Desporto

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O 25 de Abril Visto da História (notas: P2)


O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 
….Será curioso observar, a propósito, o que se passa durante a guerra civil de 1832-1834, quando a burguesia portuguesa, desempregada depois da independência do Brasil, se põe a reboque das forças liberais - de um exército de políticos, exilados – não para fazer prevalecer na sociedade portuguesa a sua ordem, a ordem burguesa, mas para desapossar o clero e a nobreza das suas terras e para se meter depois, ela própria, nas terras do clero e da nobreza, conservando praticamente intactos os privilégios que antes essas duas classes usufruíam, prolongando a sociedade feudal. ....(JAS)

…..gostaria de recordar o que me disse um dia um reconhecido historiador: que Salazar tinha deixado o Portugal em condições ótimas para o estabelecimento de um “regime socialista” ( e socialista, neste caso, entre aspas, evidentemente). …(JAS)

….Aí tu tocas num aspeto muito importante: Portugal é um país onde nunca se verifica um livre jogo de forças, onde tudo se resolve através de leis, de decretos. … (JAS)

…Apenas um setor se mantém aparentemente invulnerável ao regresso ao salazarismo: o Ensino. …(VJS)

…A burguesia em Portugal, satisfaz-se com a pilhagem colonial – e com o seu negócio. Não se forma em Portugal uma burguesia industrial. .. (JAS)

….Não se coloniza o Império – conserva-se o Império. Não se exploram os recursos do Império – mantém-se o Império. O Império é “terra sagrada”, é Pátria - e como tal, inalienável. …Com Portugal passa-se exatamente o contrário: a possibilidade do regime e do Império sobreviverem reside em não desenvolver, em paralisar.”… (JAS) 

   Aqui, JAS revela surpreendente ignorância; na sequência da 1ª GM, Portugal ficou obrigado pela comunidade internacional a intensificar o desenvolvimento das suas colónias. A partir do início dos anos sessenta – em particular no consulado marcelista e em colaboração com a CEE - e até ao 25/04/74, o crescimento económico - agrícola e pescas, industrial - bebidas, minérios, petróleo - e comercial, com o acesso direto a financiamento europeu e americano - sobretudo de Angola e de Moçambique, foi simplesmente espantoso, impressionante - os dados estão acessíveis -, e esta, sim, terá sido, quanto a mim, a principal causa do empenho internacional no movimento independentista, suportado politicamente pelo reconhecimento do “direito dos povos à autodeterminação”, na sequência dos acordos pós-guerra - 2ª GM. (nota AB).

“…Não é por acaso que setores oposicionistas identificados hoje com o Partido Socialista acorrem a apoiar vivamente as teses neocolonialistas, ditas “federalistas”, que Spínola começa a defender quando era ainda governador da Guiné. …(VJS)

….Uma das teclas em que bate constantemente a propaganda da República é a da incapacidade do aparelho monárquico para garantir a integridade nacional, para manter as colónias – donde a necessidade imperiosa de o derrubar. Ora não deixa de ser curioso estabelecer um paralelo entre uma primeira República que surge no palco do país a defender Portugal da perda à vista das colónias e uma segunda República que, precisamente ao contrário, aparece a afirmar a necessidade de Portugal oferecer às colónias a possibilidade de se autodeterminarem. ….(JAS)

   Mudança, afinal, consequência da nova ordem mundial, adotada no pós 2ª GM e bandeira do PCP e, mais tarde, de Mário Soares e do Partido Socialista. (nota AB)
 
Peniche, 22 de Outubro de 2018
Antonio J.R. Barreto

O 25 de Abril visto da História (notas P1)



O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
(notas)
 

     Duas das mais prestigiadas figuras do jornalismo nacional contemporâneo, observadores privilegiados do processo dito revolucionário do 25 de Abril de 1974, analistas sagazes de considerável cultura histórica, em vésperas das primeiras eleições presidenciais, revisitam a História à luz dos acontecimentos políticos da época.

