Desporto

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Do Anti-Semitismo na Europa

 

Do Anti-Semitismo na Europa


...Durante mais de 100 anos o anti-semitismo havia, lenta e gradualmente, penetrado em quase todas as camadas sociais em quase todos os países europeus até emergir como a única questão que podia unir a opinião pública. Era simples este processo: cada classe social que entrava em conflito com o Estado tornava-se anti-semita, porque o único grupo que parecia representar o Estado, identificando-se com ele servilmente, eram os judeus. E a única classe que demonstrou ser quase imune à propaganda anti-semita foram os trabalhadores que, absorvidos pela luta de classes e equipados com a explicação marxista da história, nunca entravam em conflito direto com o Estado, mas só com outra classe social, a burguesia, que os judeus certamente não representavam e da qual nunca haviam sido, até então, parte importante.”

Hannah Arendt – “As Origens do Totalitarismo”


Hannah Arendt 

Peniche, 08/06/2023

António Barreto

domingo, 4 de junho de 2023

"As Origens do Totalitarismo"

 

As Origens do Totalitarismo”

Hannah Arendt


Hannah Arendt (1906/1975), foi uma filósofa política alemã de ascendência judia perseguida pelo nazismo, que escapou aos campos de concentração e se refugiou na América onde permaneceu apátrida, naturalizando-se americana ao fim de 18 anos.


Dedicou-se ao estudo das causas dos refugiados, dos apátridas, dos judeus e do totalitarismo. Conhecedora profunda dos movimentos sociais e políticos dos séculos XIX e XX, trouxe para o espaço público o seu vasto conhecimento das origens - em especial do anti-semitismo - das características e das dinâmicas que produziram os regimes totalitários da época, o nazismo e o comunismo.


Discípula de Martin Heideggar, estudiosa da obra de Kant, a Teoria da Razão Pura, as suas principais obras são, “As Origens do Totalitarismo”, “A Condição Humana” e Eichmann em Jerusalém.


Deparando-me, frequentemente com referências de outros autores às suas ideias, avancei para a leitura de “As Origens do Totalitarismo”, obra cuja 1ª edição foi publicada em 1951, sendo esta a 9ª edição. Um belo exemplar de 600 páginas, com papel de boa cor e textura e letras de confortável tamanho e contraste.

   

   Só após o primeiro terço me convenci da qualidade da obra, até aí exposição das ideias é tão fracionada que dificultava a sua articulação coerente. Cheguei a duvidar da tradução, pronto a abandonar a leitura. Nenhuma obra, por maior que seja a sua qualidade intrínseca, resiste a uma tradução literal. Ultrapassada esta “crise” revelou-se-me todo o fascínio do conhecimento e pensamento da autora. De tal modo que decidi ler as restantes numa próxima oportunidade.


   Um dos temas que me chamou a atenção é o dos “povos eleitos”; afinal, além dos judeus, também alemães e russos se consideram detentores desse suposto desígnio divino! Esta cultura transgeracional acaba por se traduzir, a partir das elites intelectuais, na assunção geral da responsabilidade de conduzir um povo à “salvação” do mundo. É esta uma das causas do totalitarismo; a salvação futura, impossível de confirmar na época.


   Acontece que na cultura portuguesa também há vestígios de ideias semelhantes. A ideia do 5º império foi referida por Agostinho da Silva como desígnio transcendental dos portugueses! Desconheço os fundamentos desta teoria, a não ser, eventualmente, a conhecida gesta marítima. Não me agrada; os povos, os partidos, os homens providenciais que querem salvar o mundo, são perigosos.

   

   Outro dos temas “revelação”, é o das origens do imperialismo; foi em 1884, na sequência da Conferência de Berlim, em que foi efetuada a partilha da África pelos países europeus, carentes de matérias-primas e novos mercados para sustentação das suas economias, a que a revolução tecnológica dera nova expressão.


  Talvez resida aqui o fundamento da ideia da diferença da colonização portuguesa face às subsequentes. Certo é que este acontecimento despoletou uma série de acontecimentos cujas consequências se refletem nos dias de hoje.


    A ideia de nação e estado-nação ficou-me, finalmente clara com o exemplo dos judeus; um povo com uma cultura comum, interligado por laços familiares e espalhado pela Europa e pelo mundo, sem território próprio - até 1948 -, apesar do vínculo a diversos países.


