Desporto

domingo, 29 de maio de 2022

Um Pouco de História

 

Um Pouco de História

   “A história da República Romana forma naturalmente sete períodos ou épocas, de cada um dos quais fizemos um dos livros em que a dividimos.

   O primeiro, o mais extenso, e que a considerar cronológicas as tradições primitivas da cidade, dura quase quatro séculos (1-387). Abrange o tempo que vai desde a fundação de Roma até à outorga das Leis Licínias. Durante esse período efetuam-se em Roma todas as revoluções que nos tempos modernos (salvas as diferenças acidentais) abrangem a época decorrida desde a Idade Mádia até 1789.

   Dois séculos e meio, Roma, ao que reza a tradição, vivera sob uma monarquia patriarcal cujos traços fisionómicos são os de todos os períodos correspondentes. Em 245 uma r evolução abate essa monarquia protetora da plebe e funda no lugar dela o governo dos patrícios, ou da aristocracia de sangue, com a omnipotência do Senado, gerúsia ou conselho de anciãos. Logo se abre o período das revoluções e reivindicações da plebe, reclamando garantias de igualdade política; e, sucessivamente, se institui o Tribunado, se permitem os casamentos entre patrícios e plebeus, se abre à plebe o exercício de todos os cargos e sacerdócios atá ao ponto de que, votadas as Leis Licínias e conquistado por elas o acesso ao consulado em 387, se pode dizer fundada a igualdade política, se não com a força de um princípio jurídico, ao menos com a energia duma realidade positiva. Por isso dissemos que o ano de 387corresponde ao de 1789 ocidental. E à codificação dos Usos da nossa Idade Média corresponde em Roma a redação das leis pelos Decênviros (304), que, outorgando o código das XII Tábuas, roubou ao patriciado o sumo privilégio do conhecimento secreto das leis.”

Octaviano Augusto

História da República Romana

Oliveira Martins

Peniche, 29 de Maio de 2022

António Barreto

domingo, 22 de maio de 2022

Insultos ao Benfica

 

Insultos ao Benfica

  

   Os insultos ao Benfica proferidos por jogadores do Futebol Clube do Porto (FCP) em plena comemoração da vitória no recente campeonato resultam da consciência do seu imerecimento e do complexo de inferioridade que os atormenta relativamente ao clube da Luz.

   De facto, após cerca de 40 anos de supremacia futebolística seria de esperar a atitude cordial própria dos vencedores, de que são exemplo o próprio Benfica e todos os grandes clubes por essa Europa fora.

   Porém, esse tipo de grandeza provém não da quantidade de vitórias alcançadas mas da forma como foram obtidas. O traço comum dos grandes clubes reside no confronto leal, no respeito pelo adversário, antes, durante e depois do embate desportivo.

   Se há algo que caracteriza o FCP moderno é precisamente o oposto; uma cultura de hostilidade, de agressividade, de intimidação, numa atitude de afirmação regional, não apenas aos adversários, mas também dos agentes da tutela desportiva e até dos governos.

  A supremacia desportiva do FCP no atual regime foi alcançada através do controlo que adquiriu nas estruturas do futebol, que lhe permitiu beneficiar, explícita e implicitamente, de decisões dos respetivos órgãos, nos jogos, e nas áreas normativa e jurisdicional.   

   Paradoxalmente, quando, no 25 de Novembro, o país conquistou a liberdade política, sob a capa da democratização estabeleceu-se uma ditadura inamovível no desporto em geral e no futebol em especial, decorrente da maior densidade demográfica no norte do país, e, no caso do futebol, dominada pela Associação de Futebol do Porto.

   No plano formal, tudo se tem feito para diluir esse poder, sempre sem sucesso.

   Constituiu-se a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) dispersando o direito de voto por todos os intervenientes desportivos, mas a verdade é que esta só funciona quando os seus dirigentes são do agrado do FCP.

   Instituiu-se o vídeo-árbitro (VAR) com o propósito de apoiar as decisões dos árbitros, e o que temos assistido é ao seu uso em benefício direto ou implícito do FCP.

   Nos espaços desportivos e nos meios de comunicação social, instala-se uma espécie de guerra civil sempre que o FCP não ganha, numa militância transversal, acérrima e incondicional dos seus adeptos, vinculados ou não ao clube, sendo correntes os rumores de ameaças a árbitros e seus familiares por meliantes inimputáveis que gravitam na órbita do clube.

   Deixando de lado, o episódio do Apito Dourado, que expôs publicamente à saciedade, os métodos espúrios que levaram à condenação do clube nas instâncias desportivas, basta-nos um olhar para os dois últimos campeonatos.

   No penúltimo deles, em 34 jogos, o FCP teve a seu favor 16 penaltis assinalados enquanto o Benfica teve dois depois de decidido o vencedor! Catorze penaltis de diferença podem significar algo entre 14 e 42 pontos!

   No último verificou-se algo idêntico, 12 penaltis para o FCP e 5 para o Benfica; 7 de diferença que poderão representar entre 7 e 21 pontos! Acresce o tempo de jogo em superioridade numérica que, segundo consta, foi de cerca de 8 horas para o FCP!

 Como é possível que tal não tenha provocado a indignação geral e suscitado a investigação do Ministério Público?

   Como é possível que a PJ não tenha convocado de imediato o VAR do último jogo Benfica-Porto, para que este se explicasse d razão pela qual o fora-de-jogo de 2 cm parece ter sido tirado no momento errado?

   Como é possível que as autoridades não investiguem a LPFP e a FPF pedindo esclarecimentos para estas e outras ocorrências do género?

   Não sei, mas o que me parece é que há o consentimento tácito institucional e dos agentes políticos dominantes para o “sucesso” do FCP!