    Refere-se, por exemplo, a tradicional fragilidade orgânica da sociedade civil como causa do protagonismo militar nas mudanças de regime em Portugal, como o que acabara de ocorrer; o vazio de poder que se verificou na sequência da destituição do antigo regime, período designado por PREC; a incipiência das estruturas dos novos partidos políticos, PS, PPD e CDS contrastando com a do PCP, robustecida por décadas de luta clandestina antissalazarista - desde 1926; da falta de aderência de todos à realidade social do país, ao qual impuseram modelos externos a que se vincularam; da preponderância do tacticismo político em prejuízo da coerência ideológica; da submissão de todos ao tradicional poder das armas; das vicissitudes e equívocos de alguns dos principais protagonistas do momento histórico; da correlação entre os destinos políticos das ex-colónias e de Portugal europeu, etc..

   Uma das curiosidades interessantes reside na referência ao desacordo de Ramalho Eanes na decisão de reabilitação do PCP, na sequência do 25 de Novembro de 1975, cujo defensor ativo teria sido Melo Antunes. Outra, na constatação de que a formação do atual BE parece ter origem nas que apoiaram a candidatura de Otelo às presidenciais de 1976, como a UDP a FSP e o MES (sendo que grande parte dos membros deste grupo constituem, hoje, a ala esquerda do PS).

   “…Sartre, escreveu algures, escandalosamente, que “nunca fomos tão livres como durante a ocupação alemã”. Talvez se pudesse acrescentar que a esquerda portuguesa nunca foi tão livre, ideologicamente, como durante os cinquenta anos de salazarismo….(VJS)

….O salazarismo emerge como alternativa histórica a esta dupla incapacidade - da burguesia republicana, primeiro, do Exército, depois -…. (VJS)

…O apelo a Deus - o apelo à ideologia - é sempre, evidentemente, um sintoma de incapacidade para resolver um problema. O reconhecimento de uma impotência para ultrapassar uma crise….(JAS)

…Temos assim que países como a URSS, a China ou Moçambique são hoje casos típicos de sociedades ideológicas; aí, onde os programas de desenvolvimento são fabricados em gabinete e impostos de cima para baixo, é condição prévia a existência de um Estado forte – que justifica o seu papel fortemente repressivo em função de uma “cartilha sagrada” existindo acima da própria sociedade e fora de qualquer discussão, e de um partido único que a pratica e impõe ao conjunto do corpo social… Trata-se de reduzir as tensões sociais (leia-se: a dinâmica social), ao zero absoluto – para construir depois sobre o vazio, o Estado absoluto, omnisciente e omnipresente. Aí, tudo se torna oficial. …(JAS)

…A sociedade burguesa é uma sociedade que destrói o espírito religioso porque assenta exclusivamente sobre condições materiais. …. (JAS)

(Foto: Praia de Peniche de cima) 
Peniche,21 de Outubro de 2018
António J.R Barreto

O clube "maldito"

      Quando vi pela TV a sessão na Assembleia da República acerca da violência no futebol, apesar de me ter parecido uma rábula "mal amanhada", acreditei que era verdade; perante a escalada de violência verbal, concertada, planeada, a que se assistia desde o início da época por parte de alguns dirigentes visando desacreditar o principal rival dos seus clubes, pensei que os mais altos dignitários do futebol e da Nação, dirigentes da FPF e deputados, tinham resolvido meter ordem no setor, criando instrumentos dissuasores de tais comportamentos. Enganei-me. Factos posteriores mostraram que se tratava, efetivamente, de mais uma rábula. Uma rábula para sustentar os violentíssimos ataques institucionais ao tal clube que tanto incomodava os rivais: o Benfica. É verdade. E sem pudor. Lembrei-me do episódio da bárbara agressão de um agente da autoridade a um adepto benfiquista perante pai e filhos, junto ao estádio de Guimarães, onde se desenrolava a partida que faria do seu clube virtual campeão. As agressões, excessivas, indiciavam uma qualquer patologia do agente. Provavelmente. Seguiram-se os trâmites legais, com avanços e recuos; inquéritos,  acusação, julgamento, condenação e punição. Assunto encerrado. Julgava eu. Enganei-me; esse episódio é uma metáfora da forma como a administração pública vê a sua relação com o Benfica. A bateria de sanções, desportivas e judiciais que se abateu sobre o clube encarnado recentemente prova-o à saciedade.
 
