Desporto

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Fado

 De tudo que tenho lido sobre o fado é o ensaio do inglês Barry Hatton, no seu livro “Os Portugueses” que melhor o define:

"(…) Apesar de ser decerto melancólico e lacrimejante, o fado não é acerca da resignação. Há nele um arrebatamento consentido. É acerca da coragem, de uma celebração da vida, apesar dos obstáculos, acerca da fé. A paixão da vida espreita nas suas entranhas É um lamento alegre. É isso que nos arrepia a pele, mesmo que não consigamos compreender as palavras. Os cantores do fado poderão chorar a sua desgraça, mas não desistem, nem nunca desistirão. Maldizendo a infelicidade, é o sofrimento é o sentimento íntimo que é contado, forte, em público, e o desafiador cantor solitário continua de pé no final, numa exibição metafórica da resistência portuguesa. Uma sessão de fado oferece um cativante solilóquio - o do intérprete contra os elementos.”

Fado - José Malhoa

Peniche 21 de Fevereiro de 2021

António Barreto

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Marcelino da Mata e o Benfica


   Não sei se Marcelino da Mata tinha simpatia por algum clube. Nem tão pouco sei se gostava de futebol. O seu falecimento trouxe à tona a ferida, ainda bem viva, dos traumas da guerra colonial. Em quarenta e seis anos de democracia, da narrativa da tolerância, não se fez a tão necessária reconciliação nacional. Não se deu o abraço fraterno sem o qual em vez de progresso viveremos um permanente mal-estar social, económico e político. Pelo contrário, alguns Partidos empenham-se em remexer, avivar, infetar a velha ferida, congregando para a sua esfera as alegadas vítimas, apelando ao ressentimento e à vingança.

   Marcelino da Mata foi um português negro que arriscou a vida pela sua Pátria. Que se distinguiu por atos de bravura ao nível dos mais distintos portugueses. Na guerra colonial, ninguém tem as mãos limpas; nem os guerrilheiros das forças independentistas, nem os que fugiram da guerra, ainda que por objeção de consciência, nem os arautos da paz que semearam, e semeiam, guerra por todos os continentes. Nem sempre militar, mas guerra. Guerra com vítimas.

   O que os vis detratores de Marcelino da Mata não suportam é que, o Estado Novo, regime que consideram fascista, tenha atribuído a um negro as mais altas condecorações. Um negro que, entrando nas Forças Armadas como soldado raso, atingiu o posto de tenente-coronel. O elevador social, bandeira das democracias, também funcionou no regime autoritário de Salazar. A qualidade racista que, teimosamente, atribuem ao povo português, desmorona-se com o caso de Marcelino da Mata. E há muitos casos como o dele. Não com notoriedade idêntica, mas, sim, há muitos mais. Todos os grandes chefes das forças independentistas, com exceção, em parte, de Eduardo Mondlane, foram formados nas escolas portuguesas ou em escolas estrangeiras, financiados por Portugal.

   Em quarentas e seis anos de democracia, à exceção de um ou outro caso - atualmente o Primeiro-Ministro e a Ministra da Justiça -, menos que os dedos de uma mão, não se vêm negros nem ciganos, nem pessoas de outras etnias, entre os quadros partidários, e, por inerência, nem no parlamento. Nem na alta administração pública. Nem nas administrações locais, salvo um ou outro caso. Tal demonstra que a retórica do racismo, da igualdade e, já agora, da liberdade, como bandeira da democracia, está bem longe da realidade. Não passa disso mesmo, retórica, instrumento político, proselitismo.

   Marcelino da Mata foi de novo enxovalhado, agora num momento que deveria ser de silêncio e respeito, pelos herdeiros ideológicos dos que o torturaram violentamente no RALIS. Dos que perseguiram e ameaçaram Jaime Neves e a sua família, apesar de já retirado da vida ativa.

   Marcelino da Mata é um símbolo do Estado Novo. E é essa qualidade que a esquerda quer destruir, denegrir, enxovalhar. Transformar um bravo militar num vil assassino a soldo do “tenebroso ditador”. Segundo estes apátridas “defensores da liberdade”, a Pátria de Marcelino não deveria ser a que ele escolheu, mas a que eles gostariam que fosse.

   O Benfica é alvo do mesmo fenómeno. É visto pelos mesmos setores da sociedade como símbolo do salazarismo. Como um alvo a abater. Isso mesmo se verifica na comunicação social, escrita e audiovisual, onde, sistematicamente, se corrói a imagem do clube, por vezes sordidamente. Mas também a nível institucional se assiste ao silêncio e, por vezes, desdém insultuoso com que os assuntos do clube são tratados. Tal abrange, não só, as instituições desportivas, onde é notória a atitude persecutória, ao nível do jogo e do sancionamento disciplinar, como as instituições públicas, governativas e judiciais, permissivas relativamente aos detratores do clube e diletantes nas ações de ressarcimento levantadas por aquele.

   Da mesma forma que votam os ex-combatentes do ultramar ao desprezo por não terem derrubado o regime, culpam o Benfica por ter sido utilizado pela propaganda salazarista. Clube multirracial, nos anos 60 e 70, a excelência do seu futebol suscitou a admiração geral fora de portas. Num país pequeno e pobre um clube dava cartas no futebol internacional. Com jogadores pretos e brancos, alguns filiados nos movimentos nacionalistas africanos - Santana e Coluna -, onde, pela primeira vez num clube europeu um negro era Capitão de equipa, o Benfica, paradoxalmente, praticava a democracia interna e albergava dirigentes antifascistas, como Ribeiro dos Reis e Borges Coutinho.    

   Porém, foi uma lufada de ar fresco no regime autoritário, que concitou um outro olhar externo sobre o pequeno Portugal. Um microcosmos do projeto de Salazar de construção dum país multirracial e pluricontinental. Um microcosmos de sucesso, agregador dos portugueses de aquém e de além-mar, que servia a um regime autoritário. É isto que certos setores da sociedade portuguesa, as esquerdas, não perdoam ao Benfica. É este fator que tem sido explorado ad nauseum pelos seus inimigos, abertamente nuns casos, implicitamente, cobardemente noutros.

   Enxovalham Marcelino da Mata, manifestam-se pela destruição dos brasões da Praça do Império e pela demolição do Padrão dos Descobrimentos. Acusam os portugueses de racistas, homofóbicos e xenófobos, vilipendiam o Fado e a Igreja, e ostracizam o Benfica. Apavoram-se com as alusões ao salazarismo quando o popular clube encarnado ganha. Toleram-no, mas num plano secundário, subjugado às virtudes da “democracia”. Em Portugal, os ciclos desportivos seguem os ciclos políticos. E há políticos que fazem prova de vida e de filiação “democrática” perseguindo o Benfica e os seus dirigentes.

