Desporto

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

O Momento do Benfica II


O Momento do Benfica II 

Das infraestruturas:
  
É este um dos ex-lbris da gestão de Filipe Vieira que por si só lhe garantirá lugar de relevo na história do clube. Estádio, pavilhões (2), piscinas (2), museu e complexo do Seixal. Uma obra e peras. As “peras”, são um passivo da ordem dos 400 milhões de euros que asfixia o clube (SAD) e degrada a sua capacidade competitiva. Sem uma equipa - de futebol sénior - forte, nenhum projeto tem futuro. A importância das infraestruturas é instrumental; são necessárias para construir uma equipa de topo europeu, conforme os pergaminhos do clube. Ainda não ocorreu. Já lá vão 15 anos de novo Estádio.

   Recordo que o projeto de Vale e Azevedo de recuperação do antigo Estádio, da autoria de Tomás Taveira, custava o equivalente a 20 milhões de euros. Para a constituição da SAD havia financiamento do equivalente a 100 milhões de euros. À época, o passivo do clube era da ordem dos 10 milhões de euros, equivalentes. Esta disponibilidade teria permitido recuperar o antigo Estádio, pagar a totalidade da dívida e investir de imediato na competitividade do futebol sénior, Quem sabe se não teria permitido quebrar o ciclo azul bem mais cedo - até porque a Olivedesportos estava em cheque na questão dos direitos desportivos da Liga.

   A componente imaterial também carece de consideração; o antigo estádio tinha um simbolismo não negligenciável; por um lado incorporava o esforço coletivo dos adeptos e populares que participaram com materiais, trabalho ou dinheiro para a sua construção; por outro era único, um dos maiores da Europa e do Mundo - só tinha equivalente no Maracanã; por outro ainda, tinha sido palco dos grandes feitos desportivos do clube que fascinara os adeptos do futebol em geral incluindo os jogadores adversários envolvidos. Dele emanava um poder galvanizador sem paralelo nos grandes momentos. Tudo isto ruiu com ele.

   Mário Dias, coordenador do projeto do novo Estádio, disse na entrevista à BTV por ocasião da comemoração dos 15 anos do novo Estádio, que os Bancos se tinham recusado a financiar a recuperação do antigo por não proporcionar retorno. Compreende-se o interesse dos bancos em vender 400 milhões de euros em vez de 20 milhões, concluindo-se que a construção do novo Estádio foi, sobretudo do interesse daqueles e não do Benfica. E também se conclui que o atual Estádio, simboliza a usura bancária e o messianismo de Filipe Vieira. Uma grande mudança deste “novo” Benfica: de Sport Lisboa e Benfica para Sport Lisboa e Vieira.

   Pelo referido, ao contrário do que tem sido propalado, a construção do novo Estádio dividiu os adeptos do Benfica, enfraquecendo-o.

   Há lugar para uma ressalva de natureza económica comparativa relativamente aos custos de manutenção e de exploração, bem como ao potencial de receita associada aos dois estádios.

   A considerar também o contexto da época em que o Benfica estava afastado da “febre” dos Estádios em marcha acelerada apontada ao euro 2004, para gáudio dos rivais e respetivos correligionários. Aliás, à época, fiquei com a convicção que um dos propósitos do euro 2004, até pela forma como vários jogadores encarnados foram tratados na Seleção, teria sido o de deixar o Benfica para trás face aos rivais diretos - havia dinheiro para todos mas não para o clube da Luz; que isto não é a Santa Casa da Misericórdia, como declarava o Tavares. O “ficar para trás” poderia deixar sequelas entre os adeptos Não sei. Mas sei que, o que efetivamente importa é ganhar; ganhando, a questão do Estádio não teria relevância.
Foto: Casario da Papoa em Peniche

Peniche, 6 de Novembro de 2018
António J. R. Barreto 
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O 25 de Abril Visto da História (notas P8)

O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais

  
O apelo à população rural, sobretudo das regiões de pequena e média propriedade, é uma constante dos partidos de direita. E a verdade é que esse apelo encontra resposta. Ora isto coloca um problema…que de resto se arrasta há muito tempo sem solução: a questão das relações da cidade com o campo. …. As cidades tornam-se o cenário artificial de um país que continua a ser predominantemente rural. …. E isto coloca de novo o problema da incapacidade dinâmica da burguesia portuguesa - que nunca leva à prática uma reforma agrária, que não faz a mecanização da agricultura e muito menos a sua industrialização. …trata-se de facto, nestes casos, de uma reação natural a um desenvolvimento, que de desenvolvimento tem apenas o discurso, a ideologia. ….eu preferiria, relativamente ao campo, a classificação de “indicador de desenvolvimento”. (JAS)

   É histórico; o conservadorismo da população rural nas regiões de minifúndio deve-se ao enraizamento do sentido de propriedade e também à profunda cultura cristã. Por outro lado, a população rural das regiões de latifúndio é mais acessível à doutrina progressista seja pelo regime de propriedade - marcada pelo assalariado -, seja pela heterogeneidade religiosa da população durante o processo do povoamento.

