Desporto

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Os Pobres (II)

 O Caso Inglês

  Inglaterra foi o país onde mais cedo se tratou o tema da pobreza e que dispõe de mais e melhor bibliografia a este respeito. Gareth Stedman Jones em “An end to Poverty” assegura que as primeiras propostas de eliminação da pobreza, através de apoios sociais estruturados, surgiram na sequência das revoluções americana e francesa e datam da década de 1790.

   O francês Alexis de Tocqueville, em 1835, registou uma estranha contradição nos países europeus segundo a qual os que pareciam mais miseráveis eram os que tinham menos indigentes, enquanto nos mais opulentos parte da população vivia da caridade alheia. Refere o caso da Inglaterra onde os seus campos paradisíacos, paradigma da modernidade, contrastavam com a indigência de cerca de 16 % da população revelada pelos registos das autarquias e paróquias. Em contraste, em Espanha e, sobretudo, em Portugal, observando-se por todo o lado um espetáculo chocante, de gente mal alimentada, mal vestida, ignorante e grosseira, habitando casebres miseráveis no meio de campos meio incultos, o número de indigentes era reduzido. (interessante esta distinção entre miséria e indigência!). M. de Villeneuve calculara que, em Portugal, havia um pobre por cada 25 habitantes (4 %), e antes dele, o geógrafo Balbi determinara o rácio de 1 pobre por cada 98 habitantes (1,1 %).

   Tocqueville desconfiava da indústria. Considerava que a vida do camponês, por mais desagradável que fosse, era menos horrível que a do operário na medida em que aquele tinha as suas carências vitais asseguradas. Chocado com a necessidade de apoio contínuo aos pobres, opôs-se à modernização da agricultura na Inglaterra. Esta reforma deixou muitos agricultores sem terra obrigando-os a migrar para as cidades em busca de trabalho nas fábricas. Com as crises cíclicas do capitalismo os operários acabavam desempregados caindo na indigência.

   Tocqueville considerava que a intervenção permanente do Estado no apoio aos pobres acabaria por “corromper os homens”. Defendia um esquema de mutualidades e montepios em que os trabalhadores contribuiriam para um fundo de apoio cujos recursos não deveriam ficar nas mãos do Estado por este o os não saber gerir. Considerou a caridade individual importante mas insuficiente e que, entre os indivíduos e o Estado, deveria haver entidades intermédias. 

   A consciência pública inglesa despertou para o fenómeno da pobreza no século XIX com as obras de Charles Dickens - Oliver Twist -, de outros ficcionistas como Elisabeth Gaskell - North and South - dos reformadores Henry Mayhew - London Labour and the London Poor - e Charles  Booth - Life and labour of the people in London -, e do antropólogo Friedrich Engels - The condition of the working class in London,  entre outras. Até então vigorava o conformismo com a inevitabilidade da pobreza, “consequência” do ordenamento Divino. Comprovavam-no o hino Anglicano, All Things Bright and Beautiful: “The rich man in his castle / The poor man at his gate / God made them high and lowly/And ordered their estate”. Nas sociedades agrárias relativizava-se a pobreza por se considerar que o povo retirava da terra os bens alimentares essenciais à sua subsistência.

   Contudo havia apoio social aos cegos, órfãos e desvalidos, através de instituições particulares financiadas por fidalgos e industriais - casos dos industriais Robert Owen e Joseph Rowntree -, e pelo poder local - de acordo com a Poor Law, decretada no reinado de Isabel I (1533-1603) - e do sistema Speenhamland - de finais do século XVIII. Em nenhum dos casos se impunha o trabalho aos indigentes. Algo que mudou com a Poor Law de 1834 que os obrigou a trabalhar nas workhouses. A ideia subjacente era a de os desencorajar a declararem-se pobres. Uma crueldade bem patente no romance Oliver Twist, de Charles Dickens, por estigmatizá-los, quando, afinal, eram vítimas do capitalismo.

O conceito de limiar de pobreza foi popularizado por J.C. Booth e a sua London School Board, que o estabeleceram entre 10 e 20 xelins para uma família de quatro a cinco pessoas. Tal resultou do estudo que efetuou no Est End londrino onde verificou que 35% dos residentes viviam em condição de extrema pobreza. Booth alterou a forma como, no início do século, se olhava para os pobres. Enquanto Henry Mayhew e Malthus, viam os pobres como resíduo populacional, gente ociosa deambulando pelos campos que vivia da miséria e do vício. Booth libertou-os do estigma da degradação, considerando-os consequência do desordenamento social e económico. De facto, entre os operários valorizava-se a instrução, a respeitabilidade e a limpeza, comprovada pela análise de diários e trabalhos de investigação. Tal é testemunhado pela obra de J Rose, The Intellectual life of the British Working Class (Yale University Press 2001). De forma que, no final do século XIX os operários se organizaram em sindicatos e fundaram o Partido Trabalhista, cujo líder, Clement Attlee, chegou a primeiro-ministro de 1945 a 1951.

   Contudo, a preocupação ética com a pobreza já vinha de finais do século XVI, vertida na legislação elisabetiana que refletia a necessidade de criação de um sistema de assistência legal, secular e nacional. A compaixão tornara-se política pública. Beatrice Webb, em 1884, no seu diário, reconheceu que as questões sociais eram as mais importantes do mundo contemporâneo tinham substituído o papel da religião. De facto eram as religiões não anglicanas que desempenhavam papel de relevo na assistência aos pobres.

   No final do século XIX, o académico William Beveridge, lançou as ideias que serviram de base à criação do moderno Welfare State. Oriundo da alta classe média, educado em escolas de grande reputação e licenciado em Oxford, Beveridge, não se ficou pela academia, discutiu os temas da prostituição, do trabalho infantil e do desemprego e exerceu voluntariado em instituições religiosas. As suas ideias, fruto das aspirações reformistas do período vitoriano, converteram-se em propostas políticas do seu contemporâneo Clement Attlee, futuro primeiro-ministro trabalhista.

   Nos primórdios do século XX na Inglaterra, havia consenso na dissociação do apoio social de considerações de natureza moral. Com efeito, até os liberais Lloyd George e Winston Churchill defendiam a necessidade de um programa social de iniciativa governamental. Para o jovem Churchill não interessavam as causas que tinham conduzido um trabalhador à pobreza; desde que tivesse efetuado as contribuições sociais e pago o seguro contra o desemprego, tinha direitos.

   Entendimento semelhante tinha Beveridge, dissociando a moralidade individual da política social. No seu livro Unemployment: A Problem of Industry defendia que o desemprego era um problema da indústria e não dos desempregados e que a pobreza era da responsabilidade da sociedade e não dos pobres. Este conceito inspirou as reformas sociais de atribuição de pensões para os velhos, de criação de centros de apoio a desempregados, do Ato Nacional de Seguro e do Beveridge Report de 1942.

