Desporto

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O SNS é tendencialmente insustentável.

(Texto de Henrique Raposo publicado no jornal expresso)
 
Esta feliz frase não é minha, é do professor João Lobo Antunes. Acrescento apenas uma coisa: não é matéria de opinião, é matéria de facto. Não querer ver isto é o mesmo colocar a vaidade ideológica à frente dos factos. Que factos? Para começar, a subida da despesa em saúde tem sido muitíssimo superior à criação de riqueza. No mundo das proclamações histéricas à la Arnaut 2 + 2 podem não ser 4, mas no mundo real 2 + 2 são mesmo 4. A conjugação da nossa já histórica regressão económica (estamos em divergência em relação à Europa desde 2000) com o aumento das nossas despesas de saúde cria um cenário de insustentabilidade do SNS. Isto é um facto, não uma posta de pescada ideológica.
 
Depois temos de olhar para o dramático envelhecimento da população e para o contínuo aumento da esperança média de vida. Em anexo, devemos ainda olhar para a natural pressão no sentido do SNS adoptar as últimas e caríssimas novidades tecnológicas e farmacológicas. Ou seja, estamos perante uma tempestade perfeita que vai varrer a nossa vida nas próximas décadas: a ciência médica continuará a criar tratamentos e tecnologias que, em teoria, melhorarão a vida das pessoas. Problema? O medicamente possível poderá ser financeiramente impossível. Se a tecnologia médica está a avançar, a demografia está a recuar, isto é, teremos cada vez menos jovens para suportar fiscalmente o SNS usado com mais frequência pelos mais velhos. Resultado final? Em 2010, o Estado português gastava 7,6% da riqueza nacional no SNS; se nada de fundo for feito (Macedo está apenas a gerir, e bem, o status quo), essa despesa subirá para os 11.1% em 2030. Esta será a quarta maior subida dentro da OCDE.
 
Ora, o nosso espaço público transformou estes factos em tabus. Se apresenta esta realidade crua e nua num debate, um sujeito é imediatamente acusado de "querer matar o SNS", um dos slogans indignadinhos da moda. Em Portugal, o debate sobre saúde é sempre o mesmo: chama-se o "pai do SNS", e pronto. O dr. Arnaut chega, faz as piruetas da sua vaidade ideológica e, prontinho da silva, está tudo debatido. Esta atmosfera histérica e afastada dos factos torna impossível uma discussão adulta sobre a reforma do SNS. Por exemplo, é impossível comparar o SNS com outros modelos europeus e até com o obamacare, porque essa comparação não é vista com bons olhos.
 
Consequência? Toda a gente julga que o nosso SNS é a representação portuguesa de um mirífico SNS europeu que se repete em todos os países da UE. Pouca gente sabe que o SNS português é a negação do sistema de saúde da Alemanha, Holanda, Áustria, França, etc. Tragédia? A sustentabilidade da saúde dos portugueses necessita de uma aproximação a estes modelos mais flexíveis, mais justos e menos caros. Mas, caluda, ah!, porque temos de ser escravos da vaidade de Arnaut e dos Arnautzinhos 

Fiscal Cliff – The Great American Ostrich

(Texto de opinião retirado da Sic Notícias online em 2012.01.02)
 
Como é possível que se continue a esconder da opinião pública a simples evidência de que os EUA não têm só um problema orçamental, estão sim a caminhar rapidamente para a insolvência e a arrastar o Mundo para um beco sem saída que, no limite, se pode transformar num problema generalizado para toda a economia do globo, se não para uma situação de conflito?
 
Porque não se diz claramente que o chamado precipício orçamental americano é apenas o princípio de um caminho inevitável de correcção dos problemas do país – que a Europa do Euro iniciou há mais de dois anos, já com atraso - e que o perigo maior não é o aumento de impostos e o corte de despesas mas sim manter o défice e aumentar a dívida americana sem parar?
Vamos por partes:
 
A Administração democrata está, por estes dias, a negociar com os Republicanos no Congresso (partido que detém a maioria dos lugares) um acordo que evite a entrada em vigor de cortes de despesa e de aumentos de impostos previstos na lei há vários anos por boas razões para reduzir o défice orçamental da União.
 
