Puros e os Ímpios
O
conceito de povo escolhido, povo eleito por Deus para salvação da
humanidade, é geralmente atribuído
aos Judeus. O seu passado de escravatura e
perseguição, espécie de expiação santificadora, continua
a sensibilizar o
comum dos mortais.
Outros
povos, como por exemplo, os eslavos e os germânicos,têm a mesma
visão de si próprios – ver
em Hannah
Arendt em As origens do Totalitarismo.
Por
esse mundo fora não faltam casos semelhantes. Agostinho
da Silva pensava algo parecido a respeito de Portugal e dos
portugueses, o desígnio divino do quinto império, ideia, creio,
com origem no pensamento do Padre António Vieira.
Em
todas as épocas, em todas as geografias, em todos os regimes, com ou
sem contornos celestiais, encontramos fenómenos derivados; gente,
maioritária ou não, que se considera detentora da verdade
e do dever, divino ou cívico, de a impor aos outros, pela persuasão
da força, da astúcia ou da retórica.
A
tentação dos poderes de cada momento é
de impor aos “ignaros”, aos
“súbditos”, aos
“pobres de espírito”
a sua visão da história, do
mundo e da via para a “Terra Prometida”; algo
que sempre sucederá num futuro longínquo, tão longínquo que
nenhum dos contemporâneos o poderá testemunhar.
Tal,
porém, não é exclusivo dos regimes totalitários revolucionários
- Rússia
e Cuba -,
paradoxalmente também se verifica nos democráticos onde as leis,
geralmente, acabam por refletir, não
os interesses e preocupações do povo, mas os dos partidos
maioritários, dos seus dirigentes, dos interesses económicos e
sociais
que
gravitam à sua volta e os sustentam.
Pior
ainda, boa parte dos partidos inspiram-se e vinculam-se a
organizações internacionais externas adotando as respetivas
ideologias e estratégias que
procuram impor, gradualmente, às respetivas populações através da
demagogia e do assistencialismo.
De
facto, quer Hitler, quer Hugo
Chávez
ou Erdogan
- e, em minha opinião, mais recentemente, Lula da Silva -, chegaram
ao poder pela via democrática, tendo instituído - no
caso do Brasil ainda no início -
ditaduras que as respetivas populações, por si só, foram ou
são incapazes de reverter.
O
Nazismo, fundado no conceito da superioridade racial germânica, da
sua raiz ariana, perdura ainda, na mente das gerações atuais, pela
desumanidade que o caracterizou, pela
ameaça real que representou para a Europa e para o Mundo,
mas também por
ser o
mais conhecido das massas, graças à propaganda decorrente da
vitória militar ocidental.
As
comunidades judaicas foram as suas principais vítimas. Anna
Arendt
no seu livro “As Origens do Totalitarismo”, refere que, em caso
de vitória alemã, outros vítimas se seguiriam, paulatinamente,
gradualmente; os povos eslavos - povos
de origem russa que compreendem hoje os países escandinavos,
Polónia, Bulgária, Hungria, Eslovénia, Sérvia, Macedónia e
Croácia -,
e
até os
os
cidadãos germânicos com doenças
crónicas
- a fazer lembrar a solução preconizada por Sócrates, na sua
República, para os doentes incuráveis.
Parte
desses planos relativa
ao extermínio dos povos não germânicos,
principalmente dos eslavos, pode ser encontrada no “Bréviaire
de la Haine”, de
Léon Poliakov, Paris, 1951, cap. 8. Um projeto de lei de saúde do
Reich, escrito pelo próprio Hitler, mostra que a máquina de
destruição Nazi não se teria detido nem mesmo diante do povo
alemão. Neste projeto ele propõe “isolar” do resto da população
todas as famílias que tenham casos de moléstias do coração ou do
pulmão sendo que o próximo passo nesse programa era, naturalmente,
a liquidação física. Este e vários outros projetos preparados
para depois da vitória estão numa circular aos chefes
distritais,,,.Neste
contexto, há ainda planeada a promulgação de uma “legislação
global quanto a estrangeiros”, por meio da qual a “autoridade
institucional” da polícia promoverá o embarque para os campos de
concentração de pessoas inocentes de quaisquer crimes, desde que
consideradas de algum modo “estranhas”…. (anotações
em
“As Origens do Totalitarismo,
de Anna Arendt).