   No seu manifesto Let’s Face de Future, de 1945, o Partido Trabalhista considerava que os melhores serviços de saúde deveriam ser assegurados pelo Estado a todos os cidadãos, independentemente do seu estatuto social ou condição económica. Eliminar o estigma da pobreza dependente da caridade religiosa era o objetivo.

   O conceito de pobre foi redefinido, tendo-se alterado o limiar do correspondente rendimento e acrescentando requisitos de natureza cultural e social, de forma abarcar cada vez mais gente.

   Em Portugal foi o Estado que promoveu estudos sobre a pobreza embora de natureza restrita: “O Inquérito Industrial de 1881”, no qual colaborou Oliveira Martins, o “Inquérito sobre o Estado da Indústria da Tecelagem da Cidade do Porto e Situação dos Respetivos Operários” de 1888, o “Inquérito Agrícola: Estudos de Economia Rural da 7ª Região Agronómica” de 1889 e o “Inquérito Industrial” de 1890.

   No final do século XIX, o tema da pobreza estava na moda - até Napoleão III publicou um trabalho sobre o assunto em 1844: The extintion of Pauperism. Circularam alguns opúsculos de caráter geral limitando-se a replicar as teorias da época: J. Borges Pacheco Pereira com o título “Sobre o Pauperismo ou as Classes Indigentes da Sociedade” e J. C. Preto Pacheco com “O Pauperismo e a Associação”.


(Síntese de "Os Pobres" de Maria Filomena Mónica)

Peniche, 9 de Fevereiro de 2021

António Barreto

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Os Pobres (I)

 

   Julgo que este é um tema que preocupa quase toda a gente. A mim também. Por isso decidi aprofundar o assunto, disposto a ler tudo o que apanhar. Maria Filomena Mónica escreveu sobre os pobres - Os Pobres, a Esfera dos Livros. Acabei de o ler. Como sempre que leio qualquer das suas obras, não me arrependi. De escrita agradável, simples, respeitando os cânones gramaticais, M. Filomena Mónica, retrata, em Portugal e noutros países, em especial no Reino Unido, casos de pobreza históricos desde o século XIX; as greves dos operários da Marinha Grande, dos tecelões do Porto e da Covilhã, das conserveiras de Setúbal e dos operários em Inglaterra. Relata os factos; faz um retrato pungente do grau de indigência que se vivia nessas épocas caracterizando as populações afetadas, o tipo de habitações, onde as famílias se amontoavam, a miséria alimentar que subjugava os camponeses, a segregação social nas cidades, a repressão das autoridades e a solidariedade popular. Procurando-lhe as causas, identifica a pobreza nos dias de hoje - 2016 - e compara a forma como as ideologias atuais abordam esta temática. Oriunda de família abastada, católica, Maria Filomena Mónica, ainda adolescente, também teve o seu “pobrezinho”, à boa maneira descrita por António Alçada Batista, nas suas “Peregrinações”. Faz algumas revelações surpreendentes ao descrever a evolução salarial e do Estado Social, desde 1960 aos tempos atuais. Consciente da impossibilidade de se vencerem as desigualdades sociais não se conforma, defendendo a sociedade meritocrática em detrimento da de castas. E termina: “Sim, há pobres em Portugal. Sim, há pobres a dez minutos de minha casa, Sim, é difícil enfrentar este problema”.

   As greves de 1903 no Porto e em Setúbal em 1912 foram, para mim, revelações. Tinha uma vaga ideia da do Porto, desconhecia completamente a intensidade, dramatismo e extensão da mesma. A solidariedade para com os miseráveis tecelões e suas famílias foi notável, total na cidade, mas também dos metalúrgicos de Lisboa, de João Franco - que viria a ser nomeado por D Carlos I para formar Governo -, da população de Setúbal e até dos marinheiros do cruzador D. Carlos I. Algumas deixaram vínculo até hoje, como é o caso de Setúbal, que as gentes do Porto socorreram na revolta da Maria da Fonte com uma força, comandada pelo conde das Antas, enviada por mar e derrotada pelo duque de Saldanha.

   O caso da revolta dos operários das conserveiras de Setúbal foi, também, uma revelação. Ocorrida em plena primeira República, a promessa de democratização política não coibiu o poder instituído de reprimir barbaramente os grevistas, fazendo vítimas mortais.

Um Itinerário biográfico

  Um dos casos de segregação e pobreza relatado é o das criadas. Diz M. Filomena Mónica: “As criadas eram despachadas para destinos variados sem que alguém lhes perguntasse a opinião. Quando, em 1964, a minha irmã Isabel foi viver para Madrid, a minha mãe, “ofereceu-lhe” a Conceição, uma rapariga analfabeta recrutada na aldeia dos meus avós. Ninguém indagou se queria ir, nem quanto desejava ganhar, nem se podia voltar quando quisesse. As criadas eram seres que Deus tinha posto neste mundo para nos servir. Aliás, o tratamento que a minha família dava às criadas não era diferente do que era praticado noutras casas. Provavelmente, até era melhor. “

   Ainda sobre este tema relata uma espécie de tradição que consistia nas relações sexuais dos “meninos da casa” com as criadas, algo que não acontecera com seu irmão por ser demasiado novo na época. Já os seus amigos tentavam convencê-la de que se tratava de relações amigáveis referindo que elas gostavam de ir para a cama com eles. Esta camaradagem de machos horrorizava-a.

Os anos de 1960 e a Revolução de 1974

   As cheias de 25 de Novembro de 1967 - uma das maiores catástrofes desde o terramoto de 1755 - ocorridas na periferia de Lisboa, fizeram entre 500 a 700 vítimas, entre as quais famílias inteiras. Uma tragédia cuja difusão a Censura se encarregou de atenuar fazendo com que tivesse passado despercebida a grande parte da população. Foi aqui, entre lama e feridos, que estudantes esquerdistas e ativistas católicos contactaram pela primeira vez com a miséria.

   Foi nas longas conversas com o seu “irmão mais velho” Vasco Pulido Valente - altamente politizado e culto e que abominava o jacobinismo e pró-comunismo característicos do seu meio - que descobriu a sua vocação de esquerda, por desprezo a Salazar e à sua corte.

   Doutoranda em Oxford com a tese “Educação e Sociedade no Portugal de Salazar”, M. Filomena Mónica, ingressa no ISCTE em Março de 1974 como assistente do professor Sedas Nunes, a convite deste. Assiste aos acontecimentos da Revolução pela rádio e à queda do regime no Largo do Carmo na companhia de Vasco Pulido Valente. Em Junho, farta de aturar “meninos ricos entretidos a brincar às revoluções”, a maioria dos quais pertencente ao MES e ao MRPP, deixa a Faculdade, desistindo da ideia de se juntar aos alfabetizadores dos trasmontanos. Estava na sala de periódicos da Biblioteca Nacional por ocasião do 28 de Setembro, sem ter dado por ele. Notou então que, na oratória revolucionária nunca se falava de pobres; os baladeiros falavam de pão, paz, saúde, educação e habitação sem que alguém entendesse como isso poderia acontecer. Dum lado os operários, do outro os capitalistas destruidores da economia. Seguiram-se os saneamentos, as prisões em Caxias sem culpa formada, as fugas de alguns, de consciência pesada, para Espanha e Brasil, os assaltos dos camponeses do norte às sedes do PCP e as ocupações das herdades do Alentejo pelos assalariados rurais.

