Desporto

sábado, 23 de setembro de 2023

Os Puros e os Ímpios

 

 Puros e os Ímpios


O conceito de povo escolhido, povo eleito por Deus para salvação da humanidade, é geralmente atribuído aos Judeus. O seu passado de escravatura e perseguição, espécie de expiação santificadora, continua a sensibilizar o comum dos mortais.


Outros povos, como por exemplo, os eslavos e os germânicos,têm a mesma visão de si próprios – ver em Hannah Arendt em As origens do Totalitarismo. Por esse mundo fora não faltam casos semelhantes. Agostinho da Silva pensava algo parecido a respeito de Portugal e dos portugueses, o desígnio divino do quinto império, ideia, creio, com origem no pensamento do Padre António Vieira.


Em todas as épocas, em todas as geografias, em todos os regimes, com ou sem contornos celestiais, encontramos fenómenos derivados; gente, maioritária ou não, que se considera detentora da verdade e do dever, divino ou cívico, de a impor aos outros, pela persuasão da força, da astúcia ou da retórica.


A tentação dos poderes de cada momento é de impor aos “ignaros”, aos “súbditos”, aos “pobres de espírito” a sua visão da história, do mundo e da via para a “Terra Prometida”; algo que sempre sucederá num futuro longínquo, tão longínquo que nenhum dos contemporâneos o poderá testemunhar.


Tal, porém, não é exclusivo dos regimes totalitários revolucionários - Rússia e Cuba -, paradoxalmente também se verifica nos democráticos onde as leis, geralmente, acabam por refletir, não os interesses e preocupações do povo, mas os dos partidos maioritários, dos seus dirigentes, dos interesses económicos e sociais que gravitam à sua volta e os sustentam.


Pior ainda, boa parte dos partidos inspiram-se e vinculam-se a organizações internacionais externas adotando as respetivas ideologias e estratégias que procuram impor, gradualmente, às respetivas populações através da demagogia e do assistencialismo.


De facto, quer Hitler, quer Hugo Chávez ou Erdogan - e, em minha opinião, mais recentemente, Lula da Silva -, chegaram ao poder pela via democrática, tendo instituído - no caso do Brasil ainda no início - ditaduras que as respetivas populações, por si só, foram ou são incapazes de reverter.


O Nazismo, fundado no conceito da superioridade racial germânica, da sua raiz ariana, perdura ainda, na mente das gerações atuais, pela desumanidade que o caracterizou, pela ameaça real que representou para a Europa e para o Mundo, mas também por ser o mais conhecido das massas, graças à propaganda decorrente da vitória militar ocidental.


As comunidades judaicas foram as suas principais vítimas. Anna Arendt no seu livro “As Origens do Totalitarismo”, refere que, em caso de vitória alemã, outros vítimas se seguiriam, paulatinamente, gradualmente; os povos eslavos - povos de origem russa que compreendem hoje os países escandinavos, Polónia, Bulgária, Hungria, Eslovénia, Sérvia, Macedónia e Croácia -, e até os os cidadãos germânicos com doenças crónicas - a fazer lembrar a solução preconizada por Sócrates, na sua República, para os doentes incuráveis.


Parte desses planos relativa ao extermínio dos povos não germânicos, principalmente dos eslavos, pode ser encontrada no “Bréviaire de la Haine”, de Léon Poliakov, Paris, 1951, cap. 8. Um projeto de lei de saúde do Reich, escrito pelo próprio Hitler, mostra que a máquina de destruição Nazi não se teria detido nem mesmo diante do povo alemão. Neste projeto ele propõe “isolar” do resto da população todas as famílias que tenham casos de moléstias do coração ou do pulmão sendo que o próximo passo nesse programa era, naturalmente, a liquidação física. Este e vários outros projetos preparados para depois da vitória estão numa circular aos chefes distritais,,,.Neste contexto, há ainda planeada a promulgação de uma “legislação global quanto a estrangeiros”, por meio da qual a “autoridade institucional” da polícia promoverá o embarque para os campos de concentração de pessoas inocentes de quaisquer crimes, desde que consideradas de algum modo “estranhas”…. (anotações em “As Origens do Totalitarismo, de Anna Arendt).


