Desporto

sábado, 29 de maio de 2021

A final da Taça 2020-2021

 

    Com uma derrota na Taça de Portugal terminou da pior forma, para o Benfica, a época 2020-2021. Uma vitória atenuaria os efeitos duma época desastrada projetando alguma esperança no futuro imediato da equipa. Os adeptos viam nesta final a possibilidade de consolidação da melhoria da qualidade de jogo da equipa, um primeiro passo na preparação da próxima época, ao nível da constituição do plantel e no restabelecimento da confiança do universo encarnado.

   O primeiro sinal adverso surgiu com a lesão, na última jornada da Liga, do central Lucas Veríssimo. De facto, o brasileiro trouxe à equipa a estabilidade defensiva perdida com a saída de Ruben Dias. Por outro lado, a semana que antecedeu a final foi marcada pela audição do Presidente do Benfica, a título pessoal, em sede de Comissão de Inquérito da Assembleia da República aos grandes devedores do Novo Banco. Uma coincidência que agravou o ambiente negativo junto dos adeptos encarnados e, creio, junto de toda a correspondente estrutura.

   Pelo contrário, as hostes adversárias exibiam confiança; Presidente, Treinador, jogadores e adeptos, publicamente, mostravam determinação inabalável na vitória. E, se é certo que tal faz parte dos habituais jogos mentais que visam desmoralizar o adversário, a verdade é que tal otimismo radicava no inegável valor da equipa, já demonstrado ao longo da época.

   Com um posicionamento e articulação irrepreensíveis, elevada intensidade e agressividade em todas as zonas do terreno, o Braga dificultou o processo de construção e desenvolvimento das jogadas ofensivas ao Benfica, subindo no terreno em rápidas transições, sempre com vários atacantes na zona de finalização.  E foi num desses lances que ocorreu a decisão polémica que viria a ser decisiva no desfecho do jogo. Talvez consequência da quebra de entrosamento defensivo provocado pela ausência de Lucas Veríssimo, o guarda-redes Helton tem uma saída extemporânea que provocou a sua expulsão em consequência da falta que cometeu sobre o avançado contrário à saída da sua área. Uma decisão drástica do árbitro que deixou indignadas as hostes encarnadas, por não ter recorrido ao VAR e por um histórico de decisões polémicas que protagonizou na Liga com custos na pontuação da equipa da Luz.

       Ao cair do pano da primeira parte, em mais um duplo erro defensivo da equipa do Benfica, o Braga adianta-se no marcador com um magnífico chapéu longo. Um banho de água fria no pior momento, para a equipa de Jorge Jesus, quando se esperava o intervalo para refrescamento das ideias táticas. Mais uma vez se verificou descoordenação defensiva, com Vertonghen a fazer um corte oportuno mas infeliz - para a zona frontal -, e Odisseias a sair sem possibilidade de disputar o lance.

   As alterações introduzidas na segunda parte pelo Benfica não mudaram o padrão de jogo. O meio-campo pertencia ao Braga que não permitia veleidades ao adversário, não hesitando os seus jogadores em recorrer à falta e ao antijogo sempre que necessário. Em inferioridade numérica, frente a uma equipa bem articulada e a uma arbitragem permissiva, os jogadores do Benfica, chegando quase sempre tarde aos lances, raramente construíram oportunidades de golo, apesar de o tentarem afincadamente. O tento da confirmação chegou com naturalidade já na ponta final, quando a equipa de Jorge Jesus arriscava tudo, arrumando as contas da Taça.  

   A vitória assenta bem à equipa de Marcelo Rebelo de Sousa, premiando a sua qualidade de jogo e determinação, apesar de se ter batido contra um adversário em inferioridade numérica a maior parte do tempo.

   Quanto ao Benfica, apesar da arbitragem adversa, revelou as debilidades conhecidas, nomeadamente, falta de coordenação defensiva, falta de criatividade e consistência no meio-campo, falta de intensidade nas alas, instabilidade na finalização e défice de confiança.

   Se é verdade que a estabilidade diretiva é necessária ao progresso dum clube, também é verdade que de nada serve quando tal não se traduz em estabilidade desportiva. É o caso do Benfica que, nos últimos anos, tem desbaratado recursos sem retorno desportivo. A conturbada vida profissional do seu Presidente acaba por ter reflexos negativos na gestão do clube e no ambiente geral que o rodeia, seja entre adeptos, seja na sociedade civil, municiando os adversários com argumentos pejorativos.