   “Nados e Criados Desiguais” foi o programa que elaborou para a RTP a convite do diretor de programas Vasco Pulido Valente, integrado na série “Gente Que nós somos” para a qual contribuíram amigos comuns. Interrompendo a investigação da sua tese, percorreu o país inteirando-se do tipo de vida de cinco famílias socialmente contrastadas. Viu gente pobre. No Alentejo uma criança, o Francisco, ia para as aulas com o pequeno-almoço feito à base de borras de café. Outro tinha de percorrer a pé sete quilómetros para chegar à escola. Alexandre - de Camarate -, Ricardo - do Barreiro -, Carlos - de Odivelas - e Luís Bernardo - de Lisboa - ficaram na sua memória para sempre.

   Retomando a bolsa de estudo em 1975 termina a tese em 1978. Nova Iorque foi o destino seguinte onde, além de algum repouso, pretendia dar aulas. Quando, no Bronx, se deparou com os sem-abrigo e com a indiferença dos transeuntes, que chegavam a passar por cima deles sem notar, compreendeu que, num país que durante séculos cultivara o sonho americano, a pobreza era vista, “não como uma desgraça, mas como um falhanço moral”. Um paradoxo inimaginável no século XX: como era possível, num país onde circulava tanto dinheiro que houvesse tanta pobreza? The Other America, de Michael Harringhton, publicado em 1962 chocou a sociedade americana e o seu Presidente, John F. Kennedy, com a revelação da existência no país de 40 a 50 milhões de pobres. Os negros, muitos deles descendentes de escravos, eram as principais vítimas, preteridos ou excluídos dos mecanismos de proteção social. Contrariamente à realidade europeia, aqui era fácil identificar “as duas américas”; os protestantes anglo-saxónicos consideravam-se destinados por Deus para mandar. Os negros tinham sido importados de África para os servir!

   A controvérsia, nos EUA acerca das causas da pobreza durava há dois séculos. A ideia dominante era a de que, esta, tinha origem nas deficiências pessoais dos trabalhadores e não nos baixos salários, na descriminação ou na exploração. O conceito de pobreza deixou então de estar associado a um limiar de satisfação de necessidades básicas para se fixar na ideia de “pobreza relativa”. Os sociólogos consideravam que havia pessoas que se consideravam pobres por não terem acesso a bens a que julgavam ter direito. Assim, a pobreza ficava associada a “estilo de vida” e à ideia de que havia pobres “respeitáveis” e “não respeitáveis”.

   A “Grande Depressão” de 1930 conduziu à intervenção do Estado na assistência social. Foi então implementado um sistema misto, público e privado, não universal, incoerente e irracional. À campanha de “guerra à pobreza” nos anos de 1960, seguiu-se a da “guerra à assistência” de 1980. Nenhuma delas surtiu efeito. Embora se tivesse verificado uma ligeira melhoria nas condições de vida dos pobres, em termos relativos, piorou. Em 35 anos, o rendimento de 1 % da população duplicou, atingindo cerca de 20 % do rendimento nacional! Enquanto os ricos estavam imensamente mais ricos, os pobres apenas viram ligeiramente melhorada a sua condição. Em 2014, segundo a UNICEF, um terço das crianças americanas eram consideradas pobres; as respetivas famílias, de quatro membros, viviam com menos de 24000$ USD anuais.

   Regressando a Portugal M. Filomena Mónica vota pela primeira vez nas eleições de 25 de Abril de 1975. Escolhe o partido socialista apesar de o considerar demasiado à direita. No seu bairro, gostou de ver ricos e pobres a votar. A universalidade do voto foi tema de discussão familiar. Tema ainda atual, havendo quem considere inadequado um analfabeto ter o mesmo direito a voto que um doutorado. Tal como sucedia no século XVIII ainda há quem pense que os pobres não sofrem. De facto, só quem passa por carências idênticas, ou convive de muito perto com eles, os pode compreender.

   Compreendeu-a George Orwell na reportagem que, durante os anos de 1930, fez em Inglaterra, nas comunidades mineiras de Lancashire e de Yorkshire, escrevendo, ao deixar a comunidade: “Através daquele cenário monstruoso, formado por montículos de carvão, chaminés, pilhas de sucata, canais malcheirosos e caminhos de lama cobertos por cinza, onde ainda se viam as marcas deixadas pelos tamancos, o comboio levava-me para longe (….) À medida que nos movíamos, devagarinho, pelos arrabaldes da cidade, íamos vendo filas e filas de casas pobres, pequenas e cinzentas, dispostas em ângulo reto em relação ao viaduto. Nas traseiras de uma dessas casas, uma jovem rapariga estava de joelhos sobre umas pedras, enfiando um pau pelo cano de esgoto de chumbo, presumivelmente entupido, que vinha do interior da casa. Tive tempo de reparar nela: no seu avental de serapilheira, nos seus tamancos rudes, nos seus braços avermelhados pelo frio. Ela olhou para cima, em direção ao comboio que passava e tão perto estava que quase consegui captar o seu olhar. Tinha uma face redonda e pálida e a cara habitualmente exausta das raparigas destes bairros, as quais, à força de abortos e de cansaço, apesar de terem apenas vinte e cinco anos parecem ter quarenta (…) O que vi no seu rosto não foi o sofrimento ignaro de um animal. A rapariga sabia perfeitamente o que lhe estava acontecer: sabia, tal como eu, quão terrível era o destino que a obrigava a estar ali, sob o frio, ajoelhada nas pedras escorregadias de umas traseiras domésticas, tentando meter um pau no interior de um esgoto nojento.” Poucos escreveram sobre os pobres como George Orwell. Aqueles sempre souberam o que lhes estava e está a acontecer.        