 Os benfiquistas, onde quer que estejam, o que quer que façam, de todos os extratos sociais e etários, devem tomar consciência desta realidade e defender o seu clube.

                                 

Peniche, 20 de Fevereiro de 2021

António Barreto

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O Abandono do Ultramar

 O Caso da Guiné:

   De Maio a Junho de 74, as delegações de Portugal e do PAIGC debatem os termos do reconhecimento da independência da Guiné. O lado português foi representado por Mário Soares, Almeida Santos, Jorge Campinos e Almeida Bruno, e o PAIGC por Pedro Pires e José Araújo. O General Spínola dera ordens precisas ao tenente-coronel Almeida Bruno para salvaguardar os interesses dos oficiais e sargentos dos batalhões de comandos e dos chefes das milícias, constituídas por cerca de 20000 homens (os guerrilheiros do PAIGC eram cerca de 6000).

   Porém quando, na sequência dos acordos de Argel, Portugal reconhece o estado da Guiné-Bissau, não foi incluída, nem na ata, nem nos respetivos anexos, qualquer cláusula de salvaguarda da segurança dos militares portugueses negros. Assegurou-se-lhes o pagamento dos salários até 31 de Dezembro de 1974, o pagamento das pensões de sangue, de invalidez e de reforma e colaboração na reintegração na vida civil da Guiné dos soldados desmobilizados, em especial dos graduados e comandos.

   O governo Português ignorou a Lei da Justiça Militar do PAIGC que condenava à pena de morte por fuzilamento todo o guineense que tivesse combatido ao lado das forças portuguesas ou, de alguma forma, colaborado com elas, considerando-os traidores.

   Centenas de militares e cidadãos portugueses africanos foram chacinados, fuzilados na solidão das matas, ou em espaços públicos, e atirados para valas comuns.

   A transferência de aquartelamentos decorreu num ambiente de confraternização entre militares portugueses e guerrilheiros do PAIGC. A “revolução de Lisboa” tornara vencedores os que não tinham conseguido vencer no campo de batalha.

   Em agosto, as três unidades de fuzileiros africanos, os DFE 21, 22 e 23, são desativadas e, a contragosto, desarmadas, permitindo-se-lhes ficarem com dez G3 por unidade e algumas pistolas, com vista à manutenção da segurança das instalações e do pessoal metropolitano. Disciplinados, leais e confiantes, os militares acataram as ordens, recusando a oferta de integração na marinha do PAIGC, preferindo regressar a suas casas.

  Na turbulência de abril, o competente general Bethencourt Rodrigues, que substituíra o general Spínola é, por sua vez, substituído pelo coronel Mateus da Silva, e este, finamente, pelo tenente-coronel graduado em brigadeiro Carlos Fabião, como Alto-Comissário. Mais um equívoco do general Spínola.

   Em Moçambique, a bandeira portuguesa é arrastada pelas ruas de Lourenço Marques e em Angola, Pezarat Correia desarma os brancos retirando-lhes qualquer veleidade de defesa dos seus interesses. Para a História fica a vergonha das unidades do Exército obrigadas a abandonar os quartéis em cuecas. Outro feito de abril que “ficaria bem” em qualquer muro encomiástico.

   “Na Guiné, ainda antes da independência e à medida que as Forças Armadas portuguesas retiram, explode o sentimento de vingança do PAIGC contra os seus concidadãos que estiveram ao lado de Portugal, e começam os assassinatos.

    A primeira vítima é o tenente Abdulai Queta Jamanca, que pertencera à 1ª Companhia de Comandos Africanos e participara na operação “Mar Verde”, um herói condecorado pelo general Spínola. Jamanca era um mito entre os africanos, um príncipe local que, servindo então na Companhia de Caçadores 21, em Babadinca, foi fuzilado naquela localidade após ter sido preso numa horta perto de sua casa.

   (…) Logo a seguir ao 11 de Março de 1975 em Lisboa, o PAIGC lança uma enorme operação de limpeza entre os ex-soldados, os ex-marinheiros e os  ex-milícias, portugueses e guineenses, com o argumento falacioso de que pretendiam desferir um golpe de estado na Guiné. No 11 de Março planeara-se, em Lisboa, a “Matança da Páscoa” com cerca de 500 personalidades elencadas pelo MDP/CDE (braço “intelectual” do PCP) e eliminar ou aferrolhar pelo COPCON e Luar. Na Guiné, largas centenas de antigos militares são presos, torturados e fuzilados (500, segundo as autoridades informaram posteriormente, 1000 de acordo com os seus companheiros sobreviventes). Muitos dos prisioneiros são pendurados pelos pés e chicoteados até à exaustão. Outros obrigados a carregar às costas gigantescos pneus de Berliet com as respetivas jantes.

   Joaquim Baticã Ferreira, rei manjaco e antigo deputado da Assembleia Nacional Popular, muito querido do seu povo, credor de grande consideração por parte das autoridades portuguesas, e Didi, um sargento dos comandos africanos natural de Cdjindjaça - povoação um pouco a norte de Bissau -, são fuzilados depois de julgamento sumário. Para os humilhar, amarram-lhes as mãos atrás das costas e, de joelhos no chão, nem lhes dão o direito a defender-se. Aquilo a que chamaram julgamento durou apenas um minuto.

   Os fuzilamentos não param. Nas matas, em aeroportos, nos campos de futebol, na presença das populações, centenas de guineenses, cujo único “crime” foi terem sido leais à sua Pátria, acabam por ser sumariamente executados.

Os linchamentos continuam até aos anos 80, sob as ordens de Luís Cabral, ao tempo, Presidente da Guiné. Os corpos são atirados de qualquer maneira para as valas comuns nas matas de Jungudul, Cumeré, Portogole, Mansabá e Mansoa e, pretendendo que tudo tivesse um ar de legalidade, era então passada uma ingénua certidão de óbito – muitas vezes em papel timbrado e selado com as armas de Portugal -, na qual se atestava que “faleceu por fuzilamento um indivíduo do sexo masculino…”

   Questionado, em 1994 pelo jornal “O Diabo” sobres estes fuzilamentos, o brigadeiro ex-Alto Comissário da Guiné Carlos Fabião, “herói de Abril” respondeu com um lavar-de-mãos endossando as responsabilidades para o embaixador Sá Coutinho. Este, por sua vez, reconhecendo ter tido conhecimento de algumas perseguições considerava que tal informação não devia passar as paredes da embaixada!