Marina - 1933 - Armando Barrios

Peniche, 29 de Maio de 2021

António Barreto

sábado, 15 de maio de 2021

“Os Grandes Devedores”

    As Comissões de Inquérito Parlamentar são necessárias para aprofundar e analisar assuntos de especial interesse público. Destinam-se a dotar os Grupos Parlamentares de matéria fidedigna para enriquecimento do debate político, elaboração de propostas de lei decorrentes dos casos, bem como identificar e encaminhar eventuais ilícitos para a esfera judicial.

   A sucessiva e aparente falta de resultados práticos, ao longo do tempo, induziu-me a concluir que, em Portugal, o seu préstimo se circunscreve, quase exclusivamente, a municiar o partido ou partidos de suporte do Governo do momento, de instrumentos de luta partidária. Outras vezes não passam de manobras de diversão destinadas a desviar as atenções do público de casos efetivamente graves da atualidade, potencialmente penalizadores da ação governativa.

   Um exemplo recente: Carlos Moedas foi anunciado candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Pois constou há dias, a propósito de um assunto qualquer já com barbas e esquecido, a intenção de alguns Deputados da área da Governação o chamarem a depor numa Comissão de Inquérito Parlamentar nomeada para o efeito! O caso até pode ter relevância, mas o que parece é que se trata de antecipação da luta eleitoral com o objetivo de desgastar a imagem pública do opositor. Indigno!

   No caso da Comissão de Inquérito ao Novo Banco em curso, não sei quantas auditorias foram feitas, sei que várias, mas parece que nunca são suficientes. Desta vez o propósito, em minha opinião, é duplo; por um lado encontrar bodes expiatórios para o desastre da operação de venda do banco, e por outro fazer passar, sem alarido, uma lei de censura digna da que vigorava no Estado Novo.

   As vicissitudes que têm vindo a público relacionadas com Deputados; viagens fantasma, moradas falsas, faltas não registadas, duplo vínculo, levam-me a duvidar da autoridade moral de muitos Deputados para inquirir eventuais delitos de terceiros. No caso do Novo Banco, não deixa de ser caricato que, Deputados do partido do Governo ou dos partidos que o apoiam, ainda que indiretamente, envolvidos no desastroso contrato da venda do banco à Lone Star, responsabilizem outros, “grandes devedores”, pelos fracos resultados da gestão do banco.

   No caso concreto, atribuir a uma imparidade de cerca de 160 milhões de euros, salvo o erro, a causa da falência do banco quando o défice acumulado, por enquanto, é de cerca de 4 mil milhões de euros, é patético.

   O tom vexatório, ora jocoso ora intimidatório e agressivo, com que certos deputados interpelam os envolvidos, destina-se a condená-los e humilha-los na praça pública, antes mesmo de serem apuradas as respetivas responsabilidades. Um ato de exibicionismo público indigno de quem detém a responsabilidade da representação da soberania popular e que viola o direito à dignidade, constitucionalmente consagrado, de qualquer cidadão, até do Presidente do Benfica! E, se é verdade que qualquer reestruturação de dívida é consequência de incumprimento, também é verdade que os respetivos pressupostos radicam no reconhecimento de causas circunstanciais e da viabilidade económica do projeto subjacente mediante o desaparecimento de tais causas.    

   Porém, há uma virtude no atual inquérito; tem suscitado algum esclarecimento especializado que permite aos “leigos” na matéria, como eu, tirarem conclusões nada abonatórias para os Governos envolvidos no caso da resolução do BES e na venda do NB. Por ocasião da resolução do BES, disse-se, com exceção do PCP, que não traria custos para o contribuinte. Tem!  E avultados! Especialmente graves dada a grave crise que o país atravessa. O ressarcimento, a ocorrer, será a muito longo prazo.

   Quando se optou pela divisão do BES em “banco bom” e “banco mau”, solução geralmente considerada adequada, pensei, com “os meus botões”, que o que estava em causa era a identidade dos titulares dos ativos e não a qualidade dos mesmos. Hoje, esta ideia, face ao que se vai conhecendo, ganhou consistência, senão vejamos:

   O banco acumula prejuízos sistemáticos e com isso garante a injeção de capital do Fundo de Resolução financiado pelo Governo. Pergunto-me se a gerência do banco se destina a viabilizá-lo ou a garantir a efetivação do financiamento público, gerando défices sucessivos. Estou tentado a pensar que sim. Por outro lado, têm vindo a público vários casos de alienação de ativos em condições deploráveis. Noticiam-se perdas da ordem dos 90 % dos valores contratualizados, havendo indícios de que alguns ativos foram recomprados, a preço de saldo, por sócios ou amigos dos titulares das respetiva imparidades! Lamentável! Acresce, para cúmulo, que a Lone Star, segundo consta, se prepara para vender o Novo Banco, já saneado financeiramente, com ganhos substanciais! A ser verdade, é vergonhoso e deveria conduzir à severa punição dos responsáveis por tal desastre.