   As razões, quanto a mim, prendem-se, por um lado, com a necessidade de garantir a paz social dos adeptos do clube, e, por outro lado, com a instrumentalização política deste com vista à criação de uma identidade regional em seu torno e à predisposição para a regionalização, objetivo comum ao partido donde emana o atual Governo.  

   Finalmente julgo que se estabeleceu um consenso entre a comunidade política e algumas elites no sentido de favorecer uma mudança de paradigma no desporto, como sinal da efetiva mudança do regime autocrático para o democrático.

   Para estes, o Benfica é um símbolo do salazarismo e do centralismo que, por isso mesmo, tem de ser impedido de ganhar. Não importa se tal é ou não verdade, o que importa é que pareça ser verdade.

   Afinal, o Benfica é a maior Associação desportiva do país, com adeptos e admiradores nas “sete partidas do mundo” e isso parece suscitar receios em certas comunidades que, paradoxalmente, se apresentam como defensoras indefetíveis da liberdade.

   Não me parece que tenha sido por acaso que dois Presidentes do Benfica, foram parar aos calabouços - um logo após a saída do cargo, outro em funções -, ambos ainda a braços com a justiça, um deles, Vale e Azevedo, que mais parece ter sido condenado a prisão perpétua tal é a sanha persecutória que se percebe em torno do caso.  

   Apesar de tudo isto, a grande maioria dos benfiquistas parece considerar que não se deve misturar a política com futebol, indiferente à missão política do seu, de momento, maior rival.




 

Peniche, 22 de Maio de 2022

António Barreto

domingo, 8 de maio de 2022

Grande Benfica, pobre democracia

 

Grande Benfica, pobre democracia


     Quando, em 2015, o Partido Socialista formou governo, pressenti que o Benfica ia ter problemas graves. Quarenta e um anos de rumores, coincidências e evidências, definiram, na minha perceção, um padrão no campo desportivo. Infelizmente não me enganei. Um mês não era passado, da tomada de posse do novo governo, e já a comunicação social anunciava turbulência no Ministério Público; procedia-se à sua reconfiguração conforme as prioridades dos novos titulares do poder. Algum tempo depois, vem a público a notícia de uma cimeira, realizada na Capital, entre os dirigentes dos principais rivais do Benfica.

   Não tardou a ser disseminada, no espaço público, abundante informação confidencial do clube encarnado denunciando, com grande espalhafato, alegados atos espúrios “congeminados” ao mais alto nível.

   Rejeitada a providência cautelar pelo Tribunal de Primeira Instância da Comarca do Porto por um Juiz adepto confesso do rival da nobre cidade, a reputação do Benfica e dos seus dirigentes, foi devastada no pântano do espaço público durante cerca de um ano.

   Identificados os autores da “proeza”, “por coincidência” próximos do clube rival, movidos os correspondentes processos judiciais, aguarda-se, sem grande espectativa da minha parte, trânsito em julgado da condenação proferida em primeira instância. Já lá vão mais de 2 anos.

   Paralelamente sucederam-se as notícias de denúncias de irregularidades, anónimas umas, e do então Presidente do rival de Lisboa outras, ao Ministério Público.

   As “visitas” da Polícia Judiciária ao Estádio da Luz aconteciam com invulgar regularidade e sempre com grande espalhafato da comunicação social, em especial do jornal diário que parece ter feito da descredibilização do clube da Luz uma missão.

   Foram os casos dos tristemente célebres vouchers, arquivados e reativados sucessivamente, do diferendo do Presidente encarnado com os fisco conhecido pelo “caso Lex”, das alegadas informações irregulares dum funcionário, alcunhado de toupeira, de um Tribunal de Lisboa, e das célebres “missas”, eventuais instruções aos árbitros para favorecerem o clube. Apesar de, até ao momento, não ter sido proferida qualquer condenação judicial, o efeito de degradação da idoneidade do Benfica e a consequente desestabilização desportiva foi conseguido.

   A uma situação económica invejável até 2018, o Benfica juntava abundantes êxitos desportivos internos, quer no futebol profissional quer nas modalidades. Enquanto os rivais se debatiam numa situação de pré-insolvência, o clube da Luz saldava, quase integralmente e antecipadamente, a dívida bancária - ao Novo Banco - e grande parte dos empréstimos obrigacionistas, num total próximo dos 150 milhões de euros. Na conta à ordem mantinha um saldo de cerca de 90 milhões de euros.

   Foi, para mim sem surpresa, que o autor do ato de pirataria informática aos ficheiros confidenciais do Benfica, foi arvorado em “herói público” pelas “milícias” dos clubes rivais que infestam o espaço público em todas as frentes, e reconvertido em assessor das autoridades policiais, tendo, pelo caminho feito mais algumas “vítimas” numa espécie de justificação à posteriori.

   Para culminar todo este escabroso processo o Presidente do Benfica em exercício foi preso por alegados indícios de irregularidades cometidas no âmbito do escândalo das dívidas ao Novo Banco e de transferências de jogadores do clube. Tal resultou na perda de mandato, algo inédito, quer no regime democrático, quer no regime autoritário de Salazar e Caetano!

   Até Vale e Azevedo, que parece ter sido condenado, informalmente, a prisão perpétua - a sucessão de acusações parece não ter fim, apesar de ter cumprido o cúmulo jurídico de 17,5 anos de prisão; uma barbaridade nos tempos que correm -, foi acusado, condenado e preso depois de sair da presidência do clube, na sequência do ato eleitoral inerente.

   Para a opinião pública ficou a perceção de que o sorvedouro de recursos públicos em que se transformou o Novo Banco, paradoxalmente designado por “banco bom”, era da responsabilidade dos “grandes devedores”, em especial do Presidente do Benfica, e não do Governo que negociou as condições da sua venda. Perfeito.