   Foi “Nino” Vieira, líder do golpe militar de 14 de Novembro de 1980, que depôs o Governo de Luís Cabral, que pôs fim a esta chacina. Em 22 de Novembro, “Nino”, procurando legitimar o golpe que o levou ao poder, conduz os diplomatas acreditados e os jornalistas às valas comuns, demonstrando a barbárie do regime de Cabral.

   Este viria a exilar-se em Portugal onde viveu e morreu tranquilamente enquanto “Nino” Vieira, o respeitado combatente do PAIGC viria a ser assassinado num golpe idêntico ao que o levara ao poder.

   Os testemunhos dos atos sanguinários, tenebrosos, de Luís Cabral a que a administração portuguesa do regime de Abril fechou os olhos, são violentos e convocam-nos a repudiar a narrativa construída por socialistas e comunistas acerca das virtudes da “Revolução dos Cravos”.

   Foi Luís Cabral que ordenou o assassinato dos três majores em Teixeira Pinto, quando estes, de boa-fé, desarmados, se dispunham a negociar a paz com elementos do PAIGC com tinha sido combinado. Spínola escapou por mero acaso.

   Foi Luís Cabral, cordialmente recebido em Portugal após deposto, que mandou derrubar as estátuas de Teixeira Pinto, Diogo Gomes, Diogo Cão, Honório Barreto e D Henrique. Só a estátua de Maria da Fonte, na Praça do Império, escapou à sua sede de vingança.

  Foi Luís Cabral que encarcerou militares portugueses num paiol de munições em Farim, onde muitos morreram de claustrofobia e dos outros ninguém conhece paradeiro.

   Foi Luís Cabral que, de 1976 a 1978 prendeu e fez desaparecer vários militares portugueses, constando tê-los mandado para Angola combater ao lado do MPLA, contra a UNITA, donde nunca regressaram. E por cá, também nenhuma das autoridades quis saber.

   Foi Luís Cabral que mandou trazer do Senegal os militares portugueses que lá se refugiaram, mandando-os fuzilar em Cuntima (fronteira) e Bafatá, onde, num só dia, no ano de 1975, foram mortas 480 pessoas, confirmadas à rádio pelo Ministro do Interior de Cabral.

   Foi Luís Cabral, réplica do tenebroso Idi Amin Dada, que ordenou fuzilamentos em Cuntima, Farim, Mansôa, Bissorã, Mata de Mansabá, Mata do Jugudul, Madina Mandinga, Ponte Caió, Cumeré, Bula, Teixeira Pinto e Bolama. Foi aqui, em Bolama, que o militar português Isac Dias Ferreira foi enfiado num saco, regado com gasolina e queimado.

   Foi Luís Cabral que, depois de mandar fuzilar o furriel “comando” Anastácio Ferreira (Didi), impediu a família de fazer o seu funeral, atirando-o, como se fosse um saco de batatas, para uma vala comum.

   Foi Luís Cabral que, durante 6 meses proibiu a venda de alimentos às populações para as obrigar a lavrar os campos, causa do golpe de 14 de Novembro de 1980, que o destituiu. Três dias antes tinha mandado fuzilar o capitão “comando” Adriano Sisseco, o capitão Zacarias Saiegh e o tenente Sicre Marques Vieira, todos atirados para uma vala comum.

    Foi este homem que as autoridades portuguesas acolheram, cordialmente, para não dizer encomiasticamente, como uma espécie de herói na reforma.

   Depois disto e do que se passou em Angola, na Guiné e em Timor, não me venham falar nas hipócritas utopias de abril com que iludiram os pobres portugueses nem na “descolonização exemplar.” Os “heróis de Abril” têm as mãos manchadas de sangue. Todos.

Ossadas de militares portugueses das valas comuns na Guiné


(Créditos a: “Alpoim Calvão, Honra e Dever” de Rui Hortelão, Luis Sanches de Baiêna e Abel Melo e Sousa)

Peniche, 16 de Fevereiro de 2021

António Barreto

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Operação Mar Verde

   A Operação Mar Verde foi uma ação militar secreta desencadeada em 20 de Novembro de 1970 em Conakry pelas Forças Armadas Portuguesas, planeada e liderada pelo Comandante Alpoim Calvão, com conhecimento e consentimento do General Spínola e de Marcelo Caetano. O seu objetivo inicial consistia na libertação dos prisioneiros portugueses - 26 - e no afundamento das lanchas do PAIGC e da Guiné Conakry. À data da operação, os objetivos eram mais vastos: capturar e levar para Bissau Amílcar Cabral, capturar o Presidente da Guiné Conakry, Sékou Touré e entregá-lo aos opositores do regime, com vista ao derrube deste, e destruir os dois aviões MIG que a URSS tinha fornecido ao PAIGC e ameaçavam a superioridade aérea das Forças Armadas Portugesas.

   Os objetivos iniciais foram alcançados; soltaram-se e trouxeram-se para Bissau os 26 soldados prisioneiros, entre os quais, o heróico e patriota sargento piloto aviador António Lobato - prisioneiro durante sete anos, recusou-se a trair Portugal a troco da sua libertação - e afundaram-se ou incendiaram-se todas as lanchas do inimigo. A captura de Amílcar Cabral e a destruição dos MIG falharam devido a informação deficiente da secreta portuguesa. Removida toda a resistência, nem Cabral estava no Quartel-General do PAIGC nem os MIG estavam no aeroporto. Quanto a Sékou-Touré, alertado na véspera, fugiu apavorado para uma habitação próxima. Quando os operacionais portugueses entraram no Palácio Presidencial depois de removerem a respetiva guarda, encontraram-no vazio.

   Marcelino da Mata participou nesta operação e teve ação de destaque no assalto ao quartel da Guarda Republicana, transformado em prisão política e rebatizado com o nome de Camp Boiro.

 “Da LDG “Montante” larga às, 01h35’ o GA “Óscar”, em quatro botes sintex, conduzidos por pessoal de bordo, que abicam num local da margem próximo da Gendarmerie, o quartel da Guarda Republicana recentemente transformado em prisão política e rebatizado como Camp Boiro. Este grupo era formado por 40 homens, integrando comandos africanos e membros do Front, comandados pelos Alferes Ferreira e Tomás Camará. Dele faz ainda parte um comando africano de créditos largamente firmados, o furriel Marcelino da Mata. Levam como missão principal neutralizar o quartel da Guarda Republicana.

   Ao chegarem ao seu objetivo vêm a sentinela fechar o portão, alertada por populares de que qualquer coisa de anormal se passava. Marcelino da Mata, sem hesitar um momento, mergulha de cabeça pela janela da casa da guarda e elimina com o sabre o sargento que lá se encontra. Vai abrir o portão para permitir a entrada da restante força, mas nesse instante, o alferes Ferreira é morto pela guarda com uma rajada de metralhadora. Investem de seguida pelas casernas e abatem todos os que lá se encontram.