   Será o cidadão eleitor, que será fiscalmente penalizado, tão distraído que ainda irá premiar eleitoralmente os responsáveis por esta catástrofe? Eu não!

Amedeo Modigliani

Peniche, 15 de Maio de 2021

António Barreto

sábado, 24 de abril de 2021

O caso de Moçambique: Da falta de vergonha ou de coragem

 


   O novo Estado de Moçambique foi configurado segundo o modelo marxista soviético, na mais pura tradição das democracias populares. Assim o determinou o Comité Central da Frelimo, que se constituíra como a suprema autoridade da nação. Uma minoria impôs a sua vontade a nove milhões de pessoas sem um esboço de legitimação democrática. O acordo Samora Machel-Melo Antunes tinha deixado em aberto a possibilidade deste desfecho.

   Vasco Gonçalves, que presidira à Comissão Diretora do MFA quando foi elaborado o seu programa, traiu-o, quando, enquanto Primeiro-Ministro de Portugal presente na cerimónia da independência, classificou, comovidamente, como honrosa libertação de um povo, o que não passava de um processo neocolonial. Ao rebaixar-se, pedindo servilmente perdão, quando abundavam motivos de orgulho, desonrou a farda que vestira sem convicção. Paradoxalmente, saíram de Samora Machel as palavras de enaltecimento dos que tinham sabido bater-se e de desprezo pelos covardes. O guerrilheiro, ainda com memória dos seus tempos de combatente, corrigiu o “general”. A persistente doutrinação marxista que o envolvia acabou por converter aquela em servo dos novos senhores.

   Ato contínuo iniciaram-se, sem qualquer discriminação, as perseguições aos dissidentes ou, simplesmente, intelectualmente autónomos. Médicos, advogados, engenheiros e professores fugiram como puderam, deixando um vazio de que a população seria vítima. Sucederam-se as prisões arbitrárias; as vítimas, transportadas em camiões de gado, foram tratadas brutalmente nos campos de trabalho. Descoberta acidentalmente a infâmia, esta foi abafada nos meios de comunicação social portugueses e internacionais. Estes, que denunciaram os excessos da PIDE, calaram-se perante as incomparáveis monstruosidades cometidas pela SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular).

   Igualmente perseguidas foram todas as confissões religiosas. Os islâmicos, habituados à cordialidade da administração portuguesa, na pessoa de Baltasar Rebelo de Sousa, foram desrespeitados por Samora Machel, no templo da Ilha de Moçambique, por se recusarem a aderir à ideologia marxista. Cristãos ortodoxos foram também perseguidos, obrigados a fugir de templos, escolas e hospitais, sob ameaça das armas dos milicianos da Frelimo. A maior chacina ocorreu entre os cerca de 40 mil Testemunhas de Jeová, refugiados junto à fronteira de Moçambique, na sequência da perseguição que lhes era movida pelos países vizinhos. Acolhidos pela administração portuguesa que, conjuntamente com o Malawi, lhes prestava assistência, foram obrigados, pela Frelimo, a cruzar a fronteira para caírem nas mãos dos seus perseguidores. Cerca de 3 mil foram assassinados sumariamente a tiro, à baioneta ou à pancada. A Igreja Católica também não escapou à fúria frelimista, sendo acusada de reacionária. Quis-se separar a Igreja de Moçambique do Vaticano e até de alteração da liturgia. O bispo de Nampula, ativo frelimista do tempo colonial, foi impedido de pregar na Catedral e proibido de sair do Paço episcopal.

   Os bispos moçambicanos, que sempre encontraram fórmulas de criticar as autoridades portuguesas e de as afrontar nos seus relatórios para Roma, remeteram-se ao silêncio envergonhado. Os missionários espanhóis, defensores entusiastas do seu povo cristão, desta vez mantiveram-se calados. D. Eurico de Noronha, respeitado bispo de Vila Cabral - depois de Sá da Bandeira -, que se oferecera para advogado dos padres marxistas do Macuti, não fez ouvir a sua voz.