   Já o desequilíbrio persistente da relação de forças entre “a cidade e o campo” tem origem na significativa perda de relevância económica do setor agrícola, em clara decadência numa economia em transição, mas também devido à constituição e funcionamento das estruturas partidárias, que, claramente, subalterniza as regiões do interior, e constitui, em si mesmo, um dos maiores paradoxos do atual regime político.

   A falta de industrialização agrícola em Portugal terá muitas causas, como a crónica falta de capital - que caracteriza toda a economia nacional, desde sempre, agravada com a expulsão dos Cristãos-Novos -, mas, a que me parece decisiva e consiste na inviabilização económica da propriedade rural na sequência do fim dos morgadios e na alteração do regime de propriedade, que ocorreu no século XIX.

…Em contrapartida, entre o funcionalismo público, e contrariamente às expectativas, foi a linha PCP que saiu vencedora das primeiras eleições realizadas com vista à formação do sindicato daquele setor….(VJS)

   E tem sido assim até aos dias de hoje, para desgraça de Portugal; à “boa” tradição comunista, o PCP, através do controlo que exerce sobre os sindicatos da função pública via Intersindical, detém um poder de influência na governação muito superior à sua representatividade eleitoral. Além da evidente distorção democrática, o PCP, usando das prerrogativas que a lei lhe confere, condiciona setores vitais da administração pública alimentando conflitos sociais e degradando a competitividade económica geral sem contemplações, em nome dos interesses do “novo proletariado”, os “idiotas úteis” da modernidade.

 
…Ora, com reveladora frequência, verificamos que quanto mais acentuada é a má consciência pequeno-burguesa desses dirigentes mais eles ostentam uma “autossuficiência” de carácter já patológico, um exclusivismo, um sectarismo perfeitamente doentios, uma obsessão patética de serem os “pais ideológicos” da classe operária….. Antagónica à concepção leninista era, afinal, a concepção marxista, segundo a qual a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores. (VJS)

   Apercebi-me disso mesmo ao constatar a origem pequeno-burguesa da generalidade dos protagonistas das esquerdas em Portugal, desde o 25 de Abril. O caso mais flagrante da atualidade é o dos ativistas do Bloco de Esquerda, mas não só. Operários e camponeses, em geral o povo simples, não tem disponibilidade para o “lero-lero” político. Mas não se trata apenas de eventual “má-consciência de classe”, será mais uma necessidade compulsiva de protagonismo e de aproximação ao poder, ou mesmo do seu exercício. Daí a “perigosidade” dos “intelectuais” na evolução das sociedades; a outra face da moeda.(AB)

Foto: Peniche, Marginal Norte
Peniche 3 de Novembro de 2018
António J. R. Barreto

sábado, 3 de novembro de 2018

O desastre de ontem

O futebol miserável que a equipa do Benfica apresentou ontem frente ao Moreirense vem desde a pré-época da temporada passada e é, nem mais nem menos, do que o corolário dos equívocos do seu Presidente; na relativização dos objetivos de curto-prazo - conquistar títulos no futebol sénior - em favor dos de longo prazo - a conquista da Liga dos Campeões - e na incapacidade de perceber os requisitos necessários do líder técnico do projeto, o Treinador Principal. Não bastam as qualificações ao nível da formação nem a capacidade de apostar nos jovens talentos; sem capacidade competitiva de topo todo o projeto sairá desvalorizado e ruirá como um castelo de cartas. O atual Treinador do Benfica tem excelentes qualidades humanas, não tem medo de arriscar e é até um bom Treinador mas não ao nível das aspirações do clube. Quando um Treinador do Benfica diz, publicamente ou em privado que, temos que aprender a viver com o insucesso,  só tem um caminho a trilhar; o da porta de saída. O Benfica é o oposto; o inconformismo com a derrota, a indomável vontade de vencer.
 
   Não é necessário ser especialista para perceber os princípios gerais do futebol e avaliar, grosso modo, a qualidade de jogo de uma equipa. O fascínio do futebol passa por aí. Ora sucede que o atual futebol do Benfica revela lacunas táticas gravíssimas, desde a pré-época da temporada anterior, cujo resultado se traduziu num vexame sem precedentes do qual destaco a derrota por 5-0 com o modesto Basileia. Se, num primeiro tempo poderíamos atribuir tal desempenho ao tremendo rombo infligido no plantel  pela Direção do clube - por imposição dos bancos, julgo eu -, nem depois, quando a equipa recuperou alguma capacidade competitiva animando um campeonato destinado aos azuis, nem atualmente, com um plantel melhor apetrechado para a cómica Reconquista, perante a persistência das lacunas, encontramos outra explicação que não seja a incapacidade do treinador.
 
