Desporto

sábado, 12 de agosto de 2023

Parabéns Benfica

 

PARABÉNS BENFICA


O Benfica é o justo vencedor da supertaça 2022/2023, um troféu de que, por vicissitudes várias, próprias e alheias, se viu afastado no passado, em especial na última década do século XX e primeira do século XXI. Na minha memória continua bem viva a fuga de José Pratas, em pleno relvado, ante a fúria dos jogadores portistas numa final realizada em Coimbra. Uma final caricata num período em que as vitórias do Porto pareciam desígnio nacional.


A saída de Gonçalo Ramos nas vésperas do jogo, deixara alguma desilusão nas hostes encarnadas. O incompreensível castigo a Neres, anulado posteriormente, parece ter tido a dupla finalidade de provocar instabilidade no clube encarnado e, por outro lado, atenuar o escândalo da suspensão do castigo ao Treinador do Porto. As incidências no final da partida demonstraram o erro de tal decisão.


O Porto iniciou muito bem a partida; alta intensidade, pressão altíssima - logo à saída da área adversária -, velocidade, antecipação, agressividade, verticalidade, dinâmica de bloco - todos a atacar e todos a defender -, com linhas de passe variadas e situações de finalização, porém ineficazes.


Aos 14 minutos o Benfica viu o 1º cartão amarelo e cerca de 10 minutos depois já tinha o 3º! Pensei o pior; “o árbitro vai tramar o Benfica; não tarda sai uma expulsão”.


Nesta fase os jogadores encarnados não conseguiam “assentar jogo”. Precisavam de segurar a bola para clarificar ideias e não tinham tempo nem espaço para isso. Praticavam um futebol lento, sem fluidez, aqui e ali interrompido por alguns lances ofensivos algo inconsequentes face às marcações dos adversários. Porém, a linha defensiva encarnada conseguiu impedir, estorvar q.b, os movimentos de finalização dos opositores e manter a sua baliza incólume. Tal revelar-se-ia decisivo.


A 2ª parte trouxe outro Benfica. A lentidão deu lugar à rapidez, a passividade à agressividade, o individual ao coletivo, o relvado “tingiu-se de vermelho” num movimento avassalador amplo e profundo. O adversário perdeu a iniciativa, o discernimento e o primeiro golo surgiu, perfumado, dos pés de Di Maria, na sequência de uma recuperação alta de Korkçu. E não, o excelente Diogo Costa não foi mal batido, atirou-se bem, mas… a bola, rematada com a face interior do pé esquerdo contornou-o e foi aninhar-se ao 2º poste. É destes lances que vive o futebol.


O golo da tranquilidade, o 2º, veio pelo inevitável Musa, bem ao seu estilo, na sequência dum cruzamento da direita de Rafa o “novo pequeno genial”; receção, na área, e remate forte de pé direito ao 1º poste, ante a marcação do defesa e sem hipótese para o guarda-redes.


Sem grandes alterações decorreu a partida até final, com o Benfica mais próxima de fazer o 3º golo do que o Porto o 1º e com o árbitro a poupar nos amarelos aos azuis, talvez ainda à espera de algum “milagre”.


De resto as habituais picardias e manobras de diversão em que jogadores, técnicos e dirigentes portistas são especialistas e a que recorrem sempre que não ganham. Desta forma deslocam os motivos de debate para temas acessórios e não desportivos.


Lamento que, apesar do “toda a gente” desde comentadores desportivos e dirigentes políticos, defenderem, em público, a necessidade de pacificação do desporto e de afastamento dos “bárbaros da bola”, haja membros do Governo e outros políticos a apoiarem a “enésima” recandidatura de um dos dirigentes desportivos que tem dedicado a sua vida à difusão do mal estar, até ao ódio, entre adeptos e mesmo cidadãos em geral.



Autor desconhecido

Peniche, 12 de Agosto de 2023

António Barreto


sábado, 5 de agosto de 2023

Gente da Praia

 

Gente da Praia


“Depois, alguns homens desceram à praia...E mar assim tão calmo e céu assim tão aliviado minara-lhes vergonha e saudade de ganhá-lo:

- Eh, gente! vamos aparelhar!...