Tanto Obama como John Boehner, acham que Democratas e Republicanos se têm de entender para evitar o tal precipício orçamental porque, se assim não for, com uma redução automática de despesas e aumentos de impostos no valor estimado de 600 mil milhões de dólares por ano, a contar dia 1 de Janeiro, a economia dos EUA cai pelo menos 0,5 por cento em 2013, perdem-se pelo menos 2,1 milhões de empregos, as bolsas afundam, etc. etc.
 
O principal problema dos EUA neste momento, tanto para o Presidente como para o líder da oposição, parece residir no facto de os seus antecessores terem deixado sob a forma de lei a obrigação de o Estado americano aumentar os impostos e cortar as despesas para reduzir o défice.
 
Na última entrevista de Obama em 2012, o presidente mostrou-se, mais uma vez, muito preocupado com as consequências de um não acordo, dizendo que os mercados financeiros não iriam gostar…
 
A mesma formulação do problema é usada pelos muitos milhares de economistas, analistas e jornalistas americanos para consumo interno e para exportação pelo mundo fora. Não há site de informação, televisão radio ou jornal dos EUA, do Reino Unido, mas também do Brasil, da Africa do Sul, da India, da China, da Rússia e mesmo da Europa que não tenha dito que os Estados Unidos têm um problema para resolver, o Fiscal Cliff. E se o não resolverem, as consequências serão negativas para todos porque se a economia americana cai, todas as outras economias e em particular os mercados financeiros ressentem-se.
 
Sendo parcialmente correcta em relação a eventuais consequências imediatas do Fiscal Cliff, esta é uma leitura errada em relação às causas dos problemas da economia americana e uma leitura errónea em relação aos comportamentos dos agentes políticos e económicos, tanto americanos como do resto do mundo.
 
A verdadeira e útil discussão sobre os problemas reais da economia americana deve centrar-se nos seus desequilíbrios profundos, que são simples de perceber: há pelo menos 30 anos, os americanos deixaram de produzir riqueza suficiente para pagar aquilo que consomem.
 
Com a queda do Muro de Berlim a transformar os EUA na única superpotência dominante e com uma moeda usada para mediar a quase totalidade do crescente comercio mundial, o dólar, este grande país deixou-se ir na facilidade de gastar cada vez mais e produzir cada vez menos, financiando os défices público e externo nos mercados financeiros a um preço ou juro cada vez mais baixo mas em quantidades cada vez mais elevadas.
 
Os taticismos polítcos dos dois partidos que governam os EUA, a par com uma grande complexidade do sistema eleitoral americano, têm levado democratas e republicanos a defender determinada politica e a sua contrária, conforme estão no poder ou na oposição, sempre com o mesmo resultado global: um aumento consistente e crescente das despesas, uma descida imprudente e eleitoralista da cobrança de impostos, défices orçamentais galopantes e uma impotência ou uma paralisia notória do sistema politico face à necessidade urgente de resolução desta situação.
 
O problema dos défices gémeos, publico e externo ganhou dimensão relevante durante o mandato de Ronald Reagan, no inicio dos anos 80, com a decisão neoliberal de corte de impostos associada a uma abertura crescente da economia dos EUA a importações do Extremo Oriente, em resultado da globalização potenciada pelas negociações para a liberalização do comércio mundial.
 
Durante mais de uma década, o défice federal alargou-se e, em consequência, a dívida pública, cresceu de 35 para 65 por cento do PIB. Curiosamente, foi com o democrata Bill Clinton (social-democrata ou socialista moderado, para a escala portuguesa), que os EUA inverteram esta tendência a partir de 1993. O presidente decidiu cortar despesas e aumentar impostos, reequilibrando as finanças da maior potência e os indicadores fundamentais da maior economia do Mundo. Por pouco tempo.
 
Com a eleição de Georges W. Bush em 2001, o Congresso decidiu cortar substancialmente os impostos, sobretudo para as empresas e a classe média e média alta, e aumentar despesas, sobretudo militares. Muito dinheiro foi gasto no combate ao terrorismo e nas chamadas guerras preventivas, no Afeganistão e no Iraque. Apesar de todos os erros de avaliação cometidos, nomeadamente no Iraque, o mundo ficou menos perigoso desde então e, em particular o Ocidente, tem uma dívida com os EUA cujo valor não é sequer monetarizável.
 