O caso dos ciganos não é abordado mas parece-me ter contornos semelhantes, dada a resistência secular geral à integração nos países onde habitam, à persistência de uma estrutura social própria, diferenciada, anacrónica, e a dedicação a atividades económicas informais, geralmente nas franjas da marginalidade. Porém, contrariamente aos judeus não lhes é conhecido histórico de proximidade ao poder nem o envolvimento em atividades bancárias ou de administração pública.


Refugiados e apátridas na Europa - condição a que a autora esteve sujeita -, foi e é uma realidade com uma dimensão e impacto que estava longe de supor. As sucessivas guerras europeias travadas ao longo dos séculos, as consequentes alterações da respetiva geografia política, geraram milhares, milhões de refugiados, muitos dos quais se tornaram apátridas; gente cujos países de origem foram suprimidos, simultaneamente rejeitada pelos países de refúgio, ou tolerada por estes sem o estatuto de cidadania.


O caso dos Judeus é tratado com grande profundidade e detalhe, identificando as causas prováveis da segregação de que foram vítimas históricas; a auto-convicção de “povo escolhido”, o hermetismo das suas comunidades recusando a assimilação, a quase indigência de vastas comunidades, a proximidade do poder de outras, o exercício de funções de nomeação no topo das administrações, e o imenso poder que alguns dos seus membros adquiriram no financiamento de regimes absolutistas e até republicanos.


Falsamente acusados pelo partido nacional-socialista alemão de conspiração contra a Alemanha, foram as principais vítimas do genocídio praticado pelo III Reich. Porém, a autora mostra como o anti-semitismo foi muito para além da Alemanha tendo sido praticado também em França - caso Dreyfus -, e na Rússia - “O Homem de Kiev” (minha referência).


Fiquei também a perceber a diferença entre massas e ralé; aquelas constituídas pelos cidadãos alienados, desinteressados da coisa pública, estes pelos excluídos, rejeitados, da atividade económica geral.


Trata também do percurso dos movimentos sociais que deram origem aos regimes totalitários do século XX, o nazismo - focado na questão racial -, e o comunismo - crente no “inevitável” advento do poder universal do operariado -, ambos imbuídos do “supremo” desígnio de salvação da humanidade. Desígnio que, perante as consciências dos respetivos chefes, justificava todas as atrocidades que cometiam.


A caracterização e comparação das correspondentes estruturas de poder, em ambos os casos constituída por um conjunto de órgãos institucionais, governamentais, redundantes, sobrepostos, dispersos, mas de fachada, sendo o poder exercido diretamente pelos respetivos chefes - Hitler e Estaline -, através de correspondentes estruturas policiais secretas, à margem dos respetivos partidos. Qualquer dos totalitarismos alimentava o desígnio de domínio global, no caso do nazismo pela via militar, no caso do comunismo pela ação revolucionária.


Tenebrosas foram as práticas sistemáticas de purgas civis e partidárias, que permitiam, em ambos os regimes, a “perpetuação” do poder dos respetivos chefes. Os métodos eram idênticos; facilitava-se o acesso às carreiras política, governativa, policial e militar de jovens prometedores, cuja inabalável lealdade ao chefe, lhes garantia rápida ascensão hierárquica. Chegado o momento, liquidavam-se os respetivos chefes cuja influência e poder crescera e ameaçava o chefe supremo repetindo-se o processo ciclicamente.


Em ambos os casos consegue-se o mesmo objetivo: o extermínio torna-se processo histórico no qual o Homem apenas sofre aquilo que, de acordo com leis imutáveis, sucederia de qualquer modo. Assim que as vítimas são executadas, a “profecia” transforma-se em álibi retrospetivo: o que sucedeu foi apenas o que havia sido predito.” (Hannah Arendt)



Hanna Arendt


Peniche, 04 de Junho de 2023

António Barreto

domingo, 28 de maio de 2023

PARABÉNS BENFICA!

 

PARABÉNS BENFICA!


O trigésimo oitavo campeonato do Benfica andava esquivo desde há dois anos, mas desta foi de vez e inteiramente merecido.


