambicanos, que sempre encontraram fórmulas de criticar as
autoridades portuguesas e de as afrontar nos seus relatórios para Roma,
remeteram-se ao silêncio envergonhado. Os missionários espanhóis, defensores entusiastas
do seu povo cristão, desta vez mantiveram-se calados. D. Eurico de Noronha,
respeitado bispo de Vila Cabral - depois de Sá da Bandeira -, que se oferecera
para advogado dos padres marxistas do Macuti,
não fez ouvir a sua voz.
E quanto à Igreja Católica, porque se calou? Porque desapareceu a
coragem do Núncio Apostólico de Lisboa, sempre lesto a denunciar as
prepotências portuguesas? Porque se calou o padre Hastings, que denunciara do massacre de Wiryamu ao The Times londrino,
perante os comprovados genocídios ainda mais graves, que se cometeram em
Moçambique no processo da independência?
Quanto a D. António Ferreira Gomes, o célebre Bispo do Porto, fértil no apoio
às acusações contra a guerra colonial, porque não se lhe ouviu uma palavra de caridade
para com os cristãos vítimas da mais violenta perseguição dos tempos modernos?
Onde estiveram as cartas pastorais e as homilias versando “Paz e Justiça”?
Houve em tudo isto um silêncio cúmplice e uma vergonhosa falta de coragem, com exceção reconfortante do Arcebispo de Braga, Primaz das Espanhas, que, de acordo com a sua ímpar personalidade, disse o que havia a dizer.
Fonte: “Moçambique Terra Queimada”
(Jorge Jardim)
Peniche, 24 de Abril de 2021
António Barreto
quarta-feira, 14 de abril de 2021
O Fogueiro Fadista
O pesado silêncio do quarto noturno era apenas quebrado pelo surdo rumor da combustão das caldeiras. Frente a cada uma, os três fogueiros, imóveis, fixavam o olhar, ora nos visores de nível de água, ora nos manómetros, assegurando-se de que se mantinham no regime de trabalho: visor a meio e pressão a 42 bar.
O Vítor d’Alfama, ainda jovem, de serviço à caldeira de bombordo e sempre a
cantarolar, destacava-se pelo aprumo e penteado, donde sobressaía uma
brilhante, volumosa e perfeita popa.
De pé, junto à escrivaninha, em silêncio, imerso nos pensamentos próprios dum
jovem de 19 anos, cabia-me supervisionar o grupo, atento a tudo.
Do seu canto, perguntou o Vítor: “Oh “sou” terceiro, conhece o fado das duas
fotografias?” “Não”, respondi, a pensar no que iria sair dali. “É um fado muito
bonito! Gosto muito deste fado!" Posso cantá-lo?”. “Pode." Respondi, percebendo
a compulsão da saudade que o atingia, enfiado num caixote de aço e perante os
cerca de dois meses de viagem que tinhamos pela frente.
Então, O Vítor d’Alfama virou-se para a caldeira, aquele mostrengo cinzento a
roncar, como se estivesse perante uma sala de espetáculos cheia de gente,
respirou fundo e começou a cantar, a plenos pulmões e a preceito, o fado das
duas fotografias,
“No meu pequenino quarto
Há duas fotografias,
De mirá-las não me farto
É com elas que eu reparto tristezas e alegrias.
De mirá-las não me farto,
É com elas que reparto, tristezas e alegrias.
Há dias fui-me deitar,
E tive a impressão que ouvi,
As duas p’ra mim falar
Dizendo vai descansar
Que nós velamos por ti.
As duas p’ra mim falar,
Dizendo vai descansar,
Que nós velamos por ti,
De manhã quando acordei
Sorridente e satisfeito,
Para as duas fotos olhei
Falei, os bons dias dei,
Aos guardiões do meu leito.
Para as duas fotos olhei
Falei, os bons dias dei,
Aos guardiões do meu leito.
Decerto as duas trocaram,
Um sorrisinho contente,
Eu saí elas ficaram
E como sempre esperaram
Que eu voltasse novamente.
Eu saí elas ficaram
E como sempre esperaram
Que eu voltasse novamente.
São fotos são fantasias,
Há quem diga mas porém,
Não me afetam ironias,
Pois essas fotografias,
São meu pai e minha mãe,
Não me afetam ironias,
Pois essas fotografias,
São meu pai e minha mãe!”
Calou-se o Vítor, voltando a fazer-se ouvir o surdo roncar das caldeiras,
entrecortado por breves aplausos da escassa assistência.
Já no camarote, apesar de achar o tema algo lamechas, lá fui esgravatar na
viola, que comprara precisamente em Alfama, mesmo frente ao Limoeiro, a ver se
tirava os respetivos acordes, algo que não me saiu lá muito bem às primeiras
tentativas.
O Vítor d’Alfama sofria do mal dos marinheiros. Sofria de saudade.