   Isto conduz-nos aos primórdios do 25 de Abril de 74 e à narrativa "antifascista" que, desde então, constitui um instrumento de combate politico, mas também económico e...desportivo. Quem viveu esse tempo, sabe o que foram os saneamentos; nas escolas, nas universidades, nas empresas; as ocupações selvagens de propriedades, casas e quintas. Uma época de excessos onde o romantismo se misturava com a violência e o oportunismo frutificava rumo ao futuro, que é hoje. O 25 de Novembro veio pôr alguma ordem no  país proporcionando a realização de eleições para a Assembleia Constituinte, que elaborou a constituição que, com alterações entretanto introduzidas, tem regido o regime em vigor.  Mas a narrativa do "fascismo" permanece. E a generalidade das elites políticas não sabem lidar com ela. Na realidade, têm pavor dela. E é este o contexto adverso com que o Benfica tem que lidar desde então tornando bem mais difícil e ingrata a sua tarefa. A ponto de muitos benfiquistas refrearem o seu fervor clubista para não "ofenderem"  os adeptos rivais.
 
   Construiu-se e alimenta-se a retórica  de que o Benfica foi o clube do regime de Salazar, apesar de todos saberem que tal não corresponde à verdade. A História demonstra que o Benfica nunca foi subserviente ao Estado Novo, ao contrário dos seus principais rivais. Deixo isso para os historiadores, mas basta observarmos que a ascensão de Salazar se iniciou em 1926 e que o Estado Novo foi instituído com a constituição de 1933. Ora o domínio do Benfica no futebol iniciou-se a partir de meados dos anos 50 até meados doa anos 80. Portanto, entre 1926 e 1955, quem prevalecia no futebol nacional era, salvo o erro, o Sporting! O que sucedeu foi que, o Benfica, nos anos 60, alcançou projeção mundial, com uma equipa plurirracial e pluricontinental e isso era do interesse de Salazar, pois simbolizava o tipo de sociedade com que sonhava; uma sociedade plurirracial de sucesso. E foi nessa medida que, involuntariamente, o Benfica serviu os interesses do Estado Novo; tornando-se uma das melhores equipas da história do futebol. E é isso que não lhe perdoam.  
 
      Ainda recentemente, Pinto da Costa, designou por "Liga Salazar" a mais recente ganha pelo Benfica. Um insulto soez ao rival, mas, sobretudo, à tutela desportiva e, em última instância, às instituições da República. Que saiba, ninguém, em nome de qualquer daquelas instituições, protestou. Diz o bom povo que "quem cala consente". Um sinal de fraqueza.
 
   E é aqui que se estabelece uma diferença vital entre o atual Porto e o Benfica; aquele, tem dimensão política, o Benfica não; aquele, faz parte duma estratégia de poder político local  e este ocupa-se exclusivamente de desporto. O Porto emerge como uma superestrutura de certas elites económicas e políticas da cidade, cabendo-lhe o papel de desafiador do centralismo lisboeta projetado no Benfica. Ao desafio desportivo  sucede o desafio policial e judicial; os superdragões praticam, incólumes, há décadas, atos censuráveis, com o propósito secundário de ostentar a não obediência às leis da República.  "Aqui mandamos nós", é a mensagem. O mais grave é que tal comportamento aparece publicamente respaldado nas forças de segurança, nas magistraturas judiciais e nos tribunais. Este é o caminho que vem sendo trilhado desde os anos oitenta, com a cumplicidade das forças políticas que preconizam a regionalização nos seus programas. Um erro grave; misturar política com desporto, só prejudica o debate. Os méritos da regionalização ficam prejudicados pelo envolvimento de figuras sinistras e pela restrição à cidade do Porto, afastando grande parte dos cidadãos. Não é a Cidade do Porto que carece da regionalização, é o país.
 
   Esta realidade tem desequilibrado a relação de forças institucional entre os dois clubes e assim permanecerá até que os dirigentes do clube encarnado tenham o engenho de fazer valer o seu poder social perante os agentes políticos do pais.
 
   Proibidos estatutariamente de desenvolver atividade política, os clubes têm todo o direito de questionar os vários atores da vida pública acerca dos seus projetos para o desporto, cotejá-los com as suas próprias ideias e informar os seus adeptos dos casos de conformidade ou desconformidade.
 