Foi uma época longa e difícil. Começou em agosto com a fase de apuramento para a Liga dos Campeões, onde a equipa encarnada deixou para trás outras financeiramente mais poderosas comportando-se dignamente, ao classificar-se em primeiro lugar na fase de grupos, soçobrando nos quartos de final perante o “velho conhecido” das lides europeias, o Inter de Milão, com algumas razões de queixa.


Na Liga portuguesa saiu como entrou, no primeiro lugar numa maratona de trinta e quatro jornadas. Apresentando um futebol de ataque e criativo, liderada por um treinador habituado a outro universo desportivo, que, além de competência, trouxe ética e liderança, a equipa foi cativando os adeptos e público em geral, com vitórias, um futebol ofensivo elegante, eficaz, e uma postura desembaraçada e confiante.


Vacilou no último terço do campeonato, supostamente devido a uma sucessão de circunstâncias desfavoráveis; jogos de elevada dificuldade - Braga e Porto - realizados imediatamente a seguir à participação dos seus jogadores nas seleções, afastamento do defesa dinamarquês - por lesão provocada pelo Uribe, que o retirou desse jogo e dos seguintes até à antepenúltima jornada - e uma série de decisões atrabiliárias dos árbitros em alguns jogos - Chaves - que levou a decisão do título até à última jornada.


Os confortáveis dez pontos de diferença para o segundo classificado reduziram-se a quatro e as habituais facilidades para o rival - penáltis e expulsões a “pedido” - alimentaram a dúvida até à última jornada. Nesta, a equipa não vacilou e confirmou, com justiça, o título de campeão nacional 2022-2023.


Pelo meio, alguns infortúnios - lesão do prometedor Draxler - e saída, no último dia da janela de transferências de inverno, do fantástico e campeão mundial, Enzo Fernandez! Com a saída deste a equipa perdeu algum do “perfume” futebolístico e do fulgor com que enche os relvados. Porém algumas revelações e adaptações compensaram esta perda.


António Silva, Gonçalo Ramos, Ursness, e João Neves, estes últimos cada um ao seu estilo, dois “moiros” de trabalho contagiando colegas e adeptos com a sua combatividade e eficácia, mas também Musa, ponta-de-lança temível que ainda há-de dar muitas alegrias ao clube.


Liderança no terreno do valente Otamendi, Grimaldo em versão melhorada, Alexandre Bah a dar solidez ao flanco direito, Chiquinho e Florentino sempre inconformados a varrerem todo o meio-campo, João Mário criativo e estabilizador da equipa, Rafa irreverente e diabólico várias vezes decisivo, Neres o criativo desequilibrador por excelência e o excelente Odisseias algo acima da época anterior.


Na segunda linha, Lucas Veríssimo, a recuperar de cirurgia, o prometedor Morato, sempre pronto a dar o seu contributo, o lutador Gilberto e os “nórdicos” ainda desconhecidos, de quem se espera bons contributos, tendo em conta o histórico do clube com atletas dessas paragens.


Pelo caminho ficaram as Taças de Portugal e da Liga, ambas com episódios de arbitragem recorrentes, que deixaram entre os adeptos a ideia de que teria havido intenção de afastamento da equipa destas provas.


Toda a época decorreu num ambiente hostil para o Benfica, quer pelo tratamento discriminatório das instituições desportivas, com sistemáticas sanções disciplinares e pecuniárias manifestamente exageradas, quer pela comunicação social em geral, com destaque para o CM e o Record, incansáveis a “desenterrar” temas desestabilizadores, quer algumas instituições da República, MP e PJ, com ações espalhafatosas contra o clube, geralmente coincidentes com períodos de apuros para o Governo.


Como pano de fundo de toda a época o tema da centralização dos direitos desportivos foi surgindo no espaço público. Espera-se com isso aumentar a receita global, melhorar a autonomia financeira dos clubes, diminuir o fosso competitivo entre eles, aumentar a imprevisibilidade das competições e com maximizar a receita global.


Devido aos antecedentes históricos nesta matéria não tenho a menor confiança nas instituições desportivas, Liga e Federação, para liderar este processo. Na verdade, o que está, sobretudo, em causa é a apropriação pela Liga do valor de mercado do Benfica para o enfraquecer e reforçar os seus adversários.


A intervenção do atual Governo nesta matéria, impondo a centralização, associada às sucessivas investidas do MP contra o Benfica, a prisão do anterior presidente - mais um -, consolida a ideia de que há setores partidários empenhados em denegrir e diminuir o Benfica, devido, creio, a traumas de natureza política. De outra forma não se compreende a passividade das autoridades perante certas ocorrências, de natureza financeira, judicial e desportiva.


