Desporto

sábado, 7 de janeiro de 2023

Memória de Bordo

 

O Fim de uma era (3)

 

       Os dias seguiam pachorrentos a 16 a 18 nós, por aí. Nos portos não havia ordem de sair. O tempo de permanência era o suficiente para a manobra da carga. Luanda, Lobito - talvez Moçâmedes, Cape Town e Durban (não estou certo) -, Lourenço Marques e Beira.

   Desta vez não tive oportunidade de dar umas braçadas nas águas calmas, translúcidas e cálidas das praias da Barracuda, em Luanda, da Restinga no Lobito, da baía de Moçâmedes, nem na piscina do Ferroviário, em Lourenço Marques. Na passagem do Cabo, o avistamento da ilha de Robben - onde Nelson Mandela estava preso -, e da Table Mountain, era sempre um acontecimento.

   Na Beira desembarcou o imediato, meu tio João. A turbulência que se vivia nos portos ultramarinos, com greves múltiplas e sucessivas, à semelhança do que sucedia na Metrópole, impedia qualquer previsão fiável, suposta causa de dissidência com o Comandante. Tive pena, gostava de o ver por ali. O 1º Piloto Bettencourt, homem cordial e popular, subiu a imediato.

   Da Beira seguimos para a Ilha de Moçambique. Desta vez tivemos permissão para ir a terra - por pouco tempo - talvez por anteceder a longa travessia do Índico. Talvez o Comandante Manaças nos quisesse premiar pelos cerca de 30 dias antecedentes, “diretos”.

   A ilha, que teve importância estratégica na rota comercial de Portugal no Índico, nos séculos XV e XVI, fora alvo das investidas dos holandeses no século XVII - destaque para os cercos de 1607 e 1608 -, onde, por essa época, se instalaram os Jesuítas e se deu início ao comércio de escravos para o Brasil, entrou em declínio no século XIX após a independência desta colónia - 1822 - e a proibição da escravatura em 1837.    

    Todo um acervo monumental atesta a sua importância e a presença lusitana; a Fortaleza de São Sebastião, o Forte de São Lourenço, o Fortim de Santo António, a Capela de Nossa Senhora do Baluarte, o Palácio e a Capela de São Paulo, a Igreja da Misericórdia, o Convento de São Domingos, a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, o Hospital, e outros.

   A missão evangélica Católica da epopeia ultramarina de Portugal, contraofensiva à expansão islâmica Otomana, travada na batalha de Lepanto em 1571, com participação de uma esquadra portuguesa, está bem demonstrada pela profusão de monumentos católicos.  

   Do lado oposto, a cidade de Macúti – macúti: folhas de coqueiros usadas na cobertura das palhotas -, construída pelos autóctones quando, no século XIX, lhes foi franqueado o acesso à cidade!

    Baltazar Rebelo de Sousa, Governador-Geral de Moçambique de 1968 a 1970, destacou-se, entre outras coisas, pelo papel que desempenhou na integração da comunidade islâmica da região, objeto de discriminação económica, social e institucional, estabelecendo acordos com os respetivos chefes na sequência de negociações realizadas precisamente na Ilha de Moçambique. 

    Uma esplêndida luminosidade matinal banhava a ampla praça quadrilátera, irregularmente pavimentada a cimento e limitada por edifícios de dois a três pisos, de cores variadas, com destaque para o rosa, amarelo e branco, salvo-o-erro. No meio estacionavam quatro riquexós pretos, impecáveis, com os respetivos operadores, negros, ao lado. Nunca tinha visto! Fiquei chocado. Aquilo parecia-me surreal!

   O Basso: - Vamos dar uma volta pela ilha, Barreto. - Recuso-me a andar numa carroça puxada por um homem. - Eh, pá, mas eles agradecem, ganham um dinheirinho, é a vida deles. - Não me sinto bem com isso. - Hoje estou arrependido; teria ficado a conhecer melhor a ilha.

   Apareceram uns colegas com um roteiro e juntámo-nos a eles numa visita aos principais edifícios e monumentos locais. Todos tínhamos consciência do valor simbólico e Histórico da Ilha e foi com certa emoção que calcorreámos as ruas da cidade. Porém, não visitámos o outro lado; alguém terá dito que não era seguro e o tempo escasseava.

   Finda a inesquecível visita, regressámos a bordo prontos para largar rumo a Madagáscar.