Mas em termos económicos e financeiros, o desequilíbrio da maior economia do Mundo agravou-se, o défice, cresceu, a dívida cresceu ainda mais e a economia cresceu sobretudo à custa de créditos concedidos por um sistema financeiro ávido de lucros e imprudente na avaliação de riscos.
 
Mais tarde ou mais cedo, teria de acontecer a crise financeira que deflagrou em 2007 e rebentou em 2008. Era mesmo só uma questão de tempo. Muitos pormenores desta crise são conhecidos, recordemos apenas os planos de emergência para a salvação do sistema financeiro americano na sequência da falência do Lehman Brothers:
 
Um gigantesco plano de compra de créditos mal-parados da banca americana, o TARP (Troubled Assets Relief Program), um gigantesco plano de recapitalização de grande parte dos bancos do sistema e, em simetria, uma gigantesca operação de emissão de títulos de dívida pública americana de médio e longo prazo, Bonds, para pagar as operações de salvação do sistema financeiro. Com a eleição de Obama, ao contrário do que aconteceu com Bill Clinton que também era democrata , os desequilíbrios não se corrigiram. Agravaram-se.

Antes de ser eleito, Obama tinha prometido ajudar os idosos e os pobres que não tinham protecção na doença e no desemprego . Lançou os programas de saúde para todos e reforçou a protecção social. Mas não financiou estas novas despesas com aumentos de impostos sobre a classe média e alta e sobre as empresas. Cortou ainda mais taxas de impostos e manteve as isenções concedidas por Georges W. Bush, porque não teve força política para as alterar. Os Republicanos, na oposição, não queriam que as despesas sociais aumentassem e não permitiram que se cobrasse mais em impostos para as financiar. Uns e outros sabiam que estavam a degradar as contas públicas, mas por razões diversas aumentaram despesas e diminuíram o nível de receitas.
 
A solução americana para os problemas trazidos pela crise financeira e económica foi atirar mais dinheiro sobre esses problemas. Dinheiro que não existia, que a União não tinha para gastar. O défice continuou a ser coberto com dívida pública sob a forma de emissões de bonds a um ritmo crescente. O gigantesco comprador desses títulos de dívida tem sido o Banco emissor das célebres notas verdes de dólar, a FED, a Reserva Federal Norte-americana, que depois as repassa aos bancos americanos e aos bancos e investidores de todo o mundo.
 
O sistema funciona de forma altamente complexa, mas pode resumir-se como uma gigantesca máquina impressora de dinheiro que serve para comprar divida do Estado para este, com esse dinheiro, gastar em algumas (poucas) despesas de investimento e em muita despesa não recuperável do ponto de vista económico e financeiro.
 
Ainda há poucos meses Obama dizia em público que queria investir mais na economia para criar empregos e que tinha planos para lançar linhas de TGV para servir 80 por cento dos americanos…com dinheiro que não tinha, não tem, nem terá nas próximas décadas….
 
A economia americana está cada vez mais a viver de um gigantesco balão de oxigénio que é uma política monetária expansionista. O verdadeiro Ministro da Economia dos EUA não é o Secretário de Estado da pasta oficial, é o senhor Bem Bernanke, presidente da FED. A Ben Bernanke, tanto o presidente Obama como democratas, republicanos, banqueiros empresários, empregados, desempregados, doentes , idosos e cidadãos em geral pedem que resolva os seus problemas.
 
E Ben Bernanke, ao contrário do que um presidente de Banco Central devia fazer, diz sempre que sim. Diz a todos que sim, e emite cada vez mais dólares. Emitiu dólares para financiar o plano de Georges W.Bush para salvar o sistema financeiro no valor de quase um bilião, (1 trillion); emitiu dólares para financiar para financiar o plano de estímulo económico de Obama no valor de mais de 700 mil milhões… continua a imprimir notas verdes a um ritmo frenético.
 
O crescimento da economia americana, o combate ao desemprego e o pagamento das despesas do Estado, nomeadamente despesas sociais, está a ser feito à custa de emissão de moeda para comprar obrigações de dívida pública, que são depois revendidas nos mercados mundiais, como se de boa política económica, financeira, orçamental, fiscal e monetária se tratasse. Por outras palavras, os americanos estão a comprar um relativo bem-estar no presente, atirando um cheque irresponsável e impagável sobre o futuro.
 