   A única forma de salvar as finanças dos clubes rivais era pois, a de garantir o seu acesso direto à Liga dos Campeões. Foi o que sucedeu nos dois últimos anos, em que o Benfica foi relegado, “à força”, para a terceira posição.

   No campeonato anterior, em 34 jogos o clube encarnado tem 2 penaltis - 2 -, assinalados a favor, enquanto os rivais, salvo o erro, um teve 16 e o outro 8! Esta época repete-se a façanha; além do diferencial de penáltis em favor dos rivais, o clube que vai ganhar, ao que consta, tem mais de 8 horas de jogo em superioridade numérica! É obra!

  No confronto direto com os rivais, o Benfica conseguiu ganhar um jogo com o da Capital apesar das dificuldades jurisdicionais do mesmo. Já com o rival do Porto, somou duas dolorosas derrotas; com uma expulsão, dois golos invalidados por fora de jogo, um de 4 cm, outro de 2 cm, e um golo irregular validado ao rival - receção da bola com a mão do finalizador! É demais!

   Para este desfecho, paradoxalmente, contribuiu o desempenho do VAR, o qual, tanto quanto tenho visto, não passa de mais um instrumento contra o Benfica. Há casos perfeitamente escandalosos, como o do último clássico, que, a meu ver, requerem intervenção das autoridades policiais. Sim, quanto a mim são casos de polícia.

   Após 48 anos de rumores, coincidências e evidências, formei a convicção de que todos os casos de erros grosseiros recorrentes, que quase sempre prejudicam o Benfica, têm raiz política. Acredito que os agentes políticos dominantes, com destaque para o Partido Socialista, jamais consentirão num Benfica poderoso como foi no passado.

   Na verdade entendo que consideram o Benfica como um símbolo do salazarismo, e que, sem ser banido por razões de incompatibilidade ética, deve ser contido, a fim de também o desporto refletir a mudança do regime. Assim o Benfica é tolerado mas monitorizado, controlado e regularmente, enfraquecido. A “democracia” exige novos campeões; ainda alguém pensaria que a liberdade de abril não passa de um eufemismo metafórico.

  Porém, há outras causas no processo; a causa da regionalização. O Futebol Clube do Porto tem uma missão política a cumprir, acredito que congeminada com o Partido Socialista, de criar uma identidade regional, congregando as populações locais em torno do clube contra o “centralismo de Lisboa”, representado pelo Benfica, identificando este como inimigo comum.

   Finalmente, a causa da paz desportiva e cívica; a obsessão pelo Benfica de um homem doente, incapaz de perceber o caráter nobre do desporto, incapaz de perceber que a conjuntura histórica que fez do Benfica o clube prestigiado que é é irreversível e irrepetível, que o ressentimento é mau conselheiro e denunciador de frustração e subalternidade, que só a competência e lealdade desportiva suscitam o respeito e admiração alheios, alimentou e difundiu um ambiente de ódio entre os adeptos e populações que só é atenuada pelas vitórias do seu clube, dado o caráter geralmente conciliador dos dirigentes e adeptos encarnados.     

   Neste contexto percebe-se a subalternização dos restantes clubes da cidade invicta, Boavista Futebol Clube e o Futebol Clube Salgueiros e o ostracismo e segregação de que têm sido vítimas os adeptos benfiquistas que têm a coragem de o assumir.

   Tudo isto se passa aos olhos de todos, com a complacência de todos, com os encómios de alguns, e, pasme-se, em nome da liberdade e da democracia! Chegámos ao vexame de assistir ao alcandoramento a herói regional de um meliante conhecido por ameaçar os árbitros de futebol e suas famílias e ao cruzar de braços das autoridades policiais.  

   Os adeptos do Benfica têm o poder que a democracia lhes confere; usem-no! Se o Partido Socialista quer acabar com o Benfica, enfrentemos e combata-mos este partido, denunciando-o publicamente e negando-lhe o voto. Não há democracia quando os poderes públicos interferem no desporto favorecendo uma ou algumas das partes, e, ou, omitindo o seu dever de cumprir e fazer cumprir, universalmente, a lei.



Peniche, 8 de Maio de 2022

António Barreto

segunda-feira, 25 de abril de 2022

25 da Abril: O outro lado da História

 

Aviltados e traídos: Resposta a Costa Gomes

Mello Machado - Comandante da Operação Pégaso, na Ilha do Como (Guiné)

      “De acordo com os princípios democráticos, proclamados e garantidos pelo Programa Revolucionário, o destino do Ultramar seria decidido pela vontade dos Portugueses de todas as raças e credos.



   Propunha-se um franco e aberto debate, prometia-se a consulta. Num propósito de concórdia e harmonia permanentes, adotava-se um procedimento ainda mais generoso: o poder dispunha-se ao diálogo com os movimentos emancipalistas.

   Foi dada preferência a uma solução política, como se esta pudesse desprezar a sua componente militar. Já vimos a que riscos nos pode conduzir semelhante ambiguidade de conceitos. Mas os riscos assumem diferente dimensão quando os conceitos se pervertem na hipocrisia.

   E provado que as tropas portuguesas - brancas e negras - eram capazes de se bater com extraordinária bravura; que as forças voluntárias africanas as imitavam em valor; que as populações nativas, na sua imensa maioria, se afirmavam portuguesas e conservavam fieis a Portugal - uma fórmula havia para transacionar terras e gentes portuguesas, não em proveito de aspirações que se identificavam com a sua vontade ou com interesses do Povo do Continente ou do Ultramar, mas servindo desígnios ou ideologias alheias ao interesse nacional.

   Por outras palavras, programou-se uma capitulação militar nunca antes imaginada, para que se consumasse a solução política previamente planeada através da renúncia e abandono.”