Se, no caso do nazismo a seleção populacional radicava na pureza da raça, no caso soviético centrou-se na pureza ideológica e no culto do poder paternalista e totalitário. São conhecidas as sucessivas purgas com que Estaline, implacavelmente, aniquilou todos os pares e correligionários que, de alguma forma lhe poderiam disputar o poder.


“...Segundo W. Krivitsky, cuja excelente fonte de informações conficenciais é a GPU: “Em lugar dos 171 milhões de habitantes estimados para 1937, apenas foram recenseados145 milhões; assim, desapareceram 30 milhões de pessoas na URSS.” Como se sabe, só a liquidação dos kulaks no início dos anos 30 havia custado perto de 8 milhões de vidas humana. (anotações em “As Origens do Totalitarismo”, de Anna Arendt).


Em todas as épocas, em todos as geografias, com mais ou menos violência não faltam culturas, ideologias, que dividem o mundo entre puros e impuros. Jesus, tanto quanto sei, foi o primeiro grande doutrinador a suprimir este conceito, a divisão das pessoas entre fiéis, blasfemos, gentios e iníquos, pregando a igualdade de todos os seres humanos perante Deus.


Porém, paradoxalmente, foi a sua própria Igreja, quem, durante séculos, desde tempos imemoriais, perseguiu, com violência extrema, os “impuros”; entre eles os cristãos que, de algum modo desrespeitavam os padrões definidos no Concílio de Niceia, de que a Santa Sé, foi zelosa guardiã.


Em Portugal todos nos lembramos da infame perseguição e expulsão dos Judeus e Cristãos-Novos, iniciada no século XV - A Santa Inquisição, fundada em 1184 só foi extinta em 1842. Mas também da feroz perseguição, nos séculos XVIII - Marquês de Pombal - XIX - regimes liberais - e XX - 1ª República - aos Jesuítas e aos eclesiásticos da Igreja Católica, regular e irregular.


Assim, o desaparecimento de arquivos, manuscritos, livros e instrumentos científicos, cuja existência e uso estão documentados, não terá ficado a dever-se só ao Terramoto ou à incúria, mas a uma estratégia deliberada do Marquês.

Mil e cem jesuítas são então expulsos do reino e mandados para os Estados papais. E aqueles que tinham particular influência na corte e na sociedade, metidos nas masmorras. Ou condenados à morte, como o padre Malagrida, queimado no Rossio em 1761.Os missionários do Brasil são trazidos para a metrópole, alguns morrem na viagem, outros vão também ficar a ferros.

O resto da Europa católica seguiu o exemplo português….Mais de cinco mil sacerdotes expulsos e embarcados à força para os Estados papais e duzentas e cinquenta casas, residências e colégios fechados, foi o balanço.


...Identificados com a reação e com as classes dominantes os religiosos eram os bodes expiatórios das revoluções. Na Comuna, em Março de 1871, vinte e quatro eclesiásticos, entre eles o arcebispo de Paris, monsenhor Darboy, foram sumariamente fuzilados.

...Muito do anticlericalismo e do anticatolicismo dos republicanos portugueses vem desta linhagem. A França era, e iria ser por muitos anos, a fonte da cultura política da esquerda Portuguesa.


...Em 28 de Maio de 1834, Joaquim António de Aguiar publicara um decreto em que extinguia em Portugal Continental e nos domínios portugueses todas as ordens religiosas, o que lhe valeu a alcunha de “Mata-frades”.

...Em 1910, quase um século depois, a situação repetia-se. Com a sua retórica humanitária, os republicanos queriam salvaguardar as aparências, mas Afonso Costa era decidido e despachado: manda fechar os conventos e arrolar-lhes os bens. Quanto aos Jesuítas, os inimigos de estimação, as suas casas e residências são invadidas por revolucionários civis, polícias e soldados, que prendem como criminosos os inacianos e os escoltam para Lisboa….A República não deixa os créditos da modernidade por mãos alheias: os padres são também objeto de testes antropométricos, de acordo com as regras de Lombroso, para comprovar cientificamente as suas “tendências criminosas inatas”.


