Desporto

sábado, 3 de julho de 2021

Os Pobres (XII)

  Salazar e os pobres (Cont)

Paul Descamps (1842/1947), sociólogo belga que lecionou nas faculdades de Direito de Lisboa e Coimbra em 1935 fez um levantamento da sociedade portuguesa publicado em livro com o título “Le Portugal La Vie Sociale Actuelle”. Nele descreve uma família operária em Lisboa: homem, mulher e três filhos. Ele, serralheiro, ela mulher-a-dias, os filhos, aprendizes de serralheiro. Analfabetos os adultos, quase analfabetas as crianças. O quadro incluía bebedeiras diárias do pai seguidas de sovas à mulher. Não sendo pobres qualquer percalço os lançaria na pobreza (hoje é igual). No Alto Douro, Descamps encontrou famílias endividadas, com os homens bêbados e os filhos indisciplinados. Uma refeição típica no Minho incluía, toucinho, pão, batatas e sardinhas (nada mau). As crianças comiam o que calhava e bebiam vinho. A mortalidade infantil era de 200 por mil. (Um aspeto surpreendente face à narrativa atual é que Salazar foi decisivo na publicação do livro de Paul Descamps. Tal contradiz a ideia de que Salazar se empenhava em ocultar a miséria social do país. Nem tal seria possível, ainda que o quisesse.)

   Num episódio ocorrido, em 1939, numa escola primária de 2000 alunos em que um médico lhes perguntou o que pediriam a Salazar, um respondeu que seria “um bocado de pão”. (Mais uma vez, a ideia atual de que Salazar fomentava o analfabetismo, é desmentida pelos factos, a escola de 2000 alunos. Por outro lado, sendo, nesta época, a miséria geral uma realidade - Grande Depressão em 1929, Guerra Civil Espanhola e II GM no início - se um aluno em 2000 pedia pão, o cenário não era tão grave como parece à primeira impressão).

   Um inquérito realizado em Castelo Branco, pela mesma época, revelava uma realidade deprimente; Entre 16000 crianças do ensino primário, 3394 - 21 % -, alimentavam-se mal, 893 - 5,5 % - careciam de uma cirurgia e 512 - 3,2 % - eram retardadas. Porém, a realização do inquérito revelava que havia preocupação com o assunto e que havia um esforço real com a escolaridade da população. (Hoje, 80 anos depois, continua a haver em Portugal crianças com fome. Um inquérito realizado em 2018 na Alemanha concluiu que cerca de 20 % das crianças alemãs eram pobres, apesar dos apoios estatais). Noutro inquérito, realizado também em Castelo Branco, dava conta de agregados familiares atípicos, como o de uma criança que nunca conhecera o pai, cuja mãe desaparecera e que vivia com uma família vizinha - casal com dois filhos. A casa tinha duas divisões e dormiam todos no mesmo quarto, os adultos numa cama e todas as crianças numa tarimba. Mesmo com trabalho, viviam no limiar de pobreza. (Acho espantosa esta solidariedade hoje totalmente inverosímil; abandonam-se as pessoas à intervenção do Estado, que pode, ou não, ocorrer).

   Em 1938, um inglês radicado em Carrazeda de Anciães tinha uma visão curiosa sobre a condição da população local. Reconhecendo que havia pobreza relativamente aos hábitos de consumo da população londrina, que considerava essenciais bens supérfluos, dizia que os trasmontanos se ofenderiam se os considerassem pobres. E, de facto, tinham nas suas quintas tudo o de que necessitavam para o seu dia-a-dia e até para uma emergência. Água canalisada na cozinha não lhes fazia falta. (O comentário que MFM faz a seguir revela o seu empenho em destacar o lado mais negativo da sociedade daquela época: “Caso tivesse assentado arraiais no sul, como Mary McCarthy, teria encontrado gente a reivindicar, não água canalizada, mas uma côdea de pão”).

   Quer no Alentejo, onde predominava a grande propriedade, quer no Douro e Minho, onde a pequena propriedade era o padrão, eram os jornaleiros sem propriedade os mais pobres. Em Figueira de Castelo Rodrigo, em 1943, alimentação diária típica de um jornaleiro consistia em miga de pão de centeio antes de pegar ao trabalho - almoço -, pão seco com uma cebola crua ou queijo ou sardinha ardida ao jantar, e caldo de nabiças sem azeite à ceia. Em Dezembro e Janeiro, a situação piorava devido a falta de trabalho. Segundo o autor do relatório, José Crespo de Carvalho, a jorna de trabalho ia das 9 horas solares ao pôr-do-sol, com uma hora de intervalo ao meio-dia e, na Primavera e Verão, mais meia hora à tarde. O salário diário era de 10$00 e litro e meio litro de vinho para os homens e 5$00 secos para as mulheres. As mancebias eram raras e o analfabetismo situava-se nos 60 %.

   Em 1950, um relatório de Adelino Martins de Almeida sobre Casais do Douro, refere que os proprietários evitavam os trabalhadores locais, que consideravam desleixados e preguiçosos, apesar de miseráveis. Preferiam os trabalhadores beirões, sóbrios, cuidadosos, eficientes e submissos, contratando-os através do rogador. Este contratava os diversos profissionais da lavoura; vindimadores, podadores, apanhadores de azeitona, cavadores, etc. A roga da Quinta das Carvalhas para a vindima, por exemplo, contava com 300 pessoas. A alimentação era deplorável, constando de um caldo mais apropriado a suínos e uma sardinha salgada.

