Desporto

sábado, 27 de outubro de 2012

A hora da verdade


Decide-se hoje o futuro do Benfica. Saúdo ambas as listas, pois apesar dos excessos emocionais de alguns candidatos, a campanha eleitoral foi um exemplo de cultura Democrática, tendo-se debatido publicamente os projetos dos candidatos em disputa, como é apanágio da cultura Benfiquista. Esperemos que o ato eleitoral decorra com a normalidade desejada e que, no momento seguinte, vencedores ou vencidos, nos unamos em defesa do Benfica, que é, também, um forte contributo para a consolidação da Democracia Portuguesa, hoje tão abalada.
 
 
O meu apoio vai para a lista A, apesar de reconhecer que tem que promover alguns ajustes a vários níveis no seu projeto. De facto, a atual Direção apresenta hoje uma acumulação de know-how relevante, que pretendemos de excelência, na gestão económica, financeira , desportiva, administrativa e social, apesar de todas estas áreas deverem ser revistas, optimizadas e racionalizadas. Também o relacionamento institucional deve ser alvo de análise, assumindo um papel ativo, multidisciplinar, na defesa dos interesses do clube. Regozijo-me com o recente anúncio do termo da ligação comercial com a Olivedesportos, quanto a mim, um cancro no futebol português, ao serviço do mostrengo azul, que deve ser extirpado de uma vez por todas, a bem do desporto nacional e dos clubes.
 
Infelizmente, a lista B, apesar de algumas ideias interessantes, não apresentou um projeto consistente que permitisse vislumbrar o salto qualitativo que ambicionamos para o nosso clube, enfermando de várias contradições e de incontida hostilidade divisionista há muito detetada na blogosfera. É minha convicção que, esta lista, atribui ao seu presidente candidato uma função meramente representativa sendo o digníssimo Benfiquista, Fernando Tavares, o verdadeiro mentor deste projeto. Tive oportunidade de analisar exaustivamente e em toda a extensão as suas ideias para o nosso clube, em cinco crónicas que publiquei no blogue Nova Geração que agora republico.
 
1ª Parte
 
Introdução: Esta entrevista é mais um motivo de regozijo para os coordenadores do NG, que desta forma se está a converter num autêntico espaço de debate aberto sobre o universo Benfica. Os meus parabéns. Oxalá os colegas Benfiquistas correspondam a este esforço com o empenho que ele merece.
 
Recebi a notícia da saída de Fernando Tavares do Benfica com grande surpresa, deceção e preocupação, pois tinha a convicção de que estava a fazer um bom trabalho nas amadoras. A parca explicação da Direção, aduzindo divergências de ordem orçamental sem as quantificar publicamente, levantava a suspeita da “marginalidade” de tal discordância. Fernando Tavares tinha lutado bravamente pelo Benfica e a sua saída fazia temer o pior! De qualquer forma, é legítimo pensar que, a sua saída, tenha provocado um retrocesso ou atraso no desenvolvimento das modalidades.
 
Nesta entrevista, Fernando Tavares revela um profundo conhecimento das estruturas desportivas e administrativas do clube e seus adversários, bem como ideias claras de promoção do desenvolvimento das modalidades, demonstrando sempre um amor incondicional ao clube, uma consideração ambígua pelos atuais dirigentes e a assunção de erros próprios, sem se coibir de fazer a identificação dos impedimentos ao crescimento competitivo do clube.
 
Tal postura, até porque se trata de uma pessoa de elevada competência, deveria suscitar uma resposta séria dos Dirigentes, os quais deveriam ser convidados pelo dono do Blogue a pronunciar-se, quer pelo respeito pelo princípio do contraditório, quer pela necessidade de esclarecimento adequado dos sócios, acionistas e adeptos. É assim que se consubstancia a Democracia que nos é cara.
 
2ª Parte
 
Investimento marginal: Parece-me perfeitamente razoável assumir um deslizamento moderado num orçamento se tal permitir aumentar consideravelmente a probabilidade de sucesso. Os custos do insucesso serão sempre muito maiores. Já tivemos exemplos bem dolorosos desta realidade.
 
Tomada de poder no clube e na SAD: É uma acusação gravíssima, com destinatários definidos que não deve ficar por aqui. Refere-se a altos funcionários não Benfiquistas que, assegura, têm agendas de boicote do clube e da SAD impedindo o crescimento da sua competitividade desportiva global, alegando que deveriam subordinar-se funcionalmente aos membros eleitos, devido à maior legitimidade e empenho destes. Esta afirmação carece de demonstração cabal e da consequente resposta dos visados, que têm todo o direito de se defender, e nós, o direito de ser esclarecidos, visto que se trata de um tema fraturante, que tem de acabar de uma vez por todas. Se por um lado compreendo o desconforto e a suspeita permanente que paira entre Benfiquistas sobre uma Direção que contrata para lugares-chave, profissionais adeptos de outros clubes, por outro lado, também compreendo que a emotividade do dirigente-adepto conduz frequentemente à irracionalidade e ao descalabro, tal como aconteceu com as Direções anteriores à atual. Por mim, considero absurda tal acusação, na medida que, qualquer projeto de tomada de poder num clube, só terá viabilidade se visar o sucesso do mesmo. O que me importa é saber se as pessoas em questão cumprem bem ou não a sua função. E é neste domínio que tal acusação tem que ser sustentada.
 
Não esqueço o total descrédito e anarquia que se vivia no clube anteriormente, nem a “deriva” que frequentemente se apodera dos “notáveis” que se julgam “donos” e “fiéis depositários” do património cultural do clube, julgando-se legitimados para condicionar a gestão corrente ou estratégica do clube, acabando por a manietar, condenando-a irremediavelmente ao insucesso. Devolver ao Benfica a sua grandeza, na atual conjuntura e após o descalabro, é uma tarefa lenta e árdua, que exige o empenho de todos, cada um no seu posto. Para bem do clube, é imperativo eliminar esta desconfiança de uma vez por todas, reconciliando os Benfiquistas, sendo que, tal só será alcançável, com respeito mútuo.
 
Autocrítica: Ao reconhecer que deveria ter envolvido mais o Presidente do clube na sua gestão, demonstra a sua honestidade, mas também levanta a ponta do véu! Fernando Tavares não gostou de ver reduzida a sua autonomia em benefício de “um membro não eleito” nem de perder influência junto do Presidente, opondo-se à cadeia hierárquica, indispensável ao sucesso de qualquer instituição. Naturalmente, tudo terá ocorrido em circunstâncias de grande tensão, desfavoráveis ao diálogo. Foi pena.
 
Confronto de ideias: Sem o afirmar abertamente, FT dá a entender que o atual Presidente não estimula o debate de ideias, o que, a verificar-se, é grave, visto que, este, estimula os colaboradores a envolverem-se na identificação e resolução dos problemas com benefício da instituição. Dispensar este contributo é um mau ato de gestão que, porém, não pode pactuar nem com indisciplina ou com permissividade.
Estruturas e formação nas modalidades: Aponta a falta de profissionalização destas estruturas como principal razão para o défice de vitórias nas modalidades, bem como falta de aposta na formação no caso do andebol, apesar do desinvestimento que se tem verificado nas equipas adversárias; afirmação que parece revestir-se de grande pertinência. Ainda hoje lamento a saída de Alexander Donner e lamento que FT, não o possa ter esclarecido, deixando no entanto claro que se tratou de algo muito grave!
 
Medidas drásticas: A decisão que tomou de retirada do Benfica na Liga de Basquetebol que terá provocado a implosão desta e propiciado a ascensão do clube às vitórias nesta modalidade, é um exemplo do tipo de medidas que, defendo, devem ser tomadas noutras modalidades, incluindo o futebol sénior. Já quanto ao hóquei refere FT não ter tido apoio presidencial na implementação do projeto delineado com Carlos Dantas, que devolveria ao clube a hegemonia na modalidade, revelando-se surpreendido por algumas dessas ideias terem sido implementadas posteriormente. É possível que assim seja, porém, apesar do enorme respeito e gratidão que tenho por Carlos Dantas, percebi que o seu ciclo tinha terminado no Benfica, quando declarou publicamente não saber porque ganhava o outro clube, em vez de denunciar sem tibiezas as conhecidas “ más práticas da arte” em que é useiro e veseiro, para g´qudio geral.
 