28 de Setembro; militares seguram a vítima - uma perigosa fasciata, concerteza - que tinham crivado de balas antes e acabaria por morrer.

(Cont.)

Peniche, 25 de Abril de 2022

António Barreto

25 de Abril: O Fator Spínola

 

25 de Abril

O fator Spínola

   O fator que, quanto a mim, foi decisivo no despoletar do processo foi o fator Spínola. Julgo que Spínola andava apavorado com o espetro da derrota militar, que começou a pairar com a intensificação do apoio da União Soviética aos guerrilheiros, em armamento, e de Cuba, em operacionais.

   A Operação Mar Verde terá sido uma tentativa desesperada de reverter o processo através da mudança de regime na Guiné Conacri e da captura ou eliminação de Amílcar Cabral e Seku Touré. Por outro estava prestes a consumar-se o desfecho do julgamento em Tribunal Militar dos militares envolvidos na rendição da Índia; o opróbrio pairava sobre a corporação militar.

   O livro Portugal e o Futuro - quase toda a orgânica que preconizava tinha sido posta em prática com a reforma constitucional de 1971 - funcionou como pré-legitimação do golpe do 25 de abril. Spínola não aguentou a pressão militar e Costa Gomes, então CEMGFA, quanto a mim, era um marxista infiltrado nas FA que foi decisivo na entrega do Ultramar, aos movimentos com vínculo ao marxismo e à União Soviética, e ao abandono das populações - ordenando o baixar de braços às FA que assistiram de braços cruzados à chacina dos portugueses. A decisão de Salazar de o manter no quadro após a participação no golpe de Botelho Moniz em 1961, revelou-se fatal quanto ao Ultramar, mas também quanto ao desfecho do 28 de Setembro; ao alegar, enquanto CEMGFA, que não dispunha de efetivos para desativar as barricadas, foi cúmplice do Partido Comunista no desencadear do PREC. Portugal perdeu a guerra na frente interna, e, sim, foram os comunistas que hoje apoiam a invasão da Ucrânia, os responsáveis, graças, sobretudo à política de abertura de Marcelo Caetano.


Viatura cujo condutor foi abatido pelos militares das barricadas no 28 de Setembro.

Peniche, 25 de Abril de 2022

António Barreto

sábado, 16 de abril de 2022

Inflação

 

Inflação

 (Considerações por um não economista) 

   A Inflação consiste no aumento geral de preços dos bens. Numa economia liberal - onde os preços são definidos pelo livre mercado -, a inflação estabelece-se automaticamente refletindo, a cada momento, o diferencial da evolução entre a oferta e a procura de bens e serviços; em linguagem matemática, a inflação varia proporcionalmente à relação entre as derivadas da procura e da oferta; em linguagem corrente, a inflação aumenta quando a procura aumenta mais do que a oferta e diminui no caso contrário.

   A inflação é um parâmetro importante na monitorização da evolução económica e é, por isso, objeto da atenção dos bancos centrais que, dotados de plenos poderes, procuram mantê-la em níveis considerados economicamente e socialmente sustentáveis - atualmente, em torno de 2 %, na Europa e nos EUA -, dispondo para o efeito, e em exclusivo, de poderosos instrumentos; definição das taxas de juro de financiamento bancário e regulação da quantidade de moeda em circulação - quantative easing.

   Os economistas dizem que a inflação é um imposto escondido; e têm razão, uma vez que o aumento de preços sem correspondência no aumento dos salários reduz o valor dos salários reais. A inflação é, afinal, um mecanismo automático de ajustamento económico.

   As causas da inflação são várias; conjunturais, estruturais, internas e externas. A enorme inflação atual é geral e resulta de uma sobreposição de causas externas, aparentemente conjunturais.

   A redução da oferta de gás natural e petróleo no mercado internacional, resultante das sanções económicas que os países Ocidentais aplicaram à República Federativa Russa, fez aumentar o preço do principal fator de produção, a energia, causa imediata do aumento geral dos preços.

   Esta é uma causa aparentemente conjuntural; em princípio cessará com o termo do conflito militar em curso na Ucrânia, no pressuposto de que o desenlace desta tragédia se traduza na mudança de regime político na Rússia para outro aceite pela comunidade internacional.

   No entanto, o aumento do custo da energia na Europa já se verificava devido à política ambiental em curso - causa estrutural -, que se traduz na redução da oferta decorrente do fecho das centrais e na tributação das emissões de carbono. De facto, as alternativas encontradas além de mais dispendiosas e insuficientes - fontes renováveis - são demasiado voláteis - fontes de origem externa.

   A crise energética sobrepôs-se a outras, decorrentes de dois anos de crise sanitária; desde logo a forte redução da oferta resultante da disrupção da atividade produtiva e das cadeias de distribuição, num contexto de explosão geral da procura que se verificou com o abrandamento da crise sanitária. A procura superou largamente a capacidade de oferta, pensando-se então que o equilíbrio seria restabelecido meses depois. Causa conjuntural.

  Há no entanto uma outra causa mais relevante que qualquer das anteriores; o enorme aumento da quantidade de moeda em circulação que ocorreu na economia mundial durante a crise sanitária. Perante a eminência de crises sociais dramáticas resultantes do colapso produtivo que se adivinhava os Governos decidiram subsidiar empresas e cidadãos recorrendo ao endividamento, respaldados pelos respetivos bancos centrais que para o efeito se dispuseram a fazer as emissões de moeda necessárias.

   O acréscimo de moeda injetado nas economias destinou-se a compensar a redução das respetivas atividades económicas, limitando a quebra dos correspondentes PIB. O acréscimo de moeda não teve, pois, contrapartida do lado da produção. Com a atenuação da crise sanitária e a recuperação económica subsequente para os níveis pré-crise, emergiu a inflação.

