Desporto

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O mostrengo

Passadas três jornadas, um dos principais braços do “mostrengo”, continua a fazer, com notável zelo, o seu trabalho. Com efeito, depois de assistirmos, com indignação, ao duplo prémio com que Pedro Proença foi agraciado pela UEFA, apesar de mais um erro grosseiro cometido pela sua equipa, mais uma vez decisivo para a definição do campeão nacional - por sinal o do costume -, legitiman-nos a concluir que foi mesmo essa a razão da distinção e que um dos braços do maldito mostrengo já se estendeu àquele organismo.

Depois de assistirmos à arrogância daquele árbitro internacional ao recomendar cinicamente, aos Dirigentes dos clubes, a título de resposta às severas críticas de que foi alvo e confiante da sua condição de impunidade, maior competência na gestão dos mesmos, sabendo de antemão que não há competência que resista quer à aselhice quer à má-fé dos membros das equipas de arbitragem.

Caiu-nos agora “em cima” - salvo seja- metronomicamente, o despropositado castigo ao Treinador da nossa equipa, a pretexto de ter ofendido a honra do árbitro auxiliar que não assinalou o fora de jogo donde resultou o tento que veio a decidir o campeão. O conceito de honra é subjetivo, e eu não considero honrada uma pessoa incompetente ao ponto de lesar gravemente as legítimas espetativas de terceiros. Muitos menos considero honrado alguém que, de má-fé, simula uma dificuldade para sustentar um erro grosseiro.

A verdade é que, esse erro capital, voluntário ou involuntário, lesou gravemente o Treinador da equipa ofendida, os seus colaboradores, os seus atletas e a sua entidade patronal; a tal entidade que “tem obrigação” de gerir com parcimónia e inteligência os recursos de que dispõe, e que, com seus pares, faz funcionar a indústria do futebol; que vê gorado o seu trabalho e de toda a organização…por um erro grosseiro de terceiros…paradoxalmente, suscetível de agraciamento. Um só erro; vital, decisivo, imoral!

Segundo Ricardo Costa - no jornal“O I” de 8 de Setembro de 2012 -“…o órgão da federação está a violar a lei ao não publicar um acórdão com a descrição de cada etapa do processo e a discriminação das datas correspondentes, ou pelo menos um resumo dos principais momentos.” Sendo assim, porque não requer o Benfica a nulidade da sentença e suscita o levantamento de um processo disciplinar interno aos responsáveis por mais este alegado erro grosseiro?

Quem repara os danos materiais e imateriais provocados ao Treinador duplamente “condenado” e a toda a organização de que faz parte? Quem responsabilizar por eventuais desacatos que a sucessão de “erros grosseiros” poderá desencadear? Quem escrutina o desempenho da FPF e dos seus órgãos? Supostamente, a Assembleia Geral, efetivamente, ninguém! A FPF e seus órgãos funcionam em roda livre. O futebol, em Portugal, é um Estado àparte, governado na sombra pelo hediondo mostrengo.

Na Indústria do Futebol, os erros grosseiros das equipas de arbitragem previnem-se punindo exemplarmente quem os pratica, sobretudo quando repetidos. Não é assim, Sr. Presidente da FPF? Não é assim, Sr. Presidente da UEFA? Não é assim, Sr. Presidente da FIFA? Não é assim, Sr. Secretário de Estado da Juventude e Desporto? É sim!

Em curso está “o caso Luisão”, claro que vem aí “chumbo grosso”…no momento oportuno, virá. O braço mediático do mostrengo já está a fazer o seu trabalho nas “tabancas” da comunicação social, derramando toda a sua indignação pela “ineficácia” efetiva da punição aplicada ao nosso Treinador.

Não sei se o árbitro em causa - Christian Fisher - estava devidamente habilitado para dirigir a partida, não sei quem o indicou, não sei quem o nomeou, mas sei que, segundo o Correio da Manhã de 2012.09.01, pág. 28, o “relatório elaborado por Carla Hulslep, médico-chefe do St. Elisabeth Hospital Iserlohn, enviado pela Federação alemã à congénere portuguesa, para os membros do CD restam poucas dúvidas de que o árbitro agiu de má-fé “. Afirma ainda o articulista do CM - António Pereira -, na mesma crónica; “ao contrário das expetativas dos dirigentes que esperam ver Luisão absolvido, o central vai mesmo ser punido pela forma intempestiva como avançou para o juiz, não conseguindo, depois, evitar o contacto físico entre os dois”. Que tal? Lembram-se daquela adivinha: “qual é a coisa qual é ela que antes de ser já o era?” Não, não é a pescada…é o Luisão!

Quanto a mim, os juristas do Benfica e o Luisão devem avaliar a viabilidade de avançar com um processo-civil por danos patrimoniais e não patrimoniais contra o senhor Fisher, uma vez que, segundo o mesmo Correio da Manhã de 19 de Agosto de 2012, numa crónica de João Querido Manha refere que “ O árbitro Christian Fisher diz que lhe foi diagnosticado um traumatismo craniano a seguir ao jogo particular que Fortuna Dusseldorf e Benfica disputaram no dia 11 de Agosto. No relatório, ao qual o CM teve acesso, o juiz alemão não utiliza a palavra ‘agressão’ em nenhum momento, mas diz ter levado um empurrão que o fez cair”.

Por outro lado, parece claro nas imagens que o Sr. Fisher foi agressivo para com o Máxi, merecendo, no mínimo, uma repreensão formal após processo disciplinar. Ademais, os Dirigentes do Benfica, num gesto de invulgar nobreza, assumiram as consequências da interrupção da partida por iniciativa, alegadamente irregular, do mesmo árbitro.

Com que moralidade se pede a punição de Luisão? Como é que o articulista do CM diz saber que Luisão vai ser castigado? Quem escrutina o funcionamento dos órgãos da FPF? Quanto a mim, o departamento jurídico do Benfica deveria exigir esclarecimentos ao Chefe de Redação do CM, ao respetivo articulista e à FPF. Temos que lhes cair em cima sempre que a razão nos assista, caso contrário…

Tudo isto depois de mais um erro grosseiro, desta vez da equipa de Artur Soares Dias, nos ter custado os primeiros dois pontos, que proporcionariam à nossa equipa o primeiro lugar destacado e a força anímica subjacente?

A procissão ainda não saiu da igreja e já estraleja no ar, abundante foguetório!

Chamo a isto, "o futebol da piolheira".

AB

terça-feira, 11 de setembro de 2012

DIFERENÇAS DE MENTALIDADE 

Comecei a dar formação em horário pós-laboral em 1993 e, a partir de 2005 também em horário laboral. 

Já tive turmas de formandos em cursos com equivalência do 7º ao 12º ano, cursos profissionais para desempregados e cursos de actualização de diversas áreas direccionados a trabalhadores e gestores de empresas. Quase todos eles, excepto pouquíssimos exemplos, frequentaram as aulas esperando simplesmente pelo final delas, completamente alheados e sem interesse em tirarem algum proveito da aprendizagem, inclusivamente tentando boicotar o raciocínio do formador e o consequente avançar da matéria. 

Em 2008 fui convidado para um projecto de formação na refinaria da Sonangol em Luanda e como era um novo desafio resolvi aceitar. Desde então tenho ido a esse país quase todos os anos, inserido em diversos projectos de formação a trabalhadores do sector da indústria petrolífera. 

Esta síntese tem a ver com as diferenças de mentalidade entre os formandos portugueses e angolanos. 