   Mais, os dirigentes do Benfica têm hoje fundamento para questionar publicamente os órgãos de soberania bem como os diretórios partidários acerca das suas intenções relativamente ao clube. É tempo de dizerem se continuam dispostos a ser cúmplices da perseguição a que o clube tem sido sujeito cuja intensificação tem acompanhado o seu sucesso desportivo. Os adeptos do Benfica querem saber em que regime vivemos.
 
Peniche, 21 de Agosto de 2018
António J. R. Barreto 

domingo, 30 de setembro de 2018

Benfiquismo.

  
Certa vez, ao explicar a um entrevistador o seu entendimento do que é o Benfica, Tony, definiu-o, grosso modo, como uma entidade imaterial resultante do "amor" dos adeptos; essa coisa indefinível com profundas raízes na alma que a eleva e transporta às margens da transcendência. Em última análise, o Benfica é o que são os seus adeptos. O conceito vale para qualquer outro clube. O caso é que os adeptos não são todos iguais; os mais distantes cultivam o mais puro ideal utópico para o qual transferem as suas mais edificantes aspirações; os mais próximos, geralmente, desenvolvem uma cultura de propriedade resultante do seu envolvimento no dia a dia do clube, e que comporta um certo aviltamento. Os jogos de poder, o oportunismo, o proselitismo, o elitismo, a vacuidade, a grosseria, a tirania, o relativismo moral e ético, que lhe são próprios são incompatíveis com o ideal utópico referido, degradando-o. O paradoxo é que, são estes que alimentam o sonho dos outros fazendo funcionar o clube. A lição é que, no dia-a-dia dum clube como o Benfica, os valores éticos e morais têm que ser respeitados por todos, sob pena do desaparecimento da sua substância distintiva e da sua despromoção à vulgaridade. Daqui decorre a necessidade de transparência e participação na gestão e funcionamento do clube  sem a qual, este, será uma ficção dos seus adeptos alimentada pelos  dirigentes e respetiva corte, conforme a sua própria visão e interesses. 
   Tudo isto me ocorreu ao assistir à última Assembleia Geral do Benfica, onde foi possível identificar a simultaneidade daquelas duas facetas. Um certo distanciamento, é, em muitos casos, como o meu, uma defesa do adepto perante o perigo eminente da deceção resultante da erosão do seu ideal. E é assim que deve ser, creio.
 
(Tela de Abel Manta)
 
António Barreto
Peniche, 30 de Setembro de 20018

sábado, 4 de agosto de 2018

O contexto político do Benfica

     
Apesar do reconhecimento geral da democraticidade do Benfica, quer na vigência do Estado Novo quer posteriormente, os mentores dos seus principais adversários insistem na "velha" retórica que o classifica de "clube do antigo regime", afinal, uma dupla justificação, para os seus fracassos de então e, simultaneamente, para os seus sucessos posteriores, estes, resultantes, segundo eles, do advento da democracia.
 
   Nem uma coisa, nem outra; nem o clube encarnado beneficiou dos favores do Estado Novo nem a democracia política impediu a turbulência que emergiu no mundo do futebol luso e que veio a culminar com o processo, a todos os títulos indecoroso, do apito dourado.
 
   Contudo, tal "engenharia" comunicacional tem-se revelado eficaz, sobretudo em certa comunidade político-desportiva, ao manter, permanentemente, numa espécie de "nevoeiro", a ideia de incompatibilidade entre a democracia e o Benfica.
 
   As vitórias do Benfica funcionam, para os seus adversários, como um instrumento de pressão sobre as entidades que tutelam o futebol, denunciando o que consideram sintoma de deriva autoritária do regime. E funciona!, certos quadrantes políticos, receosos de serem rotulados de "salazaristas", mantêm uma olímpica indiferença perante os sucessivos distúrbios a que se tem assistido no futebol nacional, configurando o que classifico como cumplicidade passiva. Ainda recentemente, sucumbindo à desilusão de mais uma derrota, o dirigente de um clube rival do Benfica, apelidava a respetiva competição de "liga Salazar"! Nem na esfera das instituições desportivas, nem na governativa houve qualquer reação de reprovação ao autor das infames declarações. Pelo contrário, o silêncio funciona como anuência para com o detrator incentivando-o à prossecução de tais métodos. Algo que, afinal, não surpreende quando olhamos mais de perto para as afinidades explícitas ou implícitas entre o infamante e os dirigentes daquelas instituições.

