domingo, 12 de janeiro de 2020
domingo, 22 de dezembro de 2019
Heróis do “velho” Portugal
Heróis do “velho” Portugal
Ao assistir à bajulação persistente e humilhante do atual primeiro-ministro de Portugal, de origem goesa, às autoridades da União Indiana, Estado inexistente à data da fundação do Estado Português da Índia, veio-me à memória o episódio ocorrido na lancha Veja quando resistia heroicamente à invasão - ilegal e contra a vontade popular - de Diu:
“O Senhor comandante dirigiu-se à Câmara e fardou-se de branco, dizendo que assim morreria com mais honra. - Rapazes, sei que vocês vão cumprir assim como eu e que mais vós quereis! Acabarmos numa batalha aeronaval. Fazemos parte da defesa de Diu e da Pátria e vamos cumprir até ao último homem e última bala se possível.
- Algumas despedidas se fizeram e até as fotografias dos entes queridos foram beijadas e guardadas nos bolsos dos calções”
Do relatório da guarnição da lancha Veja, sobre a atuação do respetivo comandante, segundo tenente Oliveira e Carmo, morto heroicamente nas águas de Diu, a 18 de Dezembro de 1961, referido no livro de João José Brandão Ferreira “Em Nome da Pátria”.
Peniche, 22 de Dezembro de 2019
António Barreto
sábado, 21 de dezembro de 2019
A Morte de Amílcar Cabral
A Morte de Amílcar
Cabral
Ouvi há dias, num debate na rádio em que
participava Jaime Nogueira Pinto, um dos participantes, que não identifiquei,
referir que Amílcar Cabral teria sido assassinado pela PIDE. Esta afirmação,
apesar de falsa, vai-se consolidando junto do incauto cidadão comum, crente na
honestidade dos alegados progressistas que a propagam com o intuito de denegrir
o Antigo Regime, atribuindo-lhe atos vis, e com isso prevenir eventuais
recidivas políticas.
No seu livro “Em Nome da Pátria” João José Brandão Ferreira explica as
circunstâncias do assassinato de Amílcar Cabral e identifica os seus autores
(pág.. 469 e 470).
Amílcar Cabral foi morto em 20 de Janeiro de 1973 pelo guerrilheiro do
PAIGC Inocêncio Kani, ao reagir à
tentativa de detenção no Quartel-general daquele grupo armado na Guiné Conakri. Cabral, sua mulher Ana
Maria, Aristides Pereira acompanhados por um jornalista russo, foram
surpreendidos no regresso de uma receção a que tinham assistido na embaixada da
Suécia em Conakri, tendo, por essa
razão, faltado à conferência de Samora Machel em Bokê. Aristides Pereira foi,
previamente, preso e metido numa embarcação pelo mesmo Inocêncio Kani, acompanhado dos, também
guerrilheiros, Mamadú Touré e
Aristides Barbosa. Ana Maria, de
imediato, avisou as autoridades guineenses e os restantes dirigentes do PAIGC
que se encarregaram de mandar fuzilar os três guerrilheiros envolvidos.
Diga-se porém, que um dos objetivos da operação “Mar Verde”, planeada e
chefiada por Alpoim Galvão em 22 de Novembro de 1970, consistia na prisão ou
morte de Amílcar Cabral - fracassada por não se encontrar onde era esperado. Por
outro lado, num contexto de guerra declarada, é legítimo a qualquer das partes
matar o opositor.
Cabral, ex-funcionário público na Guiné Bissau, era um moderado, cuja
morte não foi benéfica para os interesses portugueses - militares e políticos.
Opôs-se à utilização, pela guerrilha, dos mísseis SAM 7, por considerar
prejudicial aos interesses do partido a escalada bélica daí resultante e por
estar convencido de que as forças portuguesas sairiam em vantagem. Amílcar
Cabral declarou publicamente em vários fóruns, considerar esvaziada a
justificação da luta armada pela independência, num contexto de plena integração
de cada parcela do território português, onde a igualdade de direitos fosse
total e universal.
Dois meses após o assassinato de Amílcar Cabral, a 20 de Março de 1973
foi disparado o primeiro míssil. A morte do líder foi uma das razões invocadas
pelo PAIGC para a intensificação do esforço de guerra, numa tentativa de
moralização das suas tropas. Seguiram-se os ataques continuados aos
aquartelamentos de Guilege - a sul - e
de Guidage - a norte -, com
flagelação continuada de artilharia - os guerrilheiros furtavam-se ao combate de
proximidade. O comandante da guarnição de Guilege, major Alexandre Coutinho
Lima, em consequência do ataque, ordenou a retirada, da guarnição e da
população, sem autorização superior, em 19 de Maio de 1973, facto que o levaria
à prisão e julgamento em Tribunal militar, por ordem do general Spínola.