(Episódio passado no Infante Dom Henrique, lá pelos idos de 1971)
Peniche, 14 de Abril de 2021
António Barreto
terça-feira, 13 de abril de 2021
Os Pobres (X)
A República
A narrativa política
dominante atual refere a 1ª República como paradigma da democracia e da promoção
do progresso económico e social, interrompida pelo pronunciamento militar do 28
de Maio de 1926 o qual, em 1933, daria lugar ao autocrático, conservador e
semi-clerical “Estado Novo” salazarista. Contudo, a realidade é bastante
diversa. No caso português, a expressão “ética republicana” está destituída do
conteúdo que lhe atribui quem a profere.
O regime inaugurado em 5 de Outubro
de 1910 preocupou-se mais em consolidar o seu poder do que com a assistência
aos pobres, doentes e mendigos. Identificando a Igreja Católica como seu
principal inimigo, pela formação moral das populações através dos serviços
religiosos e das escolas a seu cargo e pela assistência solidária às populações,
a República tratou de lhe restringir os movimentos chamando a si as tarefas
assistenciais e de educação. Uma nova moral, a moral republicana, centrada na
promoção do racionalismo e do nacionalismo, tinha de ser imposta contra a
superstição, a submissão e a hipocrisia. Fiéis seguidores de Robespierre, os
republicanos assumiam a sua doutrina, expressa em 1874, segundo a qual “só a Pátria
tinha o direito de educar os seus filhos”. A nova ordem dispensava os padres.
Estes foram acusados de vagabundagem quando pediam nas ruas, de obstrução da
via pública quando organizavam procissões e de danos à saúde pública quando
mandavam tocar os sinos das igrejas.
As iniciativas de apoio social do Antigo Regime revelaram-se inúteis e
consistiram na criação do Conselho Geral de Beneficência em 1835, com o objetivo
principal de reprimir a mendicidade, e, em 1901, da Repartição de Beneficência
e do Conselho Superior de Beneficência Pública.
Instaurada a República, uma lei de 1911 tratava de enviar os pobres para
as suas aldeias a fim de ocupar os menores nos trabalhos agrícolas. Em Lisboa
foi criada, no âmbito das paróquias, a “Obra dos 10” segundo a qual cada dez
pessoas deviam sustentar um pobre. Em 1919 malograram-se as tentativas de criação
de seguros obrigatórios na doença, nos acidentes de trabalho e nas pensões de
invalidez, velhice e sobrevivência.
Uma vez no poder os republicanos rapidamente esqueceram princípios e
promessas. A agitação social não tardou. Em Novembro de 1910 os operários da
Carris - de administração britânica - entraram em greve. Respondeu o Governo
impondo restrições à lei da greve. Solidarizaram-se os ferroviários com os
grevistas, paralisando os comboios em Janeiro de 1911. Alarmado com as proporções
do protesto, recorreu o Governo às Forças Armadas, mandando prender dezenas de
operários. Nas ruas, a multidão em protesto empunhava cartazes com os dizeres “Viva
a Liberdade” e “Abaixo os Jesuítas”.
Sem soluções para os graves problemas económicos e sociais do país, o
Governo republicano, temendo perder o poder acabado de “conquistar” pela violência,
publicou, em Março de 1911, nova lei eleitoral, reduzindo o corpo de eleitores
a cerca de metade do que resultara do sufrágio universal instituído em 1878 por
Fontes Pereira de Melo. Enquanto isso, decorria a greve dos operários das
conserveiras de Setúbal, que eclodira em Fevereiro e duraria até Abril de 1911.
A famosa “ética republicana” não coibiu o Governo de assassinar um operário e
uma operária às mãos da G.N.R. Em Agosto do mesmo ano foi a vez dos operários têxteis
reivindicarem 8 horas de trabalho, uniformidade salarial e garantia de emprego,
manifestando-se, ingloriamente, frente a São Bento.
Entretanto, no Alentejo, vinham ocorrendo focos de agitação social, em
Outubro de 1910 e fins de Janeiro de 1911. Totalmente dependentes do incerto e
misero trabalho sazonal nos grandes latifúndios, os proletários rurais viviam
da mendicidade o resto do tempo. Sobre eles, Cesário Verde escreveu no seu
poema “Provincianas”: “Tal como existem mercados/Ou feiras, semanalmente/ Para
comprarmos os gados/ Assim há praças de gente/ Pelos domingos calados”. Desiludidos
com a ausência de resultados do novo regime, na sequência de um inverno
excecionalmente frio e chuvoso que fizera aumentar o número de desempregados,
os assalariados rurais revoltaram-se concentrando-se, entre 10 a 20 mil, nos
campos em redor de Évora. Sapateiros, pedreiros, carpinteiros e corticeiros
locais juntaram-se aos revoltosos. Desorientadas, as autoridades atribuíram o
motim aos monárquicos e cercaram a cidade. Em 24 de Janeiro, num conflito com
os grevistas, a G.N.R mata um trabalhador, fere seis e prende oitenta. Foi
encerrada a Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais de Évora, assaltada a
Federação Anarcossindicalista de Lisboa e presos dezenas de operários.