   À medida que o alerta soa na cidade novos reforços começam a chegar à Porta de Armas do quartel, mas são eliminados à entrada. Dentro das instalações os portugueses deparam-se com cerca de 600 presos políticos do regime de Sékou Touré, vivendo, ou apenas sobrevivendo, amontoados em celas exíguas, enxovias sem quaisquer condições, muitos deles maltratados, outros cegos. Todos são libertados. Depois da missão cumprida, o grupo apodera-se de um jeep para transportar o corpo do alferes Ferreira e a saída do quartel faz-se por cima de uma barreira de cadáveres. 

   Resta-lhes ainda tempo para cumprir a ordem inesperada do comandante Calvão para calar a rádio Conakry II, que ainda não fora silenciada, muito embora tivesse sido enviada para terra a equipa “Hotel” exclusivamente destinada a essa missão. A equipa “Óscar” obedece, e dirigindo-se ao edifício onde se supunha encontrar a rádio, destrói-o. No entanto, a emissão continua no ar, pois a transmitir estava, afinal, a rádio Conakry I. Mais uma informação que as forças portuguesas desconheciam.”1

   Esta operação, considerada um dos maiores feitos militares das Forças Armadas Portuguesas, está repleta de peripécias e constitui, ainda hoje, objeto de estudo militar.

   O infame silêncio dos órgãos de soberania relativamente ao falecimento de Marcelino da Mata e aos insultos de que tem sido alvo, mostra o profundo ressentimento que, 46 anos depois, continua a flagelar a sociedade portuguesa. Mal vai uma Nação quando os respetivos titulares dos órgãos de soberania não honram a sua História.

(1Alpoim Galvão, Honra de Dever, de Rui Hortelão, Luís Sanches Baêna e Abel Melo e Sousa)



Marcelino da Mata

Peniche, 13 de Fevereiro de 2021

António Barreto

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Os Pobres (II)

 O Caso Inglês

  Inglaterra foi o país onde mais cedo se tratou o tema da pobreza e que dispõe de mais e melhor bibliografia a este respeito. Gareth Stedman Jones em “An end to Poverty” assegura que as primeiras propostas de eliminação da pobreza, através de apoios sociais estruturados, surgiram na sequência das revoluções americana e francesa e datam da década de 1790.

   O francês Alexis de Tocqueville, em 1835, registou uma estranha contradição nos países europeus segundo a qual os que pareciam mais miseráveis eram os que tinham menos indigentes, enquanto nos mais opulentos parte da população vivia da caridade alheia. Refere o caso da Inglaterra onde os seus campos paradisíacos, paradigma da modernidade, contrastavam com a indigência de cerca de 16 % da população revelada pelos registos das autarquias e paróquias. Em contraste, em Espanha e, sobretudo, em Portugal, observando-se por todo o lado um espetáculo chocante, de gente mal alimentada, mal vestida, ignorante e grosseira, habitando casebres miseráveis no meio de campos meio incultos, o número de indigentes era reduzido. (interessante esta distinção entre miséria e indigência!). M. de Villeneuve calculara que, em Portugal, havia um pobre por cada 25 habitantes (4 %), e antes dele, o geógrafo Balbi determinara o rácio de 1 pobre por cada 98 habitantes (1,1 %).

   Tocqueville desconfiava da indústria. Considerava que a vida do camponês, por mais desagradável que fosse, era menos horrível que a do operário na medida em que aquele tinha as suas carências vitais asseguradas. Chocado com a necessidade de apoio contínuo aos pobres, opôs-se à modernização da agricultura na Inglaterra. Esta reforma deixou muitos agricultores sem terra obrigando-os a migrar para as cidades em busca de trabalho nas fábricas. Com as crises cíclicas do capitalismo os operários acabavam desempregados caindo na indigência.

   Tocqueville considerava que a intervenção permanente do Estado no apoio aos pobres acabaria por “corromper os homens”. Defendia um esquema de mutualidades e montepios em que os trabalhadores contribuiriam para um fundo de apoio cujos recursos não deveriam ficar nas mãos do Estado por este o os não saber gerir. Considerou a caridade individual importante mas insuficiente e que, entre os indivíduos e o Estado, deveria haver entidades intermédias. 

   A consciência pública inglesa despertou para o fenómeno da pobreza no século XIX com as obras de Charles Dickens - Oliver Twist -, de outros ficcionistas como Elisabeth Gaskell - North and South - dos reformadores Henry Mayhew - London Labour and the London Poor - e Charles  Booth - Life and labour of the people in London -, e do antropólogo Friedrich Engels - The condition of the working class in London,  entre outras. Até então vigorava o conformismo com a inevitabilidade da pobreza, “consequência” do ordenamento Divino. Comprovavam-no o hino Anglicano, All Things Bright and Beautiful: “The rich man in his castle / The poor man at his gate / God made them high and lowly/And ordered their estate”. Nas sociedades agrárias relativizava-se a pobreza por se considerar que o povo retirava da terra os bens alimentares essenciais à sua subsistência.

   Contudo havia apoio social aos cegos, órfãos e desvalidos, através de instituições particulares financiadas por fidalgos e industriais - casos dos industriais Robert Owen e Joseph Rowntree -, e pelo poder local - de acordo com a Poor Law, decretada no reinado de Isabel I (1533-1603) - e do sistema Speenhamland - de finais do século XVIII. Em nenhum dos casos se impunha o trabalho aos indigentes. Algo que mudou com a Poor Law de 1834 que os obrigou a trabalhar nas workhouses. A ideia subjacente era a de os desencorajar a declararem-se pobres. Uma crueldade bem patente no romance Oliver Twist, de Charles Dickens, por estigmatizá-los, quando, afinal, eram vítimas do capitalismo.

O conceito de limiar de pobreza foi popularizado por J.C. Booth e a sua London School Board, que o estabeleceram entre 10 e 20 xelins para uma família de quatro a cinco pessoas. Tal resultou do estudo que efetuou no Est End londrino onde verificou que 35% dos residentes viviam em condição de extrema pobreza. Booth alterou a forma como, no início do século, se olhava para os pobres. Enquanto Henry Mayhew e Malthus, viam os pobres como resíduo populacional, gente ociosa deambulando pelos campos que vivia da miséria e do vício. Booth libertou-os do estigma da degradação, considerando-os consequência do desordenamento social e económico. De facto, entre os operários valorizava-se a instrução, a respeitabilidade e a limpeza, comprovada pela análise de diários e trabalhos de investigação. Tal é testemunhado pela obra de J Rose, The Intellectual life of the British Working Class (Yale University Press 2001). De forma que, no final do século XIX os operários se organizaram em sindicatos e fundaram o Partido Trabalhista, cujo líder, Clement Attlee, chegou a primeiro-ministro de 1945 a 1951.