                                                                 Ilha de Moçambique

(Continua)      

   Peniche, 05 de Janeiro de 2023

   António Barreto

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Memórias de Bordo

 O fim de uma era (2)

 

   Nos céus de Lisboa ouviu-se o troar da sereia do Vera Cruz. Deixando para traz o cais de Alcântara, deserto, o navio cruzou a magnífica ponte rumo à derradeira aventura. Aquele rugido, outrora alegre e altivo, soava-me triste, melancólico e vazio; desta vez nem um só acenar se avistou no cais.

   Na ocasião nem percebi bem o que estava a suceder; aparentemente tratava-se de uma simples medida de racionalização económica; perdido o monopólio do transporte ultramarino não havia capacidade para competir no mercado internacional. A entropia política, social e económica que se vivia no país não era propícia à reestruturação e reorientação da Companhia; faltava capital, competência e, sobretudo, vontade política.

   Um conjunto de sensações foi-se revelando; o fascínio da navegação, essa magia se sulcar os mares, a satisfação de tripular um navio histórico num momento histórico, e a expetativa da longa viagem por mares “desconhecidos” - oceano índico - para destino exótico, Kaohsiung, na ilha de Taiwan, a que os navegadores lusos nos tempos áureos de Portugal atribuíram o bonito nome de Formosa.

  Tínhamos o navio por nossa conta; fraco consolo, que se resumia ao uso de uma das piscinas e a calcorrear livremente os vários espaços, destituídos da animação de outrora; salas de cinema, salões de baile e festas, bares, etc.

   Ocupar os tempos livres era a nossa principal preocupação. No pequeno lençol de água no convés da turística, a ré, a que pomposamente chamávamos piscina, passávamos uma boa parte do dia. No mergulho distinguia-se o Rogério que se atirava de cabeça do varandim do convés superior, algo que ninguém mais se atreveu a fazer; O “Pintas”, o nosso campeão nacional dos 100 metros livres, dava-nos lições de natação. 

   Num dos salões alguns colegas faziam regulares tertúlias jogando cartas e conversando descontraidamente. Uma das vezes, já a viagem ia bem lançada, talvez a um terço, aproximei-me do solitário piano que lá estava, surpreendido por lá o terem deixado e com pena do destino que o esperava. Desajeitadamente, comecei a dedilhar as teclas; não sabia tocar mas conhecia a escala e alguns acordes. A custo lá saiu qualquer coisa com que cantarolei, baixinho, quase em segredo, uma cançoneta que tinha aprendido no Império.

   Esgotada a inspiração, rumava ao camarote quando um colega, concentrado no jogo, e algo displicentemente deixou escapar: - Oh, Barreto vai lá tocar, pá. - Mas o quê? Não sei tocar piano! - Eh, pá toca qualquer coisa! - A viagem ainda ia no início, talvez na zona dos trópicos, mas o peso do silêncio e a ansiedade da espera já se faziam sentir. E lá fui dedilhar as teclas como calhava. Quanto ao piano, não sei se riu se chorou, mas fiquei com pena dele, até porque estava afinado.

   A viagem ia correndo tranquila, sem eventos de mau tempo, mas, nos primeiros quinze dias a casa das Caldeiras foi um autêntico pandemónio, cada quarto era uma aventura! As sequelas do incêndio que deflagrara ao cais de Alcântara traduziram-se em múltiplos curto-circuitos, e a tarefa da “injeção” era um inferno! A acumulação de fuligem era tal que, invariavelmente, entupia as respetivas bacias de recolha e escoamento; cada um de nós terminava a tarefa “cozido” e revestido de fuligem da cabeça aos pés. Passado este período o funcionamento das caldeiras estabilizou, regressando à quase normalidade.

     Num dos quartos noturnos combinei com o Basso (salvo-o-erro) preparar uma armadilha ao Melo - era o 2º Oficial do nosso quarto e fazia serviço no piso de controlo -, atraindo-o para a casa das caldeiras com um pretexto qualquer e pregar-lhe uma valente banhada, ao passar sob o labirinto de escadas e passadiços metálicos. Todo “lampeiro” fui para o piso superior com um balde cheio de água enquanto o Basso dava uma “tanga” ao Melo. Este, fino, não foi no paleio. Ficou a empreitada frustrada e lá vim eu, frustrado, despejar o balde para as cavernas.

   Um belo dia, vinha a entrar de quarto quando, no mesmo local, fui “vítima” duma banhada monumental! Ainda hoje estou para saber quem foi o autor, mas suspeito de tenha sido o “malandro” do Melo. Após a façanha desapareceu sem deixar rasto! O que vale é que aquilo até sabia bem devido ao calor que por lá se fazia sentir. Na verdade, precisávamos de “construir” eventos para quebrar a longa monotonia.