O Benfica é uma nação”; é uma expressão que se vulgarizou e que de quando em vez se repete em ar de brincadeira. Porém, o entusiasmo, a alegria, com que os adeptos festejaram esta conquista, em Portugal e por esse mundo fora, alguns chegando às lágrimas, mostra que há algo de verdade nela. E poderá ser um alerta para todas as instituições, desportivas ou da República, que agem ou colaboram, ainda que por omissão, contra o clube, denegrindo-o, pondo em causa a sua honorabilidade, enxovalhando-o na praça pública de forma sistemática, ignorando ostensivamente todo o contributo que o clube tem dado para o desporto nacional, profissional e não profissional em variadíssimas modalidades e múltiplos os estratos etários.

                                                                   Viva o Benfica!

Peniche, 28 de Maio de 2023

António Barreto


domingo, 14 de maio de 2023

Causas Remotas do 25 de Abril

 

Causas Remotas do 25 de Abril



“...Portugal, três décadas depois da cedência de Roosvelt à URSS das suas possessões africanas, interpunha-se ainda como um escolho inamovível na viabilização do contrato e lutava sozinho contra o condomínio russo-americano e respetivos mecanismos de conquista e anexação.”


“...No dia 25 de Abril de 1974, capitães convictos de salvarem o povo das garras dos exploradores, apoiados por comunistas primários, estudantes analfabetos e intelectuais muito eruditos sobre o imperialismo dos EUA investiram contra a última barreira na Europa contra esse mesmo imperialismo.”


“Ao largo, na costa, uma esquadra americana velava pronta a intervir em favor dos revoltosos marxistas para que as promessas de Roosvelt fossem honradas. A África foi partilhada de harmonia com o esquema habitual: ideologia redentora primeiro; depois financiamentos redentores e divisão equitativa dos lucros entre parceiros sociais.”


“O agente de confiança de Nelson Rockfeller, Frank Carlucci, posando como embaixador dos EUA em Lisboa, como o seu homólogo da KGB, Kalinine, sob travesti semelhante, destacados para consolidar mais esta etapa, desempenharam-se com discrição e eficácia desta missão especial.”


“Os expoentes máximos do Round Table Business, organismo Rockfeller que agrupa os 178 maiores capitalistas do mundo, consideram hoje Portugal como uma das melhores coutadas europeias, tendo o caminho facilitado pela desertificação dos empresários nacionais, liquidados e afastados da competição pela aguerrida matilha comunista, Chase, Morgan, Ford, Rothschild, e o Kremlin tinham vencido juntos mais um lance”


Lourdes Simões de Carvalho, 23 de Março de 1980, em O Dia, citada em: Livro Negro do 25 de Abril, de José Dias de Almeida da Fonseca.


Estaline, Lenine e Kalinine em 1919


Peniche, 14 de Maio de 2023

António Barreto





domingo, 7 de maio de 2023

O Paradoxo do "Homem Novo"

 

O Paradoxo do “Homem Novo”


Nunca foi tão grande, como na nossa época, o desprezo de certas camadas intelectualizadas pelo homem comum. Afastadas do realismo cristão que obriga a consciência a considerar o homem concreto, refugiaram-se num amor abstrato a um homem abstrato que povoa as suas utopias e que sairá numa manhã desconhecida da realização dos seus sonhos. Por isso odeiam o homem concreto - o seu próximo na linguagem e no pensamento cristão - que não é para eles mais que um ser amorfo e desprezível - um produto adulterado pela circunstância burguesa - que o partido transformará pela força no homem novo de amanhã, um homem que eles não são e em que não conseguem transformar-se.”

Fernando Pecheco Amorim - "Manifesto contra a Traição"


Peniche 07 de Maio de 2023

António Barreto


sábado, 29 de abril de 2023

O Lado Sujo do 25 de Abril

 

O Lado Sujo do 25 de Abril


...O MFA e a nova classe política, consciente do que o povo queria e para ganhar a sua confiança, apressou-se a garantir a concretização, e a curto prazo, das suas aspirações.