   Américo Gomes Lopes, num relatório de 1951 sobre a freguesia de Vila Nova de Tazem, considera que o nível de vida das populações locais, não sendo dos mais baixos no mundo rural era muito reduzido. O desregramento moral associado ao consumo de vinho era geral. Os trabalhadores recorriam ao vinho para enfrentarem a dureza do trabalho agrícola. Na freguesia havia 11 tabernas. O horário de trabalho era de sol a sol e os salários diários eram de 12 a 15 escudos para os homens e de 6 a 8 escudos para as mulheres. O padrão familiar incluía 3 a 4 filhos e cerca de 1/3 das famílias vivia mal. As mais pobres viviam em casebres de uma só divisão dormindo todos juntos sem cama decente, entre imundice. Aos domingos e dias santos alguns homens refugiavam-se nas tabernas, onde bebericavam e jogavam cartas, apesar de, muitas vezes, a família chorar de fome.

  Na freguesia do Fontelo, Viseu, a situação dos trabalhadores era menos dramática. João da Silva, em 1952, considera que era melhor do que a das populações vizinhas devido ao facto de possuírem alguma terra. Além dos salários, os trabalhadores tinham direito a alimentação. Antes de pegar, ao nascer do sol, havia o mata-bicho, que constava de figos secos e aguardente, às 9 horas, e pelas 1 ou 2 da tarde tinham almoço, o jantar consistia em caldo, sardinha e 2,5 decilitros de vinho.

   Em 1953, um relatório de Adalberto Navarro e Rosa, referia que, na freguesia de Cambres, a alimentação dos jornaleiros variava com a época: ao almoço, sardinha, oferecida pelo patrão, com broa, levada de casa pelo trabalhador; ao jantar, caldo, engrossado com farinha ou com feijão com massa temperada com um fio de azeite, e couves, seguido de uma tijela de arroz com feijão, bacalhau ou tomates. Um luxo tendo em conta o panorama geral.

   No caso de Alfândega da Fé, José Correia Barrigas de Azevedo, em 1955, registava que o trabalhador não vivia mal, era afável e económico, tinha amor à terra, era respeitador e, como ambição, aspirava apenas em deixar alguns bens aos filhos. (Apesar da notória melhoria das condições de vida destes trabalhadores, MFM, implicitamente, considera esta falta de ambição um estímulo negativo para os patrões).

    Em contraste, na freguesia de Beira Grande, em 1954, o regente agrícola Joaquim Ramos Barroso, dava conta do estado de pobreza dos trabalhadores, que nada mais tinham além da roupa que vestiam e que, mesmo os mais desafogados não colhiam alimentos suficientes para todo o ano. Os meses de Verão eram os menos maus. (Mais uma vez, MFM revela o propósito de sublinhar a miséria, ao referir que, em 1938, J. Gibbons, considerara que os trabalhadores da mesma freguesia viviam no paraíso, o que não corresponde à verdade; disse que tinham o essencial para viver sem o consumo supérfluo que se verificava em Londres).

   (Contrariamente à evidência do seu próprio trabalho, MFM, conclui que não havia preocupação com a pobreza por esta ser tradicional, afirmando que Salazar se limitava a manter a condição de pobreza dos trabalhadores e que esta tinha profundas raízes na sociedade. Nem os pobres tinham força para se insurgir, nem o operariado urbano tinha líderes para o fazer. Quanto à pequena burguesia, essa tinha ficado saturada com a turbulência da 1ª República. Só o PCP resistia - desde 1921, data da sua fundação. A verdade, explícita neste livro, é que as greves de Gouveia, do Porto, de Santo Tirso, do Alentejo, da Azambuja e de lisboa demonstraram precisamente o contrário, já para não falar da Revolta da Maria da Fonte. Por outro lado, os mencionados inquéritos nas escolas e os sucessivos relatórios oficiais dos Regentes Agrícolas, mostra que estava em curso a alfabetização do país e um levantamento sistemático da condição social dos trabalhadores. Mas basta consultar as estatísticas da época para constatar a redução da mortalidade infantil, do analfabetismo e o progresso económico, que ocorreu a partir de 1950. Por outro lado, a realidade social em Espanha, Inglaterra, e em toda a europa, na mesma época, não era muito diferente da de Portugal.)

(Cont.)

Fonte: Os Pobres de Maria Filomena Mónica

Peniche, 27 de Junho de 1921

António Barreto



domingo, 27 de junho de 2021

Os Pobres (XI)

 

   Salazar e os pobres

      Salazar considerava que a atribuição de subsídios sem contrapartida desmoralizava as pessoas tornando-as indolentes, comodistas, inúteis, um fardo para a sociedade. Pelo contrário, quando correspondiam a trabalho, mantinham a função natural do indivíduo e enriqueciam o país com a participação em obras de interesse geral. Considerava a mendicidade um vício cuja teatralidade, além de prejudicar o trânsito da cidade (Lisboa), dava a falsa ideia de pobreza geral. A solução que preconizava consistia na severa punição dos falsos mendigos, na devolução às terras de origem dos que não eram de Lisboa e no internamento dos mendigos autênticos nos asilos existentes ou nos que tivessem de ser improvisados para o efeito.

   Em 1933 foi lançada uma campanha contra a mendicidade pelo comandante da PSP em Lisboa. Foram presas mil pessoas. As prisões de Lisboa não eram suficientes para encarcerar tanta gente. Dois anos mais tarde as autoridades limitavam-se a pedir às pessoas para não darem esmola aos pobres. Os pobres de Lisboa, excetuando alguns asilados na Mitra, viviam sem auxílios oficiais. Vagueavam pelas ruas, alimentavam-se com uma sopa da Misericórdia ou do que calhava, e dormiam nos pestilentos albergues do Arco do Cego e da Rua da Betesga, geridos por particulares.