   Implicando com tudo isto, no caso concreto do Futebol Clube do Porto, há uma particularidade, a mau ver única, no panorama nacional: a dimensão política. Este, é um clube politizado, na medida em que serve fins eminentemente políticos através do desporto. O envolvimento dos seus dirigentes, onde se cruzam notáveis da politica partidária, da banca, da economia, de instituições empresariais e da administração pública, na causa da regionalização, ainda que, por vezes, discretamente, não deixa dúvidas a este respeito.

   Os muitos episódios algo caricatos que têm vindo a público mostram que "a causa" da região se propagou aos organismos públicos locais - e, também, aos nacionais -, concitando a militância dos aderentes, consubstanciada num comportamento de não colaboração e de interpretação mais favorável das leis e regulamentos, por mais absurda que seja, justificada por um "desígnio superior", restritamente partilhado.

   É curioso verificar como os que acusam o Benfica de envolvimento cúmplice com o antigo regime, usam, agora, a sua capacidade de influência política junto dos aparelhos estatal e partidários para o "desbravamento" do caminho do sucesso desportivo. Um exercício de hipocrisia e cinismo flagrantes.

   Refém da sua própria grandeza,  o Benfica, vive entre a inveja e o ressentimento dos adversários e o desconforto partidário - o clube encarnado tem mais sócios que todos os partidos políticos juntos têm de militantes -, perante a sua capacidade agregadora, inconveniente à nova ordem inscrita nos seus propósitos.

   Por tudo isto, é minha convicção que o Benfica tem um problema político - que se revela no funcionamento das instituições; PSP, Judiciária, Ministério Público, Tribunais, etc. -, que deve enfrentar, questionando frontalmente os diretórios partidários, e mantendo os seus adeptos informados do resultado dessas diligências.

   Na vertente normativa e dado o impacto desportivo do clube encarnado, deve, este, manter-se atento às iniciativas governamentais e das tutelas desportivas, analisando, discutindo e propondo medidas conformes à sua visão do interesse geral.

   Esperar pelo reconhecimento voluntário de adversários e dirigentes, como se tem visto, é má política; ao mínimo distúrbio, ainda que com origem diversa, quer os meios de comunicação, quer as autoridades, tratam de meter os dirigentes e adeptos do Benfica mesmo saco, sem constrangimentos de consciência.

   Em resumo; a paz deve ser conquistada, e nunca será outorga de quem quer que seja.

sábado, 21 de julho de 2018

Benfica; A Banca em ação.

   Retomando a crónica anterior, acredito que tenha havido razões não explícitas para a passividade revelada pelos dirigentes encarnados no planeamento e acompanhamento da época. Não acredito nas teses da incompetência ou da displicência. O cenário de fundo do campeonato foi o da consolidação da supremacia encarnada e do deslizamento económico e desportivo dos principais rivais para situações de rotura financeira eminente; Sporting e Porto viviam sustentados por reestruturações sucessivas de dívida; aquele, por emissão de "dívida perpétua sem custos", as famosas VMOC, este, já intervencionado pela UEFA, e a braços com o vencimento do empréstimo obrigacionista, apesar de ter conseguido a proeza do alargamento do prazo de liquidação da dívida do seu  estádio para 50 anos! Um novo ciclo político fazia prever novos contornos desportivos.
 
   O que lhes teria acontecido caso o Benfica tivesse ganho o campeonato? Ao Sporting, eventualmente, algo muito semelhante ao que se verificou; a queda de um demagogo sem escrúpulos. Quanto ao Porto, o agravamento da sua condição financeira devido à inerente desvalorização dos seus jogadores e do prémio de risco associado à emissão do novo empréstimo obrigacionista, aprofundando-se o ciclo vicioso em que caíra devido à ascensão do Benfica. Todas estas razões suportam a ideia de que o panorama desportivo terá atingido a esfera política, embora ainda a nível de bastidores.
 