    M. Filomena Mónica

Peniche, 24 de Janeiro de 2021

   António Barreto

   (Continua)

sábado, 9 de janeiro de 2021

Curiosidades da História de Portugal

 Curiosidades:

Como os agricultores sustentavam as elites do Antigo Regime (Monarquia absolutista pré-revolução liberal)

"As dimensões referidas inscreviam-se num conjunto de dispositivos jurídicos específicos que podem ser definidos como a ordem fundiária do Antigo Regime, a qual se reputaria incompatível com o direito civil que o liberalismo pretendeu consagrar. Neste conspecto institucional, incluíam-se, em primeiro lugar, específicas formas de tributação, ou seja, um conjunto de direitos sobre a produção agrícola que os discursos reformista e liberal, de acordo com os próprios conceitos, entenderão como impostos recebidos por particulares. À cabeça vinha, claro, o dízimo eclesiástico, em princípio um décimo de toda a produção agrícola bruta do reino e ilhas. Originariamente, o "Dízimo a Deus" destinava-se ao sustento do clero, mas a verdade é que parcelas dos dízimos podiam ser apropriadas por uma multiplicidade de instituições e indivíduos, entre os quais, além dos párocos, podiam estar a Coroa, o Papado, mitras, cabidos, mosteiros e algumas centenas de seculares, em larga medida através de comendas das ordens militares.
(História Social Contemporânea, Nuno Gonçalo Monteiro em a Revolução Liberal)

Cruzados


Peniche 09 de Janeiro de 2021
António Barreto

domingo, 3 de janeiro de 2021

Benfica 2021

Chegado o mês de Janeiro, a equipa do Benfica está muito aquém da espetativa criada com o regresso de Jorge Jesus. O futebol de ataque, coordenado, versátil, rápido e criativo ainda não chegou. Pelo contrário, não se vislumbra um modelo de jogo. A disciplina posicional, a articulação dinâmica coletiva, a intensidade e a qualidade de passe, são erráticas. Os resultados são escassos; perdida a entrada na Liga dos campeões deixou-se escapar o primeiro troféu da época, a Supertaça. Ainda na disputa da Taça de Portugal e da Taça da Liga, as aspirações à vitória no campeonato permanecem intactas, mas as expetativas baixaram. Sendo inatacável a competência de Jorge Jesus e avultado o investimento em novos jogadores, alguns deles credenciados, como poderá explicar-se a instabilidade competitiva da equipa?

   Antes de mais há que perceber o impacto no treinador resultante da mudança a que se sujeitou. Jorge Jesus atingiu os píncaros da popularidade no Brasil graças à invulgar sucessão de êxitos, entre os quais a desejada Taça Libertadores. Treinador de uma equipa competitiva, o Flamengo, admirado em todo o Brasil, consagrado internacionalmente, Jorge Jesus regressa a um campeonato paroquial, falido, onde abundam e permanecem as velhas e saloias picardias. Com as espetativas de consagração internacional fragilizadas e agravadas pela instabilidade diretiva que se verifica no clube de destino, o Benfica, é natural a emergência dum certo desencantamento e, talvez até, arrependimento. Inevitavelmente, o estado de deslumbramento com que vinha chocou com a mediocridade do estado da arte no velho Portugal e isso refletiu-se no seu ânimo. Talvez Jorge Jesus careça de motivação. Não sei se o atual Benfica e o futebol nacional estará à altura das suas espetativas.

   Em segundo lugar está a construir-se uma equipa nova; todos os setores estão em reconstrução. Poucos são os jogadores titulares que transitaram: Odisseyas, Grimaldo, André Almeida, Pizzi, Gabriel, Taarabt e Rafa, sendo que Grimaldo acaba de regressar de lesão, André Almeida continua lesionado, e Gabriel, após recuperar de lesão, contraiu o vírus, tal como sucedeu a Pizzi e Darwin em plenitude de forma. A agravar tudo isso, um calendário desportivo exigente, no clube e nas seleções, retira, ao grupo, disponibilidade para o treino.

   Em terceiro lugar os efeitos da pandemia estão a revelar-se particularmente nefastos para o Benfica, diretamente, afetando jogadores nucleares em momentos chave, como foi o caso de Pizzi e Gabriel, em vésperas de jogo com o Porto, e indiretamente, retirando ao coletivo o fator motivacional resultante da ausência de público.

   Em quarto lugar neste momento o Benfica carece de liderança eficaz. Com uma situação económico-financeira equilibrada a política de comunicação do clube peca por ausente. Graças a esta política, mantida ao longo dos últimos anos, o espaço público foi totalmente dominados pelos rivais e outros detratores. Ora, se é verdade que só equipas competitivas ganham campeonatos, também é verdade que, no atual contexto do futebol português, isso não é suficiente. Há muito jogo fora das quatro linhas e a vários níveis, começando pelas instituições que supervisionam o futebol, onde a transparência é uma ficção e a atitude persecutória ao Benfica é um facto indesmentível.

   Envolto em sucessivos escândalos bancários e judiciais, limitado por múltiplas idiossincrasias, Filipe Vieira é hoje uma pessoa fragilizada perante a opinião pública e grande parte dos benfiquistas, cada vez mais isolado, sem autoridade moral para travar a batalha ética de que o Benfica e o futebol nacional carecem. Tais circunstâncias criaram um ambiente desfavorável, acentuado pela humilhação do fracasso da contratação do Cavani.  As más exibições e os insucessos desportivos imediatos poderão criar um ambiente depressivo que, inevitavelmente, afetará o grupo de trabalho, com possibilidade de emergência de um novo ciclo vicioso. Julgo mesmo que estamos nessa fronteira.

    O destino imediato do Benfica reside na capacidade do seu atual treinador reinventar e consolidar o futebol da equipa, e da competência da tão enaltecida estrutura suprimir a contento, no mercado de Janeiro, as posições de que a equipa carece. Desta vez não há margem de erro.

Peniche, 3 de Janeiro de 2021

António Barreto             

domingo, 13 de dezembro de 2020

USA - Eleições 2020 (V)

 Economia

  A análise económica do mandato da administração Trump deve dividir-se em dois períodos, o pré-covid - de 2016 até março de 2020 - e o pós-covid - ainda em curso.

A derrocada económica, vaticinada pelos detratores de D. Trump, resultante da sua ascensão à presidência dos EUA, não só não se verificou, como manteve ou superou os indicadores do mandato anterior, no primeiro período. No segundo período verificou-se o maior colapso económico dos últimos 80 anos, nos EUA.

Vejamos o que nos diz a análise da BBC Brasil realizado em 27 de Setembro de 2020, a partir dos relatórios do Escritório de Análise Económica dos EUA:

   O crescimento económico médio anual dos primeiros três anos do mandato de D. Trump foi de 2,5 % contra 2,3 % dos últimos três anos do mandato anterior, sendo que, neste, em meados de 2014 se verificou um crescimento de 5,5 %. Em abril, maio e Junho verificou-se uma contração superior a 30 %; três vezes superior à que se verificou em 1958! Se tal ocorreu apesar da recusa de D. Trump em adotar o confinamento geral, não custa supor que teria sido bem pior se tivesse feito o contrário. Contudo, a recuperação económica tem ocorrido com grande rapidez, estimando-se, no final do ano, uma retração do PIB próxima dos 3 %! Cerca de 1/3 da que se verifica, em média, na Europa, para o ano em curso. Certo também é que, nos últimos 50 anos, houve períodos de maior crescimento do que o que ocorreu na fase pré-covid.