Foi a fase dos discursos, encontros, debates, mesas-redondas, saneamentos, e, não se esqueça, ocupação, cuidadosa e bem meditada, dos bons lugares na política, na administração e na economia, donde iam chutando, com o maior impudor, os melhores administradores, funcionários, técnicos e cientistas que o país tinha – a sua maior riqueza.

Na primeira reunião da Assembleia do MFA, a que compareceram pouco mais de duzentos oficiais, fizeram-se as primeiras distribuições. Na segunda apareceram cerca de dois mil, tendo-se então chegado algumas vezes a vias de facto e à invocação dos galões na disputa por um lugar num conselho de administração, pois que os melhores eram os das companhias em que o Estado não tinha participação. Nas outras, os lugares de administração não eram remunerados com tanta generosidade. Eles isso sabiam e como os lugares eram poucos para tantos patriotas, decidiram que cada lugar seria ocupado por três oficiais – um da Força Aérea, outro da Marinha e outro das Forças de Terra – ganhando cada um, por inteiro e com acumulação, o que antigamente ganhava um só e cometente. Precisa o Povo de melhor prova de que foi enganado? Devo esclarecer que esta informação me foi dada no momento por um oficial das Forças Armadas que assistiu a estas primeiras reuniões.”

Fernando Pacheco Amorim

Manifesto Contra a Traição


Uma das muitas detenções arbitrárias

Peniche, 29 de Abril de 2023

António Barreto

terça-feira, 25 de abril de 2023

O Prémio Camões e o Oportunismo político

 

O Prémio Camões


É difícil não gostar de Chico Buarque, grande compositor, grande músico, com temas que são autênticos mosaicos sociais, como é o caso de "A Banda". Porém, vinculou-se à promoção do socialismo a expensas do erário público -da lei Ruanet! Nunca pensai! Tal como muitos outros, Gilberto Gil, Cláudia Raia, etc., a troco de chorudos subsídios mensais concedidos pelo governo comunista, fazem parte da "milícia" cultural tão a gosto das esquerdas. Cientes da ingenuidade e boa fé dos cidadãos, que, atraídos por uma canção bonita, tomam por boas as ideias que veicula, dispensando a crítica do conteúdo subjacente às mesmas. Veja-se o exemplo de "A Paz" de Gilberto Gil; uma bela canção que implicitamente, apela à guerra como forma de obter a paz social.


Tenho pena de o dizer, mas não respeito estes artistas; são uma espécie de "pastores" culturais, têm segundas intenções, são falsos. A atribuição deste prémio insere-se neste processo e denuncia o oportunismo dos outorgantes, por sinal da próximos da cor política do homenageado e do atual Presidente do Brasil.


Este, que ascendeu ao cargo por métodos espúrios na sequência de eleições injustas e sem liberdade, pôs em marcha uma ditadura corrupta e repressiva que, pelos vistos, não perturba os anfitriões, tidos, por muitos, por democratas imaculados.


Inevitavelmente, como consequência destas considerações, o Prémio Camões surge como mais um instrumento de promoção do socialismo.


Assim a nobre e bonita finalidade de aproximar culturalmente os povos de língua portuguesa, fica manchada pelo despudorado oportunismo político.


Quase cinquenta anos depois do 25 de Abril, o Povo Português, merece o respeito que caracteriza as democracias adultas.




Peniche, 25 de Abril de 2023

António Barreto

O 25 de Abril . Antecedentes Remotos

 

O 25 de Abril


Antecedentes Remotos


Num artigo publicado em O Dia (23/3/1980) duma série sobre os Rockfellers, Lourdes Simões de Carvalho transcreveu a carta que Roosevelt endereçou em 1941 ao Kremlin – carta que Le Figaro, de Paris, revelou a 7 de Fevereiro de 1951:


Quanto à África, será preciso dar à Espanha e a Portugal compensações pela renúncia dos seus territórios para que haja um melhor equilíbrio mundial. Os Estados Unidos instalar-se-ão aí por direito de conquista e reclamarão inevitavelmente alguns pontos vitais para a zona de tutela americana. Será mais que justo.