   E quanto à Igreja Católica, porque se calou? Porque desapareceu a coragem do Núncio Apostólico de Lisboa, sempre lesto a denunciar as prepotências portuguesas? Porque se calou o padre Hastings, que denunciara do massacre de Wiryamu ao The Times londrino, perante os comprovados genocídios ainda mais graves, que se cometeram em Moçambique no processo da independência?

   Quanto a D. António Ferreira Gomes, o célebre Bispo do Porto, fértil no apoio às acusações contra a guerra colonial, porque não se lhe ouviu uma palavra de caridade para com os cristãos vítimas da mais violenta perseguição dos tempos modernos? Onde estiveram as cartas pastorais e as homilias versando “Paz e Justiça”?

   Houve em tudo isto um silêncio cúmplice e uma vergonhosa falta de coragem, com exceção reconfortante do Arcebispo de Braga, Primaz das Espanhas, que, de acordo com a sua ímpar personalidade, disse o que havia a dizer.


Fonte: “Moçambique Terra Queimada” (Jorge Jardim)

Peniche, 24 de Abril de 2021

António Barreto

quarta-feira, 14 de abril de 2021

O Fogueiro Fadista

 O pesado silêncio do quarto noturno era apenas quebrado pelo surdo rumor da combustão das caldeiras. Frente a cada uma, os três fogueiros, imóveis, fixavam o olhar, ora nos visores de nível de água, ora nos manómetros, assegurando-se de que se mantinham no regime de trabalho: visor a meio e pressão a 42 bar.


O Vítor d’Alfama, ainda jovem, de serviço à caldeira de bombordo e sempre a cantarolar, destacava-se pelo aprumo e penteado, donde sobressaía uma brilhante, volumosa e perfeita popa.

De pé, junto à escrivaninha, em silêncio, imerso nos pensamentos próprios dum jovem de 19 anos, cabia-me supervisionar o grupo, atento a tudo.

Do seu canto, perguntou o Vítor: “Oh “sou” terceiro, conhece o fado das duas fotografias?” “Não”, respondi, a pensar no que iria sair dali. “É um fado muito bonito! Gosto muito deste fado!" Posso cantá-lo?”. “Pode." Respondi, percebendo a compulsão da saudade que o atingia, enfiado num caixote de aço e perante os cerca de dois meses de viagem que tinhamos pela frente.

Então, O Vítor d’Alfama virou-se para a caldeira, aquele mostrengo cinzento a roncar, como se estivesse perante uma sala de espetáculos cheia de gente, respirou fundo e começou a cantar, a plenos pulmões e a preceito, o fado das duas fotografias,

“No meu pequenino quarto
Há duas fotografias,
De mirá-las não me farto
É com elas que eu reparto tristezas e alegrias.
De mirá-las não me farto,
É com elas que reparto, tristezas e alegrias.

Há dias fui-me deitar,
E tive a impressão que ouvi,
As duas p’ra mim falar
Dizendo vai descansar
Que nós velamos por ti.
As duas p’ra mim falar,
Dizendo vai descansar,
Que nós velamos por ti,

De manhã quando acordei
Sorridente e satisfeito,
Para as duas fotos olhei
Falei, os bons dias dei,
Aos guardiões do meu leito.
Para as duas fotos olhei
Falei, os bons dias dei,
Aos guardiões do meu leito.

Decerto as duas trocaram,
Um sorrisinho contente,
Eu saí elas ficaram
E como sempre esperaram
Que eu voltasse novamente.
Eu saí elas ficaram
E como sempre esperaram
Que eu voltasse novamente.

São fotos são fantasias,
Há quem diga mas porém,
Não me afetam ironias,
Pois essas fotografias,
São meu pai e minha mãe,
Não me afetam ironias,
Pois essas fotografias,
São meu pai e minha mãe!”

Calou-se o Vítor, voltando a fazer-se ouvir o surdo roncar das caldeiras, entrecortado por breves aplausos da escassa assistência.

Já no camarote, apesar de achar o tema algo lamechas, lá fui esgravatar na viola, que comprara precisamente em Alfama, mesmo frente ao Limoeiro, a ver se tirava os respetivos acordes, algo que não me saiu lá muito bem às primeiras tentativas.

O Vítor d’Alfama sofria do mal dos marinheiros. Sofria de saudade.

(Episódio passado no Infante Dom Henrique, lá pelos idos de 1971)


Peniche, 14 de Abril de 2021
António Barreto

terça-feira, 13 de abril de 2021

Os Pobres (X)

    A República

   A narrativa política dominante atual refere a 1ª República como paradigma da democracia e da promoção do progresso económico e social, interrompida pelo pronunciamento militar do 28 de Maio de 1926 o qual, em 1933, daria lugar ao autocrático, conservador e semi-clerical “Estado Novo” salazarista. Contudo, a realidade é bastante diversa. No caso português, a expressão “ética republicana” está destituída do conteúdo que lhe atribui quem a profere.