   Os lisboetas viam os pobres com benevolência. Distinguiam-nos entre os honestos, que eram subservientes, e a ralé, que se embebedava. Algumas famílias abastadas tinham os “seus” pobres a quem davam alguma comida e roupas. Alçada Batista fala-nos do ritual desta relação em que os ricos cultivavam a pobreza, “regando-a com bocadinhos de pão com conduto e algumas moedas”. Incluía a “comida dos pobres”, as “visitas dos pobres” e o “dia dos pobres que, por ser azarento, era à 6ª feira. Na Beira Baixa, região de origem de Alçada Batista, pobres e ricos encaixavam na perfeição; aqueles, mansos, cordatos, “ómildes”, respeitadores e obedientes ao senhor e ao Senhor, pretendiam apenas o mínimo para viver o seu dia-a-dia de miséria. Estes aliviavam as consciências, certos de que lhes seriam franqueadas as portas celestiais; cultivavam a pobreza alheia com carinho sem que tentassem acabar com ela. Para os poetas, os pobres constituíam matéria-prima inspiradora.

   Quanto a Salazar, considerava a pobreza uma virtude. Afirmava-se um homem livre por não possuir bens de relevo nem ambicionar riquezas, conformando-se com uma vida modesta. Não carecia de se envolver em tramas, enredos ou solidariedades obscuras. Era, dizia, “tanto quanto se pode ser, um homem livre”. Tinha, pelo menos, a sabedoria de perceber que ninguém é totalmente livre. Que a liberdade absoluta não existe.

   O povo, confinado nas aldeias, além do trabalho árduo e miserável do campo, distraia-se nas procissões, feiras e quermesses. Os grandes beneficiários do novo regime, tal como hoje, foram os funcionários públicos, com salário garantido e respeitados. A falta de contacto com outras realidades, outras experiências, terá sido uma das causas da longevidade do Estado Novo.

   Em Março de 1938 estala uma curiosa discussão sobre analfabetismo em Portugal; em pleno Parlamento houve quem defendesse que o povo, detentor de grande riqueza intuitiva, considerava desnecessário aprender a ler; na Câmara Corporativa, alguns procuradores defendiam que o analfabetismo não era consequência da pobreza, uma vez que havia nações alfabetizadas pobres. Surpreendente era o ponto de vista de uma popular escritora de literatura infantil, Virgínia de Castro e Almeida; dizia que, ao aprender a ler e escrever, as pessoas tornavam-se ambiciosas, querendo ir para as cidades para as profissões de marçanos e caixeiros, aspirando à dignidade de senhores; que acabariam a ler relações de crimes, noções erradas de política, livros maus, folhetos de propaganda subversiva; que largariam a enxada, deixariam de querer saber da terra, dominados pela ambição de aceder ao setor público; as vantagens da escola seriam nulas.

                                                          Salazar e Christine Garnier

Fonte: Maria Filomena Mónica "Os Pobres"

(Cont.)

Peniche, 27 de Junho de 2021

António Barreto

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Nas malhas do regime

 

   Quando no país se levantou um clamor geral de incredulidade e protesto em consequência da aprovação no Parlamento, sem votos contra, da popularmente designada “Lei da Censura” e posterior promulgação presidencial, pensei que iríamos assistir a um novo caso no Benfica. E pensei bem! A 10 de Junho a comunicação social anunciou uma ação judicial contra Filipe Vieira, onde se pede a impugnação do último ato eleitoral do clube e a destituição da atual Direção, movida pelo Dr. Jorge Mattamouros, um associado radicado nos Estados Unidos da América, onde exerce advocacia. Logo de seguida eclode o escândalo das alegadas denúncias da Câmara Municipal de Lisboa à embaixada da Rússia, identificando as pessoas que se manifestaram publicamente contra a prisão de Navalny. De imediato é anunciada a demissão do Presidente da Mesa da Assembleia Geral (PMAG) do clube, Dr. Rui Pereira, ex-ministro da Administração Interna e destacado socialista!

   Acredito que, em ambos os casos, se tenha tratado de meras coincidências. Porém, coincidências do “arco-da-velha”! Pois se é verdade que o Benfica foi vítima da estratégia de propaganda do anterior regime, também é verdade que, no atual, tem sido usado como meio de diversão de escândalos políticos e, por vezes, como instrumento de afirmação da suposta cultura “antissalazarista” de alguns figurões da nossa praça. Coincidências sim, mas que fizeram um jeitão aos envolvidos nos casos referidos, retirando-os da agenda mediática, ou, pelo menos, relativizando a sua importância.

   Analisando as situações referidas ao Benfica, concluo que ambas têm origem na falta de senso com que a Direção do clube lidou com os protestos dos candidatos vencidos no ato eleitoral. O voto eletrónico usado permitiu a cada eleitor conferir, através do respetivo talão impresso, o seu voto antes de o depositar na urna. Tendo sido levantadas dúvidas quanto à transparência do ato eleitoral, deveria ter-se procedido à recontagem imediata dos votos impressos. Ter-se-ia eliminado a contestação e restaurado a confiança e união dos associados.

   Para agravar a situação, quando os contestatários apresentaram ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube (PMAG) as assinaturas que lhes tinha exigido para a realização duma Assembleia Geral Extraordinária, onde pretendiam levar assunto a discussão, depararam-se com inesperadas atitudes dilatórias. As justificações que o Dr. Rui Pereira apresentou para a sua demissão fragilizaram a Direção e adensaram as dúvidas sobre o ato eleitoral, minando a confiança dos associados, adeptos e, eventualmente, patrocinadores.

   Infelizmente, tudo isto ocorreu quando a Comissão de Inquérito da Assembleia da República investigava o caso Novo Banco (NB), onde Filipe Vieira figura entre os designados “grandes devedores”. Apesar de não constar qualquer envolvimento direto do clube, a verdade é que, este acaba por ser arrastado nas “trapalhadas” empresariais do seu Presidente, com risco de erosão da sua reputação.