Os mesmos americanos, políticos, banqueiros, empresários, investidores, analistas e jornalistas que se deliciam com cada notícia sobre as dificuldades da zona Euro, com os sucessivos downgrades ou desclassificações das dívidas europeias, os mesmos editores que fazem sucessivas capas de jornais e revistas com o fim da Moeda Única, não perceberam ainda que o verdadeiro risco para o Mundo está na nota verde.
 
Não perceberam, são incapazes de perceber porque é que o Euro está acima dos 1,3 por dólar, contrariando todas as previsões que fizeram até agora de que o Euro ia rebentar. São incapazes de reconhecer que os verdadeiros investidores dos mercados financeiros acreditam menos no dólar que no Euro; são incapazes de perceber porque é que Vladimir Putin disse, à chegada à cimeira do G20 no México, que estava mais preocupado com o dólar que com o Euro, porque tinha muitas reservas na moeda americana e não está tranquilo sobre o seu valor futuro.
 
Não perceberam que, com uma quantidade astronómica de dólares nos cofres do Banco Central da China, o governador deste banco pode ameaçar o próprio Congresso dos EUA: basta começar a desfazer-se da nota verde a um ritmo mais acelerado para provocar a sua queda irreversível e obrigar a alterar a política americana de uma semana para a outra.
 
Não perceberam que a Europa do Euro está de facto a resolver os seus problemas, com muita dor nos países mais frágeis mas com sacrifícios para todos, mesmo para os que dizem mal dos que foram mais gastadores e estão agora mais desequilibrados.
 
A teoria de que ao líder tudo é permitido, neste caso ao líder do Mundo, continua a ser a mais usada pelos analistas que também não concordam com a política seguida nos EUA mas não se atrevem a prever a próxima crise financeira, tal como não previram a anterior. A História mostra que a confiança dos investidores numa moeda nunca é ilimitada, mesmo que seja a moeda do mais forte, a moeda da Superpotência.
 
Quanto mais a China e os países vizinhos da Ásia fizerem acordos de comércio bilateral em Yuan ou outras moedas locais; Quantos mais acordos de Bartering (troca por troca, normalmente de matérias-primas por produtos manufacturados, sem mediação monetária) a China fizer com países de África;
Quanto mais a América Latina negociar entre si em pesos ou reais; Quanto mais petróleo e gás natural a Rússia e o Médio Oriente venderem à Europa em euros; Menos peso terá o dólar no comércio mundial e mais risco terá de se desvalorizar. Quanto mais bonds o tesouro americano emitir, maior será o risco de se desvalorizarem, subindo os juros implícitos e, consequentemente, os juros das emissões em mercado primário.
 
Os conceitos básicos dos livros de Economia & Finanças não podem estar certos para todo o Mundo, em todas as épocas, e errados para os Estados Unidos – a emissão de moeda tem de corresponder à criação efectiva de riqueza e os Estados, tal como as famílias e as empresas, não podem endividar-se de forma permanente e ilimitada.
 
Por tudo isto, a verdadeira discussão nos EUA não devia ser sobre as consequências imediatas de uma correcção dos desequilíbrios orçamentais, posta na lei por boas razões, obrigando à subida de impostos e ao corte de despesas reduzindo automaticamente o défice. Devia ser sobre a saúde de um gigante desequilibrado e endividado que tem cada vez mais pés de barro, prestes a desfazer-se.
 
Argumentam os analistas defensores dos estímulos orçamentais e da política monetária em curso nos UEA que a leitura sobre os riscos da economia americana é exagerada porque, se é verdade que o défice e a dívida pública são grandes, o facto é que as grandes empresas americanas estão cheias de dinheiro nos seus cofres, estão supercapitalizadas e essa realidade compensa tudo o resto.
 
Eis como uma aparente força de argumentação pode transformar em fraqueza num estalar de dedos: essas mesmas empresas investem muito pouco nos Estados Unidos para evitar custos, nomeadamente de mão-de-obra, não pagam os impostos que deviam, beneficiam de uma política orçamental expansionista que ajuda decisivamente a compor a sua facturação mas não pode manter-se indefinidamente e, sobretudo, não percebem que estão sentadas em cima de pilhas de notas de dólar que, de uma semana para a outra, podem perder grande parte do seu valor.
 