Incidentes no Basquete: Ao reconhecer não haver inocentes nos incidentes verificados no recinto do outro clube no jogo que decidiu o título, FT está a responsabilizar os Atletas, Técnicos e Dirigentes do Benfica, algo que repudio veementemente. Tal como me parece despeito, a censura que fez do discurso do Presidente, referindo que teria feito melhor. Aqui esteve mal FT, pois tratou-se de uma das raras ocasiões em que Filipe Vieira “pegou o toiro pelos cornos”, algo que deveria fazer com mais frequência.
 
 
Venezuelisação: Tal como FT reconhece, trata-se de uma expressão excessiva e infeliz, acrescento eu, por se tratar de uma referência deselegante ao Presidente de um clube onde, ao contrário do que insinua, os sócios exercem livremente a sua soberania nos atos eleitorais ordinários. Mais uma vez, o despeito ganha terreno ao bom senso.
 
Estatutos: Partilho do ponto de vista expresso por FT e considero que as condicionantes introduzidas para admissão dos candidatos resultarão em graves prejuízos para o clube, embora reconheça a necessidade de prevenir o aventureirismo ou a infiltração de agentes adversários. Tal como refere, é um ultraje à tradição Democrática do clube.
 
3ª Parte
 
Intolerância: Refere FT com toda a razão, que a intolerância prejudica o clube, atribuindo a responsabilidade desta atitude aos “não-Benfiquistas, sendo porém bem conhecida semelhante intolerância dos opositores aos Dirigentes atuais, não se coibindo muitos deles de recorrer à ofensa pessoal ao mais alto membro do clube. Esta é uma matéria onde não há inocentes, impondo-se uma urgente aproximação reconciliatória de todos em nome dos superiores interesses do Benfica.
 
José Veiga: Folgo em saber do Benfiquismo, competência e dedicação de José Veiga atribuindo-lhe coresponsabilidade na penúltima vitória do campeonato. Desconhecendo as verdadeiras causas da sua saída, era óbvio que os seus problemas com o fisco tornaram-no um alvo fácil para os adversários e seus cúmplices, induzindo grande instabilidade em toda a organização do Benfica.
 
Terá que resolver em definitivo todos esses problemas antes de pensar no regresso. No entanto fico apreensivo com a convicção com que refere que, a continuar no clube, José Veiga teria, nesta altura, restituído ao Benfica a Hegemonia no futebol. Como se pára um Proença, um Olegário, um Batista, um Soares, um Elmano, etc.? Saberá José Veiga fazê-lo?
 
Comunicação: As considerações de FT devem ser objeto de reflexão, embora as considere excessivas. Por outro lado é natural que os órgãos de comunicação do clube o defendam e evitem envolver-se com quem confunde crítica construtiva com insulto permanente. A idoneidade de quem critica é condição para a desejada disponibilidade para o debate. Discordo frontalmente das restantes considerações que FT faz sobre o tema. Não critico a estratégia de discrição assumida pela Direção nem concordo com a acusação de protagonismo ao Diretor de Comunicação, não me parece séria a acusação de controlo da Comunicação Social nem é séria a acusação ao Presidente de não ser ele próprio a escrever os seus discursos; é assim em todo o lado, dá as orientações, alguém escreve e ele confirma. Francamente, lá está o despeito novamente disparando implícito insulto.
 
O apoio a Fernando Gomes: Surpreendentemente FT revela compreensão pela posição assumida pela Direção nesta matéria, não sem dar mais uma “bicada” nos alegados “conspiradores internos”. Virá alguma boa surpresa a caminho? Não tardaremos em sabê-lo.
 
Direitos Televisivos: Com idêntica surpresa restringe o interesse desta temática ao valor em jogo, indicando como desejável a verba de 30 ME e ao direito de preferência da Olivedesportos! Discordo frontalmente; quero ver essa gente fora de vez! Simbolizam a subjugação do Benfica e dos Benfiquistas aos “bandidos” que destroem o futebol e ainda são elogiados!
 
Competência: É aqui que Fernando Tavares se estatela estrondosamente! Ao atribuir a escassez de vitórias do clube exclusivamente ao desleixo e falta de competência, revela, mais uma vez, o profundo ressentimento que o domina! Ao contrário, é óbvio que o nível de competência global e setorial no Benfica tem aumentado gradualmente, sendo inegavelmente fundamental torna-la mais profunda e ampla, o mais rapidamente possível.
 
Por outro lado, a capacidade de investimento do outro clube resulta do “lugar cativo” que tem na Liga dos Campeões e da influência que exerce sobre as instituições desportivas, o que lhe permite alavancar o valor dos seus ativos humanos, sobrevalorizando-os e tornando ordinárias estas receitas.
 
Veja-se o exemplo da época em curso; o outro clube, tem um orçamento de 109 ME, tendo contabilizado 50 ME de receitas na venda de atletas! Tal só é possível pelo baixo grau de incerteza na prova, proporcionado pelos sistemáticos e fatais “erros” de arbitragem de que beneficia e pela influência que detém na FPF, na constituição da Seleção Nacional.
 
Como pode Fernando Tavares ignorar o suporte financeiro do outro clube, proporcionado pelas suas fortíssimas ligações à banca e aos maiores capitalistas de Portugal, que lhe tem permitido criar ao Benfica, as maiores dificuldades no aumento da sua capacidade competitiva global?
 
Ignorar a influência de toda a panóplia de “investimentos” que vieram a lume no processo do Apito Dourado, alegadamente, utilizados pelos dirigentes do outro clube, não é sério!
 
Nem é sério afirmar que o sistema sempre existiu!
Nem é sério considerar que a competência é suficiente para vencer a corrupção.
 
Nem é sério ignorar o suporte político de que beneficia o outro clube!
Nem é sério afirmar que no outro clube se criou uma cultura de vitória, quando pratica a intolerância, a violência, o condicionamento do desempenho dos vários agentes desportivos por múltiplos e repugnantes processos.
Nem é sério afirmar que foram as Direções mais recentes que conduziram o clube à “autodestruição”, quando se verificou precisamente o contrário.
Nem é sério afirmar o conformismo dos Benfiquistas com a falta de vitórias.
Nem é sério acusar a atual Direção de fomentar a propaganda! Pode exigir-se mais debate interno, mais participação de Benfiquistas nos órgãos do clube, maior competência, maior capacidade de intervenção externa, mas não é idóneo suscitar a anarquia, a indisciplina, o insulto e a divisão de Benfiquistas!
 
Nem é sério estabelecer qualquer tipo de paralelismo entre “o sistema” dos tempos de Eriksson e o atual! Não tem comparação possível!
 
Ao atribuir as vitórias do Benfica à ocorrência de mudanças de ciclo no outro clube, contradiz-se, revelando falta de sagacidade e o já referido ressentimento, na medida em que, reconheceu antes dever-se à competência a última vitória do Benfica e ignora um facto óbvio; As vitórias de Benfica ocorreram quando o outro clube perdeu influência na Liga! É ou não é? Claro que é!
 
Da maior gravidade revestem-se estes pontos de vista proferidos por um “Embaixador da Ética no Desporto” colaborando com o “Plano Nacional de Ética no Desporto” a convite do Secretário de Estado do Desporto e Juventude, público admirador do outro clube e do seu presidente!
 
O que eu esperaria de um Benfiquista seria a recusa liminar da distinção ou a exigência de efetivas condições de restabelecimento da ética no desporto…mas não a “ética” do outro clube!
 