   O que sabemos em concreto é que o clube encarnado reduziu à marginalidade o seu endividamento bancário - ao que consta, a cerca de 17 milhões de euros -, recorrendo ao serviço de factoring, tendo dado como garantia três anos de receitas futuras de direitos de imagem, com um custo de, aproximadamente, 17 milhões de euros. O desfecho desta operação coincidiu, aproximadamente, com o momento em que o Benfica começou a ficar para trás na corrida pelo título e com o anúncio de novo ciclo de obras no Seixal. Refira-se que, a certa altura da época, elementos próximos do Presidente, e até este, desdramatizavam, na TV do clube, a eventualidade do fracasso do "penta". Pareciam preparar os adeptos para algo que sabiam iria ocorrer.
 
   Quem terá tido a iniciativa da antecipação do pagamento da dívida bancária? Benfica ou bancos? Filipe Vieira apresentou o assunto como sendo o cumprimento duma promessa sua, consciente do impacto favorável junto dos benfiquistas "aliviados" com o integral pagamento do estádio. E quem terá sido o beneficiário desta liquidação, Benfica ou bancos? Não creio que tenha sido o Benfica, uma vez que sacrificou receitas futuras e não reservas de capital ou financiamento de mais baixo custo - o que, aliás, deveria ter feito há já muitos anos -, apesar da extraordinária receita alcançada com a venda de jogadores.
  
   Grosso modo, o Benfica poupa uma despesa anual com juros da ordem dos 16 milhões de euros, mas perde uma receita anual de 40 milhões!, ou seja, nos próximos três anos, terá que fazer um esforço adicional da ordem dos 24 milhões de euros face ao que teria se mantivesse o plano de amortização contratado. Conclusão, benefício económico do Benfica, não há, e tal repercutir-se-á nos próximos três anos. Isto, a julgar pelo que tem vindo a público; os detalhes do caso poderão ser algo diferentes.
 
   Porém, temos assistido, desde há cerca de 10 anos, a um tumulto bancário em Portugal que tarda em dissipar-se definitivamente. Após sucessivas recapitalizações e várias falências, o bancos sobreviventes vivem, ainda, pressionados pelas respetivas  tutelas, para libertarem os seus balanços dos ativos tóxicos, entre os quais os créditos associados ao futebol.
 
   Por tudo isto, creio que, no início da época, os dirigentes do Benfica terão sido confrontados com os respetivos bancos credores para a imperiosidade da liquidação da dívida. Cerca de 150 milhões de euros (salvo o erro)! Num primeiro tempo, os dirigentes encarnados, terão equacionado o pagamento com meios próprios, daí terem vendido "tudo o que tinha mercado" e terem-se resguardado nas contratações. Necessitavam de fundos para satisfazer a gula bancária e...sabe-se lá que mais. Prejudicada ficou a equipa. Comprometida ficou a época. )E, agora, já estou a pensar em causas de natureza político-partidária).
 
   Terá sido, pois, com o decorrer do campeonato que terá surgido a possibilidade do recurso à antecipação de receitas, e, este, poderá ter sido o maior erro recente de Filipe Vieira, que poderá ter comprometido, irremediavelmente, os próximos anos do Benfica, ao viabilizar a operacionalidade da "velha máquina azul". Nessa altura, já não haveria possibilidade de reforço do plantel.
 
   Não sei se os acontecimentos terão ocorrido assim, mas é possível que tenha sido; acredito que tenha sido. Mais; acredito, até prova em contrário, que a intransigência bancária para com o Benfica tenha tido origem governamental com o propósito de manter um quadro desportivo mais consentâneo com o seu projeto político para o país.
 
   A teimosia de Filipe Vieira em relativizar, insistentemente, a gravidade dos fracassos, e em apresentar justificações  inverosímeis, suscita a minha censura; não se diz aos benfiquistas que a derrota não é importante, convidando-os a conformarem-se com os insucessos, quando, a ancestral cultura benfiquista é o contrário disso; é inconformismo, é insatisfação permanente, é luta contínua, sempre respeitando os outros, mas sem desfalecer na luta. Aceita-se a derrota quando nos batemos lealmente pela vitória e honra-se o adversário quando nos ganha da mesma forma. Esta é a cultura do Benfica e não a do conformismo que Filipe Vieira, gradualmente, tem vindo a estabelecer.
 