Quando esse dia ou essa semana chegar, o perdedor não será só a Grande Nação americana. Seremos todos nós. A instabilidade financeira que se seguirá não irá beneficiar uns em detrimento de outros. Será prejudicial e terrível para todos. Por isso, melhor seria que os dirigentes políticos, ou melhor, todos os agentes que detém alguma forma de poder na América, abandonassem de vez a atitude da avestruz que mantém a cabeça enterrada na areia enquanto sente perigo por perto. Por eles, pela América, por todos nós e pelas gerações que se seguem.
 
Nota final:
 
À hora a que escrevo, neste final de dia 30 de Dezembro de 2012, ainda não há acordo entre o Obama e o líder dos Republicanos para evitar o Fiscal Cliff. Poderá haver muito em breve. Mas da maneira como a questão foi posta à discussão, o eventual acordo será sempre uma panaceia para os problemas do país, ao estilo salomónico de cortar algumas despesas e subir algumas taxas de imposto reduzindo algumas isenções. Não será de facto a solução de fundo – deixar o Fiscal Cliff acontecer em toda a sua extensão, eventualmente por fases, mas até ao fim. Seria doloroso mas clarificador, garantiria o futuro da América e a estabilidade financeira e económica do Mundo.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O desafio da geração

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES (in DN 2012.12.31)

Esta crise é um grande teste. Perante a desgraça, todos somos postos à prova. Para a maior parte de nós, esta situação é mesmo o desafio da nossa vida. Um dia perguntarão o que fizemos na grande recessão, como hoje dizemos da Guerra Colonial ou do 25 de Abril. Muitos terão de responder sinceramente que foram parte do problema, não da solução. Terão de dizer que protegeram benesses, sabotaram reformas, resistiram à mudança, incitaram ao ódio.

A tentação da revolta e desânimo é bem compreensível. O pior da conjuntura, o verdadeiro mal que cria no tecido social é a surpresa, a desilusão, a indignação. Confiávamos no sistema que faliu e surgiu o oposto do prometido. Muitos sofrem muito, mas o que mais ocupa os nossos protestos é o desalento, a queixa, a fúria. Este país deixou-nos outra vez ficar mal. Ouvimos muitas histórias degradantes de injustiças, mentiras, direitos violados, inocentes sofrendo, corruptos e burlões. Grande parte é falsa, pois a fúria cria o exagero, mas muitas são verdade. Assim, multidões de argumentos justificam a atitude negativa. O efeito de todas é sempre promover propostas repulsivas, nunca construtivas. A receita é denúncia, revolta, violência, nunca compreensão, solidariedade, perdão.

Perante a indignação é fácil esquecer os valores que sempre guiaram a nossa vida, ou que dizíamos que guiavam em tempos mais serenos. Vemos pessoas honestas dizer e fazer coisas brutais. Quantos cidadãos pacatos não repudiam agora a lei e a autoridade, rejeitam a democracia, desprezam o País, recomendam violência e revolução, agridem o próximo? Todas estas atitudes justificam-se como luta pela justiça, mas apenas produzem vingança. Foi assim que surgiram as maiores barbaridades da história: Hitler e Ben Laden diziam responder a ataques. Invoca-se a dor e a iniquidade, mas isso apenas revela a fragilidade das antigas convicções, renegadas logo que testadas.

Perante o embate é possível subir ou descer. Podemos enfrentar ou criticar, inovar ou gemer, criar ou agredir. É agora que o nosso carácter, a fibra, as raízes, as convicções profundas mostram o seu valor. O embate é brutal e muitos cedem. É fácil desanimar, desistir, acusar, insultar, agredir, odiar, mas o problema fica na mesma. Um pouco pior. Difícil é subir ao nível da dificuldade e enfrentá-la. Vencer ou perder, mas encará-la. Como o fizeram as gerações antigas em encruzilhadas bem mais duras.