   Quanto aos mercados financeiros, nomeadamente S&P 500, apesar da queda abruta do início de 2020, apresenta uma valorização de cerca de 14 % neste ano até à data e um total de 83 % desde 2016. Já o desempenho do Nasdaq é bem superior, cum uma valorização em 2020 e atá à data de cerca de 30 % e de 171 % desde 2016! Um desempenho sem paralelo na Europa, com todas as bolsas negativas em 2020, enquanto a oriente os índices são os índices chineses que mais se aproximam: Nikkei (13,1 % ytd), CSI 300 (24,1 % ytd), Kospi (24,2 % ytd), Sensex (9,3 % ytd), e BIST 30 (5,3 % ytd). Tal desempenho revela que os mercados confiam nas ideias de D. Trump.

   Relativamente à taxa de desemprego, de 3, 5 % antes da pandemia, era a mais baixa dos últimos 50 anos. Mas é verdade que nos últimos três anos de mandato de Obama foram criados 7 milhões de postos de trabalhos enquanto nos primeiros 3 anos do mandato de Obama foram criados “apenas” 6,4 milhões. Com a pandemia a taxa de desemprego disparou para 14,7 % em abril - a mais alta desde a Grande Depressão de 1930 - tendo sido destruídos, num só mês, cerca de 20 milhões de postos de trabalho, anulando uma década de criação de emprego. Em agosto porém, a taxa de desemprego já estava em 8,4 %, confirmando a rapidez da recuperação económica.

   Os salários médios por hora no mandato de D. Trump mantiveram a tendência de subida iniciada no primeiro mandato de Obama, com uma média anual de 2,1 % naquele e de 2,4 % deste. O efeito da pandemia provocou um aumento abruto dos salários devido ao desemprego dos trabalhadores de baixas qualificações, voltando a baixar logo que se iniciou a recuperação económica, com o regresso daqueles ao trabalho.

   Apesar de ter sido em 1966 sob o mandato de Lyndon B. Johnson que se verificou a maior redução de pobres num só ano - 4,7 milhões de pessoas -, contra 4,2 milhões em 2019, é verdade que foi no mandato de D. Trump que se atingiu o mais baixo índice de pobreza dos últimos 50 anos, 10,5 %, desconhecendo-se ainda a evolução resultante da crise pandémica. Sucede porém que se verifica grande assimetria étnica no que diz respeito à população pobre, com cerca de 18,8 % para americanos negros e de 7,3 % para americanos brancos não latinos.

Conclusão

    Donald Trump é um outsider, um corpo estranho na cena política, rejeitado até por alguns setores do seu próprio partido. Oriundo do mundo empresarial representa uma reação inorgânica da sociedade civil contra o status quo partidário vigente. É visto como uma ameaça pelo espetro político estabelecido, sobretudo pelo setor progressista, este divorciado do país profundo. Apesar do seu estilo algo patético, por vezes grotesco, com uma linguagem imprudente, direta às vezes incendiária, D. Trump tem uma ideia para o país assente nos valores tradicionais, na família, na moral cristã, na segurança, no trabalho e na Pátria. Relativiza a vertente imperialista dos EUA iniciada em 1945, privilegia o comércio internacional baseado no equilíbrio das trocas, defende maior cooperação ativa dos aliados militares naturais, abomina as dinâmicas políticas e económicas prevalecentes assentes na teoria do Aquecimento Global, empenha-se na causa ambiental privilegiando o gás natural e de xisto, denuncia e combate frontalmente os promotores do terrorismo global. A apoiá-lo tem uma vasta população que já não se sente representada pelos partidos tradicionais. As notícias de fraude eleitoral no processo ainda em curso, a confirmarem-se, significarão, o início do último estertor das democracias representativas multipartidárias e o advento de novas ditaduras ou de regimes democráticos de representação direta alcançáveis a partir dos meios proporcionados pelas novas tecnologias tal como revelam alguns estudos do MIT (Massachusetts, Institute Technology).


Fim.

 Peniche, 8 de Dezembro de 2020

António Barreto

sábado, 12 de dezembro de 2020

USA - Eleições 2020 (V)

 Sistema de saúde

   Crítico da política de saúde do seu antecessor, D. Trump introduziu-lhe, gradualmente, algumas alterações. Nem Obama tinha instituído um sistema de saúde público e universal, nem D. Trump reverteu todas as alterações introduzidas no seu mandato. O sistema de saúde americano, ineficiente, dispendioso e insuficiente, é complexo; não há um sistema público universal, nunca houve, apesar de algumas tentativas, nomeadamente no mandato de Roosevelt - de 1933 a 1945 -, inviabilizadas pelos partidos democrata e republicano. O sistema de saúde americano é eminentemente privado, consistindo na contratualização particular de planos de saúde. Contudo tem uma dimensão pública através dos programas designados por Medicare e Medicaid. O plano Medicare, criado em 1966 e financiado pelo governo federal, destina-se a cidadãos com mais de 65 anos, que tenham descontado para o sistema de previdência durante a sua vida ativa, e pessoas incapacitadas para o trabalho, com serviços diferenciados em função do perfil de cada cidadão. O plano Medicaid destina-se a pessoas de qualquer idade em condição de carência de recursos sendo financiado pelo Governo Federal e pelos Estados, que pagam diretamente aos prestadores dos serviços os atos médicos correspondentes. Neste sistema, os Estados têm plena autonomia para definir modelos próprios, havendo, por todo o território, clínicas e hospitais públicos e privados. A contratação de seguros de saúde privados é efetuada maioritariamente no âmbito empresarial, já que, grande parte dos cidadãos não têm recursos disponíveis para o fazer. Em 2007, 46 milhões de pessoas não tinham seguros de saúde; graças ao plano Obamacare esse número foi reduzindo gradualmente até atingir os 28 milhões em 2016. O drama são os elevados custos envolvidos que podem levar à ruina de quem não tenha contratos de seguro nem seja abrangido por um dos sistemas públicos já referidos - o tratamento de uma perna partida pode atingir os $7500,00, enquanto a diária num hospital é de $10000,00 aproximadamente.

   Tendo, em 2009, ascendido a $676 bilhões os encargos públicos com os planos Medicare e Medicaid, previa-se a duplicação dos mesmos no ano 2000. O plano Patient Protection and Affordable Care Act (PPACA ou, em português, “Lei de Proteção e Cuidados Acessível ao Paciente”), conhecido popularmente como Obamacare, instituído em março de 2010, tinha por objetivo primordial reduzir os custos públicos com a saúde, impondo a todos os americanos a obrigatoriedade de contratualização de planos de seguro privados. Alargou-se o plano Medicaid a mais 15 milhões de cidadãos subsidiando os correspondentes encargos a todas as pessoas com rendimentos anuais até 4 vezes o salário de pobreza aplicável. Aos jovens até aos 26 anos foi garantido acesso aos planos de saúde dos respetivos pais. Todas as empresas com mais de 50 trabalhadores foram obrigadas a contratualizar seguros de saúde para os respetivos trabalhadores. A todas as outras que fizessem o mesmo foram oferecidos benefícios fiscais. Em 2014 foi atribuída uma taxa anual de $95,00 aplicável a todas as pessoas que não tivessem seguro de saúde, agravada para $696 em 2016. Simultaneamente legislou-se impedindo os abusos das seguradoras, nomeadamente de rejeição da contratualização com pessoas com doenças crónicas, ou da cessação do respetivo seguro em caso de contração de doença. Finalmente foi criado um portal público, o Healthcare, que garante a qualquer cidadão a contratualização de um plano de seguro nunca superior a 9,5 % do respetivo rendimento mensal.