Se,
no caso do nazismo a seleção populacional radicava na pureza da
raça, no caso soviético centrou-se na pureza ideológica e
no culto do poder paternalista e totalitário.
São
conhecidas as sucessivas purgas com que Estaline, implacavelmente,
aniquilou todos os pares e correligionários que, de alguma forma lhe
poderiam disputar o poder.
“...Segundo
W. Krivitsky, cuja excelente fonte de informações conficenciais é
a GPU: “Em lugar dos 171 milhões de habitantes estimados para
1937, apenas foram recenseados145
milhões; assim, desapareceram 30 milhões de pessoas na URSS.”
Como
se sabe, só a liquidação dos kulaks no início dos anos 30 havia
custado perto de 8 milhões de vidas humana. (anotações em “As
Origens do Totalitarismo”, de Anna Arendt).
Em
todas as épocas, em todos as geografias, com mais ou menos violência
não faltam culturas, ideologias, que dividem o mundo entre puros e
impuros. Jesus,
tanto quanto sei, foi o primeiro grande doutrinador a suprimir este
conceito, a divisão das
pessoas entre fiéis, blasfemos, gentios e iníquos, pregando a
igualdade de todos os seres humanos perante Deus.
Porém,
paradoxalmente, foi a sua
própria Igreja, quem,
durante séculos, desde tempos imemoriais, perseguiu, com violência
extrema, os “impuros”; entre eles os cristãos que, de algum modo
desrespeitavam os padrões definidos no Concílio de Niceia,
de que a Santa
Sé, foi zelosa
guardiã.
Em
Portugal todos
nos lembramos da infame perseguição e expulsão dos Judeus e
Cristãos-Novos, iniciada no século XV - A Santa Inquisição,
fundada em 1184 só foi extinta em 1842. Mas também da feroz
perseguição, nos séculos XVIII - Marquês de Pombal - XIX -
regimes liberais - e XX - 1ª República - aos Jesuítas e aos
eclesiásticos da Igreja Católica, regular e irregular.
Assim,
o desaparecimento de arquivos, manuscritos, livros e instrumentos
científicos, cuja existência e uso estão documentados, não terá
ficado a dever-se só ao Terramoto ou à incúria, mas a uma
estratégia deliberada do Marquês.
Mil
e cem jesuítas são então expulsos do reino e mandados para os
Estados papais. E aqueles que tinham particular influência na corte
e na sociedade, metidos nas masmorras. Ou
condenados à morte, como o padre Malagrida, queimado
no Rossio em 1761.Os missionários do Brasil são trazidos para a
metrópole, alguns morrem na viagem, outros vão também ficar a
ferros.
O
resto da Europa católica seguiu o exemplo português….Mais de
cinco mil sacerdotes expulsos e embarcados à força para os Estados
papais e duzentas e cinquenta casas, residências e colégios
fechados, foi o balanço.
...Identificados
com a reação e com as classes dominantes os religiosos eram os
bodes expiatórios das revoluções. Na Comuna, em Março de 1871,
vinte e quatro eclesiásticos, entre eles o arcebispo de Paris,
monsenhor Darboy, foram sumariamente fuzilados.
...Muito
do anticlericalismo e do anticatolicismo dos republicanos portugueses
vem desta linhagem. A França era, e iria ser por muitos anos, a
fonte da cultura política da esquerda Portuguesa.
...Em
28 de Maio de 1834, Joaquim António de Aguiar publicara um decreto
em que extinguia em Portugal Continental e nos domínios portugueses
todas as ordens religiosas, o que lhe valeu a alcunha de
“Mata-frades”.