Em Guidage, as tropas
portugueses resistiram graças ao reforço de uma companhia de para-quedistas. A
retaliação surgiu de imediato, em 19 de Maio do mesmo ano, com a destruição da
grande base do PAIGC em Comumbori, no
Senegal.
A declaração de independência do PAIGC, a 24 de Setembro de 1973 em Madina do Boé, zona despovoada do leste,
abandonada pelo exército português por ser desprovida de interesse militar, não
passou de manobra de propaganda política. Na ONU, controlada desde 1961 por
países afro-asiáticos de matriz socialista, o “Estado Fantasma” acabou reconhecido
por cerca de 60 países.
Há quem diga que foi aqui que começou o 25 de Abril, porém parece-me que
tal ocorreu com a subida de Marcelo Caetano ao poder.
Peniche, 21 de Dezembro de 1979
António
Barreto
domingo, 1 de dezembro de 2019
OPA-2019 – Benfica
OPA-2019 – Benfica
Ressarcimento do
investimento dos acionistas que responderam à primeira emissão acionista, restituição
da Benfica-Sad, na quase totalidade, ao clube, blindagem da Benfica-Sad a
intromissões indesejadas e viabilização de parceria futura, causas apontadas
para a OPA em curso, merecem-me os seguintes comentários:
(Gustav Courbet, Fishing Boats on the Deauville Beach 1866)
Fica bem ao Benfica esta
atenção para com os que acudiram à subscrição de ações e permitiram a
viabilização da constituição da Sad. Aos “sortudos”, investidores de percurso,
que beneficiarão desta generosidade resta dar os parabéns, considerando a
eventualidade do caráter acidental da respetiva aquisição. Certo é não haver
razões para afastar completamente a ideia de a atual OPA estar prevista desde
então, o que seria gravíssimo.
A detenção do
controlo total da Sad pelo clube sucede à recuperação, por este, da posse do
Estádio e da BTV, visando dissipar receios de apropriação funcional externa daquela.
Fica a dúvida quanto ao processo de tomada de decisão, no clube, das questões
estratégicas relativas à Sad; li por aí que, com 95 % do capital acionista,
deixa de haver obrigatoriedade de discussão em Assembleia Geral de sócios das
matérias estratégicas relativas à Sad, o que, a verificar-se, suscita fundadas
preocupações.
De todo o modo, não
me parece razoável que um eventual candidato à Presidência se dispusesse a um
investimento da ordem dos 30 milhões de euros para assumir uma posição
minoritária na Sad. Bastar-lhe-ia anunciar uma estratégia agressiva em termos
de competitividade externa, um ajustamento na política de formação e o
recrutamento de um ou dois jogadores de topo para a equipa principal.
Uma eventual parceria futura poderá
proporcionar um salto qualitativo significativo desde que se acerte com ela,
alguém que traga algo positivo; capital, conhecimento e uma boa rede de
contactos. Pode ser uma boa ideia. A verdade é que o atual quadro acionista não
acrescenta qualquer valor à Sad; nenhum dos atuais acionistas, à exceção de
Filipe Vieira, tem competências em matéria de gestão de entidade desportiva,
com a agravante de um deles ser inimigo do Benfica - uma das várias
vicissitudes das Sad.
Por outro lado, se
esta operação servir, nem que seja só para afastar a Olivedesportos, dou por bem
empregues os 32 milhões! Como foi possível ter-se mantido o inimigo entre portas,
durante 18 anos? Com o pretexto do alegado dever de gratidão, permitiu-se que
um dos principais rivais, a Porto-Sad, se mantivesse permanentemente ao
corrente de todas as decisões, estratégicas e operacionais da Benfica-Sad! Como
foi tal possível? Em simultâneo proporcionou-se à mesma entidade lucrativo
negócio com a entrega a pataco dos direitos desportivos que lhe permitiram financiar
rivais e adversários!
Finalmente o momento
escolhido para lançar esta OPA não foi o melhor; contribuiu para mais um
insucesso da participação da equipa de futebol na Liga dos Campeões, quando,
como se verificou, era possível ter passado à fase seguinte. E isso, não só
comporta perdas financeiras imediatas avultadas como desmoraliza as hostes
induzindo eventuais perdas futuras, desportivas e financeiras. É o chamado
custo de oportunidade. Só o futuro dirá se foi corretamente avaliado.