Espero pois que FT nos informe das condições que impôs ao Secretário de Estado para aceitar a distinção, sob pena de considerar este, como mais um gesto de cobertura aos métodos usados pelos dirigentes do outro clube, rejeitando reconhecer a FT autoridade moral para criticar os atuais Dirigentes do Benfica.
 
4ª Parte
 
Rui Costa: Outro espalhanço total de FT! Todos os Benfiquistas sem exceção confiam em Rui Costa! Todos os Benfiquistas sem exceção sabem que Rui Costa rejeitaria qualquer ato de desconsideração fosse de quem fosse! Todos os Benfiquistas sabem que Rui Costa não aceitaria ser mero figurante na estrutura do clube! É para mim claro que o Presidente quis proteger RC dos violentos ataques de que estava a ser vítima por parte dos dirigentes do outro clube e prepará-lo para as tarefas de Direção. Por outro lado, Jorge Jesus referiu-se, na recente entrevista que deu ao Record, à importância para o clube do trabalho de scouting de Rui Costa (julgo que se trata da identificação de jovens talentos nas regiões futebolisticamente relevantes; área em que obviamente detém talento próprio).
 
Estrutura e formação: Apesar de FT apresentar ideias interessantes, este é mais um domínio onde não me convence. Vejamos; deve ter-se em conta a sua afirmação de necessidade de maior qualificação humana e melhor orientação, tal como a sugestão de contratar um formador da melhor escola de futebol, assim como a necessidade de criação de condições que permitam canalizar para as equipas seniores os jovens talentos da formação.
 
Mas a formação é precisamente um setor onde a atual Direção tem feito um trabalho a todos os títulos notável em todos, ou quase todos, os departamentos! Não o reconhecer indicia má fé! Apontem-se melhoramentos, mas reconheça-se mérito sob pena de auto-descredibilização! O aumento do número de internacionais na nossa formação, ao contrário do que refere é um ótimo sinal do excelente trabalho que se tem feito! FT, sabe perfeitamente que só os grandes talentos podem aspirar ascender às equipas seniores, especialmente no futebol! Por essa razão é que se têm cedido atletas para consolidação desportiva e se constituiu a equipa B.
 
Ao sugerir a contratação de um formador da escola de futebol francesa para formar os nossos Técnicos revela perspicácia e pragmatismo, no entanto, reconhecendo a excelência da escola francesa não a recomendo, por razões histórico-culturais que não vou agora desenvolver. A melhor escola de futebol mundial é “nossa”, é brasileira; é este o futebol característico do Benfica; espetáculo, virtuosismo, autoconfiança, ascendente mental sobre os adversários e identidade cultural! Ficou demonstrado no passado e é o futuro!
 
Ficam-lhe muito mal as insinuações que faz sobre o Diretor da Academia aludindo à sua qualidade de empresário FIFA, deixando no ar a ideia de que há negócios ocultos. Se sabe ou suspeita de algo, diga-o com clareza, para que o visado se possa defender e os adeptos ficarem informados. Assim não! Não é sério! Um empresário FIFA não é necessariamente um bandido e é legítimo supor que indicia conhecimento do processo mundial de formação, de capacidade de movimentação nesse meio e de recrutamento de jovens talentos, tal como, aliás reconhece FT!
 
Receita para o sucesso: Este é outro capítulo onde Fernando Tavares me dececiona com um arrazoado de incongruências, demonstrando que o amor e a dedicação ao Benfica por si só, não habilitam quem quer que seja para desempenhar altos cargos no clube! Ora então vamos lá dissecar as suas afirmações:
 
A cultura de vitória está de novo instalada no clube, graças ao paciente e competente trabalho da atual Direção, após os desastrosos consulados de Manuel Damásio e Vale e Azevedo. A cultura de vitória só é possível quando sustentada em condições que a propiciem. É precisamente o que a atual Direção tem feito; negá-lo é má-fé! Podem identificar-se erros, sugerir melhoramentos, discordar de algumas opções, mas a trajetória de crescimento competitivo global é inegável.
 
As graves e indecorosas acusações de “tachismo” no Benfica, carecem de fundamentação; deve indicar quem são os tachistas e porquê; ou seja, deve exemplificar onde falharam os respetivos desempenhos e mostrar a sua falta de dedicação! Com tais acusações, Fernando Tavares está a dividir os Benfiquistas, a lançar um grave labéu sobre pessoas que têm o direito ao bom nome e a fazer o jogo dos dirigentes do outro clube. Não se faz!
 
Ao atribuir a razão do sucesso do outro clube à exigência de identificação incondicional de todos os elementos da sua estrutura e a uma cultura de ódio ao Benfica, revela desconhecer a realidade profunda, que nos entra pelos olhos dentro, descredibilizando-se! O fortíssimo apoio económico e político de que disfruta e que está bem expresso na constituição dos seus órgãos sociais é que é a razão do miserável sucesso! Tivemos recentemente três grandes demostrações desta realidade; a receção provocatória ao Pinto por deputados da Nação em plena Casa da Democracia, Os elogios públicos à mesma personagem do Secretário de Estado do Desporto e Juventude, a viagem conjunta à Polónia, paga pela FPF, de membros da FPF, do Governo, do Pinto e do seu staff; a nomeação do Proença para partidas de alto nível na UEFA!
 
A atual Direção tem divulgado como nenhuma outra por múltiplas formas a grandeza do clube; ele são as homenagens nas galas, é o programa Vitórias e Património, é o departamento de restauro de troféus, é o patrocínio de várias publicações alusivas ao clube e a atletas, é o Torneio Eusébio, é a criação de uma TV própria de raiz e a sua internacionalização, é a expansão do número de associados, etc. Ignorá-lo não é idóneo!
 
Mas concordo quando refere que não podemos tolerar os enxovalhos que têm sido praticados contra o nosso clube, com mais competência sim; com mais participação sim; com mais ambição aceito, mas…com mais união e mais mobilização na denúncia e combate sem tréguas aos “ladrões” e seus cúmplices onde quer que se encontrem.
 
 
Para que nos possamos defender com eficácia dos nossos “inimigos”, é para mim claro desde há já muito tempo que os Benfiquistas têm que ter expressão política, já que os poderes instituídos são “cúmplices” na pouca-vergonha que se vive no desporto em Portugal. Este é que é o caminho!
 
5ª Parte
 
O Futuro: A divisão dos Benfiquistas, fomentada pelos dirigentes do outro clube, é um facto com responsabilidades de ambos os lados! Aqui não há inocentes! A intolerância está nos dois lados sendo que um deles está legitimado por sufrágio eleitoral e o ressentimento do outro impede-o de o aceitar negando aquela que considera ser a maior virtude do clube! Criou-se o nefasto mito de que o Benfiquista autêntico é o que contesta e não é bem assim! O Benfiquista coloca o clube acima de todos os interesses, contesta com racionalidade e respeita os órgãos do clube! Nada de confusões!
 
Porque acusa FT a atual Direção de propaganda? Quer que faça o quê? A apologia dos adversários? Propaganda da oposição que não tem hesitado em lançar mão do insulto e graves insinuações pessoais? A Direção tem todo o direito e o dever de dar a conhecer os seus propósitos e de defender os seus pontos de vista! Já há demasiados detratores entre os adversários!
 
Como pode FT assegurar “o crescente afastamento de milhares de Benfiquistas” se o número de sócios tem aumentado continuamente? E como pode assegurar que os que, eventualmente, abandonem o clube, são, efetivamente Benfiquistas? Em que consiste a alegada perseguição de que acusa a Direção? Qualquer elemento é livre de aceitar as diretrizes dos órgãos eleitos ou sair, com fez FT! Qual é o problema? O Benfica não pode ser uma Arca de Noé nem uma Torre de Babel! Foi essa uma das razões do desastre!
 