...Em
1910, quase um século depois, a situação repetia-se. Com a sua
retórica humanitária, os republicanos queriam salvaguardar as
aparências, mas Afonso Costa era decidido e despachado: manda fechar
os conventos e arrolar-lhes os bens. Quanto aos Jesuítas, os
inimigos de estimação, as suas casas e residências são invadidas
por revolucionários civis, polícias e soldados, que prendem como
criminosos os inacianos e os escoltam para Lisboa….A República não
deixa os créditos da modernidade por mãos alheias: os padres são
também objeto de testes antropométricos, de acordo com as regras de
Lombroso, para comprovar cientificamente as suas “tendências
criminosas inatas”.
...Para
a laicização integral da vida pública e social, proibiram-se então
os religiosos e sacerdotes de usar as suas vestes em público.
“devendo o (infrator) ser preso pelas autoridades e podendo sê-lo
por toda a pessoa do povo em flagrante delito”. Na mesma linha,
foram retirados os crucifixos dos edifícios público, os nomes de
santos dos quartéis e fortificações, abolido o juramento
religioso, proibido o culto na capela da Universidade de Coimbra e
fechados os cursos de Teologia e Direito Eclesiástico. E acabou-se,
evidentemente, com a formação religiosa nas escolas. Escrevia então
António José de Almeida:
“A
República libertou a criança portuguesa, subtraindo-a à influência
jesuítica, mas precisa agora de a emancipar definitivamente, de
todos os falsos dogmas, sejam os de moral ou de ciência…. A
religião foi banida da escola. Quem quiser que a dê à criança no
recato do lar, porque o Estado, respeitando a liberdade de todos,
nada tem com isso.”
...O
padre Fragues, confessor da rainha, morto a tiro e à coronhada na
casa dos Lazaristas, fora uma vítima simbólica, na aurora da
revolução. Nos primeiros dias, o poder republicano usara o pretexto
de proteger os religiosos da fúria popular para os prender e
expulsar do país. E não fora difícil: bastara
ressuscitar a legislação antijesuítica e anticongregacionista, de
Pombal, Joaquim António de Aguiar e Anselmo Brancamp. Foi o que fez
Afonso Costa. Não era preciso inventar nada.
...António
Macieira, digno continuador de Afonso Costa, prosseguiu com as
deportações dos bispos, as sanções contra os párocos
reacionários e o confisco dos bens da Igreja. Para demonstrar o
apoio popular às medidas anti-religiosas, uma vasta frente de
“organizações cívicas” - liderada pela Associação do Registo
Civil, promove, na tarde de 14 de Janeiro de 1912, uma manifestação.
A iniciativa contou com dezenas de agremiações, da filarmónica dos
Alunos de Apolo à Liga das Mulheres Republicanas, da Carbonária às
Associações de Logistas.
O
espírito da convocatória estava todo na mensagem e nas palavras de
ordem da manifestação: “Da subjugação completa do clericalismo
depende o triunfo definitivo da República.”
...”O
povo, que assiste à passagem do cortejo, aplaude” (em
“Nobre Povo, os Anos da República” de Jaime Nogueira Pinto)
Não tenho ilusões quanto à moderação e tolerância atuais. É
fácil descortinar os herdeiros políticos da ala extremista do
Partido Democrático. O radicalismo anticatólico e marxista,
continuam bem vivos nos alegados defensores da “igualdade” e das
minorias, que, pacientemente, passo a passo, vão esgravatando,
desestabilizando, desagregando, fomentando a desarticulação
económica e social, dividindo a população, hostilizando os
“talassas”, à espera do momento oportuno para a grande
viragem, apoiados por estruturas do Estado controladas por
correligionários infiltrado
Soldados dividindo as vestes de Jesus
Peniche, 23 de Setembro de 2023
António
Barreto