   A montante, poderemos ainda equacionar as "tais" causas de natureza política, que já vi referenciadas na BTV pelo ilustre Fernando Seara, ainda ontem, no programa "Jogo Limpo" e sobre as quais me debruçarei na crónica seguinte.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Um olhar sucinto para o Benfica 2017/2018

   Com os "motores" dos clubes/SAD em "afinação" para a nova época desportiva, diluída ou atenuada a indignação na esperança de novas conquistas, é tempo de olhar para trás e tentar perceber os factos, em especial, os desportivos e destes, o futebol sénior do Benfica, em particular.
 
   Iniciou-se a época na perspectiva duma façanha histórica para o Benfica; o penta-campeonato foi o objetivo definido e sempre reafirmado ao longo da época, como se fosse algo virtualmente adquirido. Falhou. Por pouco, mas falhou. À vista da meta, o "carburador" entupiu. Tal como, afinal, aconteceu nas modalidades. Todas. É certo que a época foi caracterizada por ataques sistemáticos ao clube por parte dos principais rivais e que se verificaram, dentro e fora das competições, acontecimentos algo bizarros, embora não inéditos. Mas também é verdade que, internamente, não faltaram equívocos aos responsáveis do clube encarnado. Tantos e tão inesperados, que chego a pôr em dúvida o efetivo empenho na vitória.
 
   Ao nível do futebol sénior, falhou tudo; planeamento, preparação e acompanhamento. Não se percebe porquê; aparentemente, por razões aleatórias; os azares da vida! Nem os dirigentes do clube apresentaram explicações convincentes, limitando-se, desde o início, a relativizar a gravidade dos sucessivos insucessos  e a anunciar novo pacote de obras infraestruturais. Pois me parece que pode haver razões não explícitas na origem da inépcia patenteada pelos dirigentes encarnados ao longo da época.

   As saídas que se verificaram na equipa deixaram-na profundamente fragilizada, tecnicamente e animicamente. À exceção da de Lindeloff, nenhuma das outras foi adequadamente compensada. A equipa perdeu eficiência na baliza, na ala direita defensiva e ofensiva, no eixo defensivo até cerca do primeiro terço da época, e na frente de ataque, especialmente após a lesão de Jonas.

   Quando certos clubes estão interessados num jogador, não há como evitar a saída; controlá-la garantindo o melhor momento e o maior proveito é tudo a que se pode aspirar. Porém, já não são admissíveis, em estruturas altamente profissionalizadas, erros grosseiros de avaliação como foram os casos do guarda-redes, do defesa-direito e, em menor grau, dos avançados destinados a colmatar a saída de Mitroglou.
  
   A nova dupla de centrais composta por Jardel e Ruben Dias, levou tempo a entrosar-se, período em que, bola centrada para o eixo da defesa, geralmente terminava no fundo da baliza. Varela, até final da época, e apesar de algumas boas exibições, mostrou sempre dificuldade na leitura dos lances, nos timings das saídas e na execução das manchas. André Almeida, generoso e abnegado, face ao antecessor, perde em velocidade, criatividade e capacidade ofensiva. Quanto a Jimenez e Seferovic, sendo excelentes jogadores, especialmente o primeiro, nenhum deles tem as características de Mitroglou, aliás, raras hoje em dia, nem o modelo de jogo da equipa evoluiu de forma a proporcionar a otimização do seu desempenho.

  No plano económico, a saída de Mitroglou tem justificação na perspectiva do curto-prazo, não no do médio prazo nem no do desportivo, como se comprovou pela desastrosa campanha na Liga dos Campeões. Mitro não queria sair. Era possível mantê-lo e, posteriormente, de o recuperar. Bastaria para o Benfica ter sido campeão, estou convicto. Gabigol e Douglas foram recrutados de emergência, já em desespero de causa, e, como sempre acontece nestes casos, não produziram os efeitos pretendidos, apesar de ambos, terem apresentado qualidades interessantes.

   A ajudar "à festa", depois de ter recuperado da cirurgia que o afastou dos relvados cerca de três meses (salvo o erro),  krovinovik, quando se afirmava no meio-campo fazendo desabrochar a equipa,  lesiona-se num momento crucial. Também Sálvio e, finalmente, na fase crítica, o golpe fatal; Jonas é impedido de dar o seu contributo também por lesão.

   A questão que se coloca é a de perceber a razão pela qual os dirigentes do Benfica não preveniram o plantel adequadamente para a época, que sabiam particularmente difícil. Não sei, mas poderei especular um pouco na próxima crónica.