Então Fernando Tavares não sabe o que fazer? Se há tantos Benfiquistas discordando, basta-lhe promover uma oposição consistente, elaborar um projeto, um plano de trabalho, agregar todos os descontentes à sua volta e apresentar-se a sufrágio, ou apresentar um candidato! Não é assim que se faz em Democracia? Claro que é! O que um Benfiquista nunca deve fazer é anavalhar o clube pelas costas!
 
Já todos sabemos que são as vitórias que consolidam e promovem a expansão de um clube, no entanto, a atual Direção conseguiu o “milagre” de aumentar substancialmente o nº de sócios apesar dos escassos sucessos desportivos, porquê? Porque os simpatizantes do clube reconhecem o bom trabalho que tem sido feito e sabem que a míngua de vitórias se deve ao lamaçal em que tornou o futebol Português! É ou não é? Claro que é!
 
O atual estado lamacento do futebol, combate-se com união, com coragem, com inteligência e com disciplina identificando corretamente os “inimigos” do clube, propondo ações idóneas de consolidação e crescimento e não com insultos sórdidos de natureza pessoal e profissional aos Dirigentes! Isso é o que fazem os “inimigos” do Benfica! Já chega!
 
Como se atreve Fernando Tavares a reconhecer o bom trabalho feito pelo atual Presidente depois de todas as acusações que lhe acaba de fazer? Os “tachistas” que refere não estavam no clube já no primeiro mandato? E nos mandatos seguintes não fez nada bom? Ora valha-o Deus!
 
A respeito de Bagão Félix; fez bem em recusar porque não tem perfil para Presidente do Benfica, apesar do seu extraordinário amor ao clube e da sua enorme competência. As suas qualidades humanas são incompatíveis com o mundo aviltado do futebol. Porque não percebeu isso mesmo Fernando Tavares?
 
Unidade: A unidade dos Benfiquistas dentro e fora do clube, não só é possível como indispensável! O Benfica tem que constituir e consolidar uma rede solidária e leal de Benfiquistas da grande transversalidade e verticalidade social dispostos a defender o clube, cada um no seu posto.
 
Afirmar que há uma cultura de derrota no Benfica atual é um ato de má-fé fortemente divisionista. É mentira! Ninguém no Benfica se conforma com as derrotas!
 
Eleições: Outro percalço de FT! Evidentemente que eleições a meio da época desestabilizam toda a estrutura desportiva afetando a competitividade de todas as equipas. Por isso devem sempre ser realizadas entre épocas!
 
Prioridades: Novo trambolhão de Fernando Tavares que ainda não compreendeu a nova era do futebol nacional, europeu e mundial! O futebol industrializou-se e os clubes empresaliarisaram-se! Foi esta a razão da constituição das SAD! Só o futebol amador não é empresarialisado! Ignorar esta realidade equivale a meter a cabeça na areia!
 
Primeiro os resultados, depois a marca? Os bons resultados só serão possíveis otimizando todas as vertentes com impacto na competitividade, incluindo a maximização das receitas que a marca proporciona. Assim é que é!
 
A estratégia de marca está a sufocar o produto? Faz favor; a expansão da marca está a proporcionar o aumento da competitividade global do clube!
 
Concordo com a prioridade às vitórias no campeonato, mas um dos fatores que proporciona estas vitórias é o financiamento direto e indireto que provêm das boas campanhas europeias, residindo precisamente aqui uma das maiores vantagens do outro clube que tem tido lugar cativo na Liga dos Campeões! Portanto, sem financiamento não há vitórias no campeonato e sem boas campanhas europeias não há financiamento.
 
Mas em que mundo vive Fernando Tavares?
 
Projeto ganhador:


Realmente o depoimento de Fernando Tavares é deploravelmente incoerente! Então depois de dizer antes que o Benfica não está em reconstrução diz agora que necessita de uma “limpeza interna”? Então depois de discordar das recentes alterações estatutárias denuncia os Benfiquistas de aviário que, segundo ele integram a estrutura do clube? Então como é que alguém mesmo de aviário, pode ter uma agenda de poder sustentada na incompetência e no insucesso? Ora valha-o Deus.
 
Conclusão:


Parabéns aos responsáveis por esta entrevista pois permitiram-nos conhecer os fundamentos dos opositores da atual Direção.
 
Quanto a mim, foi uma profunda deceção na medida em que Fernando Tavares está muito, mas mesmo muito longe de compreender o futebol e o Benfica, apesar de apresentar algumas boas ideias, revelando um profundo e compulsivo ressentimento contra atual Direção que o descredibiliza. Reivindica a legitimidade do escrutínio, mas não revela o respeito que os elementos dos órgãos legitimamente constituídos merecem, servindo, mesmo que involuntáriamente, de inspirador do divisionismo entre Benfiquistas que tanto para gáudio e proveito dos nossos adversários, que tratam de o alimentar incessantemente!
 
AB

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eleições no Benfica 1 - Contributo


 
Os dados estão lançados para a eleição dos corpos gerentes do Sport Lisboa e Benfica para o próximo quadriénio. À esperada recandidatura de Filipe Vieira, juntou-se a de Rui Rangel encabeçando, por fim, os principais críticos da gestão anterior. Os discursos dos candidatos e seus apoiantes sobem de tom. Espero que as respetivas campanhas se centrem nos correspondentes projetos, com respeito mútuo, como é apanágio da cultura benfiquista.

Qualquer projeto para o Benfica terá sempre que visar a prossecução das vitórias desportivas em todas as frentes, profissionais e amadoras e a difusão do Benfica e do Benfiquismo – os valores da competência, da valentia, da lealdade, da universalidade, do humanismo e do patriotismo – quer na frente interna, quer na frente externa.

Defendo, nesta fase, como principais objetivos estratégicos para a gestão do Benfica durante o próximo mandato:

1. Independência financeira do Grupo Benfica face a instituições que servem os interesses de adversários diretos, distorcendo as regras da concorrência desportiva, nomeadamente no que concerne à alienação dos direitos desportivos e outros.

2. Prossecução da trajetória de aumento sustentado da competitividade de toda a atividade desportiva, com especial ênfase no futebol sénior.

3. Reconciliação de todos os Benfiquistas.

4. Redução do passivo financeiro em, pelo menos, 20 %.

5. Refinanciamento do passivo financeiro reduzindo as respetivas taxas de juro.

6. Restituição do futebol ao Povo de modo a manter o estádio tendencialmente cheio.

7. Intensificação e diversificação dos processos de participação dos acionistas e dos sócios na vida do Clube.

8. Intensificação e diversificação da difusão do Benfiquismo na sociedade Portuguesa, principalmente nas camadas jovens, quer em território nacional, quer junto das comunidades portuguesas no exterior, quer nos Palop, quer onde se identifiquem oportunidades emergentes.

9. Constituição de um Conselho Consultivo integrado por personalidades intrinsecamente Benfiquistas, com peso institucional e profissional incluindo elementos da lista vencida.

10. Aquisição de competências relevantes em Direito Desportivo interno e externo habilitantes da participação a todos os níveis, na reforma regulamentar do desporto e escrutínio permanentemente a sua execução.

11. Introdução na retórica corrente da Direção do Grupo Benfica, na esfera da sua estrita competência, o questionamento dos agentes políticos e governamentais relacionados direta ou indirectamente com política desportiva, se necessário, adequando os estatutos do clube.

12. Otimização da eficácia de todos os meios de comunicação do Grupo, com especial relevo para a Benfica TV.

13. Elaboração de um projeto consistente na área da comunicação social de forma a salvaguardar, tanto quanto possível, a fiabilidade dos agentes do setor e gerindo a difusão das notícias do universo Benfica.

14. Elaboração, com a participação dos associados, um código de ética Benfiquista vinculativo e fazê-lo aprovar em Assembleia Geral.

15. Definição de uma política de alianças estratégicas duradouras com clubes nacionais e internacionais garantindo benefícios mútuos.