Os formandos portugueses, tanto adolescentes como adultos, chegam aos centros de formação em transporte próprio, bem vestidos com roupa de boas marcas, bons computadores, com telemóveis da última geração com os quais passam o tempo de aula a tentar jogar e enviar mensagens, enquanto os angolanos, chegam nos transportes colectivos, ou transportes das empresas para as quais trabalham, vestidos modestamente e, pouquíssimos com computadores.  

Ao contrário dos formandos portugueses, os angolanos têm sede de aprendizagem, desejam aprender o máximo possível, apresentando problemas, questionando quando têm dúvidas, sem pressas, nunca olhando o relógio, mesmo que a hora de final do tempo da aula já tenha terminado. 

Esta síntese tem a ver com uma futura diferença de sociedade laboral entre o nosso país e Angola, pois há alguns anos os angolanos vinham para o nosso país trabalhar nas obras, hoje somos nós, na grande maioria, que vamos realizar esses trabalhos lá, quando as nossas empresas de construção aproveitam as sobras deixadas pelas empresas chinesas. 

Teremos rapidamente que mudar de mentalidade e atitude, pois assim não iremos a lado nenhum e como costumo dizer, “não somos o melhor país africano”. 

António M. Rebordão Ribeiro 

Crescimento económico

                                 
Na atual conjuntura de emergência económica e social que vivemos, quer os partidos da oposição, quer largos setores da sociedade, advogam como solução para ultrapassar a crise, o crescimento económico pelo aumento da procura interna provocada pelo aumento dos salários. É o modelo que a CGTP, o PC, o BE e o PS defendem, associado ao investimento público.
 
Tal não é possível e não acredito que se trata de ignorância. Não é possível que pessoas altamente qualificadas, mesmo em áreas diferentes da económica, não compreendam os mecanismos básicos de funcionamento da economia. Trata-se sim, quanto a mim, na maioria dos casos, da "assassina" demagogia política que manipula a opinião pública com vista à obtenção de dividendos politicopartidários, violando os mais elementares princípios de ética política.
 
Vamos então fazer uma breve análise do processo, imaginemos que fazemos parte do Governo, queríamos descalçar esta “bota” e acreditávamos neste processo:
 
1.  O salário mínimo atual é de €485,00 e a taxa de inflação é, salvo erro, 3,2 %. Então, decidíamos um aumento de 5 %, passando o salário mínimo para €509,25. Arredondávamos as contas para €510,00 após verificarmos a viabilidade financeira de projeto.
 
2.    Este aumento repercutir-se-ia em toda a cadeia salarial, naturalmente, com nuances de vária ordem, que não vou agora escalpelizar.
 
3.    Paralelamente, decidíamos avançar com algumas obras públicas já agendadas, depois de assegurado o seu financiamento.
 
4.    Lembremo-nos agora que temos uma pequena economia de mercado aberta:
a.    Pequena; o nosso PIB é de cerca de 160 MME, o da Espanha é de 900 MME e o da Alemanha é de quase 4 BE. Há uns anos, o excedente da produção francesa de carne de pato, era suficiente para abastecer todo o mercado nacional!
b.    De mercado: Vende-se o que o cliente consome e não o que cada um quer produzir (economia de produção).
c.    Aberta; No espaço europeu não há alfandegas nem câmbio, tosos podem vender tudo em todo o lado.
 
5.    Conjugaríamos o aumento de salários com o aumento de investimento público, financiados pela troika, de modo a provocarmos um aumento da procura interna global de 4 %.
 
6.    Como somos pessoas responsáveis, convocaríamos as confederações patronais e outros analistas económicos idóneos, para avaliarmos a capacidade de aumento da oferta interna, chegando à conclusão que nesse ano o limite de tal crescimento seria de 2 %.
 
7.    Assim sendo, ficaríamos com um défice de 2 % que iria agravar o défice crónico da nossa balança comercial e o endividamento, uma vez que teria de ser a oferta externa a responder ao excedente de procura.
 
8.    Por outro lado, aumentando os salários aumentariam os custos de produção que as empresas teriam que refletir no preço final, perdendo competitividade face aos seus concorrentes externos.
 
9.    Assim, O agravamento do défice da balança comercial seria superior a 2 %, talvez 3 %.
10. Do mesmo, modo o índice de preços ao consumidor seria correspondentemente agravado, retirando poder de compra à população, absorvendo parte do aumento salarial.
 
11. Seguiríamos com este processo até se esgotar o financiamento.
 
12. Foi exatamente o que nos aconteceu.
 
13. REGRA DE OURO DO CRESCIMENTO ECONÓMICO: A SUSTENTABILIDADE DO CRESCIMENTO  ECONÓMICO SÓ É POSSÍVEL DESDE QUE OS GANHOS SALARIAIS SEJAM INFERIOR À PRODUTIVIDADE.
 
14. Assim sendo, o primeiro passo a dar consiste em descer à microeconomia e perceber quais são os bloqueios ao crescimento empresarial, diagnóstico que, grosso modo, está feito.
 
15. O segundo passo é convocar todas as partes e obter o contributo de todos para desobstruir o crescimento empresarial.
 
16. Assegurados os ganhos de produtividade, poderão então subir os salários.
 
17. O crescimento económico pelo aumento da procura interna é o processo de compensar uma conjuntura recessiva, desde que o endividamento seja relativamente baixo, 40 % a 50 % e o investimento seja reprodutivo, infelizmente, não fomos suficientemente inteligentes e competentes; agora, quem nos financia impõe a sua própria terapêutica, que não podemos rejeitar sob pena de nos faltar o dinheiro para pagar os salários e as pensões.
 
18. No entanto lembremo-nos que neste período de aflição para a generalidade dos portugueses, há setores que negoceiam aumentos salariais, outros promoções e outros já compensaram os cortes com as “alcavalas” do costume, demonstrando o défice Democrático que reina na sociedade portuguesa, em que alguns, se julgam com mais direitos que outros, característico afinal de qualquer ditadura terceiro-mundista. 
 