- Eh, Tóino! Eh, Moisés! Toca a chamar a companha!...

Em ruelas e esguelhas de caminhos, uma chusma de catraios perfurou, endemoninhada gritando o aviso de sempre:

- Zé Liró, o arrais chama, ouviste?...

- Manel da Palmira, o arrais chama!…

- Onde tá o seu filho, ti Custódia? O arrais chama!

Mulheres correram também, levando o mesmo apelo:

- Ó Júlio! Júlio! O arrais chama, ouviste?

- Maximiano, olha o arrais!...

E o chamamento repercutia de norte a sul:

- ...o arrais chama!...

- ...o arrais chama, ouviste!?

- ...o arrais chama!...

A aldeia formigou para a praia, levada pelo grito de todas as bocas. Embarcações afastavam-se de terra – oito remos a espadanar, arrais e espadilheiro encarrapitados na bica de ré. Roncos de óóó upa!, costados a forcejar meias-luas, pés na areia resvaladiça - todos punham a sua gana naquele entusiástico momento.

- Não há fome que não dê em fartura!...- disse o dono de um barco ao enxergar o seu aparelhado. - Ou trazem todo o peixe… ou o espantam para sempre!…

Recoveiros fixavam-se no areal, envolvido pelo nó das pandas. E os traços negros das sirgas submergiam-se na na verdura das águas.

Gente da praia aguardava o alar das redes. Puxavam-se cigarradas gostosas - pois aquele dia foi um dia bem vivinho. História ou peripécia logo arrancava galhofa de soltar as peles.

Amolecia o pesadelo do mau tempo.

O Golfinho do Racha foi a primeira embarcação a findar lance. O Santo António do Chico Soldadinho aportou a seguir. E os alares foram simultâneos: um a sul e outro ao norte. Vinte e cinco, trinta cordas recolhidas – e logo as mangas das redes foram puxadas à finca. As redes agitavam-se em amplas e rítmicas vibrações, quando os sacos foram abertos. Os do fisco acorreram, e começou a lota com a contagem dos escrivães. Berrou-se um chui a 200 mil reis, outro a 340. Catraios procuraram os armadores, com as alvíssaras. Novas embarcações trouxeram panda. Novos alares.

A tarde alongou-se nesse afã. O pessoal de terra nem se lembrava já da bulha dos tascos. Ria-se, agora, das graçolas que um ou outro largava, pois, na vida do mar, não escasseavam motivos e graçolas… Alguns barcos ficaram no segundo lance, arrecadando cordas, bóias e redes. Encalharam meias-luas. Nos tascos mais afreguesados – Mané Choco, Quintinhas, ti Isabel Piló e outros – abateram-se dívidas nos róis. Cartas e dominós vieram para as mesas. Manducas tocou gaita de beiços. Ti Lourenço castanholas. E a malta bebeu e confraternizou.”


“Calamento” de Romeu Correia



Peniche, 5 de Agosto de 2023

António Barreto

domingo, 30 de julho de 2023

A Legitimidade Totalitária

 

A Legitimidade Totalitária


“A legitimidade totalitária, desafiando a legalidade e pretendendo estabelecer diretamente o reino da justiça na Terra, executa a lei da História ou da Natureza sem a converter em critérios de certo e errado que norteiam a conduta individual. Aplica a lei diretamente à Humanidade, sem atender à conduta dos Homens. Espera que a lei da Natureza ou a lei da História, devidamente executada, engendre a Humanidade como produto final; essa esperança - que está por trás da pretensão do governo global - é acalentada por todos os governos totalitários. A política totalitária afirma transformar a espécie humana em portadora activa e inquebrantável de uma lei à qual os seres humanos apenas passiva e relutantemente se submeteriam. Se é verdade que os monstruosos crimes dos regimes totalitários destruíram o elo de ligação entre os países totalitários e o mundo civilizado, também é verdade que esses crimes não foram consequência de simples agressividade, crueldade, guerra e traição mas do rompimento consciente com aquele consensus iuris que, segundo Cícero, constitui um “povo” e que, como lei internacional, tem constituído o mundo civilizado nos tempos modernos, na medida em que se mantém como pedra fundamental das relações internacionais, mesmo em tempos de guerra. Tanto o julgamento moral como a punição legal pressupõem esse consentimento básico; o criminoso só pode ser julgado com justiça porque faz parte do consensus iuris e mesmo a lei revelada de Deus só pode funcionar entre os homens quando eles a ouvem e aceitam.”