16. Elaboração de proposta de reforma dos quadros competitivos para o futebol profissional contemplando a autonomia financeira dos clubes participantes.

17. Elaboração de proposta de reforma das cedências ou aquisição de atletas entre clubes do mesmo escalão.

18. Avaliação da relevância para a competitividade dos principais clubes nacionais face aos seus congéneres mundiais, da promoção de um campeonato europeu em substituição dos nacionais, para os clubes participantes.

Procederei, em crónicas posteriores, ao desenvolvimento de cada um destes pontos.

AB

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um manicómio chamado Portugal

 

Com vénia ao Clube de Oficiais da Marinha Mercante, transcrevo estes exemplos “exemplares” da verdadeira causa da falta de competitividade neste país de gente “doida” (salvo seja):

a)   Entre 2014 e 2020, os projetos de apoio à pesca artesanal irão beneficiar de uma taxa de cofinanciamento comunitário de 75%. Senhores pescadores, tratai de amealhar os restantes 25%, se puderem. (Esta não conta; é boa!).

b)   A Comissão Europeia vai canalizar para o setor das pescas verbas dos fundos da Política de coesão, para investimentos em melhoramentos das infraestruturas de apoio à pesca artesanal, como por exemplo; construção e desassoreamento de barras. (Esta também não conta; também é boa!).

c)   O “PROMAR”, Programa Operacional de Pescas, tem 65 ME para investimento em aquicultura e a Noruega vai oferecer a Portugal 58 ME para aplicar em projetos marítimos ou de saúde. (Esta ainda não conta; também é boa!). A outra a seguir é para contar; leiam com atenção:

d)   O Relatório de Auditoria do Tribunal de contas diz: “ A aquicultura não tem tido o aumento que se esperava “. E mais à frente; nos “ Investimentos Produtivos da Aquicultura do programa PROMAR com incidência sobre a execução de 2010, verificam-se desistências de promotores, devido a obstáculos na obtenção de licenças, necessárias para apresentação de candidaturas e na dificuldade de acesso ao crédito bancário. Por isso, a meta definida de 3200 toneladas de aumento de produção em 2010, ficou longe de ser atingida”. UAU! Quem se atreve a explicar aos governantes as verdadeiras causas da perda de competitividade da economia portuguesa?  Ora vamos lá pensar em conjunto: Há dinheiro…há projetos…mas…não há investimentos…por causa do excesso de burocracia! UAU! Má qui cosa bella!

e)   O consumo per capita de peixe na UE é de 22,3 Kg enquanto a média global é de 16,1 Kg. A produção de pescado europeia satisfaz 40 % da procura interna. Quer dizer; a EU importa os restantes 60 %! Agora digo eu; Portugal tem a maior ZEE da europa, que ainda vai ser expandida - esperemos -, desde a adesão à CEE, depois UE, o esforço de pesca português sofreu uma redução, salvo erro, entre 60 a 75%. Contudo, apesar da nossa frota residual, apesar da carência da UE em pescado, apesar de importarmos, aproximadamente 800 MEA, de pescado, o valor deste em lota tem baixado, continuamente, salvo exceções! Sabem porquê? Porque a UE, por razões político-económicas do interesse dos que a controlam, abriu as fronteiras à importação de pescado de todo o Mundo (poderão confirmá-lo nos hipermercados). Má qui cosa bella, mamma mia! (vejam a próxima):

f)    Uma diretiva do Instituto Nacional dos Recursos Biológicos fixou a captura máxima de sardinha nas 400 toneladas entre Janeiro e Maio de 2012, representando uma redução de 64 % face a igual período do ano passado. Digo eu; queriam saber onde anda a sardinha? Mesmo a sério? Pois! O Governo não deixa pescá-la, e os nossos pescadores não sabem onde ela anda! Quer dizer; há uma forte carência de sardinha na nossa costa e o Governo, em vez de mandar os “cientistas” estudar o fenómeno, limita a pesca! Eu vou prá ilha! Tá mesmo à minha frente, quem quer vir? (ora vejam agora a próxima; é báita fixe!)

g)   A Companhia de Pescarias do Algarve em Olhão, investiu 1,3 ME numa nova fábrica, que, apesar de ter sido inaugurada há um ano, encontra-se encerrada! Querem saber porquê? Querem? Mesmo, mas mesmo a sério? Então vão buscar um lençol para enxugar os olhos. Por falta de ligação à rede municipal de esgotos! O Porto de Pesca de Olhão não possui tratamento de esgotos e os efluentes descarregam diretamente para a Ria Formosa! O IPTM responsabiliza o Ministério das Finanças - acho que falta o tal papel - para ligação da estação elevatória, já construída, à ETAR, também pronta!  Calma; vamos pensar em conjunto; Um fdp (salvo seja) investiu 1,3 ME, criou não sei quantos postos de trabalho - riqueza endógena -, tem a fábrica parada a consumir recursos financeiros e o endividamento da Câmara não chegou para construir o “desgraçado” do ramal de esgotos? Calma; não é tudo! Então o Porto de Pesca descarrega os efluentes para a Ria Formosa! Hããããã? E os “desgraçados” dos mariscadores, estão largos meses do ano paralisados e a passar fome, com as suas famílias, por causa das toxinas! Já me esquecia; sempre podem passear nas rotundas…! Ninguém quer ir prá ilha cómigue? É bué da fixe meu! 

h)   Agora uma boa: David Melgueiro foi um navegador Português, que, em 1662 e pela primeira vez, navegou do Japão ao Porto pela rota do Pólo Norte (passagem do Nordeste)! Pergunto eu; onde é que este "ladrão" terá ido tirar o curso? Ainda não havia a Independente nem a Lusófona pois não?

i)    Outra boa: Portugal vai ter um novo navio de investigação ocenográfica! Alto aí; não estejam já a pensar coisas más; não é para fazer cruzeiros, é para investigar como "devedeser", tá?

j)    Esta é para rir: As Agências das Nações Unidas estão empenhadas em combater o trabalho infantil na pesca! São encontradas crianças a cozinhar, libertar redes, limpar e vender peixe. Parece que estão muito atentos ao problema e vão fazer um documento para publicar em 2012! Digo eu; depois, quando esse documento sair, deixará de haver trabalho infantil na pesca e meninos atirados aos crocodilos!

k)    Olhem, vou mas é ver o Benfas, a ver se isto melhora alguma coisa!

l)     Parabéns ao colega Alberto Fontes que foi o autor do referido trabalho publicado na revista dos “Herdeiros de Vasco da Gama”.
 
AB 

Colonialismo e “Africanismo”


Meninos brincando no cais do porto de pesca artesanal em Tema, no Gana
 
 
Duarte Branquinho, no editorial de “O Diabo” de 4 de Setembro de 2012, sob o título “O fardo do Homem branco” - título do poema de Rudyard Kipling normalmente associado ao dever dos povos europeus promoverem o desenvolvimento dos outros povos e considerado de racismo eurocêntrico -, refere que: “Hoje o fardo é outro. Incrivelmente, passados tantos anos, os europeus continuam a ser repetidamente culpabilizados pelo atual estado dos países que outrora dominaram” (eu próprio defendi o mesmo na sequência da minha visita ao Forte de S.João da Mina). Isso mesmo refere o historiador Niall Ferguson no seu livro “Civilização: “Nenhum autor sério poderá afirmar que o reinado da civilização ocidental foi imaculado. Contudo, há quem afirme que não teve absolutamente nada de bom. Esta posição é absurda”.