AB

domingo, 9 de setembro de 2012

O Novo Benfica


Javi Garcia era dos atletas emblemáticos do Benfica; pela postura, pala garra, pela competência, pela eficácia, pela coragem, pelo amor ao clube que deixava transparecer, víamos nele um dos pilares da reconstrução da velha “mística” Benfiquista, tão necessária ao sucesso desportivo do nosso clube. Não o esqueceremos tão cedo, desejamos-lhe o maior sucesso, mas sabemos que deixa uma lacuna na equipa difícil de colmatar e, sobretudo, ficámos afetivamente “amputados” e por isso, tristes.
Axel Witsel é um atleta de eleição, fortíssimo; fisicamente, tecnicamente e taticamente. Corajoso e cordial também. Mais um atleta à Benfica que daria contributo decisivo na conquista das vitórias porque ansiamos e de quem começávamos a gostar. Abriu novo “buraco” na equipa e no nosso afeto.
Lembro os casos de David Luís, Ramirez, Di Maria, Coentrão, muito semelhantes e que prosseguem as suas carreiras noutras paragens com relativo sucesso.
Além dos prejuízos desportivos óbvios para o nosso clube, as inevitáveis consequências afetivas  dos adeptos para com o clube, poderão ser severamente afetadas no futuro com a sucessão destes casos. A ligação afetiva dos sócios, adeptos e simpatizantes ao seu clube “do coração”, sendo decisiva para a subsistência e desenvolvimento do mesmo, materializa-se nos atletas mais emblemáticos, que serão recordados com alegria e saudade por muitas décadas, constituindo o património imaterial, porventura o mais relevante de todos, enquanto gerador de sonhos e motivação de novas façanhas.
O ser humano é um mecanismo extremamente complexo e, muitas vezes, incontrolável. A expetativa de “amputação afetiva” sucessiva, inevitavelmente, conduzirá, compulsivamente, silenciosamente, o adepto a relativizar, aligeirar, essa relação com o seu clube o qual, progressivamente, perderá a identidade tradicional, podendo, eventualmente, cair nesse vazio afetivo, sem o qual, julgo eu, a magia da arte futebolística desaparecerá. Emergirá uma nova identidade igualmente poderosa, substituta da atual? Qual? De momento, não tenho resposta para esta pergunta, só sei, que já não existem os pressupostos do passado que fizeram do Benfica aquilo que é hoje e que é melhor olharmos em a frente, procurando os caminhos do futuro num contexto completamente diferente dos do passado.
O grande capital e a globalização, associados à insaciedade da FIFA, da UEFA, das federações, ligas nacionais e dos clubes mais poderosos da europa, estão a conduzir o futebol a um estado de total descontrolo, perante a passividade “criminosa” da UE, que a tudo assiste com olímpica indiferença. Sucedem-se as competições desportivas, atropelando-se umas às outras, apenas pela necessidade de gerar receitas para sustentar toda esta loucura incontrolável. Hipocritamente, regulamenta-se e impõe-se o fair-play financeiro aos clubes, implementando em simultâneo  calendários desportivos inviabilizantes de qualquer racionalidade na gestão clubística. Perante “o cheiro do graveto” nada nem ninguém resiste! De nada valem contratos, nem cláusulas de rescisão, nem “sinceras” juras de amor pretéritas.
Noutros tempos, quando os clubes eram “donos” da carteira desportiva dos atletas, era comum ouvir estes indignarem-se com a mercantilização de que eram vítimas por parte daqueles, hoje, não só não se indignam, como a desejam! Afinal, salvo honrosas exceções, o clube que todos amam é o “faz-me rir”.
O campeonato nacional já vai na terceira jornada! Com dois atletas estruturais a menos, de que serviu o planeamento desportivo efetuado? E que justiça desportiva e portanto, idoneidade, tem a competição? Porque é que a UEFA e a FIFA não proíbem a transação de jogadores de clubes cujos campeonatos já estejam em curso? Vale tudo? E que poderá fazer o Benfica para evitar estas situações?
A não ser que a UE aprove regulamentação apropriada, o Benfica deve ter acesso aos mercados de todos os seus pares; Espanhóis, Ingleses, Franceses, Alemães, Italianos, etc. Tal só é possível participando em competições europeias transnacionais onde tenha acesso às receitas equivalentes. Não falo da atual Liga dos Campeões, mas de campeonatos europeus de dois ou três níveis. Simultaneamente pôr-se-ia fim a provas inúteis, como a Taça de Portugal, a Taça da Liga e a Supertaça. Em cada país organizar-se-iam campeonatos com os restantes clubes em contexto a estudar; profissionais, semiamadores e amadores.
Sei que temos bons atletas no plantel que poderão minimizar as perdas; oxalá os nossos Técnicos os possam otimizar. Recomendo à Direção que use os 40 ME da venda do Witsel para amortizar o passivo e que mantenha a todo o custo um núcleo de atletas icónicos portadores da temível mística Benfiquista. Refiro-me ao Luisão, ao Máxi, ao Aimar e ao Cardozo, a que se poderão juntar muito em breve, o Artur, o Garay, o Carlos Martins, o Rodrigo, o Sálvio e o Melgarejo. Teremos que ser capazes de o fazer cultivando sempre o estilo “perfumado” do nosso jogo.

AB

sábado, 8 de setembro de 2012

João César das Neves “Pelos disparates que fizemos, até estamos a pagar barato”
Por Isabel Tavares, publicado em 8 Set 2012 - 03:10 | Actualizado há 19 horas 37 minutos
O professor da Universidade Católica ficou satisfeito com a decisão do BCE de finalmente apoiar o euro. Recebeu-nos no seu gabinete da Católica Lisbon School of Business and Economics, o nº5319, no terceiro piso. Um espaço que parece pequeno para tantos livros e onde algumas imagens alusivas aos três pastorinhos fazem transparecer a devoção a Nossa Senhora. Ex-assessor económico de Cavaco Silva, então primeiro- -ministro, o professor catedrático confessa que procura rezar permanentemente: “Rezo para viver e vivo para rezar”. Para Portugal ainda acredita num milagre, que poderá acontecer já em 2013.
Concorda que esta é a geração mais bem preparada de sempre?
Sim, mas nós também temos um atraso na preparação em relação à realidade. Agora não há dúvida que os meios hoje disponíveis para os jovens são muito superiores aos dos tempos antigos.
E preparada para quê?
O mundo está a mudar brutalmente, como no meu tempo estava, mas se calhar este tempo é um bocadinho mais perturbador. Eu acho que os jovens hoje têm medo, que é uma coisa que as gerações anteriores não tinham.
De quê?
Têm medo por causa do desemprego, têm medo porque as oportunidades são muito mais vastas e a escolha mais difícil. Depois, é preciso dizer que a geração anterior à actual, que tem hoje 30 anos, foi enganada.
Enganada por quem?
Uma parte foi mesmo fraude política, outra foi ilusão. Tudo, agravado pela crise, cria uma forte tensão na juventude, que não é pior que a vivida pelos pais ou avós no 25 de Abril. Sentem-se irritados e muitos estão a reagir como os seus avós reagiram, a emigrar, que é uma coisa boa, outros estão a dar a volta como são capazes. Esta é uma geração que vai ter bons resultados, acho eu. Só que não está a ser fácil.
Qual a razão de fundo para não ser fácil?
É uma razão que está a afectar todo o mundo ocidental, não tem nada a ver com o caso português. Está a acontecer nos Estados Unidos, na Alemanha, em todos os países, e tem a ver com as pressões que as novidades tecnológicas, a globalização, exercem sobre o mercado de trabalho e sobre a vida das pessoas. Trazem grandes oportunidades mas também grandes medos e até uma certa polarização.
No 25 de Abril as pessoas sabiam o que queriam. Agora também sabem?
Em certo sentido esta geração é mais pacífica que a anterior. Estamos de acordo que queremos estar na Europa, que queremos uma economia de mercado, já não há as tensões entre republicanos e monárquicos, entre comunistas e liberais. Há alguma desorientação mais no lado dos costumes, no abandono do casamento, dos filhos como um propósito... As tais oportunidades criaram algumas perplexidades, talvez esta geração esteja um bocadinho deslumbrada e a cair numa fraude.
Que fraude é essa?
É como a fraude dos anos 60/70, da geração hippy, que abandonou tudo o que era antigo, deslumbrada por uma coisa nova. É um fenómeno parecido que está a passar-se em Portugal, de forma tardia. Não andam com flores no cabelo, mas estão a rejeitar as tradições. E de alguma forma vão voltar a elas porque vão ter de crescer. Há uma juventude retardada, gente que quer ser jovem mas que já tem 50 anos, pessoas da minha idade que nunca chegaram a ter um emprego, família, que continuam a ter cabelos compridos e a jogar computador, a achar que tem uma vida. Não têm: get a life!
Isso pode ter a ver, também, com o aumento da esperança de vida? Mário Soares dizia que antes era fácil manter um casamento, morria-se cedo...
Esse efeito é verdade, mas há, de facto, um desmantelamento na sociedade portuguesa, não é nas outras sociedades, que é perturbador. Sobretudo porque houve um movimento político a apoiar este tipo de circunstância e estamos agora com a taxa de natalidade mais baixa do mundo. Isto não aconteceu nos Estados Unidos nem na Inglaterra, porque eles aperceberam--se e tomaram medidas para inverter a situação. Nós fizemos o contrário.
E discute-se o assunto?
Ninguém está a ligar nenhuma, é um assunto que passa completamente ao lado.
O facto de este governo ser tão jovem, em idade, condiciona-o?