   A equipa não revela coesão tática; desagrega-se com o andamento do jogo e vive da inspiração individual dos jogadores, de algumas combinações - poucas - que conseguem fazer e da menor qualidade dos adversários.  Comprova-se isso observando a deficiente ocupação do terreno de que resulta grandes lacunas entre jogadores e a ausência do designado "fio de jogo"; geralmente escasseiam linhas de passe ao portador da bola que, para as obter, despende grande esforço físico, acumulando fadiga e perdendo, gradualmente, capacidade competitiva, enquanto os companheiros geralmente permanecem, pateticamente, estáticos em zonas neutras, aguardando o endossamento da bola. Então vão-na trocando transversalmente a baixa velocidade até perderem a posse, sem sequer tentarem o remate à baliza ou algum passe de rotura, ou nalguma tentativa de penetração no bloco contrário. Falta dinâmica, sincronismo coletivo, capacidade criativa, verticalidade, velocidade e intensidade. E falta meia-distância, jogo aéreo e centros e cruzamentos com qualidade.
 
   Na fase defensiva, os jogadores não sabem que terreno ocupar; limitam-se a correr atrás da bola, como tontos, e a recuar desordenadamente para a zona da grande-área abrindo zonas de tiro ao adversário; pressionar o portador, fechar linhas de passe e fazer marcações com eficácia não consta do cardápio tático da equipa.
 
   É demasiado pouco . 
 
   O Presidente do Benfica está tão obcecado com  a formação que está disposto a sacrificar o essencial, ganhar! E na tão afamada estrutura profissionalizada, principescamente paga, ninguém percebe o decadente e ruinoso estado da arte da equipa sénior de futebol? Claro que sim, mas temem perder o lugarzinho. Atualmente não há espaço para a dissidência interna. A BTV de hoje, é deprimente; transformou-se numa feira de amanuenses embevecidos com a visibilidade pública. Vivem a ditadura parola do messianismo imposta pelo atual Presidente. Quer este, quer os restantes membros do Conselho de Administração - entre os quais, surpreendentemente, o ídolo dos benfiquistas Rui Costa -, quer o atual Treinador, vivem em negação, ignorando que não é por acelerar a fundo que um fia se transforma num ferrari. Não é por muito querer que um bom treinador se transforma num treinador de topo. É o caso.
 
   Ao querer proteger Rui Vitória, Filipe Vieira, provocou o contrário, sujeitando-o a uma inevitável saída humilhante e ao clube, a mais um vexame. Fica assim demonstrada a incapacidade do atual corpo diretivo numa área vital. O Benfica necessita de um novo fôlego. Um fôlego destituído de patéticos messias, recentrando o clube no essencial; nas vitórias, e não em projetos de hotelaria, na construção civil, no ensino, ou outros; na defesa do clube perante as ameaças externas que, farisaicamente, se abatem sobre si. Enfim, um clube à imagem do  famigerado quarto anel; sem medo nem rabos de palha.

PS: Com que motivação entraram em campo os jogadores de origem externa depois de o Presidente do clube, no êxtase das comemorações do Estádio, ter afirmado que só com jogadores formados internamente o Benfica poderia almejar ao título europeu? Uma imprudência idiota de consequências imprevisíveis mas seguramente nefastas.
 
Foto: Rua Peniche de cima
 
Peniche, 3 de Novembro de 2018
António J. R. Barreto

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O momento do Benfica (notas 1)

      Alvo de um ataque externo sem precedentes e sob forte contestação interna, a atual Direção do Benfica,  a pretexto das comemorações dos 15 anos do novo estádio, fez uma síntese do trajeto dos feitos desportivos e infraestruturais do clube-SAD sob sua égide, caracteriza a condição económica e financeira atual daquele e define os objetivos desportivos de médio prazo bem como a estratégia em curso para o efeito. Um ato de liderança notável, visando a união e motivação interna e, simultaneamente, um sinal de confiança e apaziguamento para o exterior.

 
   Porém, tudo se esboroará, se os resultados desportivos ficarem aquém da expetativa dos adeptos; daí a importância das próximas medidas de gestão desportiva que venham a ser tomadas...ou não. 
 
   O que ouvi ao Presidente do Benfica suscita-me alguns comentários:
 
   Julgo que há um equívoco quanto ao entendimento da "metafísica" benfiquista. O Benfica, o melhor Benfica, o Grande Benfica, está no imaginário dos 14, 15 ou 16 milhões dos seus adeptos e é simbolizado pela nobre águia; um clube dominado pela inquebrantável  e insaciável vontade de vencer - em qualquer terreno, contra qualquer adversário, contra qualquer orçamento - onde reina a arte de bem interpretar o futebol - com garra e respeito pelos adversários, mas implacável; um clube que é, simultaneamente, bandeira identitária de muita gente e suscita o respeito geral; um clube que é, também, uma bandeira de um país, Portugal. Por conseguinte, a origem da grandeza do Benfica é imaterial; é aí que tudo começa e é aí que nascem alguns equívocos. Por exemplo; não são os benfiquistas que têm de se adaptar aos conceitos de benfiquismo dos dirigentes, são estes que devem adaptar as suas estratégias de gestão ao benfiquismo dos adeptos!
 