   As críticas apontadas ao Obamacare, nomeadamente pelo partido Republicano, traduzem-se na discordância da obrigatoriedade de contratualização universal de planos de seguro, na comparticipação das despesas pelos cidadãos e nas restrições da cobertura impostas pelas companhias seguradoras. Como consequência boa parte dos cidadãos acaba por não ativar os seguros para evitar o agravamento dos correspondentes encargos, inviabilizando o pretendido efeito de prevenção.

   Ao assumir a Presidência em 2017, D. Trump criou o Trumpcare, acabando, em finais de 2017, com a multa por falta de plano de saúde, assim como com a obrigatoriedade de aquisição de seguros por parte das empresas para os seus trabalhadores. Contudo, manteve em vigor o Obamacare, incluindo o Healthcare e o acesso aos planos de saúde dos pais, de pessoas até 26 anos. Por esta ocasião estava ainda na agenda a permissão às seguradoras da flexibilização das condições contratuais.

   Há, nos Estados Unidos, um consenso geral acerca da necessidade de melhorar o sistema de saúde, extremamente dispendioso e ineficiente - com um encargo de cerca de $6000,00 per capita - mas um profundo desacordo quanto à forma de o fazer, por razões eminentemente culturais, em que uma parte da comunidade política, de matriz conservadora, defende o não envolvimento do Estado nesta matéria.

Geopolítica

 O temor inicial segundo o qual o ar truculento e fanfarrão de D. Trump iria provocar uma guerra em larga escala, não se concretizou. O recurso à guerra é um estratagema que alguns líderes mundiais têm usado para atenuar a crítica interna, unindo os cidadãos em torno de uma ameaça, supostamente comum. Tal sucedeu com alguns dos seus antecessores, desde Obama aos Bush. Mas também na Europa, como é o caso, mais recente, do envolvimento da França e Inglaterra na guerra da Síria, pelas mãos de Hollande e de David Cameron. A administração Trump não só não envolveu os americanos em nenhum novo conflito militar como acabou por retirar as suas tropas da Síria apesar da inegável importância estratégica deste país na região. Aliada histórica da Rússia e do Irão, plataforma de expansão do islamismo xiita e do controle de largas reservas de petróleo, o regime totalitário de Bashar al-Assad é um permanente foco desestabilizador na região, em especial no Líbano, um país outrora democrático e próspero e hoje pouco mais que um país falhado. Na guerra do Afeganistão, iniciada em 2001 por George W Bush, em retaliação pelo atentado de 11 de Setembro, nem Obama nem Trump lograram conseguir a retirada total das tropas americanas - Obama iniciou o processo de redução de tropas desde 150 mil até 8,5 mil homens - apesar de tal constar nos correspondentes programas eleitorais. Pelo contrário, D. Trump, ainda reforçou o contingente americano com mais 3 mil soldados; contudo, em 2018, este, assinou um acordo de paz com os Talibans. A guerra prossegue nos dias de hoje no Afeganistão, um país à beira da indigência - 169º no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

   No caso da Coreia do Norte, apesar do desdém com que têm sido consideradas as iniciativas políticas de D. Trump pelos seus detratores, a realidade é que este conseguiu sentar à mesa das negociações Kim Jong-un, primeiro com os EUA depois com a Coreia do Sul. Algo que nenhum outro esteve sequer perto de conseguir e que atenuou drasticamente a ameaça permanente da eminência de um conflito nuclear em larga escala. Uma tremenda vitória da administração Trump. Esta, por outro lado, não hesitou em manter-se fiel ao Governo de Israel, reconhecendo a sua nova Capital, Jerusalém. Tal não obviou a improvável adesão ao seu Acordo de Paz para a região, do Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Algo cuja relevância só de má-fé pode ser negada. Relativamente ao Irão, descrente da sua boa-fé no acordo de desagregação do seu plano nuclear, denunciou-o frontalmente, retirando-se do processo de acompanhamento. O futuro dirá da bondade desta estratégia. Por mim, confio menos na da EU, que parece estar amedrontada, a ser enganada e chantageada. D. Trump demonstrou, neste caso, que não é cobarde, nem irresponsável, uma vez que não tomou qualquer iniciativa militar além de dissuasora. Relativamente à UE, a política da administração Trump pautou-se pela crispação, com a exigência de maior envolvimento daquela nas despesas militares da OTAN, mas também devido às diferenças de abordagem das questões iraniana, da imigração e do Brexit. Sendo a Europa e os EUA aliados militares naturais, a concorrência no plano económico é fonte permanente duma certa hostilidade entre ambos, seja com D. Trump, com Obama ou com Biden. A invasão migratória que tem ocorrido na Europa e que ameaça desagrega-la foi espoletada pela guerra da Síria, iniciada pela Administração Obama e alimentada pela Rússia, esta interessada em retaliar pelo boicote económico imposto por Angela Merkel.



Peniche 8 de Dezembro de 2020

António Barreto

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

USA - Eleições 2020 (IV)

 As políticas

   D. Trump definiu-se como conservador, nacionalista, defensor da família tradicional, dos valores cristãos, do liberalismo económico e do mercantilismo.