Sobre este governo em particular acho que a questão não é tão simples. Está a fazer o que a troika manda. Daqui a dois, três anos, quando as coisas começarem a melhorar, nessa altura é que vamos ver se o governo é bom ou não. As coisas estão de tal maneira fossilizadas que uma pessoa nova pode ser uma lufada de ar fresco. As cliques instaladas estão a ser perturbadas não pelo governo mas pela troika, é uma luta de titãs entre grupos instalados e os nossos credores.
No meio está o governo...
O governo está espremido entre duas forças, os credores que não emprestam mais enquanto não tivermos juízo e esta gente – professores, médicos, etc. –, que quer proteger ao máximo os seus interesses, esteve a comer acima das suas posses durante 15 ou 20 anos, à custa da dívida externa. Em 2008 e 2009 o desemprego estava a subir e ninguém falava nisso, os reformados continuavam a receber o seu, os funcionários públicos até foram aumentados porque era ano de eleições… O ano de 2009 é extraordinário, a economia caiu 2,5% e os salários subiram 5% em termos reais, portanto é um ano de malucos. O mundo estava a desabar e nós estávamos a cantar porque havia três eleições.
Dos actuais indicadores qual é o que o surpreende mais?
O desemprego atingiu níveis incomportáveis e incomparáveis com qualquer época anterior. Penso que surpreendeu toda a gente, nacionais e internacionais, o que poderá ser a questão mais importante nesta crise.
Que é qual?
Saber se nós ainda somos portugueses ou se já somos europeus. Mas acho que já começo a ter uma resposta. Ou seja, Portugal tinha uma taxa de desemprego muito baixa porque era muito flexível, as pessoas davam muito a volta, emigravam, arranjavam um emprego ao lado, a família tomava conta deles, havia uma flexibilidade natural na economia portuguesa, que permitia combater estes choques. Por isso a Europa estava com desemprego de 11% e nós com desemprego de 6%. E agora não aconteceu isso, chegámos aos 15%. Portanto, pode ser que nós já estejamos europeus.
E isso é bom ou mau?
Acho que tem grandes inconvenientes, no geral é mau! Começa a haver alguns sinais de que ainda somos portugueses: a emigração aconteceu rapidamente – não temos dados, infelizmente o INE não tem estado a anunciar, mas os poucos indicadores mostram um aumento enorme da emigração, que é uma das maneiras antigas que os portugueses têm de dar a volta às situações. Em Portugal há fenómenos únicos, como o dos salários em atraso. As pessoas preferem trabalhar de borla a perder o emprego, o que não acontece na Europa. Outro sinal importante de que ainda somos portugueses é a calma das pessoas. A Grécia estava a ferro e fogo, Itália estava a ferro e fogo, Espanha estava a ferro e fogo e em Portugal há umas manifestações para cumprir calendário, umas greves gerais que nunca correm bem, mas o país está sereno.
Isso não tem desvantagens?
Tem desvantagens e leva os partidos de oposição, como a esquerda furiosa, a dizer “porque é que não se mexem”, “são todos comodistas”… Mas não tem nada ver com isso.
Tem a ver com o quê?
Com o facto de as pessoas perceberem que se vão fazer manifestações, se vão fazer protestos, isso estraga mais, não resolve nada, não vale a pena, é inútil. No fundo as pessoas perceberam que isto foi uma festa e agora é preciso dar a volta e apertar o cinto.
E até onde é possível apertar o cinto?
Ninguém sabe. Eu estou convencido que nos vai sair barato, para o nível de disparate que fizemos. Primeiro porque nos estamos a portar bem, segundo porque isto passou a ser um problema europeu, depois porque já começa a ser claro, sobretudo na Grécia, que a austeridade só pela austeridade não chega.
O que é que isso significa?
Quer dizer que é possível, dentro de algum tempo, quando não sei, haver algum alívio, primeiro na austeridade e depois com a tal capacidade que os portugueses têm de se desenrascar, que algures em 2013 a economia comece a ter algum crescimento. Se isso acontecer, então saiu-nos muito barato. Quer dizer que por junto tivemos uma quebra de 3,4% ou 4%, talvez 5% – a Grécia tem 21% ou 22%.
As economias ocidentais tiveram um longo período de crescimento. Até que ponto é expectável que se continue a crescer?
O problema é que o crescimento tem mudado muito e hoje crescer tem significados diferentes de antes. E, em alguns países está a levantar-se esse problema, crescer até quando, quando é que isto pára e até que ponto é que o crescimento significa qualidade de vida, satisfação, felicidade. Há aqui um estigma de que quando não se cresce é uma coisa má, mas se calhar não é. Claro que nós não sabemos o que é uma economia saudável que não está em crescimento, se chega um ponto em que a economia pára, os custos fixos ficam cada vez mais importantes e, sobretudo se a população começar a cair, começa a haver ouro tipo de problemas, uma dinâmica que nós não sabemos como funciona. Mas Portugal ainda está muito longe disso, estamos a um nível intermédio, e o nosso objectivo é muito claro, copiar a Áustria, a Bélgica e outros países pequenos europeus.
O que é que isso significa em termos práticos?
Temos de mudar a maneira como estamos a fazer as coisas. Quando se fala nisto, imediatamente aparece um esperto a falar em política de crescimento e planeamento da sociedade portuguesa, que é exactamente a maneira errada, porque essa foi a que nós seguimos nos últimos 15 anos e que nos trouxe ao buraco. É preciso perceber que crescimento económico é uma coisa que as empresas fazem, os mercados, os trabalhadores, os consumidores fazem. O que é preciso é largá-los, não é andar em cima deles com mais regulamentos, mais regras, mais impressos e exigências que, evidentemente, vão ter como consequência o que nós vemos. Defende-se todas as causas menos a da produção, a do emprego. Se não houver dinheiro não há mais nada.
Os bancos têm um papel fundamental no financiamento da economia. Como vê a sua actuação nos últimos tempos?
É preciso dizer que a crise financeira foi uma bolha, uma euforia, em que de alguma maneira todos tivemos culpa. Mas Portugal não esteve na crise internacional, nas subprime, ao contrário de Espanha. Houve países do Paquistão à Suíça e à Polónia que tiveram falências porque tinham lá lixo das hipotecas norte-americanas. Nós não.
Então o que é que nos aconteceu?
O que nos aconteceu foi uma coisa que é preocupante e que ainda não está a ser percebida. Tivemos um fenómeno extraordinário, um problema do Estado. Os mercados internacionais fecharam-se à dívida portuguesa no princípio de 2010, mas até meados de 2011 o governo português fingiu que tinha crédito e impingiu dívida pública à brutalidade para os nossos bancos, que foram obrigados a comprá-la em quantidades industriais, o que agora está a criar problemas enormes; dívida pública e dívida de empresas públicas.
Isso levanta várias questões…
Isto levanta enormes problemas, como a influência política na banca ou a independência financeira das nossas instituições. Voltámos ao tempo da banca nacionalizada…
A banca demorou a dizer chega. Porquê?
Demorou. Certamente que a banca não queria aquele lixo. Qual foi a possibilidade que o engenheiro Sócrates teve de, no fundo, ter a banca no bolso? Não sei, é uma história de influência política... A história do BCP, por exemplo, que foi completamente capturado pelo Estado através de um assalto aberto, dá algumas pistas para perceber isso. Há a Caixa Geral de Depósitos que é pública, outros bancos que estão perto disso, mas esta é uma história que ainda está por contar: porque é que a banca, que claramente não tinha interesse, foi obrigada a comprar dívida.
E a actuação do Banco de Portugal?