   O regime inaugurado em 5 de Outubro de 1910 preocupou-se mais em consolidar o seu poder do que com a assistência aos pobres, doentes e mendigos. Identificando a Igreja Católica como seu principal inimigo, pela formação moral das populações através dos serviços religiosos e das escolas a seu cargo e pela assistência solidária às populações, a República tratou de lhe restringir os movimentos chamando a si as tarefas assistenciais e de educação. Uma nova moral, a moral republicana, centrada na promoção do racionalismo e do nacionalismo, tinha de ser imposta contra a superstição, a submissão e a hipocrisia. Fiéis seguidores de Robespierre, os republicanos assumiam a sua doutrina, expressa em 1874, segundo a qual “só a Pátria tinha o direito de educar os seus filhos”. A nova ordem dispensava os padres. Estes foram acusados de vagabundagem quando pediam nas ruas, de obstrução da via pública quando organizavam procissões e de danos à saúde pública quando mandavam tocar os sinos das igrejas.

   As iniciativas de apoio social do Antigo Regime revelaram-se inúteis e consistiram na criação do Conselho Geral de Beneficência em 1835, com o objetivo principal de reprimir a mendicidade, e, em 1901, da Repartição de Beneficência e do Conselho Superior de Beneficência Pública.

   Instaurada a República, uma lei de 1911 tratava de enviar os pobres para as suas aldeias a fim de ocupar os menores nos trabalhos agrícolas. Em Lisboa foi criada, no âmbito das paróquias, a “Obra dos 10” segundo a qual cada dez pessoas deviam sustentar um pobre. Em 1919 malograram-se as tentativas de criação de seguros obrigatórios na doença, nos acidentes de trabalho e nas pensões de invalidez, velhice e sobrevivência.

   Uma vez no poder os republicanos rapidamente esqueceram princípios e promessas. A agitação social não tardou. Em Novembro de 1910 os operários da Carris - de administração britânica - entraram em greve. Respondeu o Governo impondo restrições à lei da greve. Solidarizaram-se os ferroviários com os grevistas, paralisando os comboios em Janeiro de 1911. Alarmado com as proporções do protesto, recorreu o Governo às Forças Armadas, mandando prender dezenas de operários. Nas ruas, a multidão em protesto empunhava cartazes com os dizeres “Viva a Liberdade” e “Abaixo os Jesuítas”.

   Sem soluções para os graves problemas económicos e sociais do país, o Governo republicano, temendo perder o poder acabado de “conquistar” pela violência, publicou, em Março de 1911, nova lei eleitoral, reduzindo o corpo de eleitores a cerca de metade do que resultara do sufrágio universal instituído em 1878 por Fontes Pereira de Melo. Enquanto isso, decorria a greve dos operários das conserveiras de Setúbal, que eclodira em Fevereiro e duraria até Abril de 1911. A famosa “ética republicana” não coibiu o Governo de assassinar um operário e uma operária às mãos da G.N.R. Em Agosto do mesmo ano foi a vez dos operários têxteis reivindicarem 8 horas de trabalho, uniformidade salarial e garantia de emprego, manifestando-se, ingloriamente, frente a São Bento.

   Entretanto, no Alentejo, vinham ocorrendo focos de agitação social, em Outubro de 1910 e fins de Janeiro de 1911. Totalmente dependentes do incerto e misero trabalho sazonal nos grandes latifúndios, os proletários rurais viviam da mendicidade o resto do tempo. Sobre eles, Cesário Verde escreveu no seu poema “Provincianas”: “Tal como existem mercados/Ou feiras, semanalmente/ Para comprarmos os gados/ Assim há praças de gente/ Pelos domingos calados”. Desiludidos com a ausência de resultados do novo regime, na sequência de um inverno excecionalmente frio e chuvoso que fizera aumentar o número de desempregados, os assalariados rurais revoltaram-se concentrando-se, entre 10 a 20 mil, nos campos em redor de Évora. Sapateiros, pedreiros, carpinteiros e corticeiros locais juntaram-se aos revoltosos. Desorientadas, as autoridades atribuíram o motim aos monárquicos e cercaram a cidade. Em 24 de Janeiro, num conflito com os grevistas, a G.N.R mata um trabalhador, fere seis e prende oitenta. Foi encerrada a Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais de Évora, assaltada a Federação Anarcossindicalista de Lisboa e presos dezenas de operários.