   Assim sendo, não fica bem ao atual Presidente dizer aos benfiquistas que estão mal habituados, aludindo aos títulos conquistados sob seu consulado. É que, aqueles, habituaram-se a ganhar muito antes. Pela mesma ordem de ideias não fica bem a um treinador do Benfica declarar publicamente, para adepto ouvir, que, temos de aprender a viver com o insucesso! A consequência deveria ter sido o imediato e discreto convite à saída do clube.
 
   Vem a talhe de foice referir que, há muitos adeptos - entre os quais me incluo - convictos de que os dirigentes do Benfica não quiseram ganhar o campeonato passado. Pela simples razão de que nada fizeram para o vencer; venderam todos os jogadores com mercado, recorreram a empréstimos falhados e, nem após uma desastrosa e vexatória pré-época, nem em Janeiro, após início titubeante, quando as lacunas eram bem visíveis, "mexeram uma palha" para as suprir. Viu-se pelo desfecho da campanha que poderia ter bastado integrar Odisseias em Janeiro, ou Gaitan, ou Mitroglou, para ganhar. E era possível.
 
   Perante os factos, todas as especulações são legítimas. Na primeira linha dos suspeitos vêm os bancos, os mesmos que congelaram as contas do Benfica no tempo de Vale e Azevedo - uma "rasteira" que haveria de lhe valer pena de prisão -, os mesmos que, ao que consta, reestruturaram, sucessivamente, as dívidas dos rivais e efetuaram doações encapotadas sucessivas a pelo menos um dos rivais, os mesmos que, atualmente, são parceiros de um dos pilares de outros dos rivais na Sport TV.
 
   Não é despropositado admitir que os bancos em causa por um lado, façam lóbi pelos rivais e por outro, dada a conjuntura bancária desfavorável e as diretivas do Banco Central, tenham pressionado o Benfica a amortizar o capital em dívida mesmo antes da data de vencimento da amortização. Acredito nisto. Num primeiro tempo, sem previsão de liquidez, a Direção recorreu à venda de jogadores, desfalcando a equipa, destruindo-lhe a identidade e comprometendo a época. Quando surgiu a solução da antecipação das receitas da MEO, a sorte do campeonato estava traçada e sobreveio o discurso das obras, aplainando a previsível fúria dos adeptos; "não ganhamos mas construímos património"....e não podemos ganhar sempre. Por outro lado, está por demonstrar o interesse do Benfica na antecipação da amortização da dívida; se é verdade que poupa cerca de 16 milhões de euros anuais - grosso modo -, também é verdade que, no período antecipado - julgo que de 3 anos -, abdica de 40 milhões de euros de receita; ou seja, em cada um desses três anos, o Benfica dispõe de menos 24 milhões de euros que poderia investir na competitividade da equipa. Se estou certo, o principal beneficiário da operação foram os bancos e...os rivais.
 
   Também não é despropositado pensar, tendo em conta certas vicissitudes do conhecimento público, que pode haver uma espécie de consenso alargado, mesmo que tácito, ou imposto, envolvendo a Liga a Federação, os principais clubes e até algumas entidades governamentais, no sentido de forjar um campeonato competitivo, "disputado" até à última jornada. A exiguidade de recursos dos grandes rivais do Benfica, com a insolvência a espreitar no horizonte dá alguma consistência a esta suspeita.
 
   Finalmente, não é descabido pensar que, face a todas as entropias veiculadas na comunicação social, associadas ao roubo da correspondência do clube, e, até, à vida empresarial particular do atual Presidente encarnado, o Benfica tenha sido alvo de algum tipo de chantagem com contrapartidas desportivas. Não quero acreditar nisto, mas já percebi que os rivais do meu clube parecem capazes de tudo e que têm muitos aliados, demasiados, e com poder. 
 
Talvez o futuro venha a fazer luz sobre o assunto.

Foto: Marginal Norte em Peniche
 
Peniche, 1 de Novembro de 2018
António J. R. Barreto

O 25 de Abril Visto da História (notas, P7)


O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 
…E esse é um traço característico do atraso português, uma constante da nossa história dos últimos cento e cinquenta anos. Durante o liberalismo, durante a República, e também durante o Estado Novo e ainda depois do 25 de Abril, os quadros políticos dirigentes são recrutados em grande parte - e até em maioria relativa - entre elementos das profissões liberais, entre advogados…. (VJS)

…A necessidade de legislar surge, no fundo, de certo modo, como alternativa à incapacidade de transformar…..(JAS)

Começo a duvidar da utilidade dos intelectuais na vida política dos povos. (AB)

…A Inglaterra…fazendo no fundo as vezes de uma “burguesia dominante” que nunca apareceu em Portugal. De França importava-se a ideologia da Revolução….não apenas a mentalidade, o estilo, o discurso político, o radicalismo verbal, o anticlericalismo radical, mas mesmo as organizações revolucionárias (como é o caso da Maçonaria e da Carbonária), importava-se o jacobinismo – que haveria de ter um papel decisivo na implantação da República em Portugal. (JAS)

   Inglaterra e França encontra-se hoje ensarilhados nas teias das suas próprias contradições face ao fenómeno da imigração, e Portugal parece apostado em seguir-lhes as pisadas, aprofundando os seus equívocos e a coesão social. (AB)