Bem, o Banco de Portugal não podia fazer nada, isto não é uma questão de regulamentação bancária. Podia ter feito outras coisas.
Mas é uma questão de supervisão, de garantir que as regras prudenciais são cumpridas…
Há coisas gravíssimas que se podem assacar ao Banco de Portugal, nomeadamente no BPN, que é um roubo que aconteceu ao longo de 20 anos e que o Banco de Portugal não reparou, uma entidade que fez violação gravíssima da prudência financeira e que não foi apanhada por quem devia ter vigiado isso. Aqui é diferente, não é crédito dado a uma empresa, é dado ao Estado, bolas, o Estado não é um ladrão que depois vai fugir com o dinheiro… mas depois é! Claro que eu percebo que o Banco de Portugal não pode vir dizer “não emprestes dinheiro a essa entidade, que é o Estado – e o Banco de Portugal é do Estado…
Agora temos a troika a fazer esse papel…
Tudo isto criou um problema financeiro que tem vários níveis, e é preciso separar as questões. O problema financeiro é um problema que o mundo todo está a ter, os bancos do mundo inteiro estão aflitos porque houve uma crise financeira que ainda está meio resolvida, ainda está tudo muito frágil. A banca portuguesa, embora não estivesse directamente afectada pela questão, sofreu por tabela. Depois, há o problema da banca portuguesa, que está ainda em transformação na Europa, e aí a questão do euro também levanta uma incerteza. Tal como o facto de o Estado português estar falido cria uma má imagem para todas as empresas portuguesas, em particular para os bancos. Todo o país está mal visto por ser Portugal, que está do lado errado das notícias e secou-se o mercado internacional.
Os bancos dizem que têm dinheiro...
Mas têm medo. O terceiro elemento é a própria economia, que está muito frágil. Num momento em que há muita desconfiança internacional sobre a banca, muita desconfiança específica sobre Portugal, têm medo de emprestar. Mas um aspecto novo, que já aconteceu mas que está a voltar e num clima completamente diferente, é o que me preocupa mais: temos outra vez a banca no bolso do Estado. Resultado do último consulado Sócrates – e é preciso ver que o sistema português cabe num táxi, qualquer dia até o banco de trás do táxi chega –, as empresas desses grupos, sendo algumas indiscutivelmente privadas, como o Banco Espírito Santo, emprestaram dinheiro ao Estado porquê? Porque é que o BES emprestou tanto, se sabia que era uma estupidez? Esta nova influência política, descarada numa altura em que o mundo é completamente diferente, em que a Europa está toda aberta financeiramente, assusta-me.
Como é que a banca se pode libertar dessa parte do negócio?
É uma negociação política, uma vez mais. Agora a banca vai ter de estar outra vez enfiada com o governo em negociações até normalizar a situação. Ou não. Não tenho a certeza que o Estado que saboreou ter a banca no bolso queira agora largá-la.
Prefere a CGD pública ou privada?
Ser pública não tem problema, ser privada também não. Passar de pública a privada é que é assustador.
É-lhe indiferente de quem é o capital a quem são vendidas as empresas públicas?
Fazer privatizações por razões financeiras e não por razões económicas é asneira. Não estou a criticar o governo, se algum governo critico é aquele que nos pôs nesta situação. Esta circunstância foi forçada, este governo não tem culpa. Agora, se é vendida a chinês ou angolano isso, sinceramente, não me faz mossa. Mas é importante que seja bem escolhido, são empresas necessárias para o país, já estamos a rapar o fundo do tacho. Pode haver aqui problemas, quando estamos a falar da RTP, da TAP… Infelizmente a gestão pública das empresas nunca foi brilhante.
A RTP é fundamental?
A RTP tem um valor cultural enorme em termos de arquivo. Depois, como televisão, é um contra-senso: por um lado tem de fazer serviço público, que nunca ninguém soube muito bem o que era, por outro concorre com as outras mas tem dinheiros públicos, que é uma batota em termos de concorrência. Uma vez mais, no meio de uma trovoada enorme é que se vão resolver coisas que se deviam ter resolvido com calma. Tenham vergonha na cara e vejam quem nos pôs nesta situação e quem criou as condições para que isto acontecesse.
Sobre as PPP, esperava mais?
O conceito de parceria público-privada é extraordinariamente complicado, é uma tentativa difícil de conseguir o bom de dois lados, juntar ao interesse público a boa gestão do privado. Mas é possível conseguir o mal de dois lados, uma má gestão e ir tudo para o bolso dos privados, que em alguns casos foi o que aconteceu. O que aconteceu em Portugal é que temos mais PPP que todos os países da Europa somados. A forma como foi feito é de loucos e atingiu proporções homéricas, com coisas absolutamente assustadoras. Mas isto não tem a ver com a crise, porque as PPP este ano e no próximo dão trocos. Com as PPP, o governo anterior empenhou os seus sucessores durante décadas. É assustador ver como é que aconteceu, em democracia e com a Europa a ver…
Ainda acredita na Europa?
A União Europeia é uma impossibilidade histórica. É impossível ter 27 países unidos, portanto é uma coisa que está sempre à beira do abismo, foi assim que nasceu. Esta crise é causada pelo problema de sempre, que é um problema de solidariedade e que começa pelo abuso da solidariedade por parte dos mais fracos. A Grécia abusou, Portugal abusou, Espanha abusou escandalosamente da solidariedade dos outros, endividando-se à maluca e, no fundo, violando abertamente as regras.
Mas com a conivência de todos…
Sim, nas barbas de toda a gente. Mas penso que a Europa ainda tem muitas cartas para dar e vai sair mais forte desta crise.
Como viu a decisão de ontem do BCE?
O BCE deu finalmente um sinal de que o euro é mais importante, mas vamos ver se chega e se vai a tempo, eu acredito que sim. O facto de os alemães terem votado contra – e Merkel não podia ter feito outra coisa, porque internamente está a ser pressionada –, até pode ser positivo. Se tivesse bloqueado a decisão teria sido dramático.
Voltando a Portugal, como é que é ser assessor económico de Cavaco Silva?
Foi uma experiência única. O professor Cavaco Silva é um técnico, foi meu professor e é um professor. Dentro do gabinete dele não havia influências políticas, não havia tricas, havia trabalho técnico e ele separava muito bem as coisas. Está permanentemente a trabalhar e sabe tudo de cor, estatísticas, indicadores, decretos...
Conheceu vários políticos…
Na política está o melhor e o pior da sociedade portuguesa.
Quem é o pior?
Não vou dizer nomes, mas os melhores e os piores são autarcas.
Quem pode ser o próximo Presidente da República?
Não faço ideia, mas temos muita gente. Só que no nosso sistema, infelizmente, o Presidente não conta nada. O Presidente da República, que é pessoalmente eleito pelo povo, só intervém se usar a bomba atómica, que é demitir o governo ou o parlamento. É um contra-senso. Mas, se não houvesse limitação de mandatos os presidentes ficavam lá para sempre. Mas para fazer o quê, o que é que fizeram todos? Podem estragar, e o homem que mostrou isso claramente foi Mário Soares. Com o professor Cavaco Silva mostrou que podia meter muitos paus na engrenagem para impedir as coisas de andar. A não ser que haja um Mário Soares, que andou a fazer terrorismo e que quando tem oportunidade de estragar a vida ao governo usa-a, este não é um bom sistema.
O actual governo, fica até ao fim?
A experiência da AD foi sempre má, nunca tivermos uma aliança democrática que chegasse ao fim. Mas vamos ver, eu espero que sim, porque era indispensável que tal acontecesse.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Vai Estudar Relvas!