A 29 de Janeiro de 1912, os operários de Lisboa solidarizaram-se com os trabalhadores
rurais de Évora, paralisando todos os meios de transporte exceto o
caminho-de-ferro. Fábricas e oficinas da capital aderem estabelecendo a
anarquia na cidade. A 30 de Janeiro o Governo decreta o Estado de Sítio, assalta
a sede da Casa Sindical na Calçada do Combro e prende 584 operários, levando-os
para os navios de guerra “D. Fernando”, “Pêro de Alenquer” e “5 de Outubro”. No
dia seguinte, o Governo completa a tarefa prendendo militantes em rusgas, e
trabalhadores nas suas casas, ascendendo a 700 o total de detenções. Muitos
foram transferidos para os fortes de Sacavém, de Monsanto e do Alto do Duque,
ficando alguns no navio “ Pêro de Alenquer”. Todos seriam julgados em Tribunal
Militar, por decisão do Governo. Estima-se que em meados de 1912, o número de
presos políticos fosse 2382, a maioria dos quais operários.
Fracassada a greve, os trabalhadores deixaram de acreditar na República.
Afinal, afastado o rei e humilhados os padres, a alimentação continuava cara, o
direito de voto era-lhes negado e as liberdades continuavam escassas. Os políticos
eram todos iguais.
No capítulo da instrução popular, a construção de escolas manteve-se exígua,
apesar da consciência, partilhada por republicanos e operários de que a escola
era a via para o progresso. Nem o Governo tinha dinheiro para o investimento
necessário, nem as famílias estavam interessadas na instrução dos filhos. A maioria
dos trabalhadores deixara de acreditar em quem quer que fosse.
Ficaram os testemunhos fotográficos de Joshua Benoliel da pobreza na
capital: “Um velho comendo o seu caldo, “Mendigos no Terreiro do Paço” ou “Uma
família pobre e numerosa à porta de sua casa em Lisboa”.
Excetuando os “amigos” de Afonso Costa, a República assustava toda a
gente e não dava nada a ninguém.
Fonte: “Os Pobres” de Maria Filomena
Mónica
Greve do operariado 29 30 31 janeiro 1912
(Joshua Benoliel)
Peniche, 12 de Abril de 2021
António Barreto
domingo, 11 de abril de 2021
Os Pobres (IX)
As "Irmãs da Caridade" (II)
O triunfo dos radicais durou
pouco. Logo no dia seguinte sai um decreto-lei com a criação de uma comissão
para estudar a reorganização do “Instituto das Irmãs da Caridade”. Tranquilizou-se
a condessa de Rio Maior, atribuindo ao anticlericalismo de Estado a causa dos
protestos, não deixando de considerar insensato o recurso das irmãs vicentinas
à intervenção diplomática francesa. Enganou-se. Na sequência do novo comício
realizado a 10 de Março pelos radicais, em que a multidão se dirigiu a casa do
caudilho Duque de Saldanha, decidiu-se D. Pedro V pela dissolução do Parlamento,
marcando eleições para 28 de Abril. Porém, nada mudou; estas, como de costume,
foram ganhas pelo partido do poder o Histórico, voltando o Duque de Saldanha à
Presidência do Conselho.
Ato contínuo, a condessa de Rio Maior ameaçou demitir-se da Direção do
Asilo da Ajuda caso as freiras fossem forçadas a deixar Portugal. Levantou,
então, uma questão ainda hoje atual: a de que a supressão da vertente moral e
religiosa do ensino violava o direito fundamental da liberdade religiosa e que
tal decorria da imposição da obrigatoriedade do ensino que, na prática, se
traduzia no monopólio do Estado.
Em 1862, o Duque de Loulé, incapaz de obrigar as freiras a cumprir a lei
sobre instrução que fizera publicar em Março pela mão de Braancamp, negociou com o governo francês a sua retirada de
Portugal. Quando, em Maio, enviado por Napoleão III, chegou ao Tejo um navio
para levar as freiras, as aristocratas que dirigiam os asilos da Ajuda, de
Benfica e de Jesus - albergando um total de setecentas crianças -, demitiram-se
de imediato dos respetivos cargos.
É então que se revela outro tema fulcral e atual; a filantropia
proporciona popularidade e poder a quem a pratica. Os Governos da Monarquia
Constitucional consideravam-se donos dos pobres! Em consequência, foram
mandados encerrar os orfanatos em Santa Marta, nos Cardeais, em Benfica, em
Viana do Alentejo e em São Fiel. Centenas de jovens foram abandonados, para
desconsolo da Condessa de Rio Maior, que culpou os padres portugueses de
apatia, subserviência e ignorância, em contraste com os congéneres franceses,
que considerava cultos, combativos e determinados.