Imperialismo

   Anti-globalista defende o mercantilismo, o comércio internacional com regulação. É interessante verificar como muitos dos que censuram o imperialismo americano passaram a acusar D. Trump de, com o seu nacionalismo, deixar os seus aliados externos sem referências abrindo espaço geoestratégico ao avanço de potências não democráticas; a russa e a chinesa. É certo que a abertura económica é fonte de progresso e tem contribuído decisivamente para a erradicação da pobreza no mundo. Mas também é verdade que o desequilíbrio da razão de troca agrava a desigualdade entre países pobres e ricos, perpetuando a dependência daqueles relativamente a estes. Desse mal ainda padece Portugal por, no século XVIII ter feito um acordo de comércio com o Reino Unido - o Tratado de Methuen assinado em de 27 de Dezembro de 1703 também conhecido por tratado de panos e vinhos -, mediante o qual Portugal prometeu comprar os tecidos ao Reino Unido (RU) - o maior produtor mundial de tecidos da época – e, este, os vinhos a Portugal. David Ricardo, o lendário economista da época, demonstrou então como ambas as partes ganhavam com o negócio; simplesmente a razão de troca era desfavorável a Portugal - de 1 para 3 -, enquanto a do RU era de 1 para 5! O resultado traduziu-se no empobrecimento relativo de Portugal e no atraso da sua industrialização, de que ainda hoje padecemos. Também não deve perder-se de vista que alguns historiadores consideram a política económica nacionalista de Roosevelt uma das causas da 2ª GM, por impossibilitar à Alemanha os recursos de que necessitava para pagar as astronómicas indemnizações de guerra que lhe foram impostas no Tratado de Versaillhes em 28 de Junho de 1919. Tudo ponderado, considerando ainda o agravamento da dívida externa - atualmente cerca de 100 % do PIB - e do défice orçamental - atualmente, cerca de 5 % do PIB - dos EUA em razão da crise de 2008 e da política de desagravamento fiscal de D. Trump, não é destituído de senso que a sua administração procure inclinar a balança externa a seu favor atuando nas pautas alfandegárias e cambiais relativamente aos principais parceiros, em especial a China. Trata-se, afinal e sobretudo, de travar a desindustrialização do país e consequente desemprego que se tem verificado nas últimas décadas devido à deslocalização empresarial. A sabedoria reside na capacidade de encontrar o equilíbrio de interesses. A tudo isto acresce a perceção geral de que a globalização é um veículo político e económico para a instauração dum governo mundial gizado e controlado pela ONU graças à maioria socialista dos seus membros controlados pela China. Um propósito cujos contornos ganham nitidez a partir das repetidas e explícitas declarações do socialista António Guterres concordantes com a conhecida aspiração imperialista da 2ª Internacional e do Império do Meio.

Aquecimento Global

   Crítico do Acordo de Paris, D. Trump deu prioridade à energia de origem fóssil em detrimento da renovável, propondo-se atingir os objetivos de redução de emissões de CO2 por outras vias. Sustenta-se no parecer científico, historicamente comprovado, segundo o qual as alterações climáticas são naturais e que o impacto do aumento da concentração de CO2 na temperatura ambiente, sendo marginal, é, sobretudo, consequência do aumento de temperatura dos oceanos e não causa do mesmo. Este tema engloba quatro questões; a energética, a económica, a política e a geoestratégica. Com a implementação da tecnologia do fracionamento - desenvolvida nos EUA - na prospeção e exploração do petróleo e gás - natural e de xisto -, os EUA, que são os maiores consumidores mundiais de petróleo, passaram, também, a ser os maiores produtores mundiais, com baixos custos de produção unitários. De importadores de produtos petrolíferos passaram a exportadores dos mesmos. Esta alteração retirou à OPEP o poder de controlo das economias ocidentais através do controlo do principal fator de produção; a energia. Deve-se à evolução tecnológica dos EUA - ocorrida sob a presidência de Obama - os baixos preços do petróleo nos mercados internacionais - uma grande ajuda para países energeticamente dependentes como Portugal. A vertente geoestratégica está ainda bem patente relativamente à União Europeia (UE) uma vez que esta aposta, determinadamente, nas energias renováveis, sujeitando-se à perda de competitividade da sua economia devido ao agravamento dos custos unitários de produção. Finalmente a questão política reside no facto de a causa ambiental, propulsionada pela ONU, ter sido “apropriada” pelos partidos de matriz socialista com o propósito de identificar, isolar e combater os regimes capitalistas. Um dever de convocação planetária cuja solução só parece alcançável com o fim do capitalismo! Como se as ideias maniqueístas não estivessem testadas pela História.

Imigração

   Contrário à política de fronteiras abertas D. Trump proibiu a imigração de países com histórico de envolvimento em atividades terroristas - com exceções - e impôs o controlo rigoroso do fluxo migratório pelo sul, de matriz eminentemente mexicana. Os EUA enfrentam o drama demográfico característico dos países desenvolvidos tipificado na fase quatro da Teoria da Transição Demográfica (TTD). Com uma população de cerca de 330 milhões de habitantes - 12, 7 % das quais nascidas no estrangeiro, 11,3 % de origem mexicana, 12,3 % de afro-americanos e uma taxa de reposição de 1,82 -, a sua estrutura demográfica encontra-se num processo de envelhecimento e reconfiguração étnica. O México, com cerca de 123 milhões de habitantes - o 3º mais populoso das américas, com uma taxa de reposição de 2,1, encontrando-se na 3ª fase da TTD - contribui, anualmente, com cerca de 1,2 milhões de emigrantes maioritariamente ilegais. Nesta cadência, em menos de 20 anos a população de origem mexicana ascenderá a cerca de 50 milhões, quase 15 % do total da população americana atual - e cerca de 40 % da população mexicana atual total. Esta reconfiguração social conduzirá ao inevitável agravamento conflitos sociais e políticos no país. Contudo, com a taxa de reposição da população no limiar da neutralidade e em queda no México, o fluxo migratório mexicano tenderá a diminuir. Note-se porém que os Estados Unidos têm uma dívida de gratidão para com o México que, por ocasião das duas guerras mundiais lhes forneceu a mão-de-obra de que a sua economia carecia. Por outro lado vigora entre os dois países um acordo de livre comércio entre as cidades fronteiriças. Finalmente, há, no México, uma comunidade de cerca de um milhão de cidadãos americanos. Com Presidente conservador ou democrata, com mais ou menos discrição, a política de emigração dos USA será tendencialmente de contenção acompanhada de incentivos à natalidade. É no entanto provável que os democratas apostem no incremento migratório como forma de alterar a seu favor o impasse eleitoral que se tem verificado no país nos últimos anos. A demonstrá-lo está o diferendo entre democratas e republicanos em vésperas do ato eleitoral, em que estes defenderam a exclusão dos imigrantes ilegais dos cadernos eleitorais e aqueles o contrário. Por outro lado D. Trump defende a prioridade de acesso à carta verde aos imigrantes mais qualificados em vez do modelo em vigor que privilegia a reunião familiar. Está em causa não só o impacto económico do contributo imigratório mas, sobretudo, o impacto político. Por outro lado, também a administração Obama repatriou de imigrantes ilegais, incluindo dezenas de milhar de crianças - para cujo efeito a sua administração chegou a pedir aprovação de financiamento ao Congresso - e se desenvolveram políticas de combate aos traficantes envolvidos no fenómeno da imigração.