                                               Os factos:

Esta expressão, exibida no decurso da Volta à França em bicicleta por um espetador, caiu no “goto” dos portugueses, por traduzir uma das raras situações de inversão da relação entre Governante e Governado.  De facto, o ato subjacente, retirou ao governante em causa a legitimidade moral para a função, proporcionando ao Povo a oportunidade de exibir a sua “autoridade”, restituindo-lhe alguma dignidade, ainda que efémera.

Porém, esta é uma excelente oportunidade para refletir mais profundamente, sobre o “estado” da Democracia que vivemos e que, até agora, não vi em parte nenhuma, neste país de "iluminados".
O facto relevante é o de um político atualmente governante ter obtido o grau de licenciado, aparentemente, graças ao relacionamento de exceção que detinha com um estabelecimento de ensino superior privado, proporcionado pela relevância da sua atividade e traduzido na sobrevalorização das competências da sua experiência de vida, por parte desse mesmo estabelecimento.
Processo de Bolonha:
As alterações introduzidas pelo Processo de Bolonha no modelo do ensino superior têm gerado enorme controvérsia, sobretudo entre os “instalados”; académicos e profissionais no ativo, devido à alegada injustiça que, alegam,  introduziu, no acesso às profissões. Percebendo o impacto que tal produzirá no ensino superior - redução de ativos docentes - e nas profissões - aumento da concorrência -, trataram de se proteger através das respetivas corporações - universidades e ordens - “ inventando”, quer os “mestrados integrados” quer modelos abusivos de acesso às respetivas profissões, subvertendo o alcance desta reforma.
O ensino superior público e algum privado, são financiados maioritariamente pelo erário público, ou seja, pelos contribuintes; importa pois que seja eficaz e que abranja o maior número de cidadãos possível. A sobreformação é um desperdício e uma injustiça social. Adequá-la às necessidades efectivas do país e torná-la acessível é um imperativo cuja justificação ganha, atualmente, especial relevo, quer pela escassez de recursos quer pela necessidade de materialização de um dos principais desideratos do Regime. Também a Academia deve servir a Comunidade e não servir-se dela alongando, injustificadamente, a formação.  O livro “Matemática em Portugal”, da autoria de Jorge Buescu, patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, diagnostica um dos crónicos bloqueios da sociedade portuguesa:
“Os verdadeiros culpados são os catedráticos, o meio académico, as políticas de educação. Foi a sua secular tacanhez, boçalidade e obscurantismo que estiolou a Ciência e Matemática em Portugal. E não é preciso fazer arqueologia para saber do que se trata. Repetidamente (págs. 23, 68, 79, 90), o livro nota a semelhança entre os desastres antigos e os males que hoje se apontam ao ensino: "falta de exigência e de rigor, facilitismo,...cultura de mediocridade" (págs. 68 e 69).
Mas a questão não se reduz ao campo educativo, pois os tais lentes que sabotaram a ciência nacional estiveram ativos em todas as áreas. A monstruosa falsificação histórica que o livro denuncia não se limitou à Matemática, mas afeta todo o nosso imaginário coletivo. Podemos dizer que fomos todos enganados em alguns traços da interpretação oficial da nossa história.
As elites intelectuais dos séculos XIX e XX construíram uma magna narrativa civilizacional para explicar não apenas para a miséria educativa, mas todo o desenvolvimento nacional. Mas nesse relato os heróis estão trocados com os vilões, as forças progressivas com as retrógradas, as causas com consequências.”
A mudança de paradigma dos sistemas de ensino, sobretudo a nível superior, está já em curso, graças, sobretudo, às novas tecnologias, que proporcionarão a sua massificação, tornando-os acessíveis a estratos sociais e etários cada vez mais alargados, acabando, assim espero, por desmistificar os “sábios” de “pés de barro”, graças ao esperado amadurecimento dos regimes Democráticos.
Neste processo de mudança, será inevitável a vinculação dos programas de ensino às necessidades efetivas da comunidade numa interação indutora de progresso académico e económico, com os consequentes ganhos de competitividade global e de justiça social. E é assim que faz todo o sentido valorizar a experiência profissional relevante, a qual, complementada adequadamente, dará lugar ao grau académico justo.
Esta mudança, revolucionará a axiologia vigente, muitas vezes promotora da sobreformação com o propósito de dar resposta a uma quase doentia e geral necessidade de acesso à consideração social pela via do grau académico, consequência dos estigmas do passado e da dificuldade de assimilação da axiologia Democrática. Por outras palavras; os estigmatizados “trabalhadores” passarão a valorizar-se socialmente pelo reconhecimento das suas competências efectivas e pela abertura das vias de acesso ao ensino superior. Um passo decisivo na Democratização efetiva das sociedades humanas.
O mito do Ensino:
Se é verdade que a educação e a qualificação são necessárias ao desenvolvimento individual e colectivo, é indiscutível porém que, por si só, são insuficientes. As economias de todos os países socialistas implodiram, apesar do nível relativamente elevado de qualificação geral das respetivas populações. Isto quer dizer que a qualificação só é eficaz se os ambientes político, social e económico forem propícios à efetivação do seu contributo à sociedade. A qualificação é anulada pela burocracia, pela corrupção, pelo nepotismo, pela asfixia da livre iniciativa, pela destruição das legítimas aspirações de realização pessoal.
Mas…de que serve a qualificação quando se desempenham cargos relevantes que nada têm a ver com a mesma, servindo apenas  para “emprestar” alguma dignidade ao candidato ou titular do cargo e ao processo de nomeação efectiva ou implícita? E como se  conjuga esta “doença social” com o primado da educação e da qualificação permanentemente propagandeados? E que consequências tem nas respetivas sociedades a generalização deste processo? Obviamente, o retrocesso socioeconómico, por contrariar ou anular o efeito da educação e da qualificação.
Não há Democracia sem Democratas!
Mas neste caso, tal como no que envolveu o anterior Primeiro-Ministro, não se tratou de garantir a aquisição de novas competências, mas tão-somente o de aceder a um “estatuto profissional "mais condigno” com os respetivos cargos. Ou seja; dois reputados políticos dos maiores partidos fundadores da Democracia Portuguesa, têm dificuldade em assumir a sua efetiva condição académica ao exercer cargos que não exigem qualificação específica, mas apenas idoneidade social e política! E nem por um momento parecem ter-se preocupado com o tratamento de favor de que sairam beneficiados e inacessível à generalidade dos seus concidadãos! 
Eis-nos por fim chegados à questão primeira! A dignidade de cada cidadão passa pela possibilidade de acesso de cada um ao exercício de qualquer cargo político independentemente da sua qualificação académica. Entre os principais mentores da Democracia porém, há quem o considere inadequado e se disponha a "atropelar" o basilar princípio da igualdade.
Concluo com tristeza que, apesar da estrutura Democrática da III República constitucionalmente consagrada - discutível, embora -, grande parte dos seus mentores não são, efetivamente, Democratas! Apenas se servem da Democracia para a prossecução de desideratos pessoais e de grupo. E não são democratas porque, eles próprios, constituem o testemunho do défice crónico de cultura cívica entre os Portugueses, nomeadamente das elites de que fazem parte; políticas, económicas, académicas, judiciais e sociais.
E é pelos alicerces da cultura que a Democracia se pode erguer e sustentar, de nada servindo as leis constitucionais, por mais democrático que seja o seu articulado.
AB