   A 29 de Janeiro de 1912, os operários de Lisboa solidarizaram-se com os trabalhadores rurais de Évora, paralisando todos os meios de transporte exceto o caminho-de-ferro. Fábricas e oficinas da capital aderem estabelecendo a anarquia na cidade. A 30 de Janeiro o Governo decreta o Estado de Sítio, assalta a sede da Casa Sindical na Calçada do Combro e prende 584 operários, levando-os para os navios de guerra “D. Fernando”, “Pêro de Alenquer” e “5 de Outubro”. No dia seguinte, o Governo completa a tarefa prendendo militantes em rusgas, e trabalhadores nas suas casas, ascendendo a 700 o total de detenções. Muitos foram transferidos para os fortes de Sacavém, de Monsanto e do Alto do Duque, ficando alguns no navio “ Pêro de Alenquer”. Todos seriam julgados em Tribunal Militar, por decisão do Governo. Estima-se que em meados de 1912, o número de presos políticos fosse 2382, a maioria dos quais operários.

   Fracassada a greve, os trabalhadores deixaram de acreditar na República. Afinal, afastado o rei e humilhados os padres, a alimentação continuava cara, o direito de voto era-lhes negado e as liberdades continuavam escassas. Os políticos eram todos iguais.

   No capítulo da instrução popular, a construção de escolas manteve-se exígua, apesar da consciência, partilhada por republicanos e operários de que a escola era a via para o progresso. Nem o Governo tinha dinheiro para o investimento necessário, nem as famílias estavam interessadas na instrução dos filhos. A maioria dos trabalhadores deixara de acreditar em quem quer que fosse.

   Ficaram os testemunhos fotográficos de Joshua Benoliel da pobreza na capital: “Um velho comendo o seu caldo, “Mendigos no Terreiro do Paço” ou “Uma família pobre e numerosa à porta de sua casa em Lisboa”.

   Excetuando os “amigos” de Afonso Costa, a República assustava toda a gente e não dava nada a ninguém.

Fonte: “Os Pobres” de Maria Filomena Mónica

Greve do operariado 29 30 31 janeiro 1912

(Joshua Benoliel)

Peniche, 12 de Abril de 2021

António Barreto

domingo, 11 de abril de 2021

Os Pobres (IX)

 As "Irmãs da Caridade" (II)

O triunfo dos radicais durou pouco. Logo no dia seguinte sai um decreto-lei com a criação de uma comissão para estudar a reorganização do “Instituto das Irmãs da Caridade”. Tranquilizou-se a condessa de Rio Maior, atribuindo ao anticlericalismo de Estado a causa dos protestos, não deixando de considerar insensato o recurso das irmãs vicentinas à intervenção diplomática francesa. Enganou-se. Na sequência do novo comício realizado a 10 de Março pelos radicais, em que a multidão se dirigiu a casa do caudilho Duque de Saldanha, decidiu-se D. Pedro V pela dissolução do Parlamento, marcando eleições para 28 de Abril. Porém, nada mudou; estas, como de costume, foram ganhas pelo partido do poder o Histórico, voltando o Duque de Saldanha à Presidência do Conselho.

   Ato contínuo, a condessa de Rio Maior ameaçou demitir-se da Direção do Asilo da Ajuda caso as freiras fossem forçadas a deixar Portugal. Levantou, então, uma questão ainda hoje atual: a de que a supressão da vertente moral e religiosa do ensino violava o direito fundamental da liberdade religiosa e que tal decorria da imposição da obrigatoriedade do ensino que, na prática, se traduzia no monopólio do Estado.

   Em 1862, o Duque de Loulé, incapaz de obrigar as freiras a cumprir a lei sobre instrução que fizera publicar em Março pela mão de Braancamp, negociou com o governo francês a sua retirada de Portugal. Quando, em Maio, enviado por Napoleão III, chegou ao Tejo um navio para levar as freiras, as aristocratas que dirigiam os asilos da Ajuda, de Benfica e de Jesus - albergando um total de setecentas crianças -, demitiram-se de imediato dos respetivos cargos.

   É então que se revela outro tema fulcral e atual; a filantropia proporciona popularidade e poder a quem a pratica. Os Governos da Monarquia Constitucional consideravam-se donos dos pobres! Em consequência, foram mandados encerrar os orfanatos em Santa Marta, nos Cardeais, em Benfica, em Viana do Alentejo e em São Fiel. Centenas de jovens foram abandonados, para desconsolo da Condessa de Rio Maior, que culpou os padres portugueses de apatia, subserviência e ignorância, em contraste com os congéneres franceses, que considerava cultos, combativos e determinados.   