O pior da crise não é o desemprego, as falências, a pobreza, o desânimo. O mais negativo não é o peso financeiro, a recessão económica, o choque social, a desorientação política, a paralisia cultural, o bloqueio institucional. O pior da crise é o ódio. Só o ódio poderia realizar as irresponsáveis previsões catastrofistas que dominam a imprensa. O ódio é a única força que pode perpetuar o mal, deixando cicatrizes na economia, na sociedade, na política e na cultura. A situação justifica repulsa, angústia, desânimo, até mesmo desespero ou revolta. Mas não pode justificar o ódio, porque nada o justifica. O ódio nunca nasce das circunstâncias, mas da atitude face às circunstâncias. O ódio, mesmo mascarado de justiceiro, nunca tem razão. É sempre um mal arbitrário, abusivo, inaceitável.

Portugal vencerá o teste, como venceu outros muito maiores. Da crise nascerá um país mais justo, dinâmico e equilibrado. A única dúvida é como cada um de nós se coloca neste processo. Como em épocas passadas, podemos estar do lado do futuro ou da reacção. Podemos desistir, protestar, exigir, gemer, insultar ou, pelo contrário, encarar as dificuldades, procurar resposta, construir a solução. Destes, apenas destes sairá o novo Portugal. Não é do Governo, política, troika, Europa, FMI, que ajudam ou complicam, e geralmente complicam mais do que ajudam. A saída da crise depende de milhões de cidadãos anónimos tentando melhorar a sua vida e encontrando a resposta. Se a percentagem dos que vencem o ódio for superior à dos seus promotores, Portugal passa o teste. Só o nosso carácter, a fibra, as raízes e as convicções profundas nos permitirão vencer o desafio desta geração.

naohaalmocosgratis@ucp.pt

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Futebol Europeu; hora de mudança (3)


Futebol Europeu; hora de mudança (2)


Futebol Europeu; hora de mudança (1)


Insustentabilidade do futebol espanhol (e português)

Modelo econômico põe em risco maior parte dos clubes espanhóis:

(Em "O Povo online em 28.12.2012)
Os clubes espanhóis, salvo Real Madrid, Barcelona e talvez o Athletic Bilbao, correm o risco de fechar suas portas em consequência do atual modelo econômico da Liga Espanhola. O alerta foi feito pelo economista José Maria Gay de Liébana, que é professor da Universidade de Barcelona.
Em uma entrevista à revista espanhola Offside, o economista analisou a situação do futebol espanhol comparado com as ligas de Alemanha, França, Inglaterra e Itália. Em todos estes países, Liébana assegurou que os gastos dos clubes superam as receitas.
No entanto, o modelo espanhol foi considerado mais nocivo por conta de sua divisão desproporcional das cotas de TV entre os clubes. Os recursos da televisão podem corresponder, no país, a até 38% das receitas dos clubes.
Na Inglaterra, o Manchester United ficou na temporada atual com 13,1% de todo o valor pago pela TV. Já na Espanha, Barcelona e Real Madrid ficam com 49,3%, muito acima do Valencia que fica com 6,5%.
- A Espanha é o país com a pior divisão de receitas oriundas da TV. O problema radica na forma como o dinheiro está concentrado em alguns clubes, pois cada um negocia em separado. Não pode o Valencia receber menos em direitos de transmissão que o Wigan, que luta para não cair na Inglaterra - explicou o economista.
Liébana lembrou como o Campeonato Espanhol era mais equilibrado antes da nova forma de divisão dos recursos.
- O Villarreal conseguiu ser vice-campeão e o Valencia foi campeão. Hoje o Valencia comemora o fato de ter sido terceiro colocado em três temporadas seguidas - resume o professor.

O economista também criticou a forma como a Liga de Futebol Profissional da Espanha tenta expandir a sua marca para o mundo. Liébana acredita que os espanhóis estão buscando se firmar primeiro no mercado errado.

- A centralização dos esforços deveria ser para vender a Liga para os Estados Unidos e o Japão, onde as pessoas têm muito mais poder de compra que na China - analisou.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Moreirense- Benfica (1-1, Taça da Liga)



Nunca pensei; dois penaltis favoráveis ao Benfica no mesmo jogo arbitrado pelo inefável Cosme Machado? Hum!
 
Gostei do novo estilo de marcação de penaltis do Cardozo, altamente desmoralizador do guarda-redes adversário. Gostei da diversificação dos marcadores destas faltas, mas não da execução; na próxima, Lima não falhará. Pareceu-me em fora de jogo o lance do golo do Moreirense.
 
Moreirense motivado, Benfica a gasóleo chinês, na reserva, fruto dos festejos natalícios...