   Mas as complicações não acabam aqui; perante o que foi veiculado na comunicação social, nasceram ou consolidaram-se uma série de suspeitas que carecem de cabal esclarecimento. Uma delas tem a ver com alegado uso do Benfica como colateral nos negócios entre o Novo Banco e o grupo empresarial de Filipe Vieira; concretamente, terá o NB, em 2017- o ano do falhado “penta” -, exigido ao Benfica a amortização da dívida de 100 ME como contrapartida pela reestruturação da dívida e refinanciamento das empresas do Presidente do clube? Terá este fator inviabilizado o reforço do plantel e contribuído para o insucesso desportivo que se verificou?

   Por outro lado, Já sabíamos que o Sporting Clube de Portugal tinha beneficiado dos famosos VMOC - Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis - alegadamente, por parte do NB e do BCP - e de vários perdões de dívida. O que não sabíamos e ficou claro na CI era que as empresas de Filipe Vieira também tinham beneficiado de financiamento idêntico! Ficámos assim esclarecidos da causa da ausência de protestos por parte do Benfica relativamente às facilidades bancárias ao rival, que configuram concorrência desleal. Será que as exigências foram mais profundas, chegando a impor uma desaceleração desportiva do clube para permitir o refinanciamento dos rivais mercê de melhores resultados desportivos?

   Para agravar ainda mais a corrosão provocada pela dúvida, ficámos igualmente a saber, em sede da CI, que Filipe Vieira entrou no Benfica por influência do BES, banco que tinha assento no Conselho de Administração da S.A.D., tal como Joaquim Oliveira! Banco este que, juntamente com o BCP, tinha congelado as contas do clube no tempo da Direção de Vale e Azevedo, atirando-o para a iminência da insolvência!

   Aqui chegados, ponderando a escassez de títulos da equipa sénior de futebol no Campeonato Nacional, o total descalabro nas competições internacionais, onde se tornou irrelevante, o proclamado projeto de “refundação do clube” em curso e o quase abandono do espaço público e institucional na defesa do clube, têm os associados todas as razões para se perguntarem o que motiva Filipe Vieira; se os interesses do Benfica, se os dos bancos, se os seus, se os dos rivais.

   Afinal, se o B.ES. era o banco do sistema e se Filipe Vieira era o “homem do B.E.S., então Filipe Vieira é o homem do sistema. E o sistema não quer um Benfica forte como foi no passado. Quer um Benfica mais pequeno, conformado, resignado, submisso, encomiástico. O sistema, por caminhos esconsos, quer fazer do Benfica um exemplo do sucesso do regime “democrático”, a demonstração da antítese do salazarismo.

   Tal como no passado, o Benfica continua a ser vítima de manipulação política.

Helena Roque Gameiro (1895-1986) - Casal (1921, Museu Grão Vasco)


Peniche, 21 de Junho de 2021

António Barreto

sábado, 5 de junho de 2021

O Campeonato Alcochete

 

     Não há campeões sem mérito, é certo. É o caso do Sporting 2020/2021, por ironia, um clube cujos dirigentes têm sido incapazes de reconhecer o mérito aos adversários quando estes ganham, em especial ao Benfica. Mas é verdade, técnicos e Dirigentes do clube verde-branco, pacientemente, em devido tempo, procederam à reestruturação cirúrgica do plantel, que, sem nomes sonantes, haveria de revelar-se eficaz.

   Dos lados da luz, de cofres a abarrotar, ouvia-se o desdenhoso canto das “cigarras”; o regresso de Jorge Jesus, consagrado pelos feitos desportivos realizados no Brasil, juntamente com os novos reforços, alimentavam a esperança em gordos sucessos. Sucessos que, um a um se foram escapando até não restar nenhum! E não só por causas externas. Numa época atípica, sem memória na história do futebol, cheia de peripécias e anormalidades, apesar dos inusitados cem milhões de euros investidos - uma “barbaridade” - o plantel do Benfica revelou-se, surpreendentemente fragilizado em várias posições. A outrora competente estrutura transformou-se, afinal, numa vulgar feira de vaidades.

   Porém, se é de justiça reconhecer mérito às hostes sportinguistas, também é forçoso identificar o contributo de fatores excecionais extradesportivos. Um deles foi o fator Alcochete, outro o Bancário e ainda outro de caris político-institucional.

   Bruno de Carvalho foi um dos grandes obreiros do atual sucesso do Sporting; a tremenda turbulência que a sua gestão induziu, internamente e em todas as esferas do futebol e até bancárias e judiciais, culminou com o inédito episódio de violência de Alcochete. A sua absolvição lançou o pânico no meio sportinguista e do futebol em geral. Nestas circunstâncias, só a vitória no campeonato o manteria afastado da liderança do clube de Alvalade. Foi o que ocorreu.

   No plano económico é sabido que o popular clube verde-branco há muito se encontra tecnicamente falido, vivendo de emissões obrigacionistas e sucessivas reestruturações e perdões de dívida, um modelo insustentável em condições normais, quanto mais num período de forte instabilidade bancária e económica. Falhada a liquidação do empréstimo obrigacionista em 2019, só um salto enfrente, a participação na Liga dos Campeões, poderia garantir o acesso a novos fontes de recursos e ao reequilíbrio financeiro do clube-SAD. Foi o que ocorreu.

   Quanto ao fator político-institucional, recordo uma declaração pública de alguém, segundo a qual seria um desígnio nacional salvar o Sporting. Algo que compreendo mas que me custa a aceitar, antes de mais porque, por várias vezes, dirigentes sportinguistas tudo fizeram para acabar com o Benfica. Por outro lado as competições desportivas não devem ser desvirtuadas para salvar seja que clube for, Sporting Clube de Portugal incluído. Está em marcha.