Mais avisado teria
sido reforçar cirurgicamente a equipa apostando num percurso mais longo na Liga
dos Campeões e depois então avançar com a OPA.
Peniche, 29 de Novembro de 2019
António Barreto
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
Acerca da globalização
Suscita-me muita reserva o magistério do Papa Francisco; a forma como se envolve nos temas sociais reveste-se, geralmente, de uma dececionante falta de espiritualidade. De tal forma que, por vezes, dá a ideia de estarmos perante a secularização da Santa Sé.
(Georges Seurat, Angelica at the rock, 1878)
Posto isto, foi com grande satisfação que, através da comunicação social - CM de 23/11/2019 - constatei comungarmos das mesmas preocupações com certos efeitos da globalização.
De facto, a fascinante diversidade cultural que ainda subsiste, tende a atenuar-se, diluir-se, adivinhando-se um padrão comum num futuro não muito distante. Um cenário, em certa medida aterrador, se considerarmos a massificação desse padrão, desde o vestuário à cultura e à arte.
Este processo está em marcha e numa fase já bastante avançada em virtude dos espantosos progressos tecnológicos alcançados desde meados do século XX, em especial nas últimas décadas. Em boa verdade um processo que, pelos idos de quatrocentos, teve na expansão ultramarina lusa um forte contributo.
Se é iniludível o impacto económico da globalização, com a massificação do acesso às tecnologias de produção de todo o tipo de bens, desde os alimentares aos culturais e recreativos, passando pela mobilidade e comunicação virtual, também é verdade que a singularidade de cada pessoa, de cada comunidade, tende a esbater-se.
Uma das áreas onde mais se nota esta evolução é na música popular. Na Europa, por exemplo, a música tipicamente latina, tende a desaparecer evoluindo, em geral, para a de matriz anglo-saxónica. A ambiência poética e romântica, características da música francesa e italiana deu lugar a uma aberrante imitação de géneros derivados do rock and roll.
Em Portugal e na Espanha, verificando-se em geral o mesmo tipo de transformação, têm-se mantido, com poucas alterações, os respetivos géneros tradicionais; o fado e o flamenco, cada vez mais enclausurados na categoria étnica - tal como a italiana tarantela, aliás.
Mas é perante o eminente declínio da fascinante música da américa latina, em especial, argentina, mexicana, colombiana, peruana, cubana, brasileira, etc., que mais forte se faz sentir a deceção do eminente empobrecimento cultural. A Milonga, a ranchera, a cumbia, a harpa, a salsa, o samba, o forró, etc., serão géneros recordados, sim, mas jamais vividos, e, por isso destituídos de genuinidade.
Estamos pois, “condenados” às escolas de arte, segundo Tolstoi, as maiores inimigas da dita, destituídas da compulsão da singularidade. A repetição mecânica dos velhos temas é uma frustração, apenas atenuada quando o intérprete supera o criador.
Mas quem, no seu perfeito juízo, pode advogar o regresso às contingências sociais que deram origem às formas de expressão que, hoje, melancolicamente, tanto nos empolgam?
Peniche, 24 de Novembro de 2019
António Barreto
(Georges Seurat, Angelica at the rock, 1878)
sábado, 23 de novembro de 2019
Rui Costa e o Benfica (3)

Mas não está tudo bem!
Estará Rui Costa consciente disso? Os sucessivos equívocos de gestão
desportiva verificados nos últimos anos têm sido de tal monta que a sua imagem
junto dos adeptos tem sido afetada. Estes questionam-se acerca da sua efetiva
missão no clube-sad.
Está em causa tipo de vínculo de Rui Costa; se com Filipe Vieira, se com
o clube.
Num momento em que se inicia um novo ciclo, o clube-sad depara-se com
nova encruzilhada; privilegiar o investimento em betão ou, em alternativa,
apostar na competitividade desportiva.
Ora o Benfica, o grande Benfica, vive de vitórias e não de betão.
De que lado estará Rui Costa?
Peniche, 17 de Novembro de 2019
António Barreto
(After the Bath, Edgar Degas)segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Rui Costa e o Benfica (2)
Rui Costa e o Benfica
De Florença para Milão. Rui
Costa, graças a uma transferência milionária - 35 milhões de euros -, ingressou
no célebre clube “rossonero” onde se
notabilizaram Baresi, Savicevitch, Boban
e Cª, e onde, em cinco anos, conquistou uma Taça de Itália, uma Liga dos
Campeões, uma Supertaça de Itália, um campeonato italiano e uma Supertaça UEFA,
bem como a admiração unânime.