   Contudo, a preocupação ética com a pobreza já vinha de finais do século XVI, vertida na legislação elisabetiana que refletia a necessidade de criação de um sistema de assistência legal, secular e nacional. A compaixão tornara-se política pública. Beatrice Webb, em 1884, no seu diário, reconheceu que as questões sociais eram as mais importantes do mundo contemporâneo tinham substituído o papel da religião. De facto eram as religiões não anglicanas que desempenhavam papel de relevo na assistência aos pobres.

   No final do século XIX, o académico William Beveridge, lançou as ideias que serviram de base à criação do moderno Welfare State. Oriundo da alta classe média, educado em escolas de grande reputação e licenciado em Oxford, Beveridge, não se ficou pela academia, discutiu os temas da prostituição, do trabalho infantil e do desemprego e exerceu voluntariado em instituições religiosas. As suas ideias, fruto das aspirações reformistas do período vitoriano, converteram-se em propostas políticas do seu contemporâneo Clement Attlee, futuro primeiro-ministro trabalhista.

   Nos primórdios do século XX na Inglaterra, havia consenso na dissociação do apoio social de considerações de natureza moral. Com efeito, até os liberais Lloyd George e Winston Churchill defendiam a necessidade de um programa social de iniciativa governamental. Para o jovem Churchill não interessavam as causas que tinham conduzido um trabalhador à pobreza; desde que tivesse efetuado as contribuições sociais e pago o seguro contra o desemprego, tinha direitos.

   Entendimento semelhante tinha Beveridge, dissociando a moralidade individual da política social. No seu livro Unemployment: A Problem of Industry defendia que o desemprego era um problema da indústria e não dos desempregados e que a pobreza era da responsabilidade da sociedade e não dos pobres. Este conceito inspirou as reformas sociais de atribuição de pensões para os velhos, de criação de centros de apoio a desempregados, do Ato Nacional de Seguro e do Beveridge Report de 1942.

   No seu manifesto Let’s Face de Future, de 1945, o Partido Trabalhista considerava que os melhores serviços de saúde deveriam ser assegurados pelo Estado a todos os cidadãos, independentemente do seu estatuto social ou condição económica. Eliminar o estigma da pobreza dependente da caridade religiosa era o objetivo.

   O conceito de pobre foi redefinido, tendo-se alterado o limiar do correspondente rendimento e acrescentando requisitos de natureza cultural e social, de forma abarcar cada vez mais gente.

   Em Portugal foi o Estado que promoveu estudos sobre a pobreza embora de natureza restrita: “O Inquérito Industrial de 1881”, no qual colaborou Oliveira Martins, o “Inquérito sobre o Estado da Indústria da Tecelagem da Cidade do Porto e Situação dos Respetivos Operários” de 1888, o “Inquérito Agrícola: Estudos de Economia Rural da 7ª Região Agronómica” de 1889 e o “Inquérito Industrial” de 1890.

   No final do século XIX, o tema da pobreza estava na moda - até Napoleão III publicou um trabalho sobre o assunto em 1844: The extintion of Pauperism. Circularam alguns opúsculos de caráter geral limitando-se a replicar as teorias da época: J. Borges Pacheco Pereira com o título “Sobre o Pauperismo ou as Classes Indigentes da Sociedade” e J. C. Preto Pacheco com “O Pauperismo e a Associação”.


(Síntese de "Os Pobres" de Maria Filomena Mónica)

Peniche, 9 de Fevereiro de 2021

António Barreto

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Os Pobres (I)

 

   Julgo que este é um tema que preocupa quase toda a gente. A mim também. Por isso decidi aprofundar o assunto, disposto a ler tudo o que apanhar. Maria Filomena Mónica escreveu sobre os pobres - Os Pobres, a Esfera dos Livros. Acabei de o ler. Como sempre que leio qualquer das suas obras, não me arrependi. De escrita agradável, simples, respeitando os cânones gramaticais, M. Filomena Mónica, retrata, em Portugal e noutros países, em especial no Reino Unido, casos de pobreza históricos desde o século XIX; as greves dos operários da Marinha Grande, dos tecelões do Porto e da Covilhã, das conserveiras de Setúbal e dos operários em Inglaterra. Relata os factos; faz um retrato pungente do grau de indigência que se vivia nessas épocas caracterizando as populações afetadas, o tipo de habitações, onde as famílias se amontoavam, a miséria alimentar que subjugava os camponeses, a segregação social nas cidades, a repressão das autoridades e a solidariedade popular. Procurando-lhe as causas, identifica a pobreza nos dias de hoje - 2016 - e compara a forma como as ideologias atuais abordam esta temática. Oriunda de família abastada, católica, Maria Filomena Mónica, ainda adolescente, também teve o seu “pobrezinho”, à boa maneira descrita por António Alçada Batista, nas suas “Peregrinações”. Faz algumas revelações surpreendentes ao descrever a evolução salarial e do Estado Social, desde 1960 aos tempos atuais. Consciente da impossibilidade de se vencerem as desigualdades sociais não se conforma, defendendo a sociedade meritocrática em detrimento da de castas. E termina: “Sim, há pobres em Portugal. Sim, há pobres a dez minutos de minha casa, Sim, é difícil enfrentar este problema”.

   As greves de 1903 no Porto e em Setúbal em 1912 foram, para mim, revelações. Tinha uma vaga ideia da do Porto, desconhecia completamente a intensidade, dramatismo e extensão da mesma. A solidariedade para com os miseráveis tecelões e suas famílias foi notável, total na cidade, mas também dos metalúrgicos de Lisboa, de João Franco - que viria a ser nomeado por D Carlos I para formar Governo -, da população de Setúbal e até dos marinheiros do cruzador D. Carlos I. Algumas deixaram vínculo até hoje, como é o caso de Setúbal, que as gentes do Porto socorreram na revolta da Maria da Fonte com uma força, comandada pelo conde das Antas, enviada por mar e derrotada pelo duque de Saldanha.

   O caso da revolta dos operários das conserveiras de Setúbal foi, também, uma revelação. Ocorrida em plena primeira República, a promessa de democratização política não coibiu o poder instituído de reprimir barbaramente os grevistas, fazendo vítimas mortais.