   O valor de uma moeda é definido pelo valor da respetiva economia, ou seja, pelo valor total de bens que a sua economia é capaz de produzir e transacionar. Para um mesmo produto - PIB - o valor unitário da moeda diminui sempre que aumenta a quantidade de moeda em circulação na respetiva economia. Foi o que sucedeu em quase todos os países - exceto na China, creio -, incluindo na Europa.

   Grosso modo, considerando apenas a EU, RU, EUA e Japão, cujo PIB agregado deverá situar-se próximo dos 50 biliões de dólares, calculando, em média, 15 % do PIB, o valor do acréscimo de moeda injetado nas economias respetivas - em geral situou-se entre os 10 %  - Portugal - e os 20% - Alemanha, EUA. Japão -, o aumento global de moeda terá sido algo como 7, 5 biliões de USD; o equivalente ao PIB agregado da Alemanha, França e Espanha.

   No caso de Portugal, as políticas económicas introduzidas pelos Governos, desde 2015, centradas no aumento da procura interna induzida pela reversão dos cortes salariais e das pensões, e no aumento administrativo dos salários acima da produtividade, geraram pressão inflacionista, a componente interna da inflação.

   Tendo em conta a marginalidade da economia lusa no âmbito da UE - cerca de 1,5 % do total -, onde vigora uma economia aberta plena, o impacto desta componente na inflação geral, a meu ver é desprezível. O mesmo não sucede na balança comercial de Portugal que voltou a ser deficitária depois de alguns anos de excedente - 2013, 2014 e 2015.

  “Em economia, o ajustamento ocorre sempre”. Não falha! O aumento da procura sem correspondência na oferta, gera inflação e consequente redução de salários.  Como referi, as causas da inflação atual são sobretudo externas, inevitáveis, e aparentemente conjunturais. A integração de Portugal na UE dilui os efeitos inflacionistas resultantes do aumento da procura pela tentadora - e demagógica - via administrativo dos aumentos salariais, sem contrapartida do lado da oferta.

   Porém, se quanto à inflação a economia portuguesa está relativamente protegida de irresponsabilidades internas, o mesmo não sucede no âmbito empresarial; sem capacidade de corresponder em matéria de produtividade, as empresas nacionais soçobram e são substituídas por concorrentes externos.

   Ao fecho das empresas sucede a escassez de empregos, a emigração da população ativa, a redução da taxa de reposição populacional - negativa em Portugal -, a desertificação do país, o crescimento do contingente público, o recurso precipitado à imigração e o agravamento da carga fiscal.

   A correção da inflação, inevitavelmente, passará por uma redução da atividade económica geral, até se estabelecer o novo equilíbrio nos valores considerados “economicamente saudáveis”, cerca de 2 %. Os instrumentos são os mesmos, taxas de juro e financiamento – compra de dívida -, mas em sentido inverso; aumento das taxas, restrições ao crédito e abandono progressivo da compra de dívida pelos bancos centrais.

A correção dos efeitos das várias crises, ocorridas e em curso, é, em si mesma, uma nova crise.

Não adianta escondê-lo.

Deposição de Cristo (Paolo Varonese, 1508/1558)


Peniche, 16 de Abril de 2022

António Barreto

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Guerra na Ucrânia

 

Guerra na Ucrânia

Algumas reflexões

   Antes de mais expresso a minha total solidariedade para com o povo ucraniano e incondicional condenação da agressão de Putin que, dominado pelo saudosismo imperialista, parece apostado em reconquistar pela força os territórios que integraram a União Soviética.

   Este conflito mostra, com grande evidência, os reais perigos dos regimes autocráticos atuais e a decadência em que se encontra a Europa e, em geral, todo o mundo Ocidental, cujos líderes, perdidos no labirinto de questões menores ou fictícias, o tornaram vulnerável a loucos do calibre de Putin, sedentos de poder e glória.

   Os sinais de perigo, apesar de bem visíveis, foram ignorados pela União Europeia. O que caracteriza o mundo livre, o Ocidente, é a transparência institucional, a rotatividade do poder e o respeito pela soberania e autodeterminação dos povos. Nenhum destes requisitos tem sido respeitado pela Rússia de Putin.

   Não se deve confiar em países não escrutináveis; a sujeição voluntária dos países ao escrutínio internacional; a observação por organismos internacionais idóneos, das condições de funcionamento das suas instituições e da respetiva sociedade civil em geral em todas as vertentes, compará-las entre pares e confrontá-las com as normativas internacionalmente estabelecidas e aceites. Nada disto é possível na Rússia de Putin, a não ser indiretamente.  

   Por outro lado, a regra da rotatividade não se verifica na Rússia; Putin, com o apoio de uma oligarquia ávida de poder e privilégios, impôs a sua liderança dando-lhe uma aparência de legalidade após manipulação descarada da lei constitucional, sem escrutínio popular.

     Não tardaram as provocações e anexações diretas ou implícitas de países fronteiriços, como a Crimeia, a Georgia, a Bielirrússia e a Tchetchénia. Ainda sob os efeitos do terror da 2ª GM, pressionada pela febre consumista das suas populações só possível de satisfazer com robusto e contínuo crescimento económico, a Europa tentou salvar face perante a opinião pública respondendo com inúteis sanções económicas, de que a crise migratória é, em parte, consequência e, por sua vez, causa do Brexit. 

    Perante este cenário, os líderes europeus, obcecados pela descarbonização imposta pelos ecologistas radicais, comunicação social e ONU, desataram fechar centrais de produção de energia elétrica, térmicas e nucleares, substituindo-as por centrais de fontes renováveis e de gás natural,  em grande parte de proveniência russa! Uma tremenda irresponsabilidade, percetível desde o início ao cidadão comum. 