   O que estava em causa era de saber a quem competia a responsabilidade da ajuda aos pobres, se ao Governo se à Sociedade Civil. Para a condessa, era a esta. Quanto ao Governo, considerava que não devia meter-se num fenómeno que classificava natural. À época, já algumas cidades europeias contavam com empresas de apoio aos pobres, de natureza jurídica mista.

   Derrotado o projeto da condessa de Rio Maior, o seu legado foi, de alguma forma, continuado pela sua nora, Maria Isabel, marquesa de Rio Maior, e por Maria Luísa, duquesa de Palmela, que fundaram em Lisboa a Sociedade Promotora das Cozinha Económicas. Esta sociedade, financiada pelas respetivas promotoras e por muitas das suas amigas, teve ainda a colaboração das freiras francesas. Constituída por uma rede de instituições, servia refeições a preços módicos. Desta vez, ninguém pareceu incomodar-se com o contributo das irmãs.

   A primeira cozinha económica foi inaugurada nos Prazeres em 8 de Dezembro de 1893. Seguiram-se a dos Anjos, a de Alcântara, a de Xabregas, a de São Mamede, a de São Bento e a da Sé. Nos jardins do Palácio de Palmela também se serviam refeições, 500 por dia! Por 90 reis comia-se uma tijela de sopa de grão com arroz, bacalhau guisado, 200 gramas de pão e 2,5 decilitros de vinho. O rei D Carlos doava parte do produto das suas caçadas em Mafra e em Vila Viçosa, e as pescarias do iate real “Amélia”. Mais tarde, em 1918, o povo deu a estas cozinhas o nome de “Sopa do Sidónio”, como ficaram conhecidas.

    A duquesa de Palmela faleceu nas vésperas da Revolução Republicana. Quanto à Marquesa de Rio Maior, apesar do otimismo inicial, acabou por abandonar o país em 1911, tendo regressado em 1918.

    Se é certo que a aristocracia, à exceção de uns atos isolados - um peditório, umas esmolas, uns enxovais - não tinha o hábito da filantropia, nem considerava seu dever ajudar os pobres, também é verdade que o Estado que saiu do novo regime, depois de confiscar os bens dos conventos, foi incapaz de os substituir no apoio social e educativo.

   Sem a caridade dos ricos, sem um Estado eficaz e com uma Igreja enfraquecida, os pobres ficaram entregues à sua sorte.

       Esta disputa projetou-se até aos nossos dias. Quando no poder, a direita aprofunda o papel das misericórdias no apoio social e hospitalar e incentiva o ensino privado, criando parcerias e contratos de associação. A esquerda trata de fazer o contrário logo que pode. O atual Governo, apoiado pela “geringonça”, logo que iniciou a vigência, tratou de revogar ou não prolongar os contratos de associação com as escolas privadas, tendo feito o mesmo com os hospitais públicos de gestão privada, apesar do histórico de bons resultados. A ponto de, no caso da calamidade resultante da atual pandemia, insistir em deixar de lado os hospitais privados com prejuízo de toda a população.

   Também em democracia, por vezes, o Estado, subjugado pelas disputas partidárias, é inimigo dos cidadãos que era suposto servir.

Fonte: "Os Pobres" de Maria Filomena Mónica


As Pupilas do Sr Reitor - Alfredo Roque Gameiro

Peniche, 4 de Abril de 2021

António Barreto

sábado, 10 de abril de 2021

Os Pobres (VIII)

 As “Irmãs da Caridade”

     A expressão “irmãs da Caridade” ficou, e em certos casos ainda se usa, geralmente em tom pejorativo. Por exemplo, para gracejar a propósito de pessoas que vestem de igual forma ou para minimizar ações de pequena filantropia. O facto é que as “Irmãs da Caridade” chegaram a Portugal no século XIX, praticaram assistência social, originaram enorme turbulência política e deixaram um legado de filantropia que se prolongou pela 1ª República.

   Alguns historiadores, como Maria de Fátima Bonifácio, consideram este episódio das “Irmãs da Caridade” como a proto-história do republicanismo português. Um período em que, através do ativismo anticlerical, se prepararam as mentes populares, sobretudo urbanas, para a aceitação da república.