Porém, segundo o articulista, o historiador Vitorino Magalhães Godinho, explicou que; “por não existir a ideia de nação em África, os novos países construíram um passado próprio, passando a dizer que tudo quanto os colonizadores tinham trazido era mau, que eram todos uns criminosos, que tinham de pedir desculpa”. Recusando tais pedidos de desculpa, terá ainda afirmado: “o que é condenável é esconder o que se passou! Mas eu não tenho nada a ver com o que fizeram os homens no século XV! A culpa não se transmite de pais para filhos, não é hereditária.” Terá dito ainda acerca da escravatura: “Esta existia entre os povos africanos; os portugueses utilizaram as redes de escravatura existentes. Os régulos gostavam muito de vender os seus negros como escravos. E isso permanece!” Terá referido ainda a continuidade dessa postura aré aos atuais chefes políticos dos estados africanos, a cujos bolsos vão ter os subsídios atribuídos aos seus países”.

Termina o articulista dizendo que “É tempo de acabar de vez com o fardo da culpabilização unívoca”.

Em “O Diabo” de 18 de Setembro de 2012, na página 1O, num trabalho sob o título “A escravatura infantil não é uma brincadeira de crianças” dá-nos conta do empenho da ONG “Filhos do Coração” em combater os negócios ilícitos que se fazem no Gana com crianças.

No desenvolvimento, situa o início “desta história” em 2007, quando a jornalista da TVI Alexandra Borges apresenta uma grande reportagem intitulada “Infância Traficada”, segundo a qual “na República do Gana há crianças de 3 e 4 anos que são vendidas pelos próprios pais, por menos de 30 euros, a traficantes que as revendem a pescadores para serem escravizadas no Lago Volta , o maior lago artificial do mundo. Estas crianças trabalham 14 horas por dia, sete dia por semana, faça chuva ou faça sol, estejam ou não doentes, em troca de um prato de mandioca.”

Segundo aquela ONG, “estas crianças são conhecidas como Kobies e Kofies, conforme o dia em que foram vendidas, porque desconhecem a sua idade e identidade. Algumas morrem afogadas no lago porque não sabem nadar, outras são assassinadas pelos pescadores que as atiram vivas aos crocodilos.” Apesar do conhecimento geral desta prática e da criminalização legal da mesma, parece que ninguém se preocupa, razão que levou a citada jornalista a criar a referida ONG com o fim de alertar a comunidade internacional e pressionar o governo do Gana a combater este flagelo.

Admirável, ALEXANDRA BORGES, com a colaboração de LUIS FIGO, e da pintora ANA CARDOSO, escreveu o livro “Filhos do Coração”, editando em seguida um CD com o mesmo título, tendo obtido uma receita de 150 mil euros. Regressou ao Gana em 2009, fundou uma escola com uma ONG norte-americana “Touchalifekids” e resgatou 13 crianças escravas do Lago Volta, a quem está a pagar os próximos 10 anos de vida, adiantou a “Filhos do Coração”, referindo ainda, que, o resgate destas crianças não é pago, investindo-se na consciencialização dos pescadores que as escravizam e que a saúde, alimentação, segurança e escolaridade de cada uma destas crianças custa mil euros/ano.”

“Até agora, 93 crianças já foram resgatadas” mas Alexandra Borges está convicta de que “não vale a pena resgatar mais crianças escravas do lago porque serão rapidamente substituídas. O único caminho é a denúncia para acabar, de uma vez por todas, com este atentado aos direitos humanos. É a indiferença que está a matar as crianças do Gana”.

A miséria provoca desumanidade, já o sabíamos. Uma das recordações mais bonitas que trouxe da minha breve passagem pelo Gana foi precisamente as mães nas suas improvisadas tabancas cuidando de seus meninos, ou carregando suas bacias à cabeça com eles às costas. Não esquecerei o sorriso e a felicidade daqueles dois meninos, precisamente de 3 a 4 anos, brincando no cais do porto de pesca, quando dei um beijo na face de cada um e os fotografei, suscitando a satisfação geral dos adultos negros em volta.

Estarão estes ou outros meninos condenados a esta pavorosa infâmia? Será que os pais vendem os filhos por não terem possibilidades de os sustentar acreditando que, dessa forma, têm possibilidade de sobreviver? Será que, o desespero da sua própria sobrevivência, destrói completamente o afeto paternal e maternal ao ponto de sacrificar os filhos? Será que, lá como cá, algumas pessoas são, simplesmente destituídas de afeto? Quem sabe explicar? Finalmente, levanta-se a derradeira questão; se os negros se matam uns aos outros, indiscriminadamente, seja porque razão for, ninguém se indigna? Quanta hipocrisia afinal há nos atuais dirigentes negros que exploram, escravizam e aniquilam o seu próprio povo, ao acusarem os colonizadores das desgraças que os afetam?

Afinal, parece que, todo este tema, tem que ser revisitado a uma nova luz, em que muitos dos autoproclamados “libertadores” da opressão colonial, se transformaram, hoje, nos exploradores e exterminadores dos seus próprios povos em proveito próprio e dos que, hipócritamente, os apoiaram.

AB

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Campeonato "piolhento"

O futebol “piolhento” que por cá se pratica, acabará na falência colectiva dentro de alguns anos, porque não tem credibilidade, não respeita os espetadores que pagam os seus bilhetes para ver espetáculo, acabando, afinal, por ver teatro, mau teatro!

Os protagonistas, os decisores dos jogos passaram a ser os árbitros em vez dos Atletas! Estes, mesmo os mais dotados e empenhados, vêm o seu esforço desacreditado pela ação correntemente desastrada daqueles, que, não poucas vezes, decidem o resultado dos jogos e das competições, desmotivando os Atletas honrados, seus adeptos e Dirigentes, criando um clima de crispação crescente de consequências imprevisíveis.

Carlos Xistra tem um péssimo historial de desempenho nos jogos do Benfica, quase sempre em prejuízo deste clube. Foi por isso com um mau pressentimento que ouvi o seu anúncio para o jogo Académica-Benfica! Três bolas no poste da baliza dos de negro nos minutos iniciais, agravaram tal pressentimento. Estariam Cardoso, Rodrigo e os restantes colegas também nervosos pela presença de tão “malfadado” juiz? Juraria que sim. As pessoas, são pessoas, não são máquinas.

Entrou bem o Benfica, arrasando a equipa adversária na procura de rápido desfecho, sendo apenas desfeiteado…pelos postes e barra da baliza adversária. Que fazem parte do jogo. Pressionando muito bem no meio campo, a equipa recuperava rapidamente a bola, lançando sucessivos ataques. Manhosos, os de negro, como fazem habitualmente os adversários do Benfica, acantonaram-se em frente da sua área em três linhas defensivas, partindo céleres para a ofensiva na sequência das recuperações de bola, na espetativa de apanhar a defesa contrária em falso. 

Apesar da supremacia, os movimentos ofensivos do Benfica careciam de melhor definição, continuando a revelar défice de qualidade nos cruzamentos, no jogo aéreo e na meia distância. Carlos Martins, um dos melhores atletas nestas componentes, estava no banco, Aimar manobrava numa zona superpovoada. Contra esta densidade defensiva, só funciona a meia-distância, como demonstrou Lima com o seu remate fulgurante, e os cruzamentos de grande precisão. Precisão exige qualidade técnica e serenidade do intérprete. Terá faltado serenidade aos atletas do Benfica? Afinal Carlos Xistra “oferecera” dois golos aos de preto, tendo “deixado passar” uma grande penalidade sobre Nolito.  Andariam demasiados quilovates no ar? Teria o árbitro tomado café sem açúcar? Não sei; o que sei é que, quem mais prejudica o Benfica mais sobe na carreira! Carlos Xistra é humano e, naturalmente, anseia, subir, subir, subir!

Patético foi o Presidente dos de negro, pessoa, salvo erro, a braços com a Justiça, invectivar os espetadores Benfiquistas! Repete-se em Coimbra o que acontece em Braga e no Porto; os Benfiquistas são veladamente invectivados, ameaçados, excluídos e até agredidos! Nas barbas de quem de Direito, que, assistindo passivamente, sanciona tão repugnantes gestos, contribuindo para o aumento da crispação desportiva e social.