O que estava em causa era de saber a quem competia a responsabilidade da
ajuda aos pobres, se ao Governo se à Sociedade Civil. Para a condessa, era a
esta. Quanto ao Governo, considerava que não devia meter-se num fenómeno que
classificava natural. À época, já algumas cidades europeias contavam com
empresas de apoio aos pobres, de natureza jurídica mista.
Derrotado o projeto da condessa de Rio Maior, o seu legado foi, de
alguma forma, continuado pela sua nora, Maria Isabel, marquesa de Rio Maior, e
por Maria Luísa, duquesa de Palmela, que fundaram em Lisboa a Sociedade
Promotora das Cozinha Económicas. Esta sociedade, financiada pelas respetivas promotoras
e por muitas das suas amigas, teve ainda a colaboração das freiras francesas.
Constituída por uma rede de instituições, servia refeições a preços módicos.
Desta vez, ninguém pareceu incomodar-se com o contributo das irmãs.
A primeira cozinha económica foi inaugurada nos Prazeres em 8 de
Dezembro de 1893. Seguiram-se a dos Anjos, a de Alcântara, a de Xabregas, a de
São Mamede, a de São Bento e a da Sé. Nos jardins do Palácio de Palmela também
se serviam refeições, 500 por dia! Por 90 reis comia-se uma tijela de sopa de
grão com arroz, bacalhau guisado, 200 gramas de pão e 2,5 decilitros de vinho. O
rei D Carlos doava parte do produto das suas caçadas em Mafra e em Vila Viçosa,
e as pescarias do iate real “Amélia”. Mais tarde, em 1918, o povo deu a estas
cozinhas o nome de “Sopa do Sidónio”, como ficaram conhecidas.
A duquesa de Palmela faleceu nas vésperas
da Revolução Republicana. Quanto à Marquesa de Rio Maior, apesar do otimismo
inicial, acabou por abandonar o país em 1911, tendo regressado em 1918.
Se é certo que a aristocracia, à exceção de
uns atos isolados - um peditório, umas esmolas, uns enxovais - não tinha o
hábito da filantropia, nem considerava seu dever ajudar os pobres, também é
verdade que o Estado que saiu do novo regime, depois de confiscar os bens dos
conventos, foi incapaz de os substituir no apoio social e educativo.
Sem a caridade dos ricos, sem um Estado eficaz e com uma Igreja
enfraquecida, os pobres ficaram entregues à sua sorte.
Esta disputa projetou-se até aos nossos
dias. Quando no poder, a direita aprofunda o papel das misericórdias no apoio
social e hospitalar e incentiva o ensino privado, criando parcerias e contratos
de associação. A esquerda trata de fazer o contrário logo que pode. O atual
Governo, apoiado pela “geringonça”, logo que iniciou a vigência, tratou de
revogar ou não prolongar os contratos de associação com as escolas privadas,
tendo feito o mesmo com os hospitais públicos de gestão privada, apesar do
histórico de bons resultados. A ponto de, no caso da calamidade resultante da
atual pandemia, insistir em deixar de lado os hospitais privados com prejuízo
de toda a população.
Também em democracia, por vezes, o Estado, subjugado pelas disputas
partidárias, é inimigo dos cidadãos que era suposto servir.
Fonte: "Os Pobres" de Maria Filomena Mónica
As Pupilas do Sr Reitor - Alfredo Roque Gameiro
Peniche, 4 de Abril de 2021
António Barreto
sábado, 10 de abril de 2021
Os Pobres (VIII)
As “Irmãs da Caridade”
A expressão “irmãs da Caridade”
ficou, e em certos casos ainda se usa, geralmente em tom pejorativo. Por
exemplo, para gracejar a propósito de pessoas que vestem de igual forma ou para
minimizar ações de pequena filantropia. O facto é que as “Irmãs da Caridade”
chegaram a Portugal no século XIX, praticaram assistência social, originaram
enorme turbulência política e deixaram um legado de filantropia que se
prolongou pela 1ª República.
Alguns historiadores, como Maria de Fátima Bonifácio, consideram este
episódio das “Irmãs da Caridade” como a proto-história do republicanismo
português. Um período em que, através do ativismo anticlerical, se prepararam
as mentes populares, sobretudo urbanas, para a aceitação da república.
Por ocasião da epidemia de febre-amarela que assolou o país na década de
1850, face à desproteção a que o Estado deixara os pobres, D Isabel, condessa
de Rio Maior, com outras aristocratas, em 1857, convidou as freiras da
congregação francesa da Ordem de São Vicente de Paula para, com seu
financiamento, tratarem as vítimas da epidemia em Portugal.