   Terão estes fatores tido algum efeito no desfecho do campeonato 2020/2021? Não sei. Mas não afasto completamente essa possibilidade.  

  Finalmente, o estado financeiramente deficitário da generalidade dos clubes portugueses - exceção ao Benfica, por enquanto - reflete a falência do atual quadro competitivo do futebol na Europa onde até os chamados “tubarões” estão em graves dificuldades, como o demonstra a recente tentativa da criação da Superliga Europeia. União Europeia e UEFA devem rever todo o modelo competitivo, desde o financiamento à regulamentação económica dos clubes.

André Lhote

Peniche, 5 de Junho de 2021

António Barreto  

Carlos Zel - Fado da Internet

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Aquecimento Global; a nova arma socialista

 

 Al Gore, baseado nos trabalhos de Michael Mann, Raymond Bradley e Malcom Hughes, realizados em 1999, na universidade de Columbia - de que resultou o famoso gráfico designado por hockey stick - assume tacitamente uma relação linear entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na verdade esta relação é logarítmica - com efeito marginal decrescente; o efeito térmico de um certo diferencial é menor que o efeito do mesmo diferencial que o precedeu. Por outro lado, as suas projeções da evolução da concentração de CO2 - 620 ppm em 2050 -, estão muito longe de vir a verificar-se.

Desde 1977 que os teores de CO2 têm vindo a aumentar à razão de 1,5 ppm/ano, ou seja; se a média dos últimos 30 anos se mantiver, por 2050, a concentração de CO2 será de 446 ppm, tendo sido , em 1987, de de 348 ppm, muito longe do que preconiza Al Gore. O hockey stick, de Mann, que serviu de base às recomendações do IPCC, foi elaborado com base num modelo matemático que Stephen McIntyre e Ross McKitrick, num trabalho publicado em 2003 na revista Energy and Environment, e, em 2005, na Geophysical Research Letters, demonstraram estar errado e ainda, que o ano mais quente do século XX terá sido o de 1934 e não o de 1978 como se pensava então. Gore, a partir de análises próxy aos 650 mil anos antecedentes da era pré-industrial, afirma que as concentrações de CO2 foram sempre inferiores às atuais - cerca de 380 ppm -, mas, segundo as análises próxy de Wagner at al - à densidade dos póros das folhas de bétula na Holanda -, estimou-se que, por exemplo, no período do Holoceno, durante séculos, as concentrações de CO2 ultrapassaram os 300 ppm, chegando a atingir os 348 ppm - idêntica à concentração medida em 1987. Noutros períodos mais recentes, ter-se-ão registado valores do mesmo tipo.

Por outro lado, Gore, baseado no mesmo gráfico, procura induzir a ideia da relação de causalidade entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na realidade sucedeu o contrário; as variações de temperatura global precederam, de centenas de milhares de anos, as variações dos teores do CO2 segundo trabalhos de H.Fisher, M.Wahlen, J. Smith, D. Mastroianni e B. Deck; quando muito, as variações de CO2 tiveram um efeito amplificador nas variações térmicas em curso. O aumento do teor do CO2 referido deve-se ao aquecimento dos oceanos ao libertarem parte do CO2 dissolvido para a atmosfera. Em suma; o teor de CO2 tem aumentado à razão de 1 ppm/ano e tem um efeito marginal no aquecimento global - por exemplo; o aumento do teor de CO2 de 100 ppm provoca um efeito de aquecimento da ordem dos 2 W/m2; no passado pré-industrial verificaram-se teores de CO2 próximos dos atuais e temperaturas globais mais altas que as atuais.

A evolução térmica média entre 1977 e 2006 foi de 0,17 ºC/década, sendo que, nos ultimos 20 anos, não se tem verificado variação assinalável - na verdade tem-se verificado ligeiro declínio, conforme medição por satélite - iniciada em 1978. O IPCC tem, ostensivamente, ignorado os trabalhos científicos contrários às teses de Mann e consta que proibiu a análise de trabalhos publicados a partir de 2005. A minha convicção, fundamentada nas análises de; John Casey, Luis Carlos Molion, Rui Moura, Jorge Oliveira, Bjorn Lomborg, Marlo Lewis Jr, Stephen McIntyre, e outros, é que a teoria do Aquecimento Global é uma fraude, cuja finalidade é eminentemente política e multifacetada. Esgotadas as teses marxistas, os seus defensores, abraçaram a causa do ambiente como instrumento de combate ao capitalismo, em particular, o americano.

Por outro lado, é uma nova forma de colonialismo na medida em que condiciona o desenvolvimento dos países pobres deixando-os dependentes dos países tecnológicos, em especial, os do norte da Europa. Finalmente, a consequente pressão para a redução de produção de recursos alimentares e outros bens - pescas, agricultura e processados -, quanto a mim, tem como finalidade, forçar pela fome a regressão demográfica, cuja prodigiosa expansão no século XX se deveu à Revolução Industrial e ao Capitalismo, ao proporcionar o aumento da produção alimentar em 8 vezes contra o aumento de 6 vezes da população mundial - de cerca de 1 bilião no início do século e para 6 biliões do final. Finalmente; o Acordo de Paris preconiza medidas para a limitação do aumento térmico a 1,5 ºC em 2050. Este processo está em marcha em Portugal e está a dizimar a nossa produção agroalimentar que, nos próximos anos, ficará reduzida à marginalidade. Uma nota final; exerço uma atividade relacionada com este tema. Consultei; "A Ficção Científica de Al Gore" de Marlo Lewis Jr e "Calma" de Bjorn Lomborg.
 