Um Itinerário biográfico

  Um dos casos de segregação e pobreza relatado é o das criadas. Diz M. Filomena Mónica: “As criadas eram despachadas para destinos variados sem que alguém lhes perguntasse a opinião. Quando, em 1964, a minha irmã Isabel foi viver para Madrid, a minha mãe, “ofereceu-lhe” a Conceição, uma rapariga analfabeta recrutada na aldeia dos meus avós. Ninguém indagou se queria ir, nem quanto desejava ganhar, nem se podia voltar quando quisesse. As criadas eram seres que Deus tinha posto neste mundo para nos servir. Aliás, o tratamento que a minha família dava às criadas não era diferente do que era praticado noutras casas. Provavelmente, até era melhor. “

   Ainda sobre este tema relata uma espécie de tradição que consistia nas relações sexuais dos “meninos da casa” com as criadas, algo que não acontecera com seu irmão por ser demasiado novo na época. Já os seus amigos tentavam convencê-la de que se tratava de relações amigáveis referindo que elas gostavam de ir para a cama com eles. Esta camaradagem de machos horrorizava-a.

Os anos de 1960 e a Revolução de 1974

   As cheias de 25 de Novembro de 1967 - uma das maiores catástrofes desde o terramoto de 1755 - ocorridas na periferia de Lisboa, fizeram entre 500 a 700 vítimas, entre as quais famílias inteiras. Uma tragédia cuja difusão a Censura se encarregou de atenuar fazendo com que tivesse passado despercebida a grande parte da população. Foi aqui, entre lama e feridos, que estudantes esquerdistas e ativistas católicos contactaram pela primeira vez com a miséria.

   Foi nas longas conversas com o seu “irmão mais velho” Vasco Pulido Valente - altamente politizado e culto e que abominava o jacobinismo e pró-comunismo característicos do seu meio - que descobriu a sua vocação de esquerda, por desprezo a Salazar e à sua corte.

   Doutoranda em Oxford com a tese “Educação e Sociedade no Portugal de Salazar”, M. Filomena Mónica, ingressa no ISCTE em Março de 1974 como assistente do professor Sedas Nunes, a convite deste. Assiste aos acontecimentos da Revolução pela rádio e à queda do regime no Largo do Carmo na companhia de Vasco Pulido Valente. Em Junho, farta de aturar “meninos ricos entretidos a brincar às revoluções”, a maioria dos quais pertencente ao MES e ao MRPP, deixa a Faculdade, desistindo da ideia de se juntar aos alfabetizadores dos trasmontanos. Estava na sala de periódicos da Biblioteca Nacional por ocasião do 28 de Setembro, sem ter dado por ele. Notou então que, na oratória revolucionária nunca se falava de pobres; os baladeiros falavam de pão, paz, saúde, educação e habitação sem que alguém entendesse como isso poderia acontecer. Dum lado os operários, do outro os capitalistas destruidores da economia. Seguiram-se os saneamentos, as prisões em Caxias sem culpa formada, as fugas de alguns, de consciência pesada, para Espanha e Brasil, os assaltos dos camponeses do norte às sedes do PCP e as ocupações das herdades do Alentejo pelos assalariados rurais.

   “Nados e Criados Desiguais” foi o programa que elaborou para a RTP a convite do diretor de programas Vasco Pulido Valente, integrado na série “Gente Que nós somos” para a qual contribuíram amigos comuns. Interrompendo a investigação da sua tese, percorreu o país inteirando-se do tipo de vida de cinco famílias socialmente contrastadas. Viu gente pobre. No Alentejo uma criança, o Francisco, ia para as aulas com o pequeno-almoço feito à base de borras de café. Outro tinha de percorrer a pé sete quilómetros para chegar à escola. Alexandre - de Camarate -, Ricardo - do Barreiro -, Carlos - de Odivelas - e Luís Bernardo - de Lisboa - ficaram na sua memória para sempre.

   Retomando a bolsa de estudo em 1975 termina a tese em 1978. Nova Iorque foi o destino seguinte onde, além de algum repouso, pretendia dar aulas. Quando, no Bronx, se deparou com os sem-abrigo e com a indiferença dos transeuntes, que chegavam a passar por cima deles sem notar, compreendeu que, num país que durante séculos cultivara o sonho americano, a pobreza era vista, “não como uma desgraça, mas como um falhanço moral”. Um paradoxo inimaginável no século XX: como era possível, num país onde circulava tanto dinheiro que houvesse tanta pobreza? The Other America, de Michael Harringhton, publicado em 1962 chocou a sociedade americana e o seu Presidente, John F. Kennedy, com a revelação da existência no país de 40 a 50 milhões de pobres. Os negros, muitos deles descendentes de escravos, eram as principais vítimas, preteridos ou excluídos dos mecanismos de proteção social. Contrariamente à realidade europeia, aqui era fácil identificar “as duas américas”; os protestantes anglo-saxónicos consideravam-se destinados por Deus para mandar. Os negros tinham sido importados de África para os servir!

   A controvérsia, nos EUA acerca das causas da pobreza durava há dois séculos. A ideia dominante era a de que, esta, tinha origem nas deficiências pessoais dos trabalhadores e não nos baixos salários, na descriminação ou na exploração. O conceito de pobreza deixou então de estar associado a um limiar de satisfação de necessidades básicas para se fixar na ideia de “pobreza relativa”. Os sociólogos consideravam que havia pessoas que se consideravam pobres por não terem acesso a bens a que julgavam ter direito. Assim, a pobreza ficava associada a “estilo de vida” e à ideia de que havia pobres “respeitáveis” e “não respeitáveis”.

   A “Grande Depressão” de 1930 conduziu à intervenção do Estado na assistência social. Foi então implementado um sistema misto, público e privado, não universal, incoerente e irracional. À campanha de “guerra à pobreza” nos anos de 1960, seguiu-se a da “guerra à assistência” de 1980. Nenhuma delas surtiu efeito. Embora se tivesse verificado uma ligeira melhoria nas condições de vida dos pobres, em termos relativos, piorou. Em 35 anos, o rendimento de 1 % da população duplicou, atingindo cerca de 20 % do rendimento nacional! Enquanto os ricos estavam imensamente mais ricos, os pobres apenas viram ligeiramente melhorada a sua condição. Em 2014, segundo a UNICEF, um terço das crianças americanas eram consideradas pobres; as respetivas famílias, de quatro membros, viviam com menos de 24000$ USD anuais.

   Regressando a Portugal M. Filomena Mónica vota pela primeira vez nas eleições de 25 de Abril de 1975. Escolhe o partido socialista apesar de o considerar demasiado à direita. No seu bairro, gostou de ver ricos e pobres a votar. A universalidade do voto foi tema de discussão familiar. Tema ainda atual, havendo quem considere inadequado um analfabeto ter o mesmo direito a voto que um doutorado. Tal como sucedia no século XVIII ainda há quem pense que os pobres não sofrem. De facto, só quem passa por carências idênticas, ou convive de muito perto com eles, os pode compreender.