As Origens do Totalitarismo – Annah Arendt



John Ford


Peniche, 30 de Julho de 2023

António Barreto

sábado, 22 de julho de 2023

As Táticas do Totalitarismo

 

As Táticas do Totalitarismo



“Uma mistura de credulidade e cinismo prevalece em todos os escalões dos movimentos totalitários e quanto mais alto o posto, mais o cinismo prevalece sobre a credulidade. A convicção essencial compartilhada por todos os escalões, desde os simpatizantes até ao líder, é de que a política é um jogo de mentiras e que “o primeiro mandamento do movimento” - O Fuehrer tem sempre razão - é tão necessário aos fins da política mundial - isto é, da fraude mundial - como as regras da disciplina militar o são para as finalidades da guerra.”


“À afirmação propagandística de que todo o evento é cientificamente previsível segundo leis naturais ou económicas, a organização totalitária acrescenta a posição de um homem que monopolizou esse conhecimento e cuja principal qualidade é o facto de que “teve sempre razão e terá sempre razão”. Para o membro do movimento totalitário, esse conhecimento nada tem a ver com a verdade, da mesma forma que o facto de se estar com a razão nada tem a ver com a veracidade objetiva das afirmações do chefe, que não podem ser desmentidas pela realidade, mas apenas pelos sucessos ou fracassos futuros. O chefe tem sempre razão nos seus atos e, como estes são planeados para os séculos vindouros, o exame final do que ele faz é inacessível aos seus contemporâneos.”


Annah Arendt - “As Origens do Totalitarismo” – (negrito de minha edição)


Na primeira transcrição vislumbro a política portuguesa atual onde a criação de narrativas alternativas à realidade é uma prática corrente dos governos visando transformar, perante a opinião pública, rotundos fracassos em sucessos pelo simples exercício de retórica.


Na segunda, cabe como uma luva a temática das “Alterações Climáticas”; quando, no final do século se comprovar a veracidade ou falsidade das previsões atuais - aquecimento global superior a 1,5 ºC, fusão dos glaciares e gelos polares e subida do nível do mar como consequência da atividade humana, nenhum contemporâneo atual poderá testemunhá-lo. E no entanto, se há algo certo na Ciência, é a incerteza.


Autor não identificado

Peniche, 22 de Julho de 2023

António Barreto



sábado, 1 de julho de 2023

Inflação e Taxas de Juro

 

Inflação e Taxas de Juro


Acerca da polémica que vai por aí sobre a inflação e as elevadas taxas de juro eis, sucintamente, o que, de momento, se me oferece dizer:

O Jogo Político:

Todos lhes conhecem as causas, ninguém assume responsabilidades. Todos têm medo de dizer a verdade e todos vêm aqui uma oportunidade de "queimar" - responsabilizar ou comprometer - o adversário. A origem remonta ainda à crise de 2008 e à turbulência política que originou. Passos Coelho foi o único que disse a verdade ao povo, que "atacou" a despesa pública e lutou pelas reformas estruturais de que o país carece, contra a sistemática oposição do Tribunal Constitucional, um órgão político - que veio substituir o Conselho da Revolução, hoje controlado pelo PS – então intransigente na "defesa dos direitos adquiridos" e que hoje se remete ao silêncio, indiferente a todos os atropelos a que os portugueses têm sido sujeitos. A causa primordial são os falsos alicerces do regime democrático; a cultura cívica e política dos principais agentes políticos, os partidos, a sua falta de vínculo ao interesse nacional, a subordinação destes ao interesse partidário. E é por aqui que morrem as democracias. Já aconteceu antes.