domingo, 26 de agosto de 2012

Caganêra


Mário Bandeira é o “meu” livreiro; é um tipo castiço, com talento e história. “Semos sócios” ! Volta e meia, antes de levar o jornal, vamos lá para o canto do balcão onde ele verseja de improviso e eu “guitarro” a preceito, respeitando o tom do “artista”.
Naquele dia, o Mário estava numa espécie de “tertúlia científica” com alguns clientes.
– Se passar um cabo até à lua e ligar a luz, quanto tempo leva a chegar lá? Perguntava veemente o bom do Mário perante os silenciosos ouvintes! Logo que me avistou disse;
-Olha ali o Barreto deve saber! Sabe, com certeza! Ó Barreto, quanto tempo leva? Respondi:
- Ó Mário, depende do tipo do condutor, do seu comprimento, da sua secção, da potência da lâmpada e da temperatura média ambiente. Posso calcular um cabo elétrico para esse fim se me disser a potência da lâmpada e o tempo.
- Não, não, quanto tempo leva? Repetiu, continuando:
- São sete segundos e meio, que eu ouvi há dias num programa na TV!
-Ah! O que o Mário quer perguntar é; quanto tempo demoraria a ser vista na lua, a luz de uma lâmpada desde o momento em que é ligada na Terra! Repliquei, continuando:
Ora a distância da Terra à Lua é de, aproximadamente, 374000 Km e A velocidade da luz acho que é 3000000 Km/s, portanto demora aí…quase dois segundos, não é assim Maria? (é assim que trato a minha sueca, ex-professora de física, química e matemática).
-É mais ou menos isso, acho eu! Respondeu. (a distância exata entre a Terra e a Lua é de 384400 Km).
Estávamos nisto, quando se fez notar um “jovem” baixote na casa dos sessenta, cabelo rapado, magro, desempenado, com quem ganhei imediata empatia por se apresentar de camisola amarela, ostentando com discreto orgulho o emblema do Glorioso, dizendo:
- Uma vez, estavam três gajos, um deles Alentejano, a conversar, diz assim um:
-É pá o Capel é um ganda jogador! Sacana tem uma corrida que parece um foguete! Respondeu outro:
- Não chega aos calcanhares do Nolito; esse sim, tem uma velocidade que nunca vi, parece um avião! Diz então o Alentejano, subitamente inspirado:
- É pá; agora fora de brincadeiras; qual será a coisa mais rápida do mundo? Após um breve silêncio respondeu o primeiro:
-Cá p’ra mim é a luz elétrica. A minha fábrica tem 100 metros, liga-se a luz numa ponta e no mesmo instante, acende-se a luz lá no outro lado! Porra! Isto é que é velocidade! Diz o segundo:
-É pá eu acho que é o telefone. Já viram? Ainda há dias falai com o meu irmão que está na América, nem sei quantos quilómetros são, vocês já viram bem? Falamos daqui e no mesmo instante, estão a ouvir o que dizemos no outro lado! Já viram, uma distância daquelas? Eu acho que o telefone é muito mais rápido! Diz então o Alentejano muito depressa:
- É a caganêra!
-A caganeira? Responderam os outros em uníssono, meio ofendidos:
-Pois, a caganêra! Respondeu convicto o Alentejano.
-Pronto, lá tás tu com as tuas merdas! Nu vês que estamos numa conversa a sério? Ripostaram os colegas.
- É pá, vocês nem me deixam falar, dass! Volto a dizer; é a caganêra! Repetiu com ênfase o Alentejano.
- Pronto, atão diz lá porquê! Tinhas que estragar tudo, pá! Chiça! Nu se pode ter uma conversa séria contigo! Gaita! Disse um dos outros.
- É que, quando ela vem, não dá tempo nem de acender a luz nem de ligar o telefone!
Olharam-se os três e após um breve silêncio, desataram às gargalhadas acompanhadas com mútuas pancadas nos costados, retomando a conversa inicial;
- Atão que vai ganhar o campeonato? Tenho cá uma fézada…

E lá fui, sorridente, ao cafézinho matinal, com o jornal debaixo do braço.
AB

 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Refrigeração por absorção; breve descrição.


                                           As características particulares de algumas soluções binárias como por exemplo, água - H2O - e amoníaco - NH3 -, ou água e brometo de lítio - BrLi -, permitem construir bombas de calor accionadas por fonte térmica, usadas quer em refrigeração, quer em ar condicionado. 

Estas unidades são constituídas por um circuito de água quente e um circuito de água refrigerada. No primeiro, a água recebe o calor no permutador da fonte motriz e entrega-o ao gerador da unidade refrigeradora, no segundo, a água arrefecida no evaporador da unidade absorve o calor do espaço refrigerado através de uma bateria de arrefecimento.  

Esta unidade refrigeradora necessita de um condensador - multitubular arrefecido a água, no caso das embarcações - e pode utilizar qualquer fonte de calor nomeadamente renovável - solar, biomassa - ou rejeitado - gases de exaustão dos motores diesel, caldeiras ou ar/água de arrefecimento de ar comprimido. 

A solução mais usada nestes equipamentos de refrigeração é a de água-amoníaco e a configuração indicada acima permite instalá-lo num espaço confinado e ventilado, obviando as consequências nefastas do amoníaco no caso de eventual rotura. 

A sua utilização é especialmente indicada em regiões onde não haja energia elétrica disponível ou em unidades industriais com efluentes térmicos significativos aumentando significativamente os ganhos energéticos globais, com redução equivalente da fatura respetiva, num processo designado por co-geração. 

Tendo em conta que o amoníaco é um refrigerante natural que não tem qualquer impacto no efeito de estufa não afeta a camada de ozono e permite a recuperação de energia habitualmente rejeitada, o processo de arrefecimento por absorção é ecológico e a sua utilização ganha maior relevância na actualidade dada a importância cada vez maior do aumento da eficiência energética dos sistemas. 

Utiliza-se mais correntemente em caravanas, barcos de recreio, ar condicionado industrial e doméstico e arrefecimento industrial de água, prevendo-se a expansão do seu uso, nomeadamente a viaturas de transporte e a navios, permitindo  utilizar cerca de 80 % da energia química do respectivo combustível, em vez dos habituais 40 %. 
 