   Porém, nos EUA não se fez melhor; a administração Joe Biden declarou de imediato a sua adesão ao Acordo de Paris invertendo a política energética de Donald Trump, cancelando a construção do oleoduto de Keystone e restringindo a exploração das ramas de petróleo e do gás de xisto. Com isto regrediram os EUA à sua condição de importador energético, colocando-se na dependência externa e entregando à OPEP o privilégio, em prática desde 1973, de controlo das economias ocidentais através da manipulação dos preços do petróleo, que tinham perdido com a administração Trump, uma das principais causas dos baixos custos de petróleo na época.  

   Em Portugal, o Partido Socialista, derrotado nas eleições de 2015, cego pela ânsia de poder e de vingança, não hesitou em se associar aos partidos da extrema-esquerda, acedendo à sua exigência de cancelamento dos projetos de prospeção e exploração de petróleo e gás natural on-shore e off-shore. Como tal não era suficiente, cedendo à pressão de Bruxelas e à necessidade premente das transferências comunitárias, o Governo desatou a fechar as centrais termoelétricas que nos forneciam energia a baixo custo, aumentando a nossa dependência do exterior.  

     Naturalmente que, agora, os responsáveis, justificar-se-ão com uma arenga qualquer, mas a verdade é que as democracias ocidentais estão a ser conduzidas pela comunicação social, transformada em plataforma de controlo da opinião pública pelos poderes de facto internos e externos. Os eleitos, em quem as populações delegaram as respetivas soberanias, adotam as ideias prevalecentes sem atitude crítica incapazes de resistir aos apelos do dinheiro fácil e da demagogia com que seduzem e alimentam os respetivos eleitorados, que, por sua vez, os mantém no poder; um ciclo vicioso que não se perpetuará, um dia terá fim.

   Conclusão: No Ocidente, é a natureza estrutural das democracias que está em causa; ou evoluem ou morrem às mãos de um ditador qualquer, como Putin.




Peniche, 26 de Fevereiro de 2022.

António Barreto

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O Paradoxo da Abundância

 

O Império Romano I

Como difusão da abundância destrói a Liberdade

 

   As frequentes e regulares distribuições de vinho e azeite, de trigo ou de pão, de dinheiro ou de víveres quase dispensara os cidadãos mais pobres de Roma da necessidade de trabalhar. A magnificência dos primeiros Césares foi, de certa forma, imitada pelo fundador de Constantinopla; mas a sua prodigalidade, embora tenha suscitado o aplauso do povo, incorreu na censura da posteridade. Uma nação de legisladores e conquistadores podia reclamar os seus direitos às colheitas de África, que tinham sido adquiridas com o seu sangue; e foi habilmente congeminado por Augusto, que, no gozo da abundância, os Romanos perdessem a memória da Liberdade.”

Edward Gibbon

História do Declínio e Queda do Império Romano

                                                   Igreja de Santa Sofia em Constantinopla


Peniche, 20 de Fevereiro de 2022

António Barreto

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Eleições 2022; a maldição da demagogia

 

Eleições 2022; a maldição da demagogia

 

   Ponderando os recentes resultados eleitorais, a dinâmica política precedente e as análises de comentadores que considero, cheguei à conclusão de que estas eleições, legislativas de 2022, foram marcadas pelo programa de assistência financeira apresentado pela troica - comissão tripartida constituída por técnicos da UE/BCE/FMI - em 5 de Maio de 2011, na sequência do pedido de ajuda do Governo português em 5 de Abril do mesmo ano após constatar a inviabilidade de financiamento nos mercados financeiros internacionais.

   Paradoxalmente, o partido que mais beneficiou, nestas eleições, do tenebroso programa de ajustamento, foi o que o causou, graças a um bem elaborado plano de propaganda política de “passa-culpas”, de que a generalidade da comunicação social foi cúmplice, da sedução do seu eleitorado de base, constituído essencialmente por funcionários públicos, reformados e beneficiários do assistencialismo, de uma demagogia descarada que culminou na promessa tresloucada da semana de quatro dias de trabalho e aumento de salários e pensões e da quase total ausência de oposição política.

   Com efeito: Perdidas as eleições de 2015 para o PSD/CDS, o PS, que com o afastamento do António José Seguro e a ascensão de António Costa sinalizara o seu deslizamento político à esquerda, liberto de Mário Soares, não hesitou em aceder ao convite dos partidos radicais de esquerda para formar governo, impedindo, num gesto inédito na democracia portuguesa, o partido vencedor de formar governo. Instalado o Governo, o agora Primeiro-Ministro e seus aliados trataram de imediato de declarar o fim da austeridade, deixando subentendido que tal tinha sido opção do governo precedente e não uma inevitabilidade criada pelo governo anterior. Na verdade, quando António Costa formou Governo, Portugal tinha concluído com sucesso o programa de assistência financeira, recuperara o acesso aos mercados financeiros internacionais, a economia estava numa trajetória de crescimento, a balança comercial apresentava excedente desde 2013, o rácio das exportações quase duplicara - de cerca de 20% para cerca 40% do PIB - o défice orçamental tinha sido reduzido em cerca de 15 mil milhões de euros - em três anos - havia nos cofres cerca de 16,5 mil milhões de euros e tínhamos a garantia do BCE de comprar toda a dívida soberana necessária - razão das baixas taxas de juro verificadas a partir daí. Confiante no longo ciclo de crescimento económico que se iniciara, o Primeiro-Ministro decretou o fim dos “sacrifícios”, revertendo, uma a uma, todas as parcas reformas consentidas pelo Tribunal Constitucional ao governo anterior. De facto, António Costa e seus aliados prosseguiu a política que conduzira o país ao pedido de assistência financeira; aumento da despesa pública, do endividamento e da carga fiscal. Mas também ausência de investimento público, desinvestimento nos serviços públicos, na educação, na saúde e nos transportes, num contexto de concentracionismo estatal crescente, típico dos regimes socialistas. Ironicamente, a crise sanitária acabaria por beneficiar a governação fornecendo-lhe um alibi para os erros cometidos e justificando uma ajuda financeira extraordinária a fundo perdido de 16,5 mil milhões de euros.