Queira transmitir a Staline, meu caro senhor Zabrusky, que para o bem geral e para o aniquilamento do Reich ceder-lhe-emos as colónias africanas se ele refrear a sua propaganda na América e cessar a interferência nos meios laborais”


José Dias de Almeida da Fonseca – “Livro Negro do 25 de Abril”





Peniche, 25 de Abril de 2023

António Barreto

domingo, 23 de abril de 2023

O 25 de Abril e a Descolonização

 

O 25 de abril e a Descolonização


Quanto ao problema da descolonização assistiu-se, contrariamente ao prometido, a uma entrega sem condições, a uma corrida que não permitisse a salvaguarda de qualquer direito do residente e de Portugal nos territórios. Enquanto o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, general Costa Gomes, dava instruções às tropas em Moçambique para porem fim aos combates e confraternizarem com o inimigo, o major Melo Antunes incitava Samora Machel a atacar a fundo as mesmas tropas, já moralmente destroçadas pelas ordens recebidas, forçando-as à rendição incondicional, para assim poder exigir a independência incondicional a Lisboa. Porquê? Porque as fardas da traição sabiam que a Frelimo perderia um referendum. Era necessário como tal evitá-lo a todo o custo. O Povo português não viu os filmes, feitos por correspondentes da imprensa internacional em Moçambique, em que apareciam soldados portugueses, formados e sem calças, a entregarem as armas aos inimigos da véspera e, a seguir, ante o gáudio do populacho convocado, serem passeados pelas ruas das localidades, enquanto lhes arremessavam pedras, os insultavam e lhes cuspiam. Não viu o Povo os filmes, nem teve conhecimento das declarações de Samora Machel, em que este afirmava que a Frelimo vencera pelas armas as tropas portuguesas, como claramente o demonstravam os filmes e milhares de testemunhas. Samora Machel em diversas ocasiões tem manifestado claramente o desprezo que lhe merecem esses traidores. Entretanto, em Lisboa, Costa Gomes e o MFA declaravam ao Povo Português que tudo se estava a passar na melhor ordem e no melhor espírito de cooperação com os dirigentes da Frelimo. Os crimes, as desordens e enfrentamentos sangrentos de que o povo teve conhecimento, embora vago e deturpado, eram atribuídos à ação criminosa de alguns racistas e colonialistas que se opunham à justiça da descolonização.

Assim se abusou da boa-fé do povo.

Tanto o MFA como a nova classe política aplaudiram sem reservas esta maratona da Traição.”


Fernando Pacheco Amorim, em “Manifesto Contra a Traição”


Nas comemorações do 25 de Abril que se avizinham serão enaltecidos ou lamentados estes atos? Para uns, autores e comunistas, foram atos de heroísmo, para outros, onde me incluo, de traição! Aos povos da metrópole e do ultramar, pretos e brancos. Ninguém foi consultado sobre o destino das ex-colónias, como previa o Manifesto do MFA.



Peniche, 23 de Abril de 2023

António Barreto


sábado, 8 de abril de 2023

Um Campeão define-se no momento certo

 

Um campeão define-se no momento certo


O resultado do jogo de ontem, 1-2 para o Porto, foi justo. A equipa azul foi a melhor em quase todo o tempo de jogo. Ciente de que uma derrota a afastaria, em definitivo, do título, arriscou tudo. Receosa da qualidade ofensiva da equipa encarnada, retirou-lhe a iniciativa do jogo pressionando integralmente a sua defesa logo na área, começando pelo guarda-redes. Deste modo a equipa do Benfica não conseguia elaborar os seus movimentos ofensivos. No meio-campo, os jogadores azuis sempre se mostraram mais lestos e agressivos a atacar a bola, antecipando-se frequentemente. Estranhamente, os encarnados insistiram em iniciar as jogadas a partir da defesa, condenando a maior parte delas ao fracasso, em vez de optarem por lançamentos em profundidade para as costas da defesa contrária, onde Rafa, Ramos e Mário, poderiam fazer estragos, criando desequilíbrios. Curiosamente, foi o que fizeram os azuis; lançamentos longos a partir da defesa, obrigando os encarnados a recuar no terreno.


Apesar disso, o Benfica adiantou-se no marcador, numa bela jogada pela direita, com um centro bem medido e uma cabeçada fulminante, apesar de alguma sorte no ressalto no guarda-redes, após a bola ter batido na barra, com estrondo. E o segundo golo poderia bem ter acontecido, não fora a reação do Pepe, num último esforço, ter desviado a bola com o bico da bota, um instante antes de Ramos desferir o remate, a cerca de três metros da linha de baliza. Foi este o lance que decidiu o jogo.