As Causas:

A resistência política dos governos, dos países em vias de default, à política de austeridade da UE e do BCE, teve como consequência a substituição do Claude Trichet por Mario Draghi. Daqui adveio a alteração da política do BCE; o expansionismo monetário, como instrumento de financiamento dos desequilíbrios orçamentais dos estados fragilizados, deixando para segundo plano o controlo da inflação. Expansionismo sem contrapartida nas reformas estruturais conducentes à indução dos ganhos de produtividade de que essas economias carecem. De momento não conheço os números exatos, mas, assim por alto - quem puder, p.f., corrija -, de 2015 ao final de 2022 o BCE deve ter injetado na economia europeia cerca de 5 mil milhões de euros, na compra de dívida soberana. É, mais ou menos, o PIB anual da Alemanha - cerca de 4 BE, salvo-o-.erro -, cerca de 30 % do PIB agregado da UE!


Uma vez que não se verificou aumento correspondente do lado da oferta - da produção de bens transacionáveis (aqueles bens que têm alguma utilidade para alguém) - a inflação era inevitável! Eu contava com ela! É verdade que há outra causa importante; a forma como se abordou a crise pandémica; paralisaram-se as produções e distribuiu-se dinheiro pelas populações. Só dois "loucos" se opuseram à paralisação das economias dos seus países: Trump e Bolsonaro!


No caso de Portugal há ainda uma causa menor; o aumento forçado, desde 2005 do salário mínimo acima da inflação e do crescimento do PIB; não porque o Governo tenha tido pena dos trabalhadores, mas porque precisava de arrecadar mais receita. Quando um regime teima em viver num ambiente de ilusão económica, acabará por morrer.


E não! Não me venham dizer que o povo é estúpido, que não compreende, que gosta de ser enganado, etc, etc. porque, depois de 4 anos de austeridade, quem ganhou as eleições foi quem a tinha posto em prática: Passos Coelho! Foram os derrotados que, numa aliança espúria e condenada ao fracasso, assumiram o poder, retomaram a política despesista do Governo de Sócrates e, uma a uma, desfizeram todas as parcas reformas daquele Governo. São os nossos políticos, na sua grande maioria, que não têm maturidade democrática; teimam em colocar os interesses dos respetivos partidos acima do interesse nacional.

Controlo da inflação:

Combate-se a inflação reduzindo a procura. É a forma mais fácil e a que tem que ser aplicada em caso de urgência, como atualmente. Porém a redução de despesa pode e deve fazer-se também do lado do Estado, da Administração pública! De 2016 a 2022 o OE aumentou aproximadamente, de 86 MME para 113 MM! Não sei para onde foi esse dinheiro, mas parece que terá sido mal utilizado, uma vez que já está "toda a gente" na função pública a pedir aumentos de salariais! Portanto, a redução da procura, pode e deve fazer-se pela lado da despesa pública, eliminando redundâncias e ineficiências. Mas, infelizmente, a via socialista não é a da eficiência, é a da expansão do Estado.


Mas há ainda outra forma de "pressionar" a inflação; induzir de ganhos de produtividade na economia através da redução dos custos de contexto das empresas - simplificação de processos administrativo-burocráticos, redução ou eliminação de encargos diversos, etc.


Para isso o Governo teria de "derrubar o muro" do preconceito ideológico e conversar com os empresários, começando por perguntar-lhes o que poderiam fazer em conjunto com o Governo para aumentar e melhorar a oferta de bens transacionáveis. É difícil fazê-lo? Não, se o interesse nacional está acima do interesse partidário, dos fundamentalismos ideológicos e das lógicas eleitoralistas. Não, se deixarem de ver e tratar os empresários como meliantes carecidos de punição económica, fiscal e social.



                                                     Abuela-Moses- Feria Rural (1950)


Peniche, 1 de Julho de 2023

António Barreto

O Benfica de Rui Costa


O Benfica de Rui Costa


 O Benfica, sob a direção de Rui Costa, considerando as últimas décadas, é o que mais se aproxima do verdadeiro Benfica. Um clube com uma história de combatividade e ambição, que privilegia a arte de bem praticar qualquer desporto, num ambiente de alegria compartilhado com adversários e público, sempre com a determinação de vencer.


A reorientação estratégica para os resultados desportivos e o equilíbrio económico, é uma diretriz que passou para todas as estruturas do clube, administrativas, técnicas e desportivas - equipas, atletas e adeptos -, constituindo um fator gerador de sinergias competitivas.