Insto o Presidente da Assembleia Geral do Benfica - ou Benfica SAD -  a convocar uma Assembleia Geral extraordinária com um único ponto da ordem de trabalhos; Análise de propostas de protesto do clube, sócios, acionistas e adeptos, contra a descriminação de que continua a ser vítima.
 
Abaixo a trafulhice e os trafulhas!

Abaixo o totalitarismo no futebol!

Vivam o Benfica e os Benfiquistas!

AB

domingo, 23 de setembro de 2012

“Ordem” de combate ao passivo II


Afinal, as contas não são como referi, citando o “Correio da Manhã”. Este jornal, geneticamente anti-Benfica,  que faz de qualquer contratempo do clube uma catástrofe apocalítica e sempre encontra a forma menos favorável de noticiar um sucesso do mesmo, por maior que seja, precipitou-se! Na sua “sanha persecutória anti-Benfica”, exultou com a divulgação dos resultados a que a ignorância do respetivo articulista chegou apesar de ter demonstrado os seus conhecimentos de aritmética elementar.
A Direção do CM, reconhece o erro grosseiro, pedindo desculpa aos leitores e ao Benfica garantindo “reforçar os procedimentos de controlo de forma a que este tipo de erro não se repita”.  Fica-lhe bem o gesto mas não anula os estragos que provocou na imagem do clube.  O que mais me preocupa no CM porém, é a forma como dá certas notícias relacionadas com o Benfica, que induzem os leitores a tirar conclusões diferentes do seu efetivo conteúdo.
Finalmente, o saldo do exercício da época de 2011/2012, do SLB, corrigido das participações na SGPS e na SAD, cifrou-se num lucro de 452 mil euros. Pelo sexto ano consecutivo a conta de exploração do clube apresenta resultados positivos, tendo-se registado um lucro de 1,1 ME em 2010/2011 e de 2,4 ME em 2009/2010.
Reitero a recomendação que fiz na minha crónica anterior, de estudar a possibilidade de fusão de algumas empresas do grupo - mais de dez - a fim de reduzir os custos de estrutura e gerar sinergias potenciadoras da eficácia e dos resultados líquidos.
Quanto ao jogo de hoje, Académica-Benfica, apesar de algumas debilidades a nível ofensivo e físico da nossa equipa e do bom desempenho da Académica, ficou indelevelmente marcado, como já esperava, pela atuação de Carlos Xistra, com erros grosseiros que retiraram mais dois pontos ao Benfica.
Sugiro que o Presidente da Assembleia Geral da SAD, convoque uma assembleia geral extraordinária com o fim de analisar estes incidentes de arbitragem e propor medidas suficientemente dissuasoras de tais erros por parte dos árbitros e das superestruturas do futebol.
AB
 

sábado, 22 de setembro de 2012

“Ordem” de combate ao passivo


O Diário de Notícias on-line, um dos múltiplos braços do grupo Controlinveste que, diariamente, defende os interesses dos nossos rivais azuis, titulava, em 20.09.2012; “PROVEITOS AUMENTAM 10% PARA HISTÓRICOS 91,1 ME, referindo a Lusa como fonte e a participação de Nuno Fernandes. Surpreendido e desconfiado com tão lisonjeira referência, verifiquei que tal crónica resulta do comunicado da Benfica SAD à CMVM, no qual atribui o aumento de receitas à participação do clube nas competições europeias em 2010/2011 e em 2011/2012, em especial na Liga dos Campeões, que terá rendido 22,4 ME em prémios - em 20111/2012 -, resultado histórico, representando um aumento de 60 % face à época de 2010/2011.
Por sua vez, refere que, pelo 2º ano consecutivo o resultado operacional foi positivo, com um valor superior a 5,1 ME na época 2011/2012, incluindo a venda de atletas, à exceção de Javi Garcia e Axel Witsel.
O pior veio depois, ao anunciar um resultado líquido negativo de, aproximadamente, 11,7 ME e um capital próprio negativo, de 14,2 ME, resultante do aumento do ativo para 411,9 ME e do aumento do passivo para 426,1 ME. Contudo, As vendas de Javi e Witsel permitirão, no primeiro trimestre - julho, agosto e setembro de 2012 -, o regresso do capital próprio a valor positivo.
Por sua vez, o Correio da Manhã de hoje - 2012.09.22 -, refere um passivo total de 539,5 ME, considerando os resultados do exercício do clube em 2011/2012, em que as receitas atingiram os 28,6 ME - queda de 1,3 ME face à época anterior - e as despesas se cifraram em 41,6 ME - aumento de 6,2 ME face à época anterior -, resultando num prejuízo do clube de 12,9 ME que, somado ao prejuízo da SAD de 11,7 ME, totaliza 24,6 ME, ascendendo o passivo acumulado do clube aos 111,8 ME.
Foi pois com alívio que ouvi o Presidente do Benfica referir em Almada, a necessidade de “vender, baixar a massa salarial, ganhar com o talento, a entrega e o empenho dos jogadores que estão no plantel e confiar na capacidade de Jorge Jesus”.  Não chega! Espero que anuncie em breve; quanto vai a SAD amortizar ao passivo já esta época, quando estará pago o Estádio - inicialmente previsto para este ano - bem como um plano plurianual de amortização do passivo, com objetivos bem definidos.
A necessidade de redução de custos operacionais e de estrutura é imperiosa desde há muito e, embora seja aceitável a “derrapagem marginal orçamental” face à necessidade - pontual – de maximizar a probabilidade de sucesso desportivo - tal como defende Fernando Tavares - tal não deve converter-se numa prática corrente sob pena da insustentabilidade de todo o projeto Benfica. Sugiro mesmo que sejam avaliados os ganhos de fusão entre as empresas do grupo, pelas sinergias resultantes do aumento de eficiência global.
Por outro lado, é evidente para todos nós, desde há muito, a necessidade de reduzir os custos operacionais, libertando a SAD de encargos que não gerem contrapartidas financeiras ou desportivas, apostando mais na formação interna - tal como anunciou o Presidente -, recorrendo à contratação externa com assertividade, decorrente de maior competência na prospeção, bem como a necessidade de aumentar os proveitos da venda de direitos desportivos do clube para valores consentâneos com a sua valia comercial, alocando parte dessa receita à amortização do passivo, sem esquecer o afastamento de qualquer entidade do grupo Oliveira como parceiro de qualquer sociedade do grupo Benfica, indispensável à sua libertação, sem a qual não haverá verdadeiro Benfica.
Parece-me também, que deve considerar-se maior aproximação da SAD à Liga, já que me parecem boas algumas das propostas que defende, nomeadamente; o fim dos empréstimos de atletas a clubes do mesmo escalão, quanto a mim, uma das fontes de corrupção; a autonomia financeira dos clubes profissionais, outra das fontes de corrupção associada à anterior e o fim do monopólio da Olivedesportos na exploração dos direitos desportivos dos clubes, condição necessária ao fomento da competitividade, quer pelo aumento de receitas próprias dos clubes, quer pela redução da influência do grupo Oliveira em todos os agentes do desporto em geral, da qual apenas um dos contendores tira proveito, destruindo a credibilidade e rentabilidade do desporto nacional. Poderia ainda, conquistar o apoio da maioria dos clubes ditos “pequenos”, necessários para travar as ameaças provenientes da Federação, que muito têm contribuído para o afastamento do Benfica dos títulos e para a descredibilização do futebol.
Relevo ainda a necessidade de preparar medidas suficientemente dissuasoras da estratégia, que tão bons frutos tem dado ao clube azul, que consiste em dificultar ao Benfica o fortalecimento competitivo das suas equipas, agravando os respetivos custos operacionais e desviando para as suas “trincheiras” atletas influentes, ironicamente, descobertos pelo departamento de prospeção do nosso clube, os quais, a par com os “erros grosseiros”  de arbitragem que todos conhecemos, lhe tem proporcionado superioridade desportiva há décadas, hipocritamente, cobardemente enaltecida pela generalidade dos comentadores desportivos e algumas figuras públicas.
Perante este cenário, é revoltante assistir “à engorda” obscena dos empresários, à “chantagem” frequente dos atletas junto dos seus clubes, à indiferença das superestruturas desportivas, à incompetência do sistema judicial e ao silêncio ensurdecedor das tutelas governativas.
Afinal, sem clubes não há futebol, mesmo que disfarçados de azul.
AB