O futebol italiano, um dos mais prestigiados na Europa e no mundo,
consagrou Rui Costa, para orgulho dos benfiquistas e adeptos portugueses em
geral, como um dos príncipes dos relvados da sua geração.
Foi em 2006, pela mão de Filipe Vieira, que o “Maestro” regressou ao
Benfica a custo zero, abdicando duma receita de cerca de 700 mil euros,
correspondente a mais um ano de contrato, ao rescindir, amigavelmente, com o
clube de Milão.
Vivia-se então, em Portugal, o rescaldo do sucesso, algo amargo, da
seleção nacional no euro 2004, no qual Rui Costa fez a última participação ao
serviço da Seleção Nacional.
No Benfica, fustigado desde o verão quente de 93 por uma espiral de
instabilidade, a construção do novo Estádio gerara uma nova esperança entre
adeptos. Anunciava-se o saneamento financeiro e administrativo do clube e um
projeto desportivo ambicioso, sustentado na credibilidade e no investimento em diversas
infraestruturas.
O regresso do “Maestro” reforçou, junto dos adeptos, a esperança num
futuro radioso para o clube. Dois anos antes, na época de 2003/2004, o Benfica
terminara um jejum de 11 anos do título de campeão nacional.
Após duas épocas nas fileiras do clube da Luz, em que o perfume do seu
futebol, mais uma vez, deliciou os adeptos, Rui Costa - eleito jogador do ano
em 2008 -, com pena de todos, cessou a sua carreira de futebolista ingressando
no mesmo ano na de Dirigente, que tem exercido até aos dias de hoje, com o pelouro
da Vice-Presidência para a área do futebol.
Na época seguinte à da saída de Rui Costa, o clube volta a conquistar, em
2009/2010, o título nacional, ficando em muitos a ideia da saída prematura do
“Maestro” e de que se perdera a oportunidade dum merecido final de carreira
apoteótico.
Nestes 11 anos, muitas foram as dúvidas que assolaram o universo
encarnado; o passado algo nebuloso de Filipe Vieira, onde se contam velhas
amizades e cumplicidades com os principais inimigos do Benfica, o recrutamento
para os quadros do clube de gente com fortes ligações aos rivais e a implacável
perseguição movida a Vale e Azevedo, ao menor desaire da equipa, punha em causa
a bondade do projeto em marcha.
A presença de Rui Costa, o “Maestro”, o
jogador-adepto, na estrutura dirigente da SAD, funcionou, e ainda funciona,
junto dos adeptos, como garante da fiabilidade do projeto de gestão do
clube-Sad. A sua presença, “dando a cara” pela Direção, nos momentos críticos, apazigua-os,
constituindo um voto de confiança no projeto de Filipe Vieira.
Para a grande maioria dos benfiquistas, que vêm em Rui Costa uma espécie
do provedor do adepto, é impensável considerar a sua conivência com agendas
ocultas, irregularidades, ou mesmo a submissão a orientações destituídas de
racionalidade económica e, ou, desportiva.
Cinco anos depois do adeus de Rui Costa aos relvados, após uma época
desastrosa seguida de debanda geral - na sequência do inesperado desastre da
época 2012/2013, o clube perdeu, nada mais, nada menos, que 95 mil sócios - chegou
o ansiado ciclo de vitórias, sob a batuta de Jorge jesus, Rui Vitória e Bruno
Lage.
Peniche, 17 de Novembro de 2019
António Barreto
(Camille Pissarro, La cosecha, 1883)
domingo, 17 de novembro de 2019
Rui Costa e o Benfica (1)
Rui Costa e o Benfica
Rui Costa faz parte de um grupo restrito de ex-jogadores do Benfica com
lugar especial no coração dos adeptos. Não tanto pelo que fez no clube enquanto
jogador, mas por, em momento conturbado, lhe ter sido leal, ter agido como seu
embaixador oficioso num dos grandes palcos do futebol europeu - o italiano -,
pelo vínculo afetivo que sempre ostentou com orgulho, e por ter regressado,
incondicionalmente, quando o Benfica ainda fazia, angustiadamente, o “caminho
das pedras”.