…Ao longo dos últimos dois séculos, a sociedade portuguesa, vive permanentemente entre dois impulsos: um de natureza exterior, que se faz de fora para dentro e de cima para baixo, e que é de sinal desenvolvimentista, transformador, que caminha no sentido da implantação de relações capitalistas; ou outro, de natureza interior, que se verifica de dentro para fora e de baixo para cima, que se faz no sentido da preservação das relações tradicionais contra a tendência invasora da ordem capitalista. (JAS)

   Isto passa-se em qualquer sociedade minimamente aberta, não é exclusivo de Portugal, e é bem mais complexo; o caso da Inglaterra no século XIX ou dos USA no século XX são exemplos dos poucos países que mudaram as suas estruturas económicas a partir de dentro. A ameaça castelhana induziu Portugal à dependência militar externa  - da Inglaterra; a conjugação destes dois fatores aliado à implacável perseguição dos Jesuítas pelo Marquês de Pombal - fechando-lhes as escolas – e à atuação da Ordem do Santo Ofício - que só viria a ser formalmente extinta em 1842 -, talvez ajude a explicar a fraca dinâmica transformadora a que JAS alude e que parece perpetuar-se. Hoje, assistimos a uma transformação estrutural da economia portuguesa, imposta pela União Europeia, com recurso a subterfúgios como o do aquecimento global, do ambiente, ou da produtividade, sem que se perceba bem quem são os efetivos beneficiários desta transformação. (AB)

…Ora…a pequena burguesia constitui uma manta de retalhos…e não pode segregar, de facto, o que Gramsci chama “os intelectuais orgânicos” de uma classe, os partidos. Daí que os partidos surjam em Portugal como fatos que, depois de acabados no alfaiate, partem à procura do corpo social. (JAS)

   Talvez esta seja uma das causas do fechamento dos partidos portugueses à sociedade, devido ao medo de perderem as suas referências doutrinárias, e da distorção da democracia devido ao empenho partidário na mudança dos cidadãos e, absurdamente, na substituição da população, para sustentação dos seus projetos de poder.
Foto Praia de Peniche de cima
Peniche, 01 de Novembro de 2018
António J. R. Barreto

domingo, 28 de outubro de 2018

O 25 de Abril Visto da História (notas P6)


 
O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 

 
….O voto PS, se o voto tem alguma coisa a ver com a prática política dos partidos, então não deixará de ser entendido, prioritariamente, como um voto anti-PCP. …(JAS)

   Foram, pois, os excessos cometidos pelo PCP no período que ficou conhecido por PREC - com a ocupação do aparelho estatal, o domínio dos quarteis, os saneamentos nas empresas, as violações da propriedade privada, as ocupações dos principais jornais - com a “curiosa” participação de José Saramago -, as prisões arbitrárias dos seus aliados do COPCON, a agitação social marginal da sua excrescência sindical, a Intersindical, etc. - que suscitaram o afrontamento do marginalizado PS que lhe viria a granjear confortável maioria nas eleições para a Assembleia Constituinte, seu principal capital político até aos dias de hoje. A ironia atual reside cedência do PS ao PCP pela imperiosa necessidade daquele ascender à governação.

…Torna-se claro que muitos dos atuais dirigentes socialistas são “velhos republicanos”. Entre o PS de hoje e o Partido Republicano de então existem, de resto, aproximações que, podendo não passar de coincidências, não deixam de ser curiosas. …(JAS)

   É certo que até Mário Soares invocou a herança de Afonso Costa sendo recorrente, entre socialistas, as referências à famigerada e duvidosa “ética republicana”. Por outro lado, as ligações à maçonaria de notáveis do atual PS - Vasco da Gama Fernandes, João Soares, António Arnault, José Magalhães, entre outros - também ajudam a consolidar esta tese. (AB)

…durante a I República o desajustamento entre o Estado e a estrutura da sociedade portuguesa terá sido o maior que alguma vez se verificou em Portugal. Veja-se, apenas, o anticlericalismo radical dos políticos republicanos - um fenómeno tão artificial quanto é certo….que o país continuava a ser, na sua grande maioria, um país católico….Por outras palavras, em que medida é que o “espírito do 25 de Abril” correspondeu a um ajustamento do Estado à sociedade Portuguesa. …..se, entre 1910 e 1926 a sobreposição entre a República e o Estado foi uma situação artificial, então é perfeitamente natural que certas lutas que foram da República mantenham ainda hoje uma certa atualidade. (JAS)

   Não há dúvida que o anticlericalismo está bem patente no atual PS, bem como nos restantes partidos de esquerda, não tão radical como então, mas sistemático e persistente. Donde - até pela predominância da doutrina de esquerda no articulado da Constituição - a consagração do Estado Laico, aceitando-se pela defesa do princípio da não discriminação religiosa, não deixa de ser uma afronta à cultura popular dominante, hoje, paradoxalmente, em risco de sujeição à intolerância do islamismo.