Ah, aquilo é um campo de futebol de Primeira Liga, onde os clubes investem muitos milhões de euros?

Estes campinhos favorecem a competitividade do futebol português?

Tudo ao monte e fé em deus?

Vou ali e já venho!
 
Tenham mas é Juizo e organizem uma Liga como deve ser!
 
AB

Prémio Zaratustra



O Conselho de Administração do Zaratustra - eu mais eu - decidiu em reunião extraordinária à pressa, atribuir por unanimidade, o prémio “Polidor de 1ª Classe” ao “fossilizado” jornalista Sr Vitor Serpa, pela excelsa clarividência revelada pelo grupo de trabalho que dirige ao atribuir o prémio “Homem do Ano” ao Sr. Pedro Proença!
 
De facto, com esta distinção, o histórico diário mostra ao mundo desportivo o caminho do futuro: a essência do futebol não está, como erradamente se pensava, nos Atletas, nem nos Técnicos, nem nos Dirigentes, não senhor! A essência do futebol está em quem decide os jogos e os vencedores das provas; qual ponta-de-lança, qual armador-de-jogo, qual central, qual guarda-redes, qual treinador, se um só homem, sem grande esforço, pode sintetizar tudo isto?

Essa omnipotência é reconhecidamente um atributo do Sr. Proença, que, assim, muito justamente, vê reconhecido o seu meritíssimo mérito. Porém, convém não esquecer que tais poderes deverão, sempre, salvaguardar os interesses dos digníssimos “cruzados”, critério tão criteriosamente garantido pelo impagável Sr. Proença ao longo dos seus muitos anos de brilhante carreira ao serviço de tão digníssima causa, tal como, aliás, é caso do Sr. Serpa e do seu, agora, jornaleco.
"POLIDOR DE 1ª CLASSE"
Além desta magnífica foto para emuldurar no seu belo escritório Zaratustra oferece ainda ao distinto Diretor esta belíssima canção:
 
 
 
 
AB

sábado, 29 de dezembro de 2012

XEQUE-MATE


Entre Benfiquistas, há muito se defende a integração do seu clube na Liga Espanhola, desesperançados da vontade e capacidade das estruturas nacionais, desportivas e políticas, de promoverem a regeneração do desporto nacional, contaminado pelo “fundamentalismo cruzado”.

De facto, os grosseiros e decisivos erros de arbitragem  continuam a suceder-se, sempre com o mesmo beneficiário direto ou indireto, que assim adquire vantagem sobre os adversários, proporcionando-lhe o acesso a avultadas receitas e a um elevado nível competitivo  alavancado pelas compulsivas arbitragens “amigas”.

Quem está atento às movimentações do xadrez político percebe sem dificuldade que tal se deve à conversão do clube “cruzado” em agente político de caciques regionalistas com forte influência económica, política e judicial no país, razão primeira e última da inação de quem tem o dever de garantir a lealdade e transparência das competições desportivas.

Para cúmulo, assistimos impotentes aos apoios financeiros e institucionais continuados, mais ou menos camuflados, ao clube “cruzado”, como se este fosse um desígnio nacional, e ao financiamento indireto e forçado, pelo Benfica, dos seus adversários, em virtude do seu enorme potencial económico, do qual, paradoxalmente, retira exíguo proveito.

Por outro lado, na sequência das declarações dos responsáveis de vários clubes da liga Belga e até do ex-Presidente do Barcelona Joan Laporte, no atual contexto do futebol europeu, também o futebol Português está condenado à irrelevância face à incapacidade de gerar receitas que permitam aos seus clubes ombrear com os seus congéneres europeus. 

A entrada maciça de avultados capitais do setor energético no futebol, tem conduzido a uma espiral de custos operacionais cujas consequências acabarão por se fazer sentir de forma dramática, traduzindo-se na elitização crescente deste desporto, outrora “do Povo”.

Por tudo isto, é hora do xeque-mate! Os dirigentes do Benfica deverão considerar a viabilidade do pedido de adesão do clube à Liga espanhola, onde poderá capitalizar todo o seu potencial financeiro, equivalente ao dos grandes clubes europeus, esvaziando uma Liga apodrecida pela corrupção. Veremos depois a côr do riso do pintinho.
 