Peniche, 09 de Dezembro de 2018
António J.R..Barreto

terça-feira, 1 de junho de 2021

Benfica 2020/2021 - Um olhar sobre a época (2)

 

   A normalidade competitiva da equipa do Benfica ocorreria já na 2ª volta, após a 20ª jornada, na sequência de dois desaires sucessivos; dois empates, um com o Moreirense outro com o Farense. Demasiado tarde. O aparente otimismo de Jorge Jesus ao reiterar confiança no primeiro lugar não convenceu os adeptos. O atraso era demasiado, 15 pontos! Nesta altura, dada a boa campanha que o Braga vinha fazendo, a prioridade da equipa do Benfica era de garantir o terceiro lugar e tentar o segundo.

   Um novo deslize, desta vez com o Gil Vicente, confirmaria as fragilidades já apontadas; se o título era uma utopia, o segundo lugar parecia possível. Era, mas gorou-se quando foi necessário afirmá-lo no terreno. O empate em casa com o rival direto comprometeu a derradeira oportunidade.

   Quando chegou o momento do “ajuste de contas” com o grande rival, tudo estava já decidido. Providencialmente decidido. Jogou-se a feijões; o travo amargo da vitória só foi atenuado pela inviabilização do perseguido recorde pelo rival, que ambicionava terminar o campeonato sem derrotas.

   Na derradeira jornada, com horários providencialmente diferidos, haveria Seferovic de perder a possibilidade de vencer o troféu de melhor marcador. Muitos então se perguntaram, se o “Pote” marcaria quatro golos ao Marítimo caso Seferovic tivesse marcado três golos ao Guimarães.

   De igual modo se foi a possibilidade de vencer a Taça de Portugal quando, aos dezoito minutos de jogo, providencialmente, a equipa do Benfica se viu reduzida a dez unidades.

   Deixando, por agora de lado, todas as peripécias ocorridas nas margens da competição, olhando para trás, até parece que todos os deuses se uniram para tramar o clube da Luz. Ainda assim, pergunto-me qual teria sido a classificação caso o Benfica tivesse sido “agraciado” com o mesmo número de penaltis que teve o Porto, ou mesmo os que teve o Sporting. Igualmente faz sentido perguntar, porque foi permitido ao Sporting competir com dois jogadores positivos ao teste COVID efetuado pelo laboratório oficial. E por carga de água foi suspenso ad eternum, o castigo ao Palhinha, por intervenção providencial de um juiz sportinguista em serviço no Tribunal Administrativo do Sul (salvo o erro)? E porque raio de coincidência só foi tornado público após o termo do campeonato, o incidente de Pote com doping, quando ainda militava no Famalicão (salvo o erro)? É aqui que faz sentido perguntar se os campeonatos são decididos nos campos de futebol ou nos gabinetes dos deuses onde a divina Providência parece inspirar-se.

André Lhote


Peniche, 31 de Maio de 2021

António Barreto

domingo, 30 de maio de 2021

Benfica 2020/2021 - Um olhar sobre a época (1)

 

   A aura de sucesso que acompanhava Jorge Jesus no seu regresso ao Benfica criou um clima de otimismo entre os adeptos para a nova época. Trunfo eleitoral de Filipe Vieira, o novo Treinador, apesar de alguns anticorpos internos - há, entre benfiquistas, quem não lhe perdoe a forma como saiu do clube - prometia uma equipa competitiva, a jogar o triplo, à qual todos os sonhos eram permitidos. Assim o entenderam a generalidade dos benfiquistas. Assim o temeram os adversários.

   O primeiro desaire ocorreu com a não qualificação para a Liga dos Campeões. O afastamento pelo modesto PAOK, com o contributo do ex-benfiquista Zivkovic, recém-chegado à equipa grega, afetou a moral dos jogadores e adeptos, provocando um rombo de monta na tesouraria do clube, que felizmente, ostentava, à época, uma robustez única entre clubes portugueses.

   Apesar disso a temporada teve um início prometedor, logo ameaçado no final de Setembro com a saída de Ruben Dias para o Manchester City. Uma oferta irrecusável privou o Benfica da “pedra de toque” da equipa. De facto, o jovem central, formado nas escolas do clube, cedo se distinguiu pela determinação e liderança que punha em campo, sendo visto pelos adeptos como o primeiro pilar da futura equipa de jogadores da casa. Com a sua saída desmoronava-se mais um projeto que, afinal, só existia no imaginário dos crédulos benfiquistas.

   A remodelação da linha defensiva ocorreu em plena competição, com Grimaldo e André Almeida lesionados e Ventonghen, Otamendi e Jardel sem ritmo competitivo. Por outro lado, Nuno Tavares revelava falhas táticas frequentes e o recém-chegado Gilberto dava os primeiros passos na adaptação à equipa. A estabilização do setor ocorreu, tardiamente, com a chegada de Lucas Veríssimo, um central sereno, taticamente evoluído e concentrado, com o regresso de Grimaldo e com a adaptação de Diogo Gonçalves a defesa-direito. Trabalho árduo que deveria ter ocorrida na pré-época.

   Apesar de tudo, com alguns erros defensivos infantis pelo caminho, a equipa teve um início de campeonato auspicioso, chegando a isolar-se, folgadamente, na liderança. Darwin revelava-se um avançado demolidor. Contudo, o jogo no Bessa, a 2 de Novembro, viria a revelar as fragilidades da equipa que nem uma arbitragem hostil disfarçou. Fragilidades transitadas da época anterior, que se traduziam, basicamente, em falta de criatividade e solidez no meio-campo, falta de intensidade, profundidade e criatividade nas alas, e instabilidade no capítulo da finalização.