A presença constante de Rui Costa - o Presidente-Adepto, ou o Adepto-Presidente - nas bancadas, apoiando as equipas de todas as modalidades, comungando com atletas e público das incidências dos jogos, enraíza em todos o conceito primordial do clube, relativizado nos mandatos anteriores; a indomável vontade de ganhar, a insaciável sede de vitórias.


Tal propósito transparece na reconstrução das equipas, onde é notória a prioridade da retenção dos melhores atletas, o cuidado na contratação de novos jogadores ou treinadores e outros agentes não menos importantes.


A capacidade de recrutamento oportuno de atletas de qualidade para carências específicas das equipas, da de futebol sénior em particular, parece real. Os défices posicionais crónicos que transitavam de época para época e as contratações eminentes que acabavam concretizadas pelos rivais, parecem improváveis de ocorrer.


Tudo converge para a ocorrência de ganhos substanciais de competitividade desportiva em todas as competições. Isso mesmo se verificou na época finda; a conquista dum campeonato, especialmente longo e difícil e o bom desempenho na Liga dos Campeões da equipa de futebol sénior; o saldo francamente positivo nas modalidades de pavilhão e de ar livre, em masculinos e femininos.


É clara a aposta em todas as modalidades, com novas investidas no futsal e no andebol masculinos, arredados dos títulos nas últimas épocas, no futebol feminino, em busca da consolidação interna e da afirmação europeia, e no atletismo, para recuperar a liderança perdida esta época, tangencialmente, para o “desavergonhado” rival.


Tudo num quadro de invulgar diversidade desportiva, com pano de fundo o altruístico trabalho da Fundação e as atividades de ginástica expressas anualmente na magnífica Gimnáguia.


Se é verdade que o grosso do trabalho vem de trás, não deixa de ser notório o novo impulso que está a ocorrer sob a orientação da atual Direção, mais focada nos resultados que no folclore.


Há porém necessidade de definir e pôr em marcha um plano de ação de sensibilização institucional e social, contra o preconceito e segregação de que o clube tem sido alvo por parte das instituições desportivas - federações e ligas em geral - e até da alguns setores políticos.


De facto às vezes parece que foi posto em marcha um processo de “ajuste de contas” de contornos políticos que, no fundo, tem como causa primordial o ressentimento pela grandiosidade desportiva e a universalidade do Benfica.


A época que se avizinha, será igualmente difícil, talvez até mais, dado o desespero desportivo e económico dos rivais. Porém, a dispensa de fase de qualificação para a Liga dos Campeões, poderá evitar o desgaste que se verificou na ponta final do campeonato transato.


Pam Carter

Peniche, 31 de Julho de 2023

António Barreto 

domingo, 25 de junho de 2023

Das Ideologias e da Ciência

 

Das Ideologias e da Ciência


“A extraordinária força da persuasão decorrente das principais ideologias do nosso tempo não é ocidental. A persuasão não é possível sem que o seu apelo corresponda às nossas experiências ou desejos ou, por outras palavras, as necessidades imediatas. Nestas questões, a plausibilidade não advém nem de factos científicos, como vários cientistas gostariam que acreditássemos, nem de leis históricas, como pretendem os historiadores nos seus esforços para descobrir a lei que leva as civilizações ao aparecimento e ao declínio. Toda a ideologia que se preza é criada, mantida e aperfeiçoada como arma política e não como doutrina teórica. …O seu aspeto científico é secundário. Resulta da necessidade de proporcionar argumentos aparentemente coesos e assume características reais, porque o seu poder persuasório fascina também cientistas desinteressados pela pesquisa propriamente dita e atraídos pela possibilidade de pregar à multidão as novas interpretações da vida e do mundo. É graças a esses pregadores “científicos”, e não a quaisquer descobertas científicas, que não há praticamente uma ciência cujo sistema não tenha sido profundamente afetado por questões raciais….


...A doutrina do “Direito” precisou de vários séculos (do XVII ao XIX) para conquistar a ciência natural e formular a “lei” da sobrevivência dos mais “aptos”. ...A culpa não é da ciência em si, mas de certos cientistas não menos hipnotizados pelas ideologias que os seus concidadãos menos cultos.”