 AB
Extratos da comunicação social:
Standard Liège ameaça deixar a Liga belga
Por SAPO Desporto (26 de Dezembro de 2012)
O clube quer ajudar a criar uma liga conjunta entre belgas e holandeses.
O Standard Liège exige a criação de uma liga conjunta entre Bélgica e Holanda para continuar no seu campeonato belga.
A revelação foi festa esta quarta-feira pelo dono do clube, Roland Duchatelet. «Sem a criação de uma Beneliga [a designação para o campeonato que reuniria os clubes de Bélgica e Holanda], o futebol belga vai cair de morte natural. Se tal não for aprovado, vamos pedir para aderir ao campeonato francês. Legalmente é possível se os clubes franceses estiverem de acordo», avisou o empresário.
A proposta de uma liga conjunta entre os dois países - que já organizaram em parceria o Euro2000 - é um tema que tem sido discutido nos últimos anos, mas nunca foi formalizada uma proposta oficial.
«Recusar esta Beneliga seria má gestão. Anderlecht, Club Bruges, Ajax e PSV Eindhoven também estão de acordo», frisou. 

Zero-Zero.pt (2012.11.23)

Joan Laporta, ex-presidente do Barcelona, assume que se podia criar uma «Liga ibérica», onde jogariam Benfica, FC Porto e Sporting com o Barcelona e o Real Madrid.
«Que seria da Liga espanhola sem o Barça ou o plano inverso? Além disso é uma Liga [n.d.r Liga espanhola] que está centrada no Barça e no Real Madrid. Então apenas teriamos que ter a inteligência e procurar uma fórmula. Assim, jogaríamos uma Liga da Confederação ibérica», disse o antigo dirigente, em declarações à Antena 1.
Laporta explicou assim as suas ideias sobre a importância do clube catalão no futebol do país vizinho.
Jornal Económico:
António Freitas de Sousa
13/12/11 20:32
presidente da Câmara de Gaia disse hoje que se FC Porto, Benfica, Sporting e Braga jogassem em Espanha "rapidamente se transformariam em grandes empresas".
"Se o FC Porto, Benfica, Sporting e Braga fossem jogar no campeonato de Espanha, rapidamente se transformariam em grandes empresas", disse o presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, no seminário 'Portugal 2012: os desafios do Orçamento de Estado', organizado pela Ernst & Young, em parceria com o Diário Económico.
Afirmando não deixar de ser português por confirmar uma visão iberista da economia, Menezes disse que a dimensão do mercado ibérico rapidamente faria com que aquelas quatro empresas passassem a ganhar enormes proventos em mercados internacionais - nomeadamente em mercados emergentes como a China; e que, paralelamente, as cidades que albergam aqueles clubes sentiram o que é serem palco de grandes acontecimentos desportivos. Ainda em termos da dimensão do país, Luís Filipe Menezes afirmou que a Península Ibérica "é o nosso mercado natural": "São 67 milhões que, para o edil de Gaia, não tinham qualquer sentido - numa altura em que 'venderam' ao país que o seu mercado potencial seriam os 500 milhões de habitantes do continente europeu.

Petição Queremos o Benfica na Liga Espanhola em 2012/2013

Para: Presidente da Liga Portuguesa de Clubes e do Sport Lisboa e Benfica


Para os que querem o Benfica numa competição mais forte. Para os que não querem o Benfica no campeonato nacional. Para os que acreditam que o Benfica devia ombrear com Barcelona, Real Madrid, Sevilha, Villareal ou Atlético de Madrid. Para os que gostavam de ver o Benfica a ombrear com clubes mais fortes. Para os que acham um desperdício ter esta equipa a jogar em Portugal. Para os que não querem desperdiçar a oportunidade de ver o Benfica fora de Portugal. Para 6 milhões de benfiquistas. Para 4 milhões de anti-benfica. Para os que sabem que Nolito, Garay, Gaitan, Rodrigo, Cardozo, Maxi Pereira, Javi Garcia, Aimar ou Saviola dominam perfeitamente a língua espanhola e que não teriam dificuldades de adaptação. Para os que dizem que Jorge Jesus é capaz de falar melhor espanhol do que português.
Esta é uma petição para que o Benfica dispute a época de 2012/2013 na Liga Espanhola.

Contamos com todos.

Os signatários