...Para a laicização integral da vida pública e social, proibiram-se então os religiosos e sacerdotes de usar as suas vestes em público. “devendo o (infrator) ser preso pelas autoridades e podendo sê-lo por toda a pessoa do povo em flagrante delito”. Na mesma linha, foram retirados os crucifixos dos edifícios público, os nomes de santos dos quartéis e fortificações, abolido o juramento religioso, proibido o culto na capela da Universidade de Coimbra e fechados os cursos de Teologia e Direito Eclesiástico. E acabou-se, evidentemente, com a formação religiosa nas escolas. Escrevia então António José de Almeida:

“A República libertou a criança portuguesa, subtraindo-a à influência jesuítica, mas precisa agora de a emancipar definitivamente, de todos os falsos dogmas, sejam os de moral ou de ciência…. A religião foi banida da escola. Quem quiser que a dê à criança no recato do lar, porque o Estado, respeitando a liberdade de todos, nada tem com isso.”


...O padre Fragues, confessor da rainha, morto a tiro e à coronhada na casa dos Lazaristas, fora uma vítima simbólica, na aurora da revolução. Nos primeiros dias, o poder republicano usara o pretexto de proteger os religiosos da fúria popular para os prender e expulsar do país. E não fora difícil: bastara ressuscitar a legislação antijesuítica e anticongregacionista, de Pombal, Joaquim António de Aguiar e Anselmo Brancamp. Foi o que fez Afonso Costa. Não era preciso inventar nada.


...António Macieira, digno continuador de Afonso Costa, prosseguiu com as deportações dos bispos, as sanções contra os párocos reacionários e o confisco dos bens da Igreja. Para demonstrar o apoio popular às medidas anti-religiosas, uma vasta frente de “organizações cívicas” - liderada pela Associação do Registo Civil, promove, na tarde de 14 de Janeiro de 1912, uma manifestação. A iniciativa contou com dezenas de agremiações, da filarmónica dos Alunos de Apolo à Liga das Mulheres Republicanas, da Carbonária às Associações de Logistas.

O espírito da convocatória estava todo na mensagem e nas palavras de ordem da manifestação: “Da subjugação completa do clericalismo depende o triunfo definitivo da República.”


...”O povo, que assiste à passagem do cortejo, aplaude” (em “Nobre Povo, os Anos da República” de Jaime Nogueira Pinto)


Não tenho ilusões quanto à moderação e tolerância atuais. É fácil descortinar os herdeiros políticos da ala extremista do Partido Democrático. O radicalismo anticatólico e marxista, continuam bem vivos nos alegados defensores da “igualdade” e das minorias, que, pacientemente, passo a passo, vão esgravatando, desestabilizando, desagregando, fomentando a desarticulação económica e social, dividindo a população, hostilizando os “talassas”, à espera do momento oportuno para a grande viragem, apoiados por estruturas do Estado controladas por correligionários infiltrado


Soldados dividindo as vestes de Jesus

Peniche, 23 de Setembro de 2023

António Barreto


domingo, 10 de setembro de 2023

Em Frente, Benfica!

 

Em Frente, Benfica!


À quarta jornada, a equipa do Benfica, revelou, perante o Vitória e os seus adeptos, estar em vias de consolidar novos equilíbrios e dinâmicas no seu jogo.


As saídas de Grimaldo e Ramos, peças fundamentais na manobra ofensiva da equipa, deixaram pesadas incertezas. Adaptado à esquerda, Aursnes parece dar conta do recado. Quanto ao ataque, ainda há uma vaga; pelo que tem feito Musa tem a primazia, mas é grande a expectativa em torno de Cabral, que vem rotulado de craque.


Sobre Musa, que “molha a sopa” quando começa no banco, paira a dúvida da sua veia concretizadora jogando a titular. É diferente entrar no jogo com indicações precisas de posicionamento e movimentação, e perceber o mesmo por si próprio a partir de dentro. Acredito nele; remata bem com os dois pés, sabe cabecear, aguenta as cargas e tem sentido de baliza; “não pede licença” para rematar. E marca.


Cabral,vem de um campeonato competitivo e, pelo pouco que se viu, parece saber movimentar-se na área, tem “cabedal” e remate espontâneo, está em má condição física e precisa de tempo para se adaptar à equipa.


A saída de Odisseias, não sendo inevitável, era previsível; titularíssimo há várias épocas, não aceitou a condição de suplente. A verdade é que tem lacunas que nunca superou; no jogo aéreo nas saídas e no jogo com os pés. Grande guarda-redes, grande profissional, deu muito ao clube, mas Schmidt resolveu melhorar a posição. E não hesitou; educadamente, cordialmente, tomou a sua decisão e aceitou a de Odisseias, sem ressentimentos.