Hannah Arendt em “As Origens do Totalitarismo”

Hannah Arendt

Peniche, 25 de Junho de 2023

António Barreto

domingo, 18 de junho de 2023

O Povo e a Ralé

 

O Povo e a Ralé



“ Se o erro comum dos nossos tempos é imaginar que a propaganda pode conseguir tudo e que um homem pode ser persuadido a fazer qualquer coisa, contando que a persuasão seja suficientemente forte e atraente, era crença comum naquela época que “a voz do povo era a voz de Deus” e que a tarefa de um chefe era, como disse Clemençeau com tanto desdém, seguir essa voz com esperteza. As duas atitudes derivam do mesmo erro fundamental de considerar ralé idêntica ao povo e não uma caricatura dele.


A ralé é fundamentalmente um grupo no qual estão representados resíduos de todas as classes. É isto que torna tão fácil confundir a ralé com o povo, o qual também compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo, em todas as grandes revoluções, luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo “homem forte”, pelo “grande chefe”. Porque a ralé odeia a sociedade da qual é excluída e odeia o parlamento onde não está representada. Os plebiscitos, portanto, com os quais os chefes modernos da ralé têm obtido resultados tão excelentes, correspondem à tática dos políticos que se estribam na ralé. “



Hannah Arendt em: “As Origens do Totalitarismo”



Therese sur une banquette - Balthus



Peniche 18 de Junho de 2023

António Barreto

sábado, 17 de junho de 2023

Ás vezes a História repete-se

 

Ás vezes a história repete-se


"A Igreja Católica, devia a popularidade ao ceticismo disseminado entre o povo, que via na república e na democracia a falta da ordem, da segurança e da consciência política. Para muitos, o sistema hierárquico da Igreja parecia a única forma de evitar o caos. Era isto, realmente, e não qualquer revivescência religiosa, que fazia com que o clero fosse olhado com respeito. Na verdade, os mais firmes partidários da Igreja nesse período eram os expoentes daquele catolicismo chamado "cerebral" , os católicos "sem fé", que iriam daí por diante dominar todo o movimento monárquico e nacionalista extremo. Sem crerem na sua base extra-terrena, esses católicos clamavam por maior poder para todas as instituições autoritárias. Essa é, de facto, a atitude primeiro assumida por Drumont e mais tarde endossada por Maurras."


Hannah Arendt

As origens do totalitarismo


(Maurras foi o filósofo-político inspirador de Salazar)


                                   Quadro de Balthus (Balthasar Klossowski): Thérèse Dreaming

Peniche, 17 de Junho de 2017

António Barreto

domingo, 11 de junho de 2023

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades

 

Dia de Portugal e das Comunidades



Antigamente, o 10 de Junho, era conhecido por “dia da raça”. Um dia, já depois do 25 de abril, mudou-se essa designação para a atual. Não liguei muito ao assunto mas percebi vagamente que havia algum desconforto, alguma inadequação política, com a celebração da “raça”.

Celebrações de raça é coisa que nunca me agradou; pressupõe sempre uma ideia de superioridade, induzindo no respetivo povo uma falsa, perigosa e dispensável ideia de domínio, alimentando nos outros povos uma reserva de conduta prejudicial ao relacionamento entre povos.


Mas faz sentido celebrar a Portugalidade, onde quer que se encontrem os respetivos nacionais, seja em Portugal, seja por esse mundo fora. Afinal, somos um estado-nação com quase nove séculos, com uma história de altos e baixos, mas riquíssima, invulgar, dos que mais cedo, em todo o mundo, definiram as fronteiras do seu território.


De há uns anos para cá, a extrema-esquerda, com o apoio implícito da esquerda moderada, trouxe para o espaço público a questão do racismo e a dos Descobrimentos insistindo, exclusivamente na vertente negativa, com se tivessem sido, exclusivamente, um mal para a humanidade, algo de que nos devamos envergonhar.


Por outro lado é hoje bem patente, de forma quase explícita, a hostilidade dos referidos setores ao mundo rural e à igreja católica. Uma tendência que ocorre desde a 1ª Revolução Liberal - 1820 -, que se acentuou com a 2ª Revolução liberal - 1834 - e na 1ª República – 1910/1926, atenuando-se na ditadura militar - 1926/1974 – voltando a afirmar-se, mais ou menos discretamente, depois do 25 de abril na democracia de pendor socialista que vigora.