…Os mais destacados dirigentes do Partido Socialista português são normalmente oriundos das classes médias e exercem, por outro lado, atividades sem ligação direta, a maior parte das vezes, ao setor produtivo….(VJS)

   Esta característica não é exclusiva do Partido Socialista; ela está presente em quase todos os partidos, grandes ou pequenos. A pequena e média burguesia ou a administração pública são as fontes donde tem brotado o caudal humano político em Portugal. Só o Partido Comunista, nos primórdios, integrava quadros oriundos do operariado ou do campesinato. Quanto a mim, há uma explicação para isto; o povo, operários e camponeses, antes de mais, têm que garantir a sua sobrevivência, o que lhes ocupa todo o tempo disponível. Há poucas décadas atrás muito pouca gente tinha salário; o ganha-pão tinha que ser “arrancado” à terra e ao mar em cada dia por todos os membros da família, desde tenra idade. (AB)
(foto: Peniche, na Praia do Quebrado)
Peniche, 27 de Outubro de 2018
António J.R.Barreto

O 25 de Abril visto da História (notas P5)



 O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais

….constata-se claramente que grande número de partidos que enquadraram politicamente o Boom neocapitalista na Europa do pós-guerra se mostram hoje incapazes de responder, por um lado à dinâmica “integracionista”, e por outro, ao repto de uma esquerda que se adaptou ao terreno da democracia burguesa e aposta a sua cartada no jogo eleitoral….(VJS)

   Em linha com AJS; parece que os socialistas modernos se caracterizam pela falsa adesão às democracias, com o propósito de, pela gradual e sistemática via reformista, atingir os objetivos da sua ideologia, garantindo a adesão do eleitorado graças à prática, insustentável embora, da redistribuição. (AB)

…..O poder operário, se existe - e existe - é, repita-se, nos países ocidentais industrializados – onde o operariado, de facto, tem já nas suas mãos (e não nas polícias do Estado) uma parte do poder…… (JAS)

   Talvez seja esta a justificação do célebre “quanto pior melhor” atribuído ao tradicional comportamento político do PCP; o atraso económico garante-lhe maior audiência junto do eleitorado. “Com efeito, o estalinismo impõe-se como o reverso da medalha do salazarismo, enquanto totalitarismos de sinal diferente - e que reciprocamente se justificam – e enquanto expressões de atraso económico-social e político”. (AB/VJS)

…Na verdade, enquanto nos países onde o movimento social é forte, os partidos aparecem sobretudo como emanações do corpo social, como expressão das tensões existentes no seu interior, em Portugal, os grandes partidos surgem menos como “expressões orgânicas” do movimento social - que é débil - do que como figurinos importados do estrangeiro…(JAS)

   É esta uma incontestável realidade; só agora - em 2018 -, graças aos efeitos da crise económica de 2008 e da consequente radicalização dos tradicionais partidos, a sociedade revela sinais de criar a sua genuína dinâmica política emergindo vários novos partidos e movimentos; é o caso do Democracia 21, do Partido Liberal, do Partido Nacional Renovador, do Partido Aliança, do Movimento Por Uma Democracia de Qualidade, do Movimento Não nos Calamos, do Movimento Chega, e outros. O domínio do aparelho estatal pelos “velhos” partidos e os constrangimentos da “engenharia” constitucional na esfera partidária, porém, eventualmente, inviabilizarão a sua ascensão. Tal, a verificar-se, constituirá a derradeira condenação à morte desta 2ª, ou 3ª, República.

….O PS, que até certa altura tinha vindo a atuar com muita cautela, evitando a todo o custo a marginalização - recorde-se o seu apoio à nomeação de Vasco Gonçalves para o cargo de primeiro-ministro …em prejuízo de Firmino Miguel, o candidato de Spínola - toma agora ele próprio a iniciativa de se demarcar em relação do Poder constituído, passando mesmo a afrontá-lo diretamente…. (JAS)

   Fica pois assente a atenuação da responsabilidade de Spínola na desastrosa nomeação de Vasco Gonçalves para o primeiro-ministro do primeiro Governo pré-constitucional, que revolucionaria a estrutura económica e patrimonial do país conforme o modelo estalinista, ainda hoje não totalmente erradicado. Pelo contrário, confirma-se o alinhamento inicial do Partido Socialista com o Partido Comunista, tornando-o corresponsável pelo descalabro revolucionário. Por outro lado, a posterior dissidência do Partido Socialista teria tido mais a ver com a marginalização a que fora votado pelo PCP, que assumira o controlo do processo, do que por “amor à genuína democracia liberal. (AB)
(Praia de Peniche de Cima)
Peniche, 26 de Outubro de 2018
António J. R. Barreto

O 25 de Abril Visto da História (notas P4)



O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais

…Quando Portugal dispõe, na América, de uma das maiores e mais ricas colónias do mundo - o Brasil - são empresários portugueses que controlam, cá dentro, a maior indústria portuguesa do tempo: os vinhos do Porto. …(JAS)