Samuel é da casa, tem potencial e revela serenidade, mas, pelo que vi nos vídeos, Trubin será o futuro guarda-redes. É craque.


Di Maria trouxe a magia, o perfume, do futebol argentino e o amor ao clube; criativo, sereno, imprevisível, joga e faz jogar, sendo um estímulo para colegas e adeptos.


Rafa está ainda mais maduro e eficaz, Korkçu é um jogador de topo, a defender, a distribuir e a rematar, e Neres criativo e desequilibrador continua a ser a gazua das muralhas defensivas adversárias. Os restantes titulares mantêm os níveis anteriores e acabou de chegar um defesa-esquerdo credenciado. Aursness poderá deslocar-se para o “miolo” onde será ainda mais útil.


A Direção mostra estar atenta, é ambiciosa e não tem medo de o assumir. É da natureza do Benfica querer ganhar qualquer prova em que esteja envolvido, incluindo a Liga dos Campeões. A cultura da resignação foi substituída pela de ambição e de sereno destemor.


Quanto à envolvente institucional tutelar, continua a vigorar, desde os anos oitenta, o “Reino da Traulitânia”; abrindo a época com mais um castigo ao Presidente do Benfica, uma arbitragem discricionária na derrota da primeira jornada e a segregação dos adeptos; restringindo-lhes o acesso aos estádios, proibindo-lhes o uso de adereços do clube e exigindo-lhes valores exorbitantes pelos ingressos.


Desta vez, com o pretexto de desencorajar o anti-jogo, decidiram, as “altas esferas”, contabilizar as paragens provocadas por simulação ou fingimento, no tempo de compensação! E o resultado não é bonito; o jogo desenrola-se, por vezes, sem termo definido, especialmente quando está em causa a necessidade da equipa dos “trauliteiros”. Não há limite para a imaginação nem para o ridículo. De tal modo que a chacota é geral e parece ter passado fronteiras.


A tudo isto, a Comunicação Social, em geral, relativiza a gravidade das “anomalias”, com registos e comentários pífios, apressando-se a servir de caixa de ressonância das eternas vítimas do centralismo alfacinha.


Quanto ao Governo e partidos políticos, fingem não ver, preferindo cantar loas ao principal causador do mal-estar,, através do qual julgam aceder ao coração dos adeptos eleitores.


Quando se sacrificam princípios, morais e cívicos, e o interesse geral às conveniências particulares ou políticas, de nada servirão, encómios como a patética alusão aos “melhores do mundo”, nem VAR, nem trinta mil árbitros, que fossem. A credibilidade ao futebol e do desporto nacional afirma-se pela postura dos seus agentes, desde jogadores e técnicos a dirigentes.


Cabe ao Benfica continuar a trilhar, sem desfalecimentos nem desvios, o seu caminho, com os seus adeptos, e manter-se a tento e interventivo a nível institucional, denunciando e combatendo, em todas as frentes democráticas, as habituais e espúrias habilidades de alguns dos seus adversários.




Peniche, 10 de Setembro de 2023

António Barreto

domingo, 13 de agosto de 2023

Uma Fenda na Muralha

 

Uma Fenda na Muralha

Alves Redol


Poucos romances portugueses há sobre a temática do mar e dos seus povos. Este é um deles. Desenrola-se na Nazaré onde as aspirações dos pescadores, o seu dia-a-dia, as suas tragédias, as suas glórias, os seus amores, são relatados com perspicácia e vivacidade. O respeito e medo pelo mar, a compulsão do seu enfrentamento, das peripécias de gerações, o brio garganeiro, a âncora religiosa e da mulher que, na praia, vive todas as aflições e angústias da incerteza. Incerteza pelo pão, pela vida e pelo amor.

Uma ficção neorrealista - nas fronteiras do realismo mágico dada a exuberância e sucessão de episódios marítimos espetaculares - escrita num estilo gracioso e sintaticamente irrepreensível.

Um livro fascinante que me “agarrou” desde a primeira página e cuja história poderia ter ocorrido em qualquer outra praia. Pela minha mente, inevitavelmente, foram desfilando alguns episódios ocorridos na Praia de Buarcos, minha terra natal.