Peniche, 8 de Dezembro de 2020

António Barreto

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

USA - Eleições 2020 (III)

 As castas

   A supressão dos privilégios da aristocracia e do clero, característicos das monarquias, pelos regimes republicanos - fundados na tripla utopia, liberdade, igualdade e fraternidade -, não obstou à emergência de novas castas e correspondente cortejo de privilégios. Castas relacionadas com a esfera partidária, judicial, militar, económica e do alto funcionalismo público. A desigualdade começa aqui, desacredita a República e a democracia, perpetua-se e tende a agravar-se com as sucessivas gerações. A casta partidária, geralmente instalada na administração pública e com acesso às instâncias de poder, atribui-se a exclusividade da representatividade política. A ascensão política extemporânea de D. Trump, um outsider pragmático, financeiramente independente, oriundo da sociedade civil, vinculado à defesa dos interesses da América profunda, contra os poderes instalados, fez soar o alarme, não só entre o partido oponente como no interior do seu próprio partido. A sua lógica fora do filtro partidário suscitou compulsivas reações hostis radicadas no medo da perda de privilégios e de poder. A sua figura grotesca, o ar desajeitado, o discurso meio desarticulado e um passado social e económico polémico, forneceram pasto abundante à maledicência dos adversários. Ao bom estilo socrático, a uma figura caricatural, diabólica, está vedada a produção de boas ideias. Como tal nem vale a pena discuti-las. Apenas afastar a criatura para bem longe, catalogando os seus apoiantes com a habitual parafernália de epítetos vexatórios; estúpidos, incultos, ignorantes, atrasados, etc..

O Declínio dos Candidatos

    Um breve olhar pelos Presidentes dos EUA dos últimos 50 anos permite constatar um declínio dos respetivos perfis. Neste ato eleitoral chegam ser patéticas as mútuas acusações de incompetência dos candidatos, inclusive entre membros dos respetivos partidos. Se D. Trump é considerado rude e boçal, J. Biden é apelidado de senil, taralhouco. Nenhum destes classificativos seria aplicável a Ronald Reagan, Bill Clinton, George H. W. Bush ou Obama. Parece haver um estranho mecanismo na democracia americana, a confirmar a velha máxima de Adam Smith, segundo o qual a má moeda afasta a boa moeda. Mais uma vez trata-se de uma característica de quase todas as democracias, visível em Portugal, Espanha, França, Reino Unido e Itália onde se tem assistido a fenómenos idênticos, seja emergindo do seio dos partidos de poder, seja na sequência da emergência de novos partidos. Talvez o jogo democrático tenha resvalado para uma espécie de aviltamento que afasta as verdadeiras elites da causa pública. E isso constitui uma ameaça às democracias.

Forma e conteúdo

   Diz o bom povo; “As aparências iludem” e “quem vê caras não vê corações”, aforismos que permanecem atuais em qualquer vertente da atividade humana e em particular na política, essa arte simultaneamente nobre e aviltante da persuasão. A forma precede o conteúdo. Vê-se por todo o lado e em todo o lado. Viu-se exuberantemente, exageradamente, despudoradamente, com D. Trump, nos Estados Unidos, mas também em Portugal. A sua figura meio grotesca, meio patética, a sua retórica rudimentar, direta, proporcionaram vasto campo de enxovalhamento pessoal. Nenhuma boa ideia poderia sair de figura tão repugnante. Um conceito puramente nazi. Choveram acusações de todo o género; de corrupção, de traição ao país, de racismo, de xenofobia, de homofobia, de machismo, de violação, etc. etc. Pelo Frankenistein que ocupava a Casa Branca todas as monstruosidade eram praticáveis e prováveis. Raramente se encontrava uma análise crítica exaustiva ao seu programa de governo nos meios de comunicação social. Especialmente em Portugal. A tática é simples e recorrente; desacreditando-se a pessoa desacreditam-se as suas propostas evitando-se o confronto de ideias cujo resultado pode ser o contrário ao pretendido.

Peniche, 8 de Dezembro de 2020

António Barreto

domingo, 6 de dezembro de 2020

USA - Eleições 2020 (II)

 O quarto poder

 Há um consenso acerca da influência da Comunicação Social nas democracias a ponto de ser considerada como o 4º Poder. Um poder informal mas real e fácil de compreender. Em democracia - um homem um voto - o espaço público é o local privilegiado de debate e formação da opinião pública, das convicções do eleitor, daí a importância de comunicação social. Importância crescente devido à proliferação de plataformas e órgãos de informação, aumento da frequência de emissões e publicações e alargamento do nível de escolaridade das populações. E é por isso que muitos a consideram, não o quarto, mas o primeiro poder! Nunca tal foi tão evidente para mim como nestas eleições; a declaração de vitória de Joe Biden pela CNN, primeira entidade a fazê-lo, com as urnas ainda em alvoroço e a comoção do anunciante, denunciam a guerra que a Comunicação Social, maioritariamente democrata, travou contra o Presidente Republicano durante todo o mandato. Não o posso afirmar, ninguém poderá fazê-lo, mas pergunto-me se não terá sido a Comunicação Social americana a decidir estas eleições. E se foi desvirtuou um regime onde cabe aos eleitores o primado da soberania política. Uma democracia desvirtuada não é democracia.

A tribalização política

   A degradação do diálogo político interpartidário, fonte da criação de uma sociedade mais justa e próspera esteve francamente exposta durante todo o mandato de D. Trump. Os partidos entrincheiraram-se nas suas posições e passaram a considerá-las abomináveis quando adotadas pelo oponente. Ignóbeis e absurdos ataques pessoais perpetraram-se continuadamente, dum e doutro lado da barricada, deixando de fora os grandes temas da nação. A insana e irracional luta pelo poder sobrepôs-se a todas as regras de boa conduta democrática, dominando tudo e todos. Um fenómeno que não é exclusivo dos EUA mas característico da maioria das democracias, comprometendo-as. Ou evoluem ou morrerão. O monopólio partidário da representação política está em causa.  

O Poder da Rua

   O ativismo inundou a rua em toda a legislatura, com inúmeras e violentas manifestações de minorias reivindicando direitos, amplificando e extrapolando qualquer acontecimento negativo transformando-o em tragédia sociai coletiva. Exigiu-se a destituição de órgãos legítimos vigentes. Imputou-se-lhes a responsabilidade de todas as iniquidades sociais e económicas. Reivindicou-se a legitimidade da ação direta. Criou-se um estado de pré-guerra civil condicionando e bloqueando a governação sufragada democraticamente. Tudo ocorreu num contexto de progresso económico notável, de pleno emprego e de integração das minorias. O poder da rua, pré-revolucionário, atribui-se legitimidade própria pretendendo sobrepor-se à legitimidade do poder democrático. A entropia política e social foi uma constante, internacionalizou-se e pôs em causa a legitimidade dos centros de poder. A anarquia social estabeleceu-se, alimentada pelo partido derrotado anteriormente e, suspeita-se, por entidades externas empenhadas na permanente luta pelo domínio geoestratégico. O direito de manifestação, em muitos casos, extravasou as prorrogativas legalmente consagradas. Um fenómeno que se verifica nas democracias e que dá lugar ao paradoxo da subjugação das maiorias pelas minorias graças à grande intensidade do ativismo destas.   




Peniche, 6 de Dezembro de 2020

António Barreto