   Compreendeu-a George Orwell na reportagem que, durante os anos de 1930, fez em Inglaterra, nas comunidades mineiras de Lancashire e de Yorkshire, escrevendo, ao deixar a comunidade: “Através daquele cenário monstruoso, formado por montículos de carvão, chaminés, pilhas de sucata, canais malcheirosos e caminhos de lama cobertos por cinza, onde ainda se viam as marcas deixadas pelos tamancos, o comboio levava-me para longe (….) À medida que nos movíamos, devagarinho, pelos arrabaldes da cidade, íamos vendo filas e filas de casas pobres, pequenas e cinzentas, dispostas em ângulo reto em relação ao viaduto. Nas traseiras de uma dessas casas, uma jovem rapariga estava de joelhos sobre umas pedras, enfiando um pau pelo cano de esgoto de chumbo, presumivelmente entupido, que vinha do interior da casa. Tive tempo de reparar nela: no seu avental de serapilheira, nos seus tamancos rudes, nos seus braços avermelhados pelo frio. Ela olhou para cima, em direção ao comboio que passava e tão perto estava que quase consegui captar o seu olhar. Tinha uma face redonda e pálida e a cara habitualmente exausta das raparigas destes bairros, as quais, à força de abortos e de cansaço, apesar de terem apenas vinte e cinco anos parecem ter quarenta (…) O que vi no seu rosto não foi o sofrimento ignaro de um animal. A rapariga sabia perfeitamente o que lhe estava acontecer: sabia, tal como eu, quão terrível era o destino que a obrigava a estar ali, sob o frio, ajoelhada nas pedras escorregadias de umas traseiras domésticas, tentando meter um pau no interior de um esgoto nojento.” Poucos escreveram sobre os pobres como George Orwell. Aqueles sempre souberam o que lhes estava e está a acontecer.        

    M. Filomena Mónica

Peniche, 24 de Janeiro de 2021

   António Barreto

   (Continua)

sábado, 9 de janeiro de 2021

Curiosidades da História de Portugal

 Curiosidades:

Como os agricultores sustentavam as elites do Antigo Regime (Monarquia absolutista pré-revolução liberal)

"As dimensões referidas inscreviam-se num conjunto de dispositivos jurídicos específicos que podem ser definidos como a ordem fundiária do Antigo Regime, a qual se reputaria incompatível com o direito civil que o liberalismo pretendeu consagrar. Neste conspecto institucional, incluíam-se, em primeiro lugar, específicas formas de tributação, ou seja, um conjunto de direitos sobre a produção agrícola que os discursos reformista e liberal, de acordo com os próprios conceitos, entenderão como impostos recebidos por particulares. À cabeça vinha, claro, o dízimo eclesiástico, em princípio um décimo de toda a produção agrícola bruta do reino e ilhas. Originariamente, o "Dízimo a Deus" destinava-se ao sustento do clero, mas a verdade é que parcelas dos dízimos podiam ser apropriadas por uma multiplicidade de instituições e indivíduos, entre os quais, além dos párocos, podiam estar a Coroa, o Papado, mitras, cabidos, mosteiros e algumas centenas de seculares, em larga medida através de comendas das ordens militares.
(História Social Contemporânea, Nuno Gonçalo Monteiro em a Revolução Liberal)

Cruzados


Peniche 09 de Janeiro de 2021
António Barreto

domingo, 3 de janeiro de 2021

Benfica 2021

Chegado o mês de Janeiro, a equipa do Benfica está muito aquém da espetativa criada com o regresso de Jorge Jesus. O futebol de ataque, coordenado, versátil, rápido e criativo ainda não chegou. Pelo contrário, não se vislumbra um modelo de jogo. A disciplina posicional, a articulação dinâmica coletiva, a intensidade e a qualidade de passe, são erráticas. Os resultados são escassos; perdida a entrada na Liga dos campeões deixou-se escapar o primeiro troféu da época, a Supertaça. Ainda na disputa da Taça de Portugal e da Taça da Liga, as aspirações à vitória no campeonato permanecem intactas, mas as expetativas baixaram. Sendo inatacável a competência de Jorge Jesus e avultado o investimento em novos jogadores, alguns deles credenciados, como poderá explicar-se a instabilidade competitiva da equipa?

   Antes de mais há que perceber o impacto no treinador resultante da mudança a que se sujeitou. Jorge Jesus atingiu os píncaros da popularidade no Brasil graças à invulgar sucessão de êxitos, entre os quais a desejada Taça Libertadores. Treinador de uma equipa competitiva, o Flamengo, admirado em todo o Brasil, consagrado internacionalmente, Jorge Jesus regressa a um campeonato paroquial, falido, onde abundam e permanecem as velhas e saloias picardias. Com as espetativas de consagração internacional fragilizadas e agravadas pela instabilidade diretiva que se verifica no clube de destino, o Benfica, é natural a emergência dum certo desencantamento e, talvez até, arrependimento. Inevitavelmente, o estado de deslumbramento com que vinha chocou com a mediocridade do estado da arte no velho Portugal e isso refletiu-se no seu ânimo. Talvez Jorge Jesus careça de motivação. Não sei se o atual Benfica e o futebol nacional estará à altura das suas espetativas.

   Em segundo lugar está a construir-se uma equipa nova; todos os setores estão em reconstrução. Poucos são os jogadores titulares que transitaram: Odisseyas, Grimaldo, André Almeida, Pizzi, Gabriel, Taarabt e Rafa, sendo que Grimaldo acaba de regressar de lesão, André Almeida continua lesionado, e Gabriel, após recuperar de lesão, contraiu o vírus, tal como sucedeu a Pizzi e Darwin em plenitude de forma. A agravar tudo isso, um calendário desportivo exigente, no clube e nas seleções, retira, ao grupo, disponibilidade para o treino.

   Em terceiro lugar os efeitos da pandemia estão a revelar-se particularmente nefastos para o Benfica, diretamente, afetando jogadores nucleares em momentos chave, como foi o caso de Pizzi e Gabriel, em vésperas de jogo com o Porto, e indiretamente, retirando ao coletivo o fator motivacional resultante da ausência de público.

   Em quarto lugar neste momento o Benfica carece de liderança eficaz. Com uma situação económico-financeira equilibrada a política de comunicação do clube peca por ausente. Graças a esta política, mantida ao longo dos últimos anos, o espaço público foi totalmente dominados pelos rivais e outros detratores. Ora, se é verdade que só equipas competitivas ganham campeonatos, também é verdade que, no atual contexto do futebol português, isso não é suficiente. Há muito jogo fora das quatro linhas e a vários níveis, começando pelas instituições que supervisionam o futebol, onde a transparência é uma ficção e a atitude persecutória ao Benfica é um facto indesmentível.