“Rolam corpos na proa. Todos estão cegos pelas paredes e pelo tecto de água que os envolve, Ah! Ti Zé que estamos desgraçados! Rezam e gritam, amaldiçoam e humilham-se. Manel cai sobre o motor e agarra-o, tapa-o com o corpo, como se a rabana não bastasse. Lembra-se daquela vez que o foram buscar ao mar, acima do casco virado de um barco da xávega e quase tiveram que lhe partir os dedos para o tirar de lá e trazer para terra.

O motor não deixa de trabalhar, martela, martela sempre, e ele incita-o, encosta-lhe o peito, como se o seu coração pudesse animar o coração do barco.

“Ah motorzinho valente! Leva-nos em bem, não pares…”

O perigo maior passara. Olham-se os homens lá em cima e o arrais benze-se. Mas nos seus olhos azuis vidrados há ódio pelo mar.”


Uma Fenda na Muralha

Alves Redol

Peniche, 13 de Agosto de 2023

António Barreto

sábado, 12 de agosto de 2023

Parabéns Benfica

 

PARABÉNS BENFICA


O Benfica é o justo vencedor da supertaça 2022/2023, um troféu de que, por vicissitudes várias, próprias e alheias, se viu afastado no passado, em especial na última década do século XX e primeira do século XXI. Na minha memória continua bem viva a fuga de José Pratas, em pleno relvado, ante a fúria dos jogadores portistas numa final realizada em Coimbra. Uma final caricata num período em que as vitórias do Porto pareciam desígnio nacional.


A saída de Gonçalo Ramos nas vésperas do jogo, deixara alguma desilusão nas hostes encarnadas. O incompreensível castigo a Neres, anulado posteriormente, parece ter tido a dupla finalidade de provocar instabilidade no clube encarnado e, por outro lado, atenuar o escândalo da suspensão do castigo ao Treinador do Porto. As incidências no final da partida demonstraram o erro de tal decisão.


O Porto iniciou muito bem a partida; alta intensidade, pressão altíssima - logo à saída da área adversária -, velocidade, antecipação, agressividade, verticalidade, dinâmica de bloco - todos a atacar e todos a defender -, com linhas de passe variadas e situações de finalização, porém ineficazes.


Aos 14 minutos o Benfica viu o 1º cartão amarelo e cerca de 10 minutos depois já tinha o 3º! Pensei o pior; “o árbitro vai tramar o Benfica; não tarda sai uma expulsão”.


Nesta fase os jogadores encarnados não conseguiam “assentar jogo”. Precisavam de segurar a bola para clarificar ideias e não tinham tempo nem espaço para isso. Praticavam um futebol lento, sem fluidez, aqui e ali interrompido por alguns lances ofensivos algo inconsequentes face às marcações dos adversários. Porém, a linha defensiva encarnada conseguiu impedir, estorvar q.b, os movimentos de finalização dos opositores e manter a sua baliza incólume. Tal revelar-se-ia decisivo.


A 2ª parte trouxe outro Benfica. A lentidão deu lugar à rapidez, a passividade à agressividade, o individual ao coletivo, o relvado “tingiu-se de vermelho” num movimento avassalador amplo e profundo. O adversário perdeu a iniciativa, o discernimento e o primeiro golo surgiu, perfumado, dos pés de Di Maria, na sequência de uma recuperação alta de Korkçu. E não, o excelente Diogo Costa não foi mal batido, atirou-se bem, mas… a bola, rematada com a face interior do pé esquerdo contornou-o e foi aninhar-se ao 2º poste. É destes lances que vive o futebol.


O golo da tranquilidade, o 2º, veio pelo inevitável Musa, bem ao seu estilo, na sequência dum cruzamento da direita de Rafa o “novo pequeno genial”; receção, na área, e remate forte de pé direito ao 1º poste, ante a marcação do defesa e sem hipótese para o guarda-redes.


Sem grandes alterações decorreu a partida até final, com o Benfica mais próxima de fazer o 3º golo do que o Porto o 1º e com o árbitro a poupar nos amarelos aos azuis, talvez ainda à espera de algum “milagre”.