 
AB

domingo, 19 de agosto de 2012

"Pastéis...de nata"




Gosto do Ministro Álvaro Pereira; tem uma formação sólida em economia, conhece muito bem a economia portuguesa - frequentava o seu excelente blogue antes de ser ministro -, teve sucesso num país estrangeiro onde a meritocracia reina, fala pouco, trabalha muito, não tem “peneiras” e sintetiza o Português comum; honrado e trabalhador, sem vínculo às estruturas partidárias que quase destruíram o País em 38 anos de oligarquia a que pomposamente dão o nome de democracia representativa.
Rotinado nos hábitos culturais do seu País de acolhimento - Canadá - foi alvo de chacota geral quando pediu que o tratassem, simplesmente, por Álvaro! Até o ilustre professor Marcelo se pronunciou no seu programa semanal, considerando  desadequada tão inusitada sugestão!
Ora este singelo ato representa, nada mais, nada menos, a maior revolução mental de que a sociedade Portuguesa necessita. Estigmatizada e bloqueada pelas “trincheiras” e “torres de marfim” cavadas e erguidas pelos grupos que se julgam “donos de Portugal” e que teimam em vedar a ascensão profissional e social aos outros, a sociedade portuguesa continua fiel às tradicionais amarras da subserviência e do amiguismo.
Reproduzo um extrato de uma excelente crónica de João César das Neves, acerca do livro “Matemática em Portugal” da autoria de Jorge Buescu patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que sintetiza muitíssimo bem esta realidade:
“Os verdadeiros culpados são os catedráticos, o meio académico, as políticas de educação. Foi a sua secular tacanhez, boçalidade e obscurantismo que estiolou a Ciência e Matemática em Portugal. E não é preciso fazer arqueologia para saber do que se trata. Repetidamente (págs. 23, 68, 79, 90), o livro nota a semelhança entre os desastres antigos e os males que hoje se apontam ao ensino: "falta de exigência e de rigor, ... facilitismo,...cultura de mediocridade" (págs. 68 e 69).
Mas a questão não se reduz ao campo educativo, pois os tais lentes que sabotaram a ciência nacional estiveram ativos em todas as áreas. A monstruosa falsificação histórica que o livro denuncia não se limitou à Matemática, mas afeta todo o nosso imaginário coletivo. Podemos dizer que fomos todos enganados em alguns traços da interpretação oficial da nossa história.
As elites intelectuais dos séculos XIX e XX construíram uma magna narrativa civilizacional para explicar não apenas para a miséria educativa, mas todo o desenvolvimento nacional. Mas nesse relato os heróis estão trocados com os vilões, as forças progressivas com as retrógradas, as causas com consequências.”
Aqui chegados, vejamos agora o caso dos famigerados pastéis de nata. Sugeriu o honrado Álvaro a internacionalização do fabrico dos famosos pasteis através de franchising, para a promoção do crescimento económico através das exportações, método que poderia alargar-se a outros produtos de fabrico tradicional.
Caiu o carmo e a trindade! Choveram anedotas de todos os setores quer políticos quer  populares; exatamente os mesmos que exigem governantes com toque de midas! Afinal, Álvaro, sugeriu “apenas” o que Michel Porter recomendou há cerca de vinte anos,na sequência do estudo que fez sobre a economia portuguesa encomendado pelo governo de Cavaco Silva, a que ninguém ligou qualquer importância! Recomendou o cotado economista, que Portugal deveria concentrar-se em desenvolver o que sabia fazer bem, ou seja, a sua economia tradicional! Ora é precisamente o caso dos pastéis de nata!
Então vamos a números. A famosa Fábrica dos Pasteis de Belém emprega 150 pessoas, fabrica 20 mil pasteis por dia e fatura, diariamente só neste produto, 21 mil euros! Para termos uma ideia da magnitude do negócio, imaginemos um objetivo de 1000 estabelecimentos com semelhante produção em valor - cerca de 37 lojas por país membro da EU. Teríamos então uma receita diária de 20 milhões de euros! 7300 milhões de euros ano! Quase tanto como a receita turística total anual do país! Agora imaginemos que era possível replicar este caso em mais 10 produtos…pois é…73000 milhões de euros! Quase metade do PIB - cerca de 160000 milhões de euros! Paremos por aqui.
Afinal, quem é o pastel nesta história? Bebam uma coca-cola a acompanhar um hambúrguer e respondam vós próprios.
Por mim retiro a lição de que, nem sempre é boa ideia rirmos das ideias dos outros, porque pode dar-se o caso de, afinal, nos estarmos a rir de nós próprios.
Força Álvaro, tens aqui um fã.
AB

sábado, 18 de agosto de 2012

O trio Maravilha



                                           A privatização de um canal da RTP está já a provocar movimentações nos bastidores. O CM de 10 de Agosto noticia um almoço na praia do Ansião na Quinta do Lago no Algarve entre o Presidente da PT (Zeinal Bava), o Presidente da Controlinveste (Joaquim Oliveira) e…o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares (Miguel Relvas). Provavelmente discutiram estratégias de aliança para candidatura conjunta à privatização do canal público, o que me deixa bastante preocupado por ver confirmar-se a suspeita de que esse canal já tem o destino traçado, como o deixa adivinhar a nomeação de Carlos Magno para a ERC, quanto a mim, com o objetivo de remover eventuais obstáculos legais.

No dia seguinte, o mesmo CM, na página 36, refere; “dona do MEO quer entrar no canal de desporto”. No articulado informa que está a ser negociado o regresso da PT  à Sport TV, mediante a cedência dos 50% da sua participação na Sportinveste e a aquisição de parte das ações de Joaquim Oliveira, havendo como contrapartida, a entrada da Sportinvest na Sport TV, visto que detém os direitos “new média” dos principais clubes, atuando no mercado nacional e internacional.
Refere ainda o mesmo artigo que, a concretizar-se esta ação, poderá servir para melhorar a relação entre a Sport TV e o Benfica, devido à forte parceria entre este e a PT, que patrocina as camisolas e o Estádio da Luz .
Conclui, referindo que o Benfica pretende manter a decisão de não vender os direitos desportivos a Joaquim Oliveira.
Os campeonatos passam por aqui! Joaquim Oliveira é o braço do outro clube para a comunicação social e para o domínio financeiro da FPF, da LPFP e de grande parte dos clubes adversários. Confrontado com a redução de receita, seja de publicidade seja de subscrição do canal, JO, socorre-se do velho aliado, para obter o capital que a banca nega à Sport TV e, eventualmente, pressionar o Benfica a vender-lhe os direitos desportivos.  Considero por isso urgente que a Direção do Benfica contacte os dirigentes da PT para saber as linhas com que se cose e, se for caso disso, procurar já outro patrocinador para as camisolas e o estádio. Vender os direitos ao outro clube, não, nunca, jamais!
Quanto à presença do ministro Relvas no tal almoço, consubstancia a suspeita de que, este governo tudo fará para entregar o canal público ao lóbi azul, visto que, quanto a mim, está fortemente comprometido com os seus caciques patente na nomeação de Carlos Magno para a ERC, como já referi. Para este - e outros - temas, o Benfica precisa de aliados capazes de fazer frente a esta gente que vai expandindo e consolidando o poder azul na administração pública, na comunicação social e nos grupos económicos de referência.  
De momento, poderemos apenas contar com os numerosos adeptos Benfiquistas, cuja união ao serviço do clube é a única via para acabar com a corrupção.
É este o nosso desafio atual.