Uma série de fatores tem contribuído para o declínio do Mundo Rural; migração das novas gerações para as cidades, excesso de regulamentação, falta de segurança, expansão do Estado, etc.


“Comam carapau”; exclamou uma ministra ao ser questionada publicamente acerca das consequências da brutal redução da cota de pesca da sardinha imposta por Bruxelas.


Recentemente, a ministra da agricultura fez gala em destratar os dirigentes da principal associação de agricultores justificando a falta de apoios governamentais com a não adesão ao projeto eleitoral do seu partido.


Incêndios e enxurradas devastam os campos deixando um rasto de destruição que expõe a inépcia das estrutura públicas de prevenção, coordenação e combate aos mesmos a despeito das avultadas verbas gastas e dos recursos humanos envolvidos.


Na 1ª República, apesar das promessas de democratização do Partido Democrático, o governo de Afonso Costa alterou a lei eleitoral restringindo o direito de voto ao campesinato e retirando-o às mulheres! O medo de perder as eleições foi superior ao seu “amor” à causa da democracia.


Atualmente, apesar do coeficiente de reposição populacional negativo, o apoio à maternidade, consultas de obstetrícia e partos, parece em crise permanente. Há demasiados partos em ambulâncias, há mulheres que morrem em transferências de hospitais, há falta de consulta médicas, etc.


Porém, aprovou-se o aborto e a eutanásia, não faltando apoios àquele, considerado, agora, uma questão de saúde pública. Quanto à eutanásia, negligenciam-se os planos nacionais de cuidados paliativos, mas não faltarão os incentivos à sua prática até porque, segundo referiu recentemente uma “ilustre” deputada, o “direito à vida não é um direito absoluto”, apesar de a Lei Constitucional o definir como inviolável.


Paralelamente, depois da adesão do Governo ao “Pacto das migrações” proposto pela ONU, à revelia da população, tem-se incentivado a imigração maciça e assumido a defesa incondicional dos imigrantes, mesmo em casos de banditismo ou homicídio.


Ao mesmo tempo, implicitamente, por vezes expressamente, acusam-se os portugueses autóctones de racistas, xenófobos, retrógados, obsoletos, homofóbicos, negacionistas, etc., relativizando as preocupações que se vão instalando nas várias comunidades afetadas por este fenómeno.

Foi neste ponto que comecei a convencer-me de que certos setores políticos não gostam dos portugueses e estão determinados em puni-los e até a verem-se livres deles, substituindo-os por gente mais ao seu gosto.


Percebi então que a acusação latente e por vezes explícita de racismo, aos portugueses, não tem a ver com o facto de estes gostarem ou não de povos de outras raças ou religiões, mas tão somente de quererem ser o que são; portugueses fieis à sua cultura tradicional e secular; maioritariamente cristãos, vinculados à família, à sua comunidade, ao trabalho e à propriedade, adquirida com esforço e abnegação. Numa palavra conservadores! Fascistas, no linguarejar rancoroso, persecutório, vingativo, das gentes vinculadas às ideias de Marx, Engels, Trotski e Cª.


Indo um pouco mais longe, apesar do caráter ideologicamente neutro do Movimento dos Capitães, a deriva socialista que se estabeleceu posteriormente, introduziu um conflito político-social, que agora emerge com maior nitidez e que se traduz numa espécie de revanchismo por parte das vítimas da ditadura sobre a restante população que lhes é contemporânea ou as novas gerações conservadoras.


Incapaz de resolver este problema, a democracia enfraquece ao estigmatizar e segregar a população não socialista criando e agravando fraturas sociais e descredibilizando os agentes políticos bem como as instituições da República.


Que o “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades” seja um momento de união entre todos os que amam Portugal, independentemente da sua origem e condição, mas jamais um pretexto para os grupos próximos do poder hostilizarem os restantes, como sucede nas comemorações do 25 de abril.



                                              JOAQUIN SOROLLA 


Peniche, 11 de Junho de 2023

António Barreto