Esta congregação foi fundada em França em 1833 e destacou-se na guerra
da Crimeia (ainda há dois ou três anos havia em Peniche, junto ao Santuário dos
Remédios, um polo desta congregação liderada pela célebre Irmã Glória,
ex-missionária, muito querida entre a população da cidade e amiga pessoal). A
condessa Isabel tinha hábitos de filantropia tendo-se envolvido anteriormente
na Associação Consoladora dos Aflitos. A nível político, discutia-se a quem
competia a responsabilidade do apoio social, se ao Estado, se à Sociedade
Civil. Fontes Pereira de Melo, o Presidente do Conselho de então e grande
reformador da economia do país, considerava que não competia ao Estado a
assistência social.
Em 1857 chegaram a Portugal as primeiras
freiras de São Vicente de Paula, com missão mais ampla do que a de tratar dos
doentes da febre-amarela. O facto foi tão inverosímil que a nobre condessa de
Rio Maior, considerando-se insignificante, confessou ver nele um sinal de Deus
ao seu gesto benemérito.
Foi com a ajuda das duquesas da Terceira e de Ficalho e o elevado apoio
monetário do rei D. Pedro V, que, a 14 de Dezembro, abriu o Asilo da Ajuda.
Foram recolhidas 15 meninas, às quais foi dado banho, cortado cabelo e vestidas
com bibes de riscado.
No verão de 1858 os Progressistas abriram as hostilidades políticas pela
pena de Alexandre Herculano. Considerava o insigne literato que, por detrás da
ajuda humanitária, havia desígnios sinistros. De imediato saíram a terreiro,
exigindo repúdio público ao Presidente do Conselho, Duque de Loulé, os membros
da Câmara dos Pares, condes da Taipa e do Ficalho e o marquês de Sobral. Logo
responderam os radicais de esquerda, alguns ligados ao partido Histórico, afiançando
ter-lhes sido revelado em sonhos, por “Satanás”, estar em curso em Portugal uma
guerra entre o povo e a classe média, e a nobreza. Como resultado as freiras acabaram
apedrejadas pelos populares anticlericais de Lisboa.
Circularam abaixo-assinados, uns a favor das freiras, subscritos
geralmente por membros da nobreza, Ex miguelistas e das associações
filantrópicas, e outros contra, exigindo a expulsão das religiosas e envolvendo
a chamada nobreza de toga, Ex-setembristas, alguma burguesia e académicos. A polémica
incendiou o Parlamento, onde os Históricos propuseram a nomeação de uma
comissão com a finalidade de expulsar as irmãs. O tema acabou por envolver o
Rei D. Pedro V que, em Outubro de 1858, confidenciou a seu tio, o Príncipe Alberto,
marido da Rainha Vitória, considerava imprudente a iniciativa das aristocratas.
Para ele, os portugueses e Portugal não tinham motivos de gratidão nem à
nobreza nem ao clero.
Apesar de toda a polémica, em Agosto de 1859, chegaram a Lisboa mais
quatro irmãs vicentinas francesas, desta vez acompanhadas por um excecional
padre lazarista - membro da Congregação da Missão; sociedade Católica, masculina,
apostólica, fundada por São Vicente de Paulo em Paris, em 1625, dedicada ao
ensino e obras de caridade, cujos membros eram conhecidos por Vicentinos e,
também, Lazaristas (pelo facto de a sua primeira sede se ter chamado Casa de São
Lázaro). Desta vez, os membros do executivo em funções, Fontes Pereira de Melo
e Casal Ribeiro, mais preocupados em erguer as infraestruturas ferroviárias do
país resolveram fechar os olhos.
Porém, quando em Agosto de 1860, desembarcou na capital mais uma “fornada” vicentina, constituída por dezasseis irmãs, francesas e portuguesas, e três padres, o ambiente tinha mudado; o duque de Loulé tinha regressado ao poder. Levantou-se a esquerda, organizando comícios onde, como condição para a legalização, exigia a separação das freiras portuguesas das francesas, e a subordinação daquelas à tutela de um superior nacional. Recusada a proposta pelo respetivo patriarca e pelas irmãs francesas, respondeu o Governo com uma portaria onde determinava a suspensão da ordem, dando-lhes 40 dias para abandonarem a residência, em Santa Marta.
(Continua)
Fonte: Os Pobres, Maria Filomena Mónica
Aurélia de Sousa
Peniche, 4 de Abril de 2021
António Barreto
domingo, 4 de abril de 2021
Os Pobres (VII)
A Greve de Santo Tirso
Em vésperas da queda da
Monarquia Constitucional, em Julho de 1910, rebenta a greve dos têxteis de
Santo Tirso. Na fábrica de Negrelos, a maior da região, 5000 mil operários
exigiam melhores condições: salários e horários iguais dos colegas do Porto,
saneamento dos chefes, fim dos castigos corporais e da obrigação de votar. A
nada cederam os dirigentes da fábrica.