   O “génio” de António Costa consistiu em negar a tradição democrática de garantir a governação do partido vencedor, como fizera o PSD/CDS em 2008, e em unir toda a esquerda - quebrando a tradição do seu próprio partido - sob a bandeira do “fim da austeridade” passando, erradamente como se viu, para a opinião pública, a ideia de que tal jamais ocorreria sob o seu governo. Na hora da dúvida, quando as sondagens, surpreendentemente, anunciaram um empate técnico entre os dois maiores partidos, fizeram soar o alarme nas hostes esquerdistas, que não hesitaram em aderir ao voto útil, proporcionando a maioria absoluta do Partido Socialista.

No PSD verificou-se também uma clara intenção de desvinculação da governação de Passos Coelho, patente no afastamento de todos os “passistas” dos órgãos do partido e do grupo parlamentar, na declaração pública de Ferreira Leite de que preferia um partido mais pequeno sem o rótulo de direita, na afirmação, também pública, de Rui Rio da sua vinculação ideológica à social-democracia e desafiando todos os dissidentes a abandonar o partido.

   Esta atitude teve como consequência a fragmentação do PSD, saída de Santana Lopes e de André Ventura, que formaram novos partidos e a definição de um amplo espaço à sua direita onde se “encaixou” o partido de João Cotrim, há muito na forja. Para culminar esta desastrosa estratégia, Rui Rio recusou a reativação da coligação tradicional com o CDS, contribuindo para o afastamento deste partido do Parlamento e para a maioria absoluta do Partido Socialista. Juntando a isto uma oposição incipiente em todo o período, pergunto-me se Rui Rio queria mesmo ganhar as eleições, ou somente ser um apêndice de António Costa em nome de cumplicidades passadas e da Regionalização.

   Em conclusão, ambos os partidos agiram com a intenção de se demarcarem da austeridade imposta ao país no período de 2011 a 2014, mas enquanto o PSD o fez fragmentando-se e dispersando toda a direita, o PS fez o contrário; uniu toda a esquerda e prometeu menos trabalho e melhores salários.

   Para o futuro, não antevejo melhorias, pelo contrário; com a subida da inflação - média na UE em cerca de 4,6 %, EUA a 7,5 % -, e consequentemente das taxas de juro, os custos de financiamento aumentarão pressionando a carga fiscal. Juntando a este cenário o aumento do preço do petróleo - atualmente acima dos USD90,00/barril, no pico sanitário atingiu os USD20,00/barril -, o aumento do preço da energia elétrica no mercado internacional - de cerca de €40,00/MWh para cerca de €400,00/MW/h - o baixo nível de água das barragens e o aumento da contestação social e laboral - O “avô” Jerónimo já o prometeu - e teremos razões de sobra para estarmos céticos. Nestes seis anos perdemos uma oportunidade histórica de efetuar as reformas que nos permitiriam encarar o futuro com alguma esperança. Apesar de impopular, as reformas são necessárias. Sem elas não haverá progresso económico.

   Quanto ao PSD, dizem os seus notáveis que vão refletir, consertar estratégias para o futuro. Quanto a mim perdeu o “comboio”; por ter alienado o seu eleitorado de base popular, por se revelar incapaz de eleger um líder mobilizador e porque a liderança da direita parece vir doutras paragens, onde não há medo de ser de direita. A História não espera pelo PSD, que já não é PPD. Talvez o declínio seja irreversível.


Stairs - Michael Caven


Peniche, 05 de Fevereiro de 2022

António Barreto

domingo, 9 de janeiro de 2022

Benfica, um novo rumo

 

Benfica, um novo rumo

 

                O regresso de Jorge Jesus ao Benfica deveu-se a critérios não desportivos. A forte oposição que se perfilava para as eleições de 2020 a Filipe Vieira impunha uma aposta mobilizadora dos sócios. A popularidade do antigo treinador pelos feitos alcançados no Brasil e o reconhecimento geral da sua valia técnica era garantia de sucesso. O lote de supostas estrelas anunciado reforçava a confiança, gerando, nos adeptos, um estado de euforia pelo futebol “arrasador” que se adivinhava.               

                Apesar do animador arranque inicial na época, o fracasso foi total. Uma vaga de infeções, na sequência do jogo com o rival do Porto, destroçou plantel e técnicos. Indiferentes, os adversários, alegavam tratar-se de falsa desculpa, recusando-se, pelo menos no caso de Nacional, a adiar os respetivos jogos. Recorreu-se aos habituais suplentes, ao juniores e à equipa B. No regresso, os recuperados arrastavam-se no campo em claro défice físico.

                Em simultâneo, eram anunciadas sucessivas condenações de interdição do estádio, nada mais nada menos que sete! As multas ao clube e os castigos aos jogadores prosseguiam ao ritmo pré-pandemia! No terreno de jogo, foram quase totalmente suprimidas as grandes penalidades favoráveis ao Benfica! Duas grandes penalidades em trinta e quatro jogos! Pelo menos uma delas no final da época, já com o campeão decidido! Inexoravelmente, os pontos foram ficando pelo caminho, e o terceiro lugar foi um quase milagre! Não, não pode ser coincidência! Porto e Sporting tiveram a favor, respetivamente, dezasseis e oito grandes penalidades! Com o mesmo critério, apesar de tudo, o Benfica teria sido campeão. As equipas de arbitragem decidiram o campeonato! A responsabilidade deve ser assacada à Liga e à Federação.