Graças à perspicácia de Eusébio, Rui Costa ingressou nas camadas jovens
do Benfica, em 1981, aos 9 anos de idade - após quatro anos nas escolas do
Damaia Ginásio Clube -, onde, durante oito anos, com os seus dotes pessoais, assimilou
a singularidade e excelência que caracterizam o futebol do Benfica.
Findo o ciclo da formação, após uma época - 90/91 - ao serviço da
Associação Desportiva de Fafe, onde permaneceu a título de empréstimo, a jovem
promessa regressou ao “clube do coração” em 91, ano em que se sagrou campeão do
mundo de sub-20 - em pleno Estádio da Luz contra a seleção do Brasil -, onde
permaneceu até 1994, tendo então vencido uma Taça de Portugal - 92/93 - e um campeonato
de Portugal em 93/94.
A qualidade do seu futebol, caracterizada pela superior cultura tática,
a elegância e inteligência com que se movia no terreno, a suavidade com que
recebia e conduzia a bola, a eficácia que conseguia nos passes longos e no
forte remate de meia distância, perfumava os relvados, para gáudio dos
espectadores e orgulho dos benfiquistas. Às qualidades futebolísticas, Rui
Costa juntava um cavalheirismo invulgar, graças ao qual granjeou o respeito geral,
dentro e fora do clube, entre colegas e adversários, entre os adeptos do
futebol, independentemente da respetiva simpatia clubista.
Rui Costa pertence a uma estrita elite de jogadores de futebol que,
intrinsecamente vinculados a um clube, alcançaram o respeito e admiração geral.
O caráter leal de Rui Costa não vacilou no verão quente de 1993, quando,
contrariamente a outros colegas - António Pacheco, Paulo Sousa e João Pinto -
declinou o convite de Sousa Cintra - à época Presidente do Sporting - para
rescindir o seu contrato com o Benfica e ingressar no clube de Alvalade.
Vivia-se então grande turbulência no clube da Luz, sob a presidência de Jorge
de Brito, histórico e indefetível benfiquista, a braços com grave crise de
tesouraria e um passivo de 4,5 milhões de contos - equivalente a 22 milhões de
euros!
Um gesto que nenhum benfiquista que viveu esses temos, esquecerá,
reconhecido.
Referenciado na Europa, o
“Maestro” ingressou na Fiorentina em
1994, onde, em sete temporadas, conquistou a admiração dos tiffosi, duas taças de Itália e uma supertaça, tendo sido
considerado, por várias vezes, o melhor 10 do campeonato[p1] [p2] ,
no qual, ao serviço da Juventus, pontificava, nada mais nada menos, que Zinedine Zidane.
Memorável foi o ocorrido no jogo de apresentação da equipa do Benfica
para a época 94/95, com a Fiorentina
como equipa convidada, em que o “Maestro”, atuando pelos “violas”, se comoveu,
às lágrimas, ao marcar o golo que daria a vitória à sua equipa.
Algo que consolidou o vínculo afetivo ao clube e calou fundo no coração
dos benfiquistas.
Peniche, 17 de Novembro de 2019
António Barreto
[Modigliani-Fillette-en-bleu-1918
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
Um Novo Ciclo Para o Benfica (5)
O Rumo
Recentrar todo o projeto
no objetivo primordial, que consiste na prioridade ao futebol sénior
consolidando o domínio interno e conquistando, na Europa e no mundo, o lugar
compatível com o estatuto de outrora: o de um adversário respeitado e temido
por todos, pela excelência do seu futebol, pela capacidade de vencer qualquer
prova e pela nobreza de carater.
Peniche 21 de Outubro de 2019
António Barreto
(Chaïm Soutine - La vieille dame assise, 1923-24)
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Um Novo Ciclo Para o Benfica (4)
O relacionamento com os Adeptos
Em qualquer clube a relação dos dirigentes com os respetivos adeptos é
sempre potencialmente turbulenta, barómetro dos resultados desportivos,
emocional, imediatista e irrealista, pautada pela ingratidão ao menor desaire.
Saber lidar com esta realidade é um requisito indispensável a quem investe na
empreitada do dirigismo desportivo.
Os primeiros anos do consulado de Filipe Vieira foram de abertura, tipo
presidência aberta, como o próprio reiteradamente afirmou. É verdade que houve
disponibilidade para reunir e debater com alguns críticos mais destacados e até
trocar correspondência com sócios genuinamente empenhados no incentivo, na crítica
e na sugestão de ideias.