  À noite havia ensaio de fados num dos bares; o guitarrista, colega da máquina, era um velhote de Alfama. Safava-se bem. Já eu, na viola, era tipo José Afonso; “primeira, segunda e marcha à ré”. Com alguns colegas a assistir lá íamos treinando uns castiços a que juntava alguns temas do meu reportório pop.

   Certa vez desentendemo-nos com a harmonia; como não havia meio de chegarmos a acordo, o bom do guitarrista, com disfarçada indignação, aconselhou-me as tocar numa “caixa de sapatos”. Provavelmente estava certo uma vez que eu andava “a apanhar bonés”. Achei graça e prosseguimos.

   Aquilo dava para “desopilar”. Numa das ocasiões, o Basso; - Barreto toca aí a dos vampiros. - Eh, pá, não sei essa! - É do Zeca Afonso! - Começou a cantarolá-la, enquanto eu procurava os respetivos acordes; no dia seguinte entregou-me a letra num papelinho que depois passei à máquina e ainda tenho.

   Por essa ocasião os temas do José Afonso e do Adriano eram muito populares, mas eu, de facto, não conhecia “Os Vampiros”; uma obra-prima do nosso Zeca que até aí me tinha escapado, apesar de admirador de ambos.


Vera Cruz


(Continua)  

Peniche 04.11.2023

António Barreto

sábado, 26 de novembro de 2022

A Liberdade de Ensino em Portugal

 

Cortes Constitucionais de 1822

 

    A liberdade de ensino é um dos campos de combate político mais intenso da democracia portuguesa. em que os partidos de esquerda defendem o controlo pleno do Estado de todo o processo, e os de direita propugnam pela liberdade de ensino. De um lado, concebendo o cidadão propriedade do Estado, impõe-se-lhe o estabelecimento de ensino, as matérias curriculares e a certificação da aprendizagem, incluindo conceitos de natureza ideológica que enformam o partido do poder. Do outro defende-se a liberdade de escolha do estabelecimento de ensino, em conformidade com as preferências de cada cidadão, com especial relevância da formação do espírito crítico, sem prejuízo da submissão à certificação pública final aplicável.

   Tendemos a pensar que vivemos tempos de esplendor tecnológico e social, resultado de uma dinâmica de progresso multidisciplinar contínuo, graças sobretudo à massificação e evolução do sistema de ensino e ao aperfeiçoamento dos regimes políticos democráticos.

  Porém, nem sempre é assim; deparamo-nos, por vezes, com temas atuais que foram estudados e discutidos, com excelência, em tempos remotos. Foi o que constatei ao embrenhar-me na leitura da “Discussão dos Artigos do Projeto da Constituição referentes ao Ensino”, relativos aos artigos 215 e 216, nas Cortes Constituintes, em 29 de Março de 1822, na sequência da revolução liberal de 1820

   Discutindo-se o sistema de ensino em Portugal - espantei-me ao verificar que eram as próprias populações a exigir escolas ao Estado, que as não conseguia satisfazer integralmente; a natureza do ensino público, as qualidades, dignidade e retribuição dos professores, o ensino privado e a liberdade de ensinar e de aprender.

   Chamou-me a atenção, no referido debate, a intervenção do Deputado pela Baía, Cipriano José Barata Almeida, firme defensor da independência do Brasil, que passo a reproduzir:

   - Sou de opinião que se suprima este artigo 216: porque convém que cada um ensine ou aprenda à sua vontade. Nós estamos acostumados a fazer monopólio de tudo, e por isso queremos fazer o mesmo com a cultura do espírito, ciências e belas letras, como se foram tábuas, marfim, pau-brasil, etc. A cultura do homem pede liberdade, e sem esta ele não pode ser feliz. É certamente tirania prender o desenvolvimento das faculdades intelectuais. Há porventura maior violência do que obrigar a tirar uma carta ou licença para poder ensinar? E se a não tira, tomar-se-lhe conta disso, suspender-se e oprimir-se? Para o bem comum é preciso que se não estabeleça monopólio da cultura do espírito. Por conseguinte deve ser determinado que cada um possa ensinar e aprender a seu arbítrio com quem quiser, sem que nenhuma autoridade lhe possa obstar: isto é necessário para que os corregedores, as câmaras, ou outra qualquer autoridade não estejam sempre embaraçando os professores com os seus exames, licenças e outras coisas semelhantes. Queremos nós pôr censura prévia no espírito humano quando a detestámos na tipografia? Longe de nós semelhante projeto.