   Apesar do desaire aguardava-se uma melhoria competitiva contínua resultante, sobretudo, da esperada evolução da consistência tática e da subida de forma dos reforços brasileiros. O empate no Dragão, revelando grande atitude geral, permitiu manter a diferença pontual para o clube do Porto, injetando nova confiança nas hostes encarnadas. A equipa parecia ter entrado numa fase de maior intensidade competitiva; parecia pronta para “voar”.

   E voou, mas baixinho! Desgraçadamente, de forma algo surpreendente, um surto infecioso abateu-se sobre as hostes vermelhas. Soube-se mais tarde que, entre jogadores e técnicos, cerca de cinquenta elementos foram infetados com o coronavírus SARS COV 2! Neste período jogou-se com atletas titulares fragilizados, outros menos rodados, alguns da equipa B, e sem treinos. Uma equipa errática, sem força, previsível, a perder pontos sucessivamente, sem complacência dos adversários, nem dos árbitros. Enquanto aqueles se negavam a aceitar os pedidos de adiamento, caso do “ingrato” Nacional, estes negavam-se a assinalar as faltas passíveis de grande penalidade favoráveis ao clube da Luz. Mais uma vez começaram a desenhar-se as habituais teorias da conspiração entre os adeptos do clube; onde teria ocorrido a contaminação? Teria alguma relação com o jogo no Dragão? Porque não eram assinalados os penaltis favoráveis ao clube? Seriam “ordens” da tutela desportiva? Haveria um entendimento para afastar o Benfica do título? E teria isso algo a ver com o estado financeiro caótico dos principais rivais? Haveria condicionantes de natureza política? Uma espiral de dúvidas com raiz na frustração pelos maus resultados e no ambiente geral francamente hostil ao clube no espaço público, pacientemente cultivado ao longo das últimas décadas pelos rivais e outros agentes.

   (Cont.)

Armando Barrios - 1990

Peniche, 30 de Maio de 2021

António Barreto

sábado, 29 de maio de 2021

A final da Taça 2020-2021

 

    Com uma derrota na Taça de Portugal terminou da pior forma, para o Benfica, a época 2020-2021. Uma vitória atenuaria os efeitos duma época desastrada projetando alguma esperança no futuro imediato da equipa. Os adeptos viam nesta final a possibilidade de consolidação da melhoria da qualidade de jogo da equipa, um primeiro passo na preparação da próxima época, ao nível da constituição do plantel e no restabelecimento da confiança do universo encarnado.

   O primeiro sinal adverso surgiu com a lesão, na última jornada da Liga, do central Lucas Veríssimo. De facto, o brasileiro trouxe à equipa a estabilidade defensiva perdida com a saída de Ruben Dias. Por outro lado, a semana que antecedeu a final foi marcada pela audição do Presidente do Benfica, a título pessoal, em sede de Comissão de Inquérito da Assembleia da República aos grandes devedores do Novo Banco. Uma coincidência que agravou o ambiente negativo junto dos adeptos encarnados e, creio, junto de toda a correspondente estrutura.

   Pelo contrário, as hostes adversárias exibiam confiança; Presidente, Treinador, jogadores e adeptos, publicamente, mostravam determinação inabalável na vitória. E, se é certo que tal faz parte dos habituais jogos mentais que visam desmoralizar o adversário, a verdade é que tal otimismo radicava no inegável valor da equipa, já demonstrado ao longo da época.

   Com um posicionamento e articulação irrepreensíveis, elevada intensidade e agressividade em todas as zonas do terreno, o Braga dificultou o processo de construção e desenvolvimento das jogadas ofensivas ao Benfica, subindo no terreno em rápidas transições, sempre com vários atacantes na zona de finalização.  E foi num desses lances que ocorreu a decisão polémica que viria a ser decisiva no desfecho do jogo. Talvez consequência da quebra de entrosamento defensivo provocado pela ausência de Lucas Veríssimo, o guarda-redes Helton tem uma saída extemporânea que provocou a sua expulsão em consequência da falta que cometeu sobre o avançado contrário à saída da sua área. Uma decisão drástica do árbitro que deixou indignadas as hostes encarnadas, por não ter recorrido ao VAR e por um histórico de decisões polémicas que protagonizou na Liga com custos na pontuação da equipa da Luz.

       Ao cair do pano da primeira parte, em mais um duplo erro defensivo da equipa do Benfica, o Braga adianta-se no marcador com um magnífico chapéu longo. Um banho de água fria no pior momento, para a equipa de Jorge Jesus, quando se esperava o intervalo para refrescamento das ideias táticas. Mais uma vez se verificou descoordenação defensiva, com Vertonghen a fazer um corte oportuno mas infeliz - para a zona frontal -, e Odisseias a sair sem possibilidade de disputar o lance.

   As alterações introduzidas na segunda parte pelo Benfica não mudaram o padrão de jogo. O meio-campo pertencia ao Braga que não permitia veleidades ao adversário, não hesitando os seus jogadores em recorrer à falta e ao antijogo sempre que necessário. Em inferioridade numérica, frente a uma equipa bem articulada e a uma arbitragem permissiva, os jogadores do Benfica, chegando quase sempre tarde aos lances, raramente construíram oportunidades de golo, apesar de o tentarem afincadamente. O tento da confirmação chegou com naturalidade já na ponta final, quando a equipa de Jorge Jesus arriscava tudo, arrumando as contas da Taça.  

   A vitória assenta bem à equipa de Marcelo Rebelo de Sousa, premiando a sua qualidade de jogo e determinação, apesar de se ter batido contra um adversário em inferioridade numérica a maior parte do tempo.

   Quanto ao Benfica, apesar da arbitragem adversa, revelou as debilidades conhecidas, nomeadamente, falta de coordenação defensiva, falta de criatividade e consistência no meio-campo, falta de intensidade nas alas, instabilidade na finalização e défice de confiança.