   É verdade. Foi pela 2ª metado do século XVIII, por ocasião da pré-revolução industrial em que a Inglaterra protagonizava um tremendo desenvolvimento da indústria da tecelagem, com envolvimento da sociedade civil e da Coroa – surgiram então as primeiras PPP na construção e desenvolvimento da rede viária e fluvial para escoamento da produção do carvão e dos têxteis, culminando na mecanização das máquinas de tecer com máquina a vapor, com a constituição das primeiras fábricas e consequente migração dos camponeses para as cidades – que a transformaria no maior produtor mundial. Foi neste contexto que Portugal – através do Marquês de Pombal que haveria de criar a primeira região produtora demarcada do mundo – do Douro, que acabaria por resultar no “Massacre dos Taberneiros”-, estabeleceu um contrato de comércio com a Inglaterra mediante o qual Portugal lhes compraria todos os têxteis de que necessitasse e lhes venderia todo o vinho que produzisse, em regime de exclusividade. O célebre economista David Ricardo haveria de defender os benefícios mútuos deste contrato calculando a razão de troca em 3 para 5; por cada unidade investida, Portugal ganharia três e a Inglaterra cinco. Aqui reside a desvantagem lusa, que haveria de conduzir ao empobrecimento do país ao excluir economias que possibilitariam melhores condições de comercialização. A verdade é que, por esta época, a Inglaterra já era o principal beneficiário do comércio do império colonial português; pelos fretes das mercadorias e policiamento das frotas, bem como pelos serviços de seguros das mercadorias, limitando-se Portugal a cobrar os direitos alfandegários e as taxas portuárias, sem intervenção direta na exploração colonial. Após a vitória sobre a célebre Armada Invencível, com a destruição e afundamento de numerosas naus portuguesas, A Inglaterra dominou os oceanos até à I GM, sendo então superada pelos EUA no domínio marítimo.

…Significativamente, há hoje quem defenda que Portugal morreu (deixou de ser viável) como país independente, na medida em que, como disseste, deixou de dispor de “válvulas de escape” – situa-se neste campo, por exemplo a União Ibérica, mas não só…..(JAS)

….Neste momento, na Europa, parece de facto em vias de constituição uma nova força – que seria formada por partidos comunistas, socialistas e mesmo sociais-democratas, quer de Leste quer de Oeste cujo combate se travaria em duas frentes: por um lado contra o conservadorismo de Moscovo e o seu papel de “Estado-guia”; por outro, contra a hegemonia americana na Europa e os partidos conservadores do Ocidente (como as Democracias Cristãs, os Conservadores ou os Liberais)….(JAS)

   Esta previsão deve ter-se, pelo menos em grande parte, concretizado, considerando o asfixiante centralismo que a União Europeia impõe aos Estados membros, transformando os seus governos em meros agentes executivos das suas intermináveis diretivas, sobrepondo estes à sociedade Civil, condicionando a liberdade económica ao “planeamento central” conforme a visão do mundo da elite constituinte do Conselho Europeu, imiscuindo-se, cada vez mais, em cada detalhe da vida dos cidadãos. Uma clara herança do extinto totalitarismo soviético, que, sobretudo a partir de 1989, deverá ter espalhado na Europa, algumas “metástases”.
Peniche, 25 de Outubro de 2018
António J. R. Barreto

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O 25 de Abril Visto da História (notas P3)



O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais


….Quando a burguesia portuguesa aposta no 5 de Outubro, quando acredita que a posse da máquina do Estado, a possibilidade de fazer decretos, lhe garante a possibilidade de resolver problemas que não foi capaz de resolver de outro modo, de maneira orgânica, transformando as relações produtivas na base da sociedade e roendo nesse processo os alicerces do mundo feudal, a burguesia portuguesa, dizia, acredita numa miragem. Com efeito, a posse do Estado é apenas a posse da arma legal – e a arma legal só tem utilidade quando corresponde ao ajustamento da lei a uma realidade que já existe.

   Não me parece; a lei pode mudar a realidade, e, muitas vezes, muda. Não mudará as estruturas profundas do indivíduo nem de toda a sociedade; mas define e incentiva uma tendência que acabará por ocorrer, dependendo da relação de forças que entretanto se verifique, tratando-se de democracias. (nota AB).

…Depois do 25 de Abril vamos assistir a um processo muito semelhante ao que se observa durante a I República - e que constituiria uma nova expressão da incapacidade dos diferentes partidos políticos para assegurarem por si próprios a gestão da sociedade civil. ….Regressam em cheio os velhos mitos da burguesia republicana – os partidos lançam-se, outra vez, na conquista do Estado, acreditando que isso lhes venha a permitir a construção de um país à medida dos seus programas. E a conquista do Estado passa, primeiro, pela obtenção de apoios militares.