   Quanto às ciências maiores, diz o artigo, que este importante objeto, será cometido a uma diretoria geral dos estudos: é preciso que também se não faça monopólio, nem haja diretorias para nenhuma ciência, mas que se facilitem as matemáticas, o direito, a medicina a quem quiser aprender, e com quem quiser, e em qualquer parte, com toda a liberdade; aliás tornaríamos, a pouco e pouco, para o antigo despotismo, para a ignorância e escravidão.

   Magnífico! O controlo dos espíritos dos cidadãos como via para a ascensão ao poder e sua manutenção, continua atualíssimo, e é demonstrativo da ausência de progresso, neste capítulo, em Portugal, apesar de decorridos duzentos anos, da ascensão da República e do advento da democracia em 75.

   Concluo que devemos olhar melhor para o passado para percebermos o presente e desbravarmos os caminhos do futuro com mais eficácia.




Peniche, 26 de Novembro de 2022

António Barreto

sábado, 19 de novembro de 2022

Memórias de Bordo

 

O Fim de uma Era (I)

 

   No dia e hora previstos - ao meio-dia do dia seguinte ao incidente verificado na Casa das Caldeiras, nos idos de 75 -, o “Vera Cruz”, com a caldeira de bombordo vante fora de serviço, largou amarras do cais de Alcântara para a sua derradeira viagem com destino a Kaohsiung, na ilha “Formosa” - atual “Taiwan” -, onde o aguardavam maçarico e rebarbadora, prontos a desfazê-lo em mil pedaços.

   Uma tripulação de contingência tinha sido escalada; o Comandante era o Manaças, homem grave e autoritário, de crânio liso; o imediato, para minha satisfação, era o meu querido tio João Catulo, homem cultíssimo e reservado; o 1º Piloto era o Bettencourt, amigo, cordial e descomplicado; o 2º Piloto era o Teles, ilhavense amigo que adorava a vida do mar, chegando a dizer, com ironia, que ainda lhe pagavam para fazer o que mais adorava; andar no mar.

   Na máquina tínhamos; a Chefe, o “Porfírio Rubirosa”- não recordo o nome próprio -, gracejo que corria entre nós pelo seu ar aprumado e enfatizado de que se destacava o inseparável boné, - uma alusão jocosamente carinhosa ao célebre playboy dominicano, que “arrastara a asa” à nossa Amália quando esta, nos seus tempos áureos, destruía corações pelo mundo; o 1º Maquinista era o Telmo, homem cordial, discreto e muito respeitado entre nós, os 2ºs Maquinistas eram, o Brito “maluco”, homem bom, um tanto exuberante e brincalhão, que nada tinha de maluco; o Pintassilgo, o nosso campeão de natação, sempre pedagógico, tranquilo e cordial; o Melo, calmo, eloquente e eficiente, de fisionomia típica de um sul-americano e o Abreu, o nosso “homem-golo”, amigo de longa data, sempre sereno e discreto. Além de mim, do grupo dos 3ºs faziam parte; o Airoso, grande amigo e companheiro desde os tempos do secundário, o voluntarioso Adalberto, de São Martinho do Porto; o Basso companheiro de peripécias por terras de Chiang Kai-Check, politicamente avançado, com quem aprendi o célebre tema de José Afonso “Os Vampiros”; e o irreverente e amigo Rogério, militante progressista - soube muito mais tarde - de barbichas à Fidel Castro.

    Dos restantes tripulantes não me recordo; marinheiros, cozinheiros, despenseiro, fogueiros, empregados de câmara, etc. Porém, lembro-me do azeiteiro - fazia não sei bem o quê nos compartimentos a vante da Casa das Caldeiras -, de alcunha o Polícia, um homem de Alfama - salvo-o-erro, constando-se cadastrado -, conversador de historietas e anedotas, instigador de um episódio engraçado já na reta final da viagem. Não havia artífice; os trabalhos de torno eram efetuados pelo Melo e pelo Abreu, que na adolescência tinha sido torneiro.

   Não tinha bem noção do que estava a suceder; na minha mente habitava uma suave tristeza pelo fim de um dos ícones mais destacados da nossa Marinha Mercante, a satisfação de ter sido escolhido para uma viagem histórica que se adivinhava particularmente dura - pela duração, além de contornar a África, teríamos que fazer a travessia do Índico, e pelo agravamento das condições térmicas, habitualmente severas na Casa da Máquina -, e a agradável espectativa de conhecer o “mundo novo”, da China insular.