   Se é verdade que a estabilidade diretiva é necessária ao progresso dum clube, também é verdade que de nada serve quando tal não se traduz em estabilidade desportiva. É o caso do Benfica que, nos últimos anos, tem desbaratado recursos sem retorno desportivo. A conturbada vida profissional do seu Presidente acaba por ter reflexos negativos na gestão do clube e no ambiente geral que o rodeia, seja entre adeptos, seja na sociedade civil, municiando os adversários com argumentos pejorativos.


Marina - 1933 - Armando Barrios

Peniche, 29 de Maio de 2021

António Barreto

sábado, 15 de maio de 2021

“Os Grandes Devedores”

    As Comissões de Inquérito Parlamentar são necessárias para aprofundar e analisar assuntos de especial interesse público. Destinam-se a dotar os Grupos Parlamentares de matéria fidedigna para enriquecimento do debate político, elaboração de propostas de lei decorrentes dos casos, bem como identificar e encaminhar eventuais ilícitos para a esfera judicial.

   A sucessiva e aparente falta de resultados práticos, ao longo do tempo, induziu-me a concluir que, em Portugal, o seu préstimo se circunscreve, quase exclusivamente, a municiar o partido ou partidos de suporte do Governo do momento, de instrumentos de luta partidária. Outras vezes não passam de manobras de diversão destinadas a desviar as atenções do público de casos efetivamente graves da atualidade, potencialmente penalizadores da ação governativa.

   Um exemplo recente: Carlos Moedas foi anunciado candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Pois constou há dias, a propósito de um assunto qualquer já com barbas e esquecido, a intenção de alguns Deputados da área da Governação o chamarem a depor numa Comissão de Inquérito Parlamentar nomeada para o efeito! O caso até pode ter relevância, mas o que parece é que se trata de antecipação da luta eleitoral com o objetivo de desgastar a imagem pública do opositor. Indigno!

   No caso da Comissão de Inquérito ao Novo Banco em curso, não sei quantas auditorias foram feitas, sei que várias, mas parece que nunca são suficientes. Desta vez o propósito, em minha opinião, é duplo; por um lado encontrar bodes expiatórios para o desastre da operação de venda do banco, e por outro fazer passar, sem alarido, uma lei de censura digna da que vigorava no Estado Novo.

   As vicissitudes que têm vindo a público relacionadas com Deputados; viagens fantasma, moradas falsas, faltas não registadas, duplo vínculo, levam-me a duvidar da autoridade moral de muitos Deputados para inquirir eventuais delitos de terceiros. No caso do Novo Banco, não deixa de ser caricato que, Deputados do partido do Governo ou dos partidos que o apoiam, ainda que indiretamente, envolvidos no desastroso contrato da venda do banco à Lone Star, responsabilizem outros, “grandes devedores”, pelos fracos resultados da gestão do banco.

   No caso concreto, atribuir a uma imparidade de cerca de 160 milhões de euros, salvo o erro, a causa da falência do banco quando o défice acumulado, por enquanto, é de cerca de 4 mil milhões de euros, é patético.

   O tom vexatório, ora jocoso ora intimidatório e agressivo, com que certos deputados interpelam os envolvidos, destina-se a condená-los e humilha-los na praça pública, antes mesmo de serem apuradas as respetivas responsabilidades. Um ato de exibicionismo público indigno de quem detém a responsabilidade da representação da soberania popular e que viola o direito à dignidade, constitucionalmente consagrado, de qualquer cidadão, até do Presidente do Benfica! E, se é verdade que qualquer reestruturação de dívida é consequência de incumprimento, também é verdade que os respetivos pressupostos radicam no reconhecimento de causas circunstanciais e da viabilidade económica do projeto subjacente mediante o desaparecimento de tais causas.    

   Porém, há uma virtude no atual inquérito; tem suscitado algum esclarecimento especializado que permite aos “leigos” na matéria, como eu, tirarem conclusões nada abonatórias para os Governos envolvidos no caso da resolução do BES e na venda do NB. Por ocasião da resolução do BES, disse-se, com exceção do PCP, que não traria custos para o contribuinte. Tem!  E avultados! Especialmente graves dada a grave crise que o país atravessa. O ressarcimento, a ocorrer, será a muito longo prazo.

   Quando se optou pela divisão do BES em “banco bom” e “banco mau”, solução geralmente considerada adequada, pensei, com “os meus botões”, que o que estava em causa era a identidade dos titulares dos ativos e não a qualidade dos mesmos. Hoje, esta ideia, face ao que se vai conhecendo, ganhou consistência, senão vejamos:

   O banco acumula prejuízos sistemáticos e com isso garante a injeção de capital do Fundo de Resolução financiado pelo Governo. Pergunto-me se a gerência do banco se destina a viabilizá-lo ou a garantir a efetivação do financiamento público, gerando défices sucessivos. Estou tentado a pensar que sim. Por outro lado, têm vindo a público vários casos de alienação de ativos em condições deploráveis. Noticiam-se perdas da ordem dos 90 % dos valores contratualizados, havendo indícios de que alguns ativos foram recomprados, a preço de saldo, por sócios ou amigos dos titulares das respetiva imparidades! Lamentável! Acresce, para cúmulo, que a Lone Star, segundo consta, se prepara para vender o Novo Banco, já saneado financeiramente, com ganhos substanciais! A ser verdade, é vergonhoso e deveria conduzir à severa punição dos responsáveis por tal desastre.

   Será o cidadão eleitor, que será fiscalmente penalizado, tão distraído que ainda irá premiar eleitoralmente os responsáveis por esta catástrofe? Eu não!

Amedeo Modigliani

Peniche, 15 de Maio de 2021

António Barreto