De resto as habituais picardias e manobras de diversão em que jogadores, técnicos e dirigentes portistas são especialistas e a que recorrem sempre que não ganham. Desta forma deslocam os motivos de debate para temas acessórios e não desportivos.


Lamento que, apesar do “toda a gente” desde comentadores desportivos e dirigentes políticos, defenderem, em público, a necessidade de pacificação do desporto e de afastamento dos “bárbaros da bola”, haja membros do Governo e outros políticos a apoiarem a “enésima” recandidatura de um dos dirigentes desportivos que tem dedicado a sua vida à difusão do mal estar, até ao ódio, entre adeptos e mesmo cidadãos em geral.



Autor desconhecido

Peniche, 12 de Agosto de 2023

António Barreto


sábado, 5 de agosto de 2023

Gente da Praia

 

Gente da Praia


“Depois, alguns homens desceram à praia...E mar assim tão calmo e céu assim tão aliviado minara-lhes vergonha e saudade de ganhá-lo:

- Eh, gente! vamos aparelhar!...

- Eh, Tóino! Eh, Moisés! Toca a chamar a companha!...

Em ruelas e esguelhas de caminhos, uma chusma de catraios perfurou, endemoninhada gritando o aviso de sempre:

- Zé Liró, o arrais chama, ouviste?...

- Manel da Palmira, o arrais chama!…

- Onde tá o seu filho, ti Custódia? O arrais chama!

Mulheres correram também, levando o mesmo apelo:

- Ó Júlio! Júlio! O arrais chama, ouviste?

- Maximiano, olha o arrais!...

E o chamamento repercutia de norte a sul:

- ...o arrais chama!...

- ...o arrais chama, ouviste!?

- ...o arrais chama!...

A aldeia formigou para a praia, levada pelo grito de todas as bocas. Embarcações afastavam-se de terra – oito remos a espadanar, arrais e espadilheiro encarrapitados na bica de ré. Roncos de óóó upa!, costados a forcejar meias-luas, pés na areia resvaladiça - todos punham a sua gana naquele entusiástico momento.

- Não há fome que não dê em fartura!...- disse o dono de um barco ao enxergar o seu aparelhado. - Ou trazem todo o peixe… ou o espantam para sempre!…

Recoveiros fixavam-se no areal, envolvido pelo nó das pandas. E os traços negros das sirgas submergiam-se na na verdura das águas.

Gente da praia aguardava o alar das redes. Puxavam-se cigarradas gostosas - pois aquele dia foi um dia bem vivinho. História ou peripécia logo arrancava galhofa de soltar as peles.

Amolecia o pesadelo do mau tempo.

O Golfinho do Racha foi a primeira embarcação a findar lance. O Santo António do Chico Soldadinho aportou a seguir. E os alares foram simultâneos: um a sul e outro ao norte. Vinte e cinco, trinta cordas recolhidas – e logo as mangas das redes foram puxadas à finca. As redes agitavam-se em amplas e rítmicas vibrações, quando os sacos foram abertos. Os do fisco acorreram, e começou a lota com a contagem dos escrivães. Berrou-se um chui a 200 mil reis, outro a 340. Catraios procuraram os armadores, com as alvíssaras. Novas embarcações trouxeram panda. Novos alares.

A tarde alongou-se nesse afã. O pessoal de terra nem se lembrava já da bulha dos tascos. Ria-se, agora, das graçolas que um ou outro largava, pois, na vida do mar, não escasseavam motivos e graçolas… Alguns barcos ficaram no segundo lance, arrecadando cordas, bóias e redes. Encalharam meias-luas. Nos tascos mais afreguesados – Mané Choco, Quintinhas, ti Isabel Piló e outros – abateram-se dívidas nos róis. Cartas e dominós vieram para as mesas. Manducas tocou gaita de beiços. Ti Lourenço castanholas. E a malta bebeu e confraternizou.”