                Entretanto, na sequência da audição da Comissão de Inquérito Parlamentar aos Grandes devedores do Novo Banco (NB) e da denúncia pública do sócio Mata-Mouros, o Presidente do Benfica foi detido, acabando por se demitir do cargo por manifesta impossibilidade de o exercer. Pela segunda vez na história da terceira República um Presidente do Benfica é conduzido à cadeia envolto num labirinto de acusações que promete processos por décadas, tal como sucedeu na primeira com Vale e Azevedo. Um caso que merece reflexão quando constatamos a complacência com que outros dirigentes desportivos e outros grandes devedores do NB têm sido tratados por parte da Comunicação Social e autoridades parlamentares e judiciais. O Benfica é o “patinho feio do regime. Ou nem isso; é, simplesmente o “símbolo do salazarismo” que é imperioso abater, impedindo-o de voltar a ser o que foi no passado longínquo.

                Após grande turbulência e vicissitudes várias, Rui Costa, o “delfim” de Filipe Vieira, com toda a legitimidade e a autoridade que lhe confere o seu estatuto de grande benfiquista, assumiu a presidência do clube. Transparência e resultados desportivos foram as prioridades anunciadas de imediato, mantendo-se contudo os planos de desenvolvimento de infraestruturas da gestão precedente.

Recuperada finalmente a equipa do impacto viral, iniciou-se a nova época com renovadas espectativas, ainda dentro das opções técnicas anteriores, melhoradas com um novo avançado prometedor, Yaremchuk. O auspicioso início porém, foi contrariado no primeiro grande embate, pela derrocada defensiva da equipa ante o rival de Lisboa, o Sporting, agravada posteriormente pelas pesadas derrotas ante o rival do Porto, na eliminatória da Taça de Portugal e na jornada do campeonato.

Curiosamente qualquer dos casos foi antecedido por acontecimentos desestabilizadores do grupo de trabalho; o episódio do jogo com a B-Sad, essa ópera bufa que me pareceu orquestrada do exterior, e a investida dos dirigentes do Flamengo na tentativa de contratação de Jorge Jesus, desviando porventura a sua concentração na preparação do jogo com o Porto e minando a confiança e motivação dos jogadores. Agravando este turbulento cenário, o Concelho de Disciplina da Liga tira da gaveta um episódio da época transata - com cerca de sete meses - salvo o erro -, aplicando um castigo ao Treinador que o afasta do jogo capital, o do campeonato, que o Benfica acabou por perder na forma do costume, com muita polémica. A repetição incessante destes episódios levam-me a considerar o Porto como o Canelas da primeira divisão.

Apesar de tudo isto era óbvio que o novo ciclo de Jorge Jesus no Benfica tinha chegado ao fim; a equipa apresentava desequilíbrios em todos os setores, especialmente nas alas, com um claro défice na dinâmica de jogo, baixa intensidade, fraca agressividade e reduzida mobilidade. Com estas características predominando não se ganham jogos a adversários fortes. A passividade geral dos jogadores mostrava que, na sua grande maioria, já não acreditavam no projeto do Treinador.

Jorge Jesus, um dos treinadores atuais que mais sabe de futebol, sem dúvida alguma, consagrado ao serviço do grande clube do país irmão, o Flamengo, regressou confiante, algo sobranceiro, desejoso de exibir seu estatuto de grande treinador mundial ao público português, em especial aos comentadores locais, que habitualmente o tratam com desdém. Falhou nos, caríssimos, reforços que trouxe, salvo o caso do Lucas Veríssimo - cuja lesão pôs a nu a fragilidade defensiva da equipa - de João Mário, um excelente armador, apesar de algo lento, e do Gilberto, que agora se revela forte candidato a titular. Falhou ao não afastar liminarmente os dirigentes do Flamengo, alimentando a novela da comunicação social e falhou nalgumas opções que tomou nos jogos com os rivais, ressuscitando velhos fantasmas, aparentando falta de energia para inverter a trajetória desportiva da equipa. Filipe Vieira era o seu vínculo, a sua saída deixou uma semente de desconfiança com os novos dirigentes. Perante os resultados a sua saída era inevitável.

                Os dirigentes procuram agora um novo rumo, recorrendo no imediato ao treinador da equipa bê, que tão boa conta tem dado neste escalão, e anunciando uma aposta mais consistente na formação. Uma estratégia com que concordo, sempre com o critério da competência como prioridade.

                No plano da equipa técnica, sou um acérrimo defensor do recurso a treinador estrangeiro assessorado por ex-atleta do clube. Só um técnico estrangeiro garante imunidade à teia de influências e manipulação interna e capacidade para denunciar no exterior a miserável gestão do futebol português, onde os critérios políticos asfixiam a verdade desportiva.

                Os dirigentes do Benfica devem deixar os “punhos de renda” e defender o clube perante os órgãos próprios, internos e externos, olhos nos olhos, confrontando-os com a desigualdade de tratamento que têm dispensado ao clube, segregando desportiva e economicamente as suas equipas, seja na área profissional ou na amadora; nada escapa ao cerco desportivo montado em torno do Benfica. Devem dar publicamente um sinal aos adeptos e à classe política da insatisfação pelo tratamento discriminatório e até persecutório que tem sido dispensado ao clube. Ninguém! Ninguém, além de nós, adeptos, sócios ou não, defenderá o nosso clube. A história recente demonstra-o.



Peniche, 9 de Janeiro de 2022

António Barreto