Tal disponibilidade foi-se desvanecendo e circunscrevendo ao “fogo
amigo” de cariz laudatório, que, hoje, caracteriza a respetiva “entourage”. Chega a ser ridícula a
forma rebuscada com que, por vezes, os comentadores de serviço na BTV, qual
cortina de fumo, tentam atenuar os desaires, valorizando detalhes
insignificantes, relativizando o essencial e desconsiderando os dissidentes, como
se jogadores, técnicos, sócios e dirigentes fossem incapazes de enfrentar as
críticas alheias e os erros próprios e como se os adeptos fossem inimigos.
Atingiu-se o paroxismo da intolerância na última Assembleia Geral, com ameaças
de agressão e insultos aos críticos, anunciando-se alterações ao regimento das
Assembleias Gerais que podem por em causa a democraticidade do clube. Mais
grave; na BTV, figuras algo notáveis, põem em causa a legitimidade dos sócios
para interferirem nas questões do futebol, considerando-as da exclusiva
responsabilidade dos acionistas da SAD! Lembro que uma das razões aduzida para
o afastamento de Azevedo foi a de que tinha em marcha um plano de apropriação do
clube! Não é o que temos hoje por parte de quem disse querer impedi-lo?
Nenhuma entidade progride sem dissidência, porque ninguém, por si só,
tem o dom da omnisciência. Alienar contributos, construtivos e empenhados, pode
evitar, ainda que temporariamente, o desconforto da entropia, mas restringe a
amplitude das opções e compromete o futuro.
Tal requer um espaço de debate construtivo e permanente. Há que
encontrar a fórmula mobilizadora que fortaleça as políticas desportivas ou
administrativas sem comprometer o projeto global, que só pode ser um: Ganhar,
onde quer que seja, contra quem quer que seja!
A defesa do clube
A estratégia de low profile que tem sido seguida em
matéria de defesa do clube-sad, restringindo-a a comunicados, protestos
processuais nas instâncias da tutela desportiva ou queixas judiciais, é
manifestamente insuficiente.
O abandono do espaço público, deixando as acusações e enxovalhos sem
contraditório não gera empatia, nem entre o público, nem entre os opinion makers. Neste particular a saída
de João Gabriel deixou um vazio pernicioso.
Na frente institucional, está em causa a reiterada cortesia com que a presidência
do Benfica se relaciona com os dirigentes da Liga e da Federação - apesar da
insistente perseguição que estas instituições têm movido ao clube; seja no
plano financeiro com castigos astronómicos, seja no plano disciplinar com
punições desproporcionadas e excecionais, seja no plano desportivo, com
calendários inadequados e escalonamento de árbitros de tradicional “má-sorte”
nos jogos do clube -, a qual tem sido entendida, ou pressentida, como de
submissão, sinal de impotência, encorajador da prevalência do status-quo, e não de tolerância ou de
empenhamento na pacificação do futebol.
Uma oportunidade perdida foi aquilo a que assistimos em plena Assembleia
da República, quando, numa época de intensos e sucessivos ataques públicos ao
Benfica, ocorreu a audiência pedida pela FPF, que se julgava destinar-se à
mobilização da classe política na pacificação e moralização do futebol.
Silêncio, penoso silêncio, ante as “lampanas” de promotores e facilitadores da
intolerância e violência no desporto, foi o contributo do Presidente do
Benfica! Uma ou duas frases, a preceito, bastariam.
A dissuasão dos agressores faz-se responsabilizando-os nos locais
próprios, contraditando-os e votando-os ao ostracismo no clube.
A Promiscuidade
A credibilidade de um
qualquer dirigente também passa pelo escrupuloso cuidado em separar os
respetivos negócios privados com os da entidade que dirige. Sem estar em causa
a legitimidade concreta, não é de bom-tom desenvolver projetos imobiliários em
zonas outrora afetas ao clube, nem tão pouco manter negócios com entidades
bancárias comuns. Tal como não é salutar manter uma relação de exclusividade
com um empresário de jogadores, o qual, simultaneamente, desenvolve idêntica
atividade junto dos principais rivais.
Qualquer dos casos tem efeitos perniciosos, quer junto dos adeptos,
minando a confiança, quer na opinião pública geral, sempre sedenta de
escândalos, quer junto dos rivais e seus aliados, peritos na arte de mistificar
e sobrevalorizar qualquer mal-entendido.
Peniche, 23 de Setembro de 2019António Barreto
(Aristide Maillol - La grande baigneuse à la draperie or La Seine, in 1921)
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