Dividiram-se os grevistas, entre socialistas e anarquistas, acusando-se
mutuamente. Os que recusaram a greve foram agredidos pelos que a ela aderiram.
Aqueles passaram a beneficiar de escolta militar no trajeto para a fábrica.
Estes ficavam no exterior. As aldeias vizinhas alvoroçaram-se. Homens, mulheres
e crianças de Santo Tirso, munidos de cacetes e a toque de tambor, foram a
Pevidem. Furiosos, por os patrões lhes terem barrado o caminho, cortaram as
correias de transmissão dos teares das fábricas.
Regressando, paulatinamente, ao trabalho, os operários das quatro
fábricas da região voltaram à greve logo em Agosto. Reunindo em plena estrada
com os industriais, os grevistas nada conseguiram, à exceção do saneamento do
encarregado das retretes. Algumas semanas após o termo da greve, os patrões da
“Roça de Negrelos”, nome que os operários davam à fábrica, endureceram as
condições de trabalho; proibiram as refeições nas instalações, mesmo no
inverno, e passaram a punir severamente o mais ligeiro atraso.
Se a vida era particularmente violente para os operários, era
especialmente violenta para as operárias, especialmente casadas. Levantavam-se
de madrugada, tratavam do pequeno-almoço para a família, levavam os filhos
embrulhados no xaile, andavam quilómetros a pé, descalças, de verão e de
inverno, qualquer atraso era-lhes descontado no salário, trabalhavam 12 horas quase
consecutivas, num ambiente impregnado de pó da lã, ou de algodão, gélido no
inverno e tórrido no verão. Tomavam o frugal almoço, que levavam de casa, no
pátio ou na rua. Qualquer engano era-lhes descontado no salário, uma distração
poderia custar-lhes a amputação dos dedos ou de uma mão. Amamentavam os filhos
às escondidas e a correr. Analfabetas, ninguém as respeitava. Chegavam a casa
exauridas. Aos trinta anos estavam velhas. Folgavam aos domingos, que lhes
permitia tratar melhor, da casa, da roupa, dos maridos, dos filhos, ir à igreja
e conversar com a vizinhança. Naquelas casas austeras, pobres, quase tudo
estava na rua; água, lenha, comida, etc.
Muitas, por falta de condições de
higiene, não sobreviviam ao parto. Os filhos indesejados eram abafados à
nascença, deixados à porta das igrejas ou entregues na roda das misericórdias.
Algumas, vencidas pela dureza da vida, suicidavam-se com raticida ou cabeças de
fósforos. Da pobreza dos campos à das fábricas, estas mulheres eram as mais
pobres entre os pobres. Ainda assim, a maior desgraça que lhes poderia
acontecer era perderem o trabalho na fábrica.
Contudo, a pulsão revolucionária não estava entre os operários, mas nos
estratos inferiores da pequena burguesia. Para estes, a “cambada” de ministros,
políticos e deputados deveriam ser metidos num navio e despachados barra fora,
deixando a governação a cargo de homens e de progresso Quanto aos pobres, sem culpa
da sua ignorância, nada sabiam, não sendo maus, eram vistos como “umas
cavalgaduras”.
Este foi o ambiente propício à criação das raízes da ideologia republicana culminando no derrube da monarquia a 5 de Outubro.
Peniche, 28 de Março de 2021
António
Barreto
sábado, 3 de abril de 2021
Os Pobres (VI)
A Greve do Porto
Em 1903 ocorreu a maior greve até então. Foi grande o impacto na
imprensa nacional e operária, tendo mobilizado a atenção da embaixada inglesa,
a solidariedade do operariado do Porto, Lisboa e Setúbal, da hierarquia
católica, dos republicanos, da maçonaria, de industriais, de políticos, da
população em geral e a repressão policial, do exército e até da marinha de
guerra.
Desta vez o número de grevistas envolvidos ultrapassava largamente as
centenas registadas nos casos anteriores. O número de grevistas chegaram aos 30
mil, cerca de 20% da população da cidade. O suficiente para assustar os
governantes e sensibilizar os parlamentares. Republicanos e católicos apoiaram
os operários, ampliando os efeitos mediáticos da greve.
No início de Maio os tecelões mecânicos abriram as hostilidades exigindo
aumento de salários - 20% acima do salário mais elevado praticado no Porto -,
redução do horário de trabalho, medição da fazenda à sua vista, abolição das
multas, limite de dois teares por operário e prioridade aos tecelões manuais no
recrutamento das fábricas. No seu manifesto proclamavam não serem ambiciosos, limitando-se
a reclamar um pequeno aumento salarial e opondo-se ao recrutamento de homens e
mulheres do campo pelo facto de os operários da indústria vaguearem pela
cidade, desempregados e cheios de fome.