“Calamento” de Romeu Correia



Peniche, 5 de Agosto de 2023

António Barreto

domingo, 30 de julho de 2023

A Legitimidade Totalitária

 

A Legitimidade Totalitária


“A legitimidade totalitária, desafiando a legalidade e pretendendo estabelecer diretamente o reino da justiça na Terra, executa a lei da História ou da Natureza sem a converter em critérios de certo e errado que norteiam a conduta individual. Aplica a lei diretamente à Humanidade, sem atender à conduta dos Homens. Espera que a lei da Natureza ou a lei da História, devidamente executada, engendre a Humanidade como produto final; essa esperança - que está por trás da pretensão do governo global - é acalentada por todos os governos totalitários. A política totalitária afirma transformar a espécie humana em portadora activa e inquebrantável de uma lei à qual os seres humanos apenas passiva e relutantemente se submeteriam. Se é verdade que os monstruosos crimes dos regimes totalitários destruíram o elo de ligação entre os países totalitários e o mundo civilizado, também é verdade que esses crimes não foram consequência de simples agressividade, crueldade, guerra e traição mas do rompimento consciente com aquele consensus iuris que, segundo Cícero, constitui um “povo” e que, como lei internacional, tem constituído o mundo civilizado nos tempos modernos, na medida em que se mantém como pedra fundamental das relações internacionais, mesmo em tempos de guerra. Tanto o julgamento moral como a punição legal pressupõem esse consentimento básico; o criminoso só pode ser julgado com justiça porque faz parte do consensus iuris e mesmo a lei revelada de Deus só pode funcionar entre os homens quando eles a ouvem e aceitam.”


As Origens do Totalitarismo – Annah Arendt



John Ford


Peniche, 30 de Julho de 2023

António Barreto

sábado, 22 de julho de 2023

As Táticas do Totalitarismo

 

As Táticas do Totalitarismo



“Uma mistura de credulidade e cinismo prevalece em todos os escalões dos movimentos totalitários e quanto mais alto o posto, mais o cinismo prevalece sobre a credulidade. A convicção essencial compartilhada por todos os escalões, desde os simpatizantes até ao líder, é de que a política é um jogo de mentiras e que “o primeiro mandamento do movimento” - O Fuehrer tem sempre razão - é tão necessário aos fins da política mundial - isto é, da fraude mundial - como as regras da disciplina militar o são para as finalidades da guerra.”


“À afirmação propagandística de que todo o evento é cientificamente previsível segundo leis naturais ou económicas, a organização totalitária acrescenta a posição de um homem que monopolizou esse conhecimento e cuja principal qualidade é o facto de que “teve sempre razão e terá sempre razão”. Para o membro do movimento totalitário, esse conhecimento nada tem a ver com a verdade, da mesma forma que o facto de se estar com a razão nada tem a ver com a veracidade objetiva das afirmações do chefe, que não podem ser desmentidas pela realidade, mas apenas pelos sucessos ou fracassos futuros. O chefe tem sempre razão nos seus atos e, como estes são planeados para os séculos vindouros, o exame final do que ele faz é inacessível aos seus contemporâneos.”


Annah Arendt - “As Origens do Totalitarismo” – (negrito de minha edição)


Na primeira transcrição vislumbro a política portuguesa atual onde a criação de narrativas alternativas à realidade é uma prática corrente dos governos visando transformar, perante a opinião pública, rotundos fracassos em sucessos pelo simples exercício de retórica.


Na segunda, cabe como uma luva a temática das “Alterações Climáticas”; quando, no final do século se comprovar a veracidade ou falsidade das previsões atuais - aquecimento global superior a 1,5 ºC, fusão dos glaciares e gelos polares e subida do nível do mar como consequência da atividade humana, nenhum contemporâneo atual poderá testemunhá-lo. E no entanto, se há algo certo na Ciência, é a incerteza.


Autor não identificado

Peniche, 22 de Julho de 2023

António Barreto



sábado, 1 de julho de 2023

Inflação e Taxas de Juro

 

Inflação e Taxas de Juro


Acerca da polémica que vai por aí sobre a inflação e as elevadas taxas de juro eis, sucintamente, o que, de momento, se me oferece dizer:

O Jogo Político:

Todos lhes conhecem as causas, ninguém assume responsabilidades. Todos têm medo de dizer a verdade e todos vêm aqui uma oportunidade de "queimar" - responsabilizar ou comprometer - o adversário. A origem remonta ainda à crise de 2008 e à turbulência política que originou. Passos Coelho foi o único que disse a verdade ao povo, que "atacou" a despesa pública e lutou pelas reformas estruturais de que o país carece, contra a sistemática oposição do Tribunal Constitucional, um órgão político - que veio substituir o Conselho da Revolução, hoje controlado pelo PS – então intransigente na "defesa dos direitos adquiridos" e que hoje se remete ao silêncio, indiferente a todos os atropelos a que os portugueses têm sido sujeitos. A causa primordial são os falsos alicerces do regime democrático; a cultura cívica e política dos principais agentes políticos, os partidos, a sua falta de vínculo ao interesse nacional, a subordinação destes ao interesse partidário. E é por aqui que morrem as democracias. Já aconteceu antes.