   Por ocasião da epidemia de febre-amarela que assolou o país na década de 1850, face à desproteção a que o Estado deixara os pobres, D Isabel, condessa de Rio Maior, com outras aristocratas, em 1857, convidou as freiras da congregação francesa da Ordem de São Vicente de Paula para, com seu financiamento, tratarem as vítimas da epidemia em Portugal.

   Esta congregação foi fundada em França em 1833 e destacou-se na guerra da Crimeia (ainda há dois ou três anos havia em Peniche, junto ao Santuário dos Remédios, um polo desta congregação liderada pela célebre Irmã Glória, ex-missionária, muito querida entre a população da cidade e amiga pessoal). A condessa Isabel tinha hábitos de filantropia tendo-se envolvido anteriormente na Associação Consoladora dos Aflitos. A nível político, discutia-se a quem competia a responsabilidade do apoio social, se ao Estado, se à Sociedade Civil. Fontes Pereira de Melo, o Presidente do Conselho de então e grande reformador da economia do país, considerava que não competia ao Estado a assistência social.

 

    Em 1857 chegaram a Portugal as primeiras freiras de São Vicente de Paula, com missão mais ampla do que a de tratar dos doentes da febre-amarela. O facto foi tão inverosímil que a nobre condessa de Rio Maior, considerando-se insignificante, confessou ver nele um sinal de Deus ao seu gesto benemérito.

   Foi com a ajuda das duquesas da Terceira e de Ficalho e o elevado apoio monetário do rei D. Pedro V, que, a 14 de Dezembro, abriu o Asilo da Ajuda. Foram recolhidas 15 meninas, às quais foi dado banho, cortado cabelo e vestidas com bibes de riscado.

  No verão de 1858 os Progressistas abriram as hostilidades políticas pela pena de Alexandre Herculano. Considerava o insigne literato que, por detrás da ajuda humanitária, havia desígnios sinistros. De imediato saíram a terreiro, exigindo repúdio público ao Presidente do Conselho, Duque de Loulé, os membros da Câmara dos Pares, condes da Taipa e do Ficalho e o marquês de Sobral. Logo responderam os radicais de esquerda, alguns ligados ao partido Histórico, afiançando ter-lhes sido revelado em sonhos, por “Satanás”, estar em curso em Portugal uma guerra entre o povo e a classe média, e a nobreza. Como resultado as freiras acabaram apedrejadas pelos populares anticlericais de Lisboa.

  Circularam abaixo-assinados, uns a favor das freiras, subscritos geralmente por membros da nobreza, Ex miguelistas e das associações filantrópicas, e outros contra, exigindo a expulsão das religiosas e envolvendo a chamada nobreza de toga, Ex-setembristas, alguma burguesia e académicos. A polémica incendiou o Parlamento, onde os Históricos propuseram a nomeação de uma comissão com a finalidade de expulsar as irmãs. O tema acabou por envolver o Rei D. Pedro V que, em Outubro de 1858, confidenciou a seu tio, o Príncipe Alberto, marido da Rainha Vitória, considerava imprudente a iniciativa das aristocratas. Para ele, os portugueses e Portugal não tinham motivos de gratidão nem à nobreza nem ao clero.

   Apesar de toda a polémica, em Agosto de 1859, chegaram a Lisboa mais quatro irmãs vicentinas francesas, desta vez acompanhadas por um excecional padre lazarista - membro da Congregação da Missão; sociedade Católica, masculina, apostólica, fundada por São Vicente de Paulo em Paris, em 1625, dedicada ao ensino e obras de caridade, cujos membros eram conhecidos por Vicentinos e, também, Lazaristas (pelo facto de a sua primeira sede se ter chamado Casa de São Lázaro). Desta vez, os membros do executivo em funções, Fontes Pereira de Melo e Casal Ribeiro, mais preocupados em erguer as infraestruturas ferroviárias do país resolveram fechar os olhos.

   Porém, quando em Agosto de 1860, desembarcou na capital mais uma “fornada” vicentina, constituída por dezasseis irmãs, francesas e portuguesas, e três padres, o ambiente tinha mudado; o duque de Loulé tinha regressado ao poder. Levantou-se a esquerda, organizando comícios onde, como condição para a legalização, exigia a separação das freiras portuguesas das francesas, e a subordinação daquelas à tutela de um superior nacional. Recusada a proposta pelo respetivo patriarca e pelas irmãs francesas, respondeu o Governo com uma portaria onde determinava a suspensão da ordem, dando-lhes 40 dias para abandonarem a residência, em Santa Marta.

(Continua)

Fonte: Os Pobres, Maria Filomena Mónica


Aurélia de Sousa

Peniche, 4 de Abril de 2021

António Barreto