A meados de Maio foi decretada a greve geral. No final do mês, com
exceção dos privilegiados tintureiros, todas as oficinas - cardação, fiação,
branqueação e tecelagem - paralisaram. Iniciadas as negociações os operários
interromperam-nas a meados do mês de Junho, após recusarem a oferta de
atualização dos salários pelos mais elevados, praticados na fábrica Graham. Contando com o desânimo dos
operários provocado pela fome, os patrões reabriram as fábricas esperando o
regresso dos mais frágeis. Dos inevitáveis confrontos, dos grevistas com a
tropa, envolvendo tiroteio, resultou a prisão de 220 operários, entre os quais
um tal José Chita, chapeleiro e militante do Porto. Perante a furiosa reação
popular, os prisioneiros foram levados para bordo de um navio fundeado no
Douro.
No cais do Ficalho mulheres com os filhos chorosos ao colo apoiavam os
seus presos, que retribuíam, das vigias da 2ª coberta, com palavras de conforto,
acenando-lhes. O Porto ribeirinho indignou-se. Gente humilde distribuía esmola
aos familiares e enviava pão e tabaco aos prisioneiros. Os republicanos
difundiam as causas dos operários no seu jornal “O Mundo”. As fiandeiras, num
manifesto em que afirmavam a sua condição de escravas e exploradas,
solidarizaram-se com a causa dos seus “irmãos de trabalho”, referindo que a
profecia de Marx, segundo a qual o capital criaria os coveiros que o
sepultariam, estava a concretizar-se eloquentemente. Denunciando os patrões,
que se pavoneavam de charuto na boca enquanto os operários morriam de fome,
invocavam Oliveira Martins, que, caso ainda vivesse, com a eloquência que o
distinguia puniria todos os que exploravam a indústria nacional em proveito
próprio, em prejuízo da nação e dos famintos operários.
O Porto operário levantou-se pelos tecelões: chapeleiros - 3000 -,
sapateiros - 1000 -, metalúrgicos - 1500 -, tabaqueiros - 1500 -, tanoeiros -
4000 -, trabalhadores da moagem - 1000 - e centenas de trabalhadores de outros
ofícios. Um total de 40 mil trabalhadores, cerca de 24 % da população da
cidade, deixara cair os braços. Retomadas as negociações, os operários exigiam
um acordo escrito e diplomas de acesso à profissão. Responderam os patrões
mecânicos com a oferta de 10 % de aumento dos salários. Regressados às fábricas,
voltaram os operários à greve por incumprimento de alguns patrões. Novo acordo,
parcial, assinado a 24 de Julho, não impediu a continuação da greve pelos
tecelões manuais, apoiados pelos tecelões mecânicos.
O peso da greve convidava ao abandono. Nomearam-se fiscais para
dissuasão e punição dos “amarelos”. Avançavam os patrões com novas propostas;
mais 5 réis por metro sobre a melhor tabela, medição da fazenda à vista dos
operários, aviamentos por conta da fábrica, redução de horário para das 0700h
às 1800h com uma hora para almoço, tardes de sábado livres, produto das multas
para um fundo de assistência. Nada parou os operários; “perdidos por cem,
perdidos por mil”.
Tecelões e fiandeiras, velhos rivais, uniram-se e marcharam pela cidade.
Organizaram-se peditórios. O Jornal de
Notícias relatava o drama do povo a pedir pão e justiça, de mulheres
exaustas, de joelhos, com os filhos ao colo a pedirem clemência, do povo
comovido e dos polícias embainhando os sabres. O Mundo, jornal republicano que acompanhava diariamente a greve,
relatava os grevistas, não como trabalhadores a lutar pelos seus direitos, mas
como pobres a suplicar o pão.
Gerou-se uma vaga de auxílios; o conde de Vizela distribuiu esmola aos
grevistas, os republicanos organizaram as “Cozinhas Populares” em que quem
queria ajudar comprava senhas de refeição para distribuir aos grevistas - O Jornal de Notícias comprou mil, os
moradores da Cedofeita outras mil e um anónimo quinhentas. A certa altura,
fartos da má qualidade da comida - sopa aguada e macarrão cru - os grevistas
amotinaram-se; as mulheres famintas e esfarrapadas saíram à rua em protesto. A
Guarda Municipal, condoída, não tinha coragem de as reprimir. O Porto em peso
estava com os amotinados; os padeiros davam-lhes pão, as casas de pasto
ofereciam-lhes refeições e os soldados ofereciam-lhes parte do próprio rancho.
Foram chegando donativos: o Congresso Nacionalista ofereceu 562 mil
réis, realizados numa subscrição e João Franco - futuro Presidente do Conselho -
doou 2500 réis. Personalidades republicanas, anarquistas e associações de
classe também contribuíram com dinheiro. Os Jornalistas da cidade entregaram o
que angariaram num peditório, dinheiro, pratas e roupas. O maçónico Grémio da Montanha
contribuiu com o produto da venda de um poema de Gomes Leal.