As Causas:

A resistência política dos governos, dos países em vias de default, à política de austeridade da UE e do BCE, teve como consequência a substituição do Claude Trichet por Mario Draghi. Daqui adveio a alteração da política do BCE; o expansionismo monetário, como instrumento de financiamento dos desequilíbrios orçamentais dos estados fragilizados, deixando para segundo plano o controlo da inflação. Expansionismo sem contrapartida nas reformas estruturais conducentes à indução dos ganhos de produtividade de que essas economias carecem. De momento não conheço os números exatos, mas, assim por alto - quem puder, p.f., corrija -, de 2015 ao final de 2022 o BCE deve ter injetado na economia europeia cerca de 5 mil milhões de euros, na compra de dívida soberana. É, mais ou menos, o PIB anual da Alemanha - cerca de 4 BE, salvo-o-.erro -, cerca de 30 % do PIB agregado da UE!


Uma vez que não se verificou aumento correspondente do lado da oferta - da produção de bens transacionáveis (aqueles bens que têm alguma utilidade para alguém) - a inflação era inevitável! Eu contava com ela! É verdade que há outra causa importante; a forma como se abordou a crise pandémica; paralisaram-se as produções e distribuiu-se dinheiro pelas populações. Só dois "loucos" se opuseram à paralisação das economias dos seus países: Trump e Bolsonaro!


No caso de Portugal há ainda uma causa menor; o aumento forçado, desde 2005 do salário mínimo acima da inflação e do crescimento do PIB; não porque o Governo tenha tido pena dos trabalhadores, mas porque precisava de arrecadar mais receita. Quando um regime teima em viver num ambiente de ilusão económica, acabará por morrer.


E não! Não me venham dizer que o povo é estúpido, que não compreende, que gosta de ser enganado, etc, etc. porque, depois de 4 anos de austeridade, quem ganhou as eleições foi quem a tinha posto em prática: Passos Coelho! Foram os derrotados que, numa aliança espúria e condenada ao fracasso, assumiram o poder, retomaram a política despesista do Governo de Sócrates e, uma a uma, desfizeram todas as parcas reformas daquele Governo. São os nossos políticos, na sua grande maioria, que não têm maturidade democrática; teimam em colocar os interesses dos respetivos partidos acima do interesse nacional.

Controlo da inflação:

Combate-se a inflação reduzindo a procura. É a forma mais fácil e a que tem que ser aplicada em caso de urgência, como atualmente. Porém a redução de despesa pode e deve fazer-se também do lado do Estado, da Administração pública! De 2016 a 2022 o OE aumentou aproximadamente, de 86 MME para 113 MM! Não sei para onde foi esse dinheiro, mas parece que terá sido mal utilizado, uma vez que já está "toda a gente" na função pública a pedir aumentos de salariais! Portanto, a redução da procura, pode e deve fazer-se pela lado da despesa pública, eliminando redundâncias e ineficiências. Mas, infelizmente, a via socialista não é a da eficiência, é a da expansão do Estado.


Mas há ainda outra forma de "pressionar" a inflação; induzir de ganhos de produtividade na economia através da redução dos custos de contexto das empresas - simplificação de processos administrativo-burocráticos, redução ou eliminação de encargos diversos, etc.


Para isso o Governo teria de "derrubar o muro" do preconceito ideológico e conversar com os empresários, começando por perguntar-lhes o que poderiam fazer em conjunto com o Governo para aumentar e melhorar a oferta de bens transacionáveis. É difícil fazê-lo? Não, se o interesse nacional está acima do interesse partidário, dos fundamentalismos ideológicos e das lógicas eleitoralistas. Não, se deixarem de ver e tratar os empresários como meliantes carecidos de punição económica, fiscal e social.



                                                     Abuela-Moses- Feria Rural (1950)


Peniche, 1 de Julho de 2023

António Barreto