Os azuis não se desmancharam; mantiveram o perfil do seu jogo, fazendo o empate num forte remate na área encarnada perante a apatia da defesa, e vendo dois golos anulados ainda antes do intervalo. Bem anulados ambos, o primeiro por falta sobre o guarda-redes, e o outro por fora-de-jogo de 6 cm, algo de que discordo.


O reatar da 2ª parte não trouxe alterações, com os azuis a pressionar alto e os vermelhos a querer recuperar a vantagem. E venceram; mais um descuido defensivo deu o golo da vitória, num lance em que me parece que Odisseias poderia ter feito melhor.


Em vantagem, Conceição alterou a tática da equipa, refrescando o meio-campo e recuando-a, dando a iniciativa de jogo ao adversário e atacando em transições e em ataque apoiado. Com a iniciativa de jogo, os encarnados tiveram sempre dificuldade em construir lances ofensivos de qualidade, graças à coesão e intensidade defensiva contrária. Os remates de meia-distância foram escassos, os centros, geralmente rasteiros, eram sucessivamente intercetados e nos ressaltos, os azuis estavam sempre em superioridade numérica.


A equipa do Benfica bateu-se bem mas faltou-lhe intensidade e inteligência para romper a teia contrária, como fez no lance do seu golo. Musa entrou demasiado tarde, bom no jogo aéreo e a rematar com os dois pés, ocuparia os centrais adversários deixando espaço os alas e para as entradas mortíferas de ramos, equilibrando o défice numérico na área.


A nomeação da dupla Soares Dias-Tiago Martins, de má memória para o Benfica, deu o mote ao jogo, mostrando ostensivamente quem manda no futebol nacional. O desempenho da dupla de arbitragem, seguiu o padrão já conhecido; cartão amarelo aos encarnados logo a abrir - Florentino -, para condicionar a equipa, permissividade aos azuis - Otávio deveria ter sido punido com o amarelo no mesmo lance, ficou por assinalar uma falta sobre Grimaldo quando entrava isolado na área contrária e ficou por punir disciplinarmente o jogador que retirou Bah do jogo e o lesionou para o resto da época, etc. Tempo de compensação insuficiente face ao anti-jogo azul e, incompreensível momento do termo da partida com a bola ainda no ar em lance ofensivo do Benfica. Com equipas equilibradas, estas “habilidades” fazem a diferença.


É histórica influência no desempenho das equipas em vésperas de jogo da Liga dos Campeões, ainda mais nos quartos de final. E pode ter tido efeitos neste caso. Atua ao nível do subconsciente dos atletas, todos querendo estar presentes numa ocasião que pode ser única. A disputa do lances é feita com mais cautelas e a intensidade das movimentações é atenuada.


Também adquirido é a quebra de ritmo ocasionada pelas paragens para os jogos das seleções, que, mais uma vez se verificou na equipa encarnada. Não se compreende a marcação de jogos das seleções com os campeonatos na fase decisiva! É certamente, a necessidade de financiamento das federações nacionais e da própria UEFA, instituição que carece de profunda reforma ou extinção.


Finalmente, foi miserável toda a campanha que foi feita na comunicação social, supostamente, envolvendo instituições judiciais, em prejuízo do Benfica. Até parece que há gente no Ministério Público e nos Tribunais destacada para prejudicar o Benfica! Quanto à comunicação social, acho que não escapa um na militância contra o Benfica, apostados em denegrir a sua história e apesar magnífico trabalho que tem feito no desporto. Deploráveis foram as declarações de Francisco Varandas a lançar “lama” sobre o Benfica, por despeito, apesar dos inúmeros “telhados de vidro” do clube a que preside lhe retirarem a autoridade moral para o fazer.


A derrota é dececionante, mas a equipa encarnada, podendo fazer melhor, não esteve mal.


O Benfica está no bom caminho; se pudesse dar um conselho aos seus dirigentes, dir-lhes-ia para exigirem o afastamento dos atuais dirigentes da federação e da liga e para elaborarem um plano de intervenção no espaço público expondo as teses do clube e desmascarem os seus detratores. Quanto ao Varandas, gostaria de vê-lo responder em Tribunal pelas acusações que fez ao clube.





Peniche, 8 de Abril de 2023

António Barreto