Destacaram-se os Operários Metalúrgicos de Lisboa, abrindo subscrições
em dezenas de fábricas, organizando uma grande festa no Coliseu e pedindo ajuda
no estrangeiro. Os Manufatores de Tecidos de Lisboa, entregaram 521 mil réis e
os trabalhadores de Setúbal destinaram-lhes uma parte dos seus salários durante
semanas. Na frente externa, a CGT francesa organizou uma recolha de fundos
junto dos seus associados e das congéneres belga e italiana.
A greve dos operários contra os patrões politizou-se, transformou-se na
luta do Porto trabalhador contra a Lisboa parasita. O Jornal de Notícias referiu que o Governo mandara sacrificar os seus
filhos do Porto. Os navios-prisões e o fogo dos soldados contra os operários
colocaram o Governo ao lado dos patrões suscitando a fúria dos grevistas contra
a Capital. As oposições, em desagregação, uniram-se contra o Governo. A igreja
colocou-se ao lado dos operários acusando, violentamente, patrões e Governo. Os
Centros Católicos Operários distribuíram subsídios aos seus associados. O Grito do Povo, jornal católico, acusou o
governo de extorsão fiscal do povo - “até ao último ceitil” - reprimindo-o, com
o envio de um navio de guerra, quando, reduzido à mais fome, protestava nas
ruas. Por seu lado, o Partido Progressista, defensor da ordem pública, pediu a
demissão do Governador Civil do Porto.
Estrondosa manifestação ocorreu a 4 de Junho quando o cruzador Rainha D.
Amélia chegou ao Porto enviado pelo Governo com intuitos dissuasores dos
grevistas. Porém, a “terrível” ameaça redundou em animada confraternização
entre os marinheiros e o rapazio. Pendurados nos mastros, aqueles, e nas
árvores, estes, acenaram-se os lenços mutuamente. Desistindo da militarização
da cidade, o Governo forçou o Governador Civil a demitir-se e obrigou os
operários a reunirem-se ao ar livre numa das colinas dos arredores, após
sinalização do local com um foguete.
Com base num edital de 1887, que autorizava a prisão dos operários
desempregados, polícia e exército passaram a reprimir e deter os grevistas por
motivos fúteis. Em Arcozelo, operários, polícia e exército, envolveram-se num
conflito sangrento, quando aqueles distribuíam panfletos. A 18 de Junho 250
operários aguardavam julgamento na prisão.
Mesmo com acordos escritos, rapidamente os patrões os incumpriam, impondo um ambiente de intolerância nas fábricas e despedindo os militantes. Perante o esgotamento físico e mental dos operários, em especial dos tecelões manuais, aqueles voltaram às fábricas, acusando o capital de “víbora, abutre, jiboia e tigre”, através da sua Associação de Classe.
Fonte: "Os Pobres" de Maria Filomena Mónica
Peniche, 28 de Março de 2021
António Barreto
sexta-feira, 2 de abril de 2021
Os Pobres (V)
A Greve de Gouveia
Em 1902, em Gouveia, rebentou a primeira grande greve. Os trabalhadores paralisaram,
exigindo a antiga tabela, o que se traduzia em aumentos salariais da ordem dos
75 % para as mulheres, 44% para os menores e de 70% a 33% para os homens. O
salário das mulheres, 80 réis, era inferior ao dos menores, 90 réis, e menos de
metade do dos homens, 200 a 300 réis.
Depois do fracasso do lockout e do recurso aos “amarelos”, perante o
vigor da comunidade, os patrões, assustados, pediram a intervenção da tropa.
Por seu lado, os operários defendiam-se tornando pública parte da carta que
tinham enviado aos patrões: “a nudez das nossas mulheres e filhas é que nos
leva a suplicar-lhes que nos haja por bem atender, porque nós não queremos
barulhos nem revoluções, mas sim vimos pedir que sejamos atendidos à boa paz,
pois só a nossa mesquinha vida e a pobreza das nossas famílias nos obriga a
este pedido.” Na sequência de inevitáveis confrontos entre grevistas e
“amarelos”, a que se juntou o povo quando o sino tocou a rebate, a tropa
disparou sobre a multidão matando dois trabalhadores.
A indignação espalhou-se por todo o país, pediu-se uma sindicância ao
ministro do Reino, acorreram 2000 pessoas ao funeral e Gouveia entrou em pé de
guerra. Alguns tecelões acabaram por se dedicar às vindimas no Alto Douro.
Hintze Ribeiro, o presidente do Conselho, confessou-se impotente para
interceder pela causa dos operários. Inesperadamente, os patrões acabaram por
aceder as reivindicações, despedindo, logo depois, 22 operários.
Fonte: "Os Pobres" de Maria Filomena Mónica
Peniche, 28 de Março de 2021
António Barreto