   Envolto em sucessivos escândalos bancários e judiciais, limitado por múltiplas idiossincrasias, Filipe Vieira é hoje uma pessoa fragilizada perante a opinião pública e grande parte dos benfiquistas, cada vez mais isolado, sem autoridade moral para travar a batalha ética de que o Benfica e o futebol nacional carecem. Tais circunstâncias criaram um ambiente desfavorável, acentuado pela humilhação do fracasso da contratação do Cavani.  As más exibições e os insucessos desportivos imediatos poderão criar um ambiente depressivo que, inevitavelmente, afetará o grupo de trabalho, com possibilidade de emergência de um novo ciclo vicioso. Julgo mesmo que estamos nessa fronteira.

    O destino imediato do Benfica reside na capacidade do seu atual treinador reinventar e consolidar o futebol da equipa, e da competência da tão enaltecida estrutura suprimir a contento, no mercado de Janeiro, as posições de que a equipa carece. Desta vez não há margem de erro.

Peniche, 3 de Janeiro de 2021

António Barreto             

domingo, 13 de dezembro de 2020

USA - Eleições 2020 (V)

 Economia

  A análise económica do mandato da administração Trump deve dividir-se em dois períodos, o pré-covid - de 2016 até março de 2020 - e o pós-covid - ainda em curso.

A derrocada económica, vaticinada pelos detratores de D. Trump, resultante da sua ascensão à presidência dos EUA, não só não se verificou, como manteve ou superou os indicadores do mandato anterior, no primeiro período. No segundo período verificou-se o maior colapso económico dos últimos 80 anos, nos EUA.

Vejamos o que nos diz a análise da BBC Brasil realizado em 27 de Setembro de 2020, a partir dos relatórios do Escritório de Análise Económica dos EUA:

   O crescimento económico médio anual dos primeiros três anos do mandato de D. Trump foi de 2,5 % contra 2,3 % dos últimos três anos do mandato anterior, sendo que, neste, em meados de 2014 se verificou um crescimento de 5,5 %. Em abril, maio e Junho verificou-se uma contração superior a 30 %; três vezes superior à que se verificou em 1958! Se tal ocorreu apesar da recusa de D. Trump em adotar o confinamento geral, não custa supor que teria sido bem pior se tivesse feito o contrário. Contudo, a recuperação económica tem ocorrido com grande rapidez, estimando-se, no final do ano, uma retração do PIB próxima dos 3 %! Cerca de 1/3 da que se verifica, em média, na Europa, para o ano em curso. Certo também é que, nos últimos 50 anos, houve períodos de maior crescimento do que o que ocorreu na fase pré-covid.

   Quanto aos mercados financeiros, nomeadamente S&P 500, apesar da queda abruta do início de 2020, apresenta uma valorização de cerca de 14 % neste ano até à data e um total de 83 % desde 2016. Já o desempenho do Nasdaq é bem superior, cum uma valorização em 2020 e atá à data de cerca de 30 % e de 171 % desde 2016! Um desempenho sem paralelo na Europa, com todas as bolsas negativas em 2020, enquanto a oriente os índices são os índices chineses que mais se aproximam: Nikkei (13,1 % ytd), CSI 300 (24,1 % ytd), Kospi (24,2 % ytd), Sensex (9,3 % ytd), e BIST 30 (5,3 % ytd). Tal desempenho revela que os mercados confiam nas ideias de D. Trump.

   Relativamente à taxa de desemprego, de 3, 5 % antes da pandemia, era a mais baixa dos últimos 50 anos. Mas é verdade que nos últimos três anos de mandato de Obama foram criados 7 milhões de postos de trabalhos enquanto nos primeiros 3 anos do mandato de Obama foram criados “apenas” 6,4 milhões. Com a pandemia a taxa de desemprego disparou para 14,7 % em abril - a mais alta desde a Grande Depressão de 1930 - tendo sido destruídos, num só mês, cerca de 20 milhões de postos de trabalho, anulando uma década de criação de emprego. Em agosto porém, a taxa de desemprego já estava em 8,4 %, confirmando a rapidez da recuperação económica.

   Os salários médios por hora no mandato de D. Trump mantiveram a tendência de subida iniciada no primeiro mandato de Obama, com uma média anual de 2,1 % naquele e de 2,4 % deste. O efeito da pandemia provocou um aumento abruto dos salários devido ao desemprego dos trabalhadores de baixas qualificações, voltando a baixar logo que se iniciou a recuperação económica, com o regresso daqueles ao trabalho.

   Apesar de ter sido em 1966 sob o mandato de Lyndon B. Johnson que se verificou a maior redução de pobres num só ano - 4,7 milhões de pessoas -, contra 4,2 milhões em 2019, é verdade que foi no mandato de D. Trump que se atingiu o mais baixo índice de pobreza dos últimos 50 anos, 10,5 %, desconhecendo-se ainda a evolução resultante da crise pandémica. Sucede porém que se verifica grande assimetria étnica no que diz respeito à população pobre, com cerca de 18,8 % para americanos negros e de 7,3 % para americanos brancos não latinos.

Conclusão

    Donald Trump é um outsider, um corpo estranho na cena política, rejeitado até por alguns setores do seu próprio partido. Oriundo do mundo empresarial representa uma reação inorgânica da sociedade civil contra o status quo partidário vigente. É visto como uma ameaça pelo espetro político estabelecido, sobretudo pelo setor progressista, este divorciado do país profundo. Apesar do seu estilo algo patético, por vezes grotesco, com uma linguagem imprudente, direta às vezes incendiária, D. Trump tem uma ideia para o país assente nos valores tradicionais, na família, na moral cristã, na segurança, no trabalho e na Pátria. Relativiza a vertente imperialista dos EUA iniciada em 1945, privilegia o comércio internacional baseado no equilíbrio das trocas, defende maior cooperação ativa dos aliados militares naturais, abomina as dinâmicas políticas e económicas prevalecentes assentes na teoria do Aquecimento Global, empenha-se na causa ambiental privilegiando o gás natural e de xisto, denuncia e combate frontalmente os promotores do terrorismo global. A apoiá-lo tem uma vasta população que já não se sente representada pelos partidos tradicionais. As notícias de fraude eleitoral no processo ainda em curso, a confirmarem-se, significarão, o início do último estertor das democracias representativas multipartidárias e o advento de novas ditaduras ou de regimes democráticos de representação direta alcançáveis a partir dos meios proporcionados pelas novas tecnologias tal como revelam alguns estudos do MIT (Massachusetts, Institute Technology).


Fim.

 Peniche, 8 de Dezembro de 2020

António Barreto