   A este respeito, a penetração que o partido comunista e a extrema esquerda conseguem a certa altura no interior das Forças Armadas, e em particular do MFA, é um exemplo significativo. ...refira-se a Assembleia de Tancos - cujas conclusões foram (a enorme distância) mais decisivas que as de qualquer outra assembleia política civil…. (JAS)

…O advento da burguesia na História é marcado pelo surgimento de uma nova realidade: o internacionalismo. A problemática ganha uma nova “dimensão”. Os problemas deixam de ser locais, regionais ou mesmo nacionais para passarem a fazer parte de um todo que já tem pouco a ver com as nacionalidades. Este fenómeno é particularmente sensível na Europa industrializada e burguesa – onde o problema das fronteiras nacionais tem já pouco ou nenhum significado. …(JAS)

   Uma perspetiva pouco percetível à época, à grande maioria da população, mas hoje bem evidente. Não sei se a origem desse internacionalismo é exclusivamente burguesa, julgo que há, também, um internacionalismo ideológico simultâneo; uma nova dicotomia em disputa pelo controlo global, geradora de revivalismos nacionalistas, desde logo na maior economia mundial, mas também em alguns países europeus, nomeadamente do leste.

…Proletariado e burguesia são duas faces de uma mesma realidade – de um mesmo mundo. E só no momento em que a burguesia, como classe dominante, conquista o Poder, é que o proletariado tem a oportunidade histórica de se definir – por oposição a ela e ao seu símbolo, o Estado -, organizadamente, enquanto classe. Até lá, proletariado e burguesia estão condenados a lutar lado a lado pela subversão das estruturas tradicionais. …(JAS)

   Esta espécie de profecia não se concretizou, creio que pela asfixia da sociedade civil provocada pelo exacerbado centralismo estatal; a transformação das estruturas económicas tradicionais está a ser impostas pela União europeia e as sociais, atualmente, pelo governo de formação marxista, conjunturalmente comprometido com o pós-modernismo.
 
Peniche, 24 de Outubro de 2018
António J..R. Barreto

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O 25 de Abril Visto da História (notas: P2)


O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 
….Será curioso observar, a propósito, o que se passa durante a guerra civil de 1832-1834, quando a burguesia portuguesa, desempregada depois da independência do Brasil, se põe a reboque das forças liberais - de um exército de políticos, exilados – não para fazer prevalecer na sociedade portuguesa a sua ordem, a ordem burguesa, mas para desapossar o clero e a nobreza das suas terras e para se meter depois, ela própria, nas terras do clero e da nobreza, conservando praticamente intactos os privilégios que antes essas duas classes usufruíam, prolongando a sociedade feudal. ....(JAS)

…..gostaria de recordar o que me disse um dia um reconhecido historiador: que Salazar tinha deixado o Portugal em condições ótimas para o estabelecimento de um “regime socialista” ( e socialista, neste caso, entre aspas, evidentemente). …(JAS)

….Aí tu tocas num aspeto muito importante: Portugal é um país onde nunca se verifica um livre jogo de forças, onde tudo se resolve através de leis, de decretos. … (JAS)

…Apenas um setor se mantém aparentemente invulnerável ao regresso ao salazarismo: o Ensino. …(VJS)

…A burguesia em Portugal, satisfaz-se com a pilhagem colonial – e com o seu negócio. Não se forma em Portugal uma burguesia industrial. .. (JAS)

….Não se coloniza o Império – conserva-se o Império. Não se exploram os recursos do Império – mantém-se o Império. O Império é “terra sagrada”, é Pátria - e como tal, inalienável. …Com Portugal passa-se exatamente o contrário: a possibilidade do regime e do Império sobreviverem reside em não desenvolver, em paralisar.”… (JAS) 

   Aqui, JAS revela surpreendente ignorância; na sequência da 1ª GM, Portugal ficou obrigado pela comunidade internacional a intensificar o desenvolvimento das suas colónias. A partir do início dos anos sessenta – em particular no consulado marcelista e em colaboração com a CEE - e até ao 25/04/74, o crescimento económico - agrícola e pescas, industrial - bebidas, minérios, petróleo - e comercial, com o acesso direto a financiamento europeu e americano - sobretudo de Angola e de Moçambique, foi simplesmente espantoso, impressionante - os dados estão acessíveis -, e esta, sim, terá sido, quanto a mim, a principal causa do empenho internacional no movimento independentista, suportado politicamente pelo reconhecimento do “direito dos povos à autodeterminação”, na sequência dos acordos pós-guerra - 2ª GM. (nota AB).

“…Não é por acaso que setores oposicionistas identificados hoje com o Partido Socialista acorrem a apoiar vivamente as teses neocolonialistas, ditas “federalistas”, que Spínola começa a defender quando era ainda governador da Guiné. …(VJS)

….Uma das teclas em que bate constantemente a propaganda da República é a da incapacidade do aparelho monárquico para garantir a integridade nacional, para manter as colónias – donde a necessidade imperiosa de o derrubar. Ora não deixa de ser curioso estabelecer um paralelo entre uma primeira República que surge no palco do país a defender Portugal da perda à vista das colónias e uma segunda República que, precisamente ao contrário, aparece a afirmar a necessidade de Portugal oferecer às colónias a possibilidade de se autodeterminarem. ….(JAS)

   Mudança, afinal, consequência da nova ordem mundial, adotada no pós 2ª GM e bandeira do PCP e, mais tarde, de Mário Soares e do Partido Socialista. (nota AB)
 
Peniche, 22 de Outubro de 2018
Antonio J.R. Barreto