sábado, 15 de setembro de 2012

O País Sonae


Cá em casa, o jantar de hoje foi caldo verde; uma sopa bem característica da dieta mediterrânica, com ingredientes baratos e fáceis de obter. Com o estatuto gastronómico deste prato, só mesmo a sopa de feijão, o bacalhau, a sardinha assada, ou os “jaquinzinhos” fritos. Um prato amigo da gente simples. Nos meus tempos da memorável Rua do Pinhal, onde parecíamos todos da mesma família, comprávamos as couves, na mercearia da senhora Maria do Penteadinho ou na do Sr Mário, migadas depois na popular máquina de fabrico nacional - da prestigiada fábrica de metalomecânica “Joca”, ainda ativa. Quem quisesse podia levar as couves de casa e alguns faziam-no.

Reparei que o caldo verde vinha embalado e etiquetado. Peguei-lhe, “virei-o de um lado, do outro e de frente”. Li a etiqueta. Voltei a ler. Não havia engano, dizia lá: SONAE, 100 % nacional, couve galega ripada, peso líquido 300 g, conservar entre 1 ºC e 4 ºC, consumir até 17.09.2012. Indicava ainda o nº do lote, a composição por dose, morada e outras indicações, conforme os requisitos legais. Quer dizer, aquele caldo verde era um produto SONAE e, para bem da nossa saúde, respeitava uma série de requisitos definidos pelos tecnocratas de Bruxelas, que da nossa saúde sabem tratar muito bem.

Então lembrei-me. Lembrei-me daquela mulher pobre, viúva, com um filho adulto deficiente incapaz de trabalhar, que ganhava o pão de cada dia para ambos, a cortar couves para caldo verde, à faca, no mercado de Camarate. Não sei quanto ganhava, não sei há quanto tempo o fazia, sei que era o suficiente para se manter e ao seu pobre filho.

Um dia, um dia apareceram-lhe os fiscais da ASAE, sempre zelosos a tratar-nos da saúde, proibiram a pobre senhora de continuar com a atividade e aplicaram-lhe uma multa, deixando aquela família na indigência. Provavelmente, ficaram felizes os polícias por terem feito cumprir a escrupulosa lei; e a lei garante-nos uma vida saudável. Ou não, mas isso não é da sua conta; o mundo, decerto, terá ficado muito melhor! Terão pensado, para bem das suas consciências.

Jean Claude - nome fictício -, farto da impessoalidade e correria da vida parisiense, há mais de duas décadas, perdeu-se de amores por uma portuguesa com quem casou e pelo nosso Portugal. A ponto de mudar para cá a sua residência, fazer cá a sua vida, ter e criar cá as suas filhas. Fascinava-o a nossa tranquilidade e a matriz rústica que dominava a nossa sociedade e se traduzia numa qualidade de vida que já conhecera e à qual queria regressar. Investiu as suas economias num ginásio de fitness, de cuja arte era conhecedor, de cujos rendimentos viveu, dignamente, com a sua família.

Mas houve um dia; há sempre um dia, em que, os polícias da ASAE lhe entraram pela porta, identificaram desconformidades legais recentes, aplicaram-lhe pesada multa e proibiram-no de exercer a atividade, até corrigir as irregularidades, cujo cumprimento, afinal,  lhe inviabilizava o negócio!  Jean Claude fechou a porta e vive revoltado por lhe terem negado o seu ganha-pão e dos seus, como sempre, para bem da nossa saúde, algo que preocupa permanentemente este corpo policial.

Ah, mas não desesperem, gente de pouca fé; o grupo SONAE, entretanto, montou uma rede de ginásios e anunciou recentemente um desconto de 30 % para não deixarmos e cuidar da nossa rica saúde. Sensibiliza-me ver como se preocupam connosco.

Correio da Manhã de segunda-feira, 20.08.2012, na página 26, apresenta uma crónica de Secundino Cunha, com o título “Pão vai aumentar em setembro”.  Transcrevo: “Os custos de produção dispararam no primeiro semestre deste ano mais de quinze por cento. As farinhas e os combustíveis não param de subir, pelo que um ajustamento de preços se torna inevitável”, terá dito ao Correio da Manhã, António Fontes, presidente da Associação dos Industriais de Panificação do Norte (AIPAN).

Mais à frente; “Assim, prevê-se que a carcaça de 40 gramas suba um cêntimo, passando para os doze, em média, no Norte, e atinja os dezoito cêntimos na região da Grande Lisboa”. Ainda mais à frente; “Há aqui um mundo especulativo, que acompanha de perto as oscilações dos combustíveis e que atira as farinhas para valores inaceitáveis”. Terá dito o industrial Carlos Santos acrescentando que: “não são os produtores de cereais quem ganha com estes aumentos”. Referiu ainda António Fontes: “”A eletricidade está mais cara do que nunca, o gasóleo é o que se vê e o preço do gás duplicou nos últimos dois anos, isto depois de as autoridades terem convencido os industriais a optarem pelo gás em vez da lenha, por razões ambientais”.

Em caixa com o título de  “Pormenores” refere ainda o CM: “Falências a Norte”; Na região Norte há 3500 empresas de panificação e similares. A AIPAN prevê que, até ao  final do ano,  se verifique mais de uma centena de falências e 600 desempregados”.

Ainda noutra caixa, desta vez sob o título “O Governo tem de criar alguma regulamentação” , o mesmo António Fontes terá dito que iria pedir ao Ministro da Economia  para intervir no sentido de impedir práticas de dumping por parte de “algumas grandes superfícies, que vendem a carcaça a cinco cêntimos”. “Eles fazem do pão elemento de captação de clientes e estão a destruir todo o setor”, terá afirmado o mesmo António Fontes.

Durante o verão passou-se algo idêntico com a sardinha; uma das grandes superfícies, na fase crítica, comprou toda a sardinha da lota a preços proibitivos - cerca de 400 euros o cabaz -, para a vender depois nos seus estabelecimentos a preços reduzidos, quanto a mim, com o mesmo fito de atrair e fidelizar clientela, destruindo assim milhares de microempresas do setor.

Na área da refrigeração e ar condicionado, que conheço muito bem, verifica-se desde há uns anos, um ataque “feroz” às pequenas empresas colocando-lhe, concertadamente, e sob os mais variados pretextos sucessivas dificuldades de grau crescente, com o fim de as fechar e forçar a concentração que, dizem estudos do INE, garante maior produtividade.

Para salvação de todos nós, o grupo SONAE, importa os equipamentos do ramo, distribui-os, executa os projetos, instala-o e faz a manutenção dos mesmos, destruindo dezenas de milhares de pequenas empresas, captando o valor acrescentado que era repartido por todas elas.

É inegável que o efeito de concentração económica induzido pelas grandes superfícies é uma das grandes causas do desemprego que se abate sobre o país, com tendência para se agravar, uma vez que, a insaciedade dos seus acionistas, impele-os, a apoderarem-se de todos os negócios rentáveis de todas as fileiras, contribuindo decisivamente, para o empobrecimento de milhares de portugueses, pela destruição de muitos milhares de postos de trabalho; salvo erro, por cada posto criado pelas grandes superfícies, três são destruidos!

Como se vê, não tarda, poderemos mudar o nome ao país em homenagem ao futuro senhor feudal que providenciará todas as nossas carências.

Triste fim para uma utopia!

AB