      Tratava-se, sim, de uma medida de racionalização económica; perdido o monopólio do transporte marítimo garantido pelo Pacto Colonial desde o longínquo século XVI, a nossa frota mercante deixara de ser economicamente viável, num contexto de grande turbulência institucional, económica, social e política que o país atravessava.

    Por outro lado, os líderes da nova ordem política empenhavam-se em desmantelar um dos pilares identitários tradicionais dos portugueses; a sua vocação marítima, “o país de marinheiros, de naus, de esquadras e de frotas…”, que dera “novos mundos ao mundo”, cantado por António Nobre e Camões. Uma nova era implicava nova identidade e esta, segundo Eduardo Lourenço, não se ergue sem a destruição prévia da anterior.

(Continua)



Peniche, 19 de Novembro de 2022

António Barreto

sábado, 12 de novembro de 2022

Um Pouco de História (XV)

 

A República Romana

 

   Regressado a Itália para preparar a expedição a África e combater o que restava dos exércitos de Pompeu, César, desapontado com a gestão desbragada de Marco António, e apesar do seu contributo no domínio dos insurgentes republicanos, Milo, Célio e Dolabela, substituiu-o no cargo de Regente de Itália por Lépido, e seguiu para a Sicília.

   Em África tinham-se reunido as tropas de Pompeu, sobreviventes das batalhas de Farsália, Dirráquio, de Corcira e de todo o Oriente, a que se fora juntar Marco Octávio com a esquadra da Ilíria, onde a sublevação fracassara.  

   Aí, as forças republicanas eram governadas por Varo com o apoio rei númida - Juba -, sob a presidência de Catão. A fúria de vingança uniu númidas e romanos na destruição das cidades inimigas e na chacina implacável de todos os prisioneiros, apesar da oposição de Catão, que, apesar de tudo, conseguiu salvar Utica.

   Juba, Varo e Metelo Cipião, ambicionavam o lugar de Comandante em Chefe das forças republicanas, as quais preferiam Catão, tendo este escolhido Cipião - descendente de Cipião Africano - para o cargo.

   Presidindo em Utica ao anti Senado romano, Cipião, cumpria, com zelo e firmeza, um dever que sabia condenado ao fracasso. Armando Libertos e Líbios, constituiu catorze legiões, quatro das quais eram númidas armadas à romana, a que se juntavam mil e seiscentos cavalos germanos e celtas, um esquadrão de cavalaria ligeira de númidas - com besteiros a pé e a cavalo -, cento e vinte elefantes e a esquadra de cinquenta e cinco navios comandada por Públio Varo e Marco Octávio. Com os abundantes mantimentos reunidos e contando ainda com a sublevação das tropas cesaristas da Campânia, esperava-se obter a desforra de Farsália e restaurar a República.

   Do outro lado, César, que sempre soubera conduzir e motivar as suas tropas nas condições mais adversas graças ao seu engenho e ousadia, enfrentava agora a rebelião das legiões da Campânia; fartas de combater campanhas atrás de campanhas, recusavam-se a partir para África, exigindo as baixas e tudo o que lhes tinha sido prometido depois da expedição à Gália; saques, terras e espólios.

   Uma comissão de Senadores enviada por César e comandada pelo historiador Salústio à Campânia, com o fim de persuadir os insurgentes, fracassou, tendo sido insultado o emissário e mortos alguns senadores. Decididos, os soldados marcharam sobre Roma exigindo as baixas e as terras a César.

   Este, perito em controlar homens e multidões, que para cada crise inventava um novo expediente, não se intimidou; foi a Roma ao encontro das legiões, e da tribuna do Foro interpelou os soldados, perguntando-lhes, com desdém, o que pretendiam.

  Quando, milhares de vozes em uníssono lhe responderam ruidosamente que queriam as baixas, respondeu-lhes que já as tinham e que lhes daria tudo o que lhes prometera no dia do seu triunfo…com outras tropas, chamando-lhes quirites (burgueses), com desdém.

  Feridos no seu orgulho militar, descontentes, envergonhados e ofendidos, os soldados murmuraram entre si - pois não haviam de ir com o seu general até ao fim da guerra?-, acabando em uníssono, a pedir perdão a César, implorando que os levasse a África.

   Este anuiu perdoando-lhes a leviandade e afirmando, entre aclamações delirantes, que lhes daria tudo o que prometera e que compraria, com o seu dinheiro, as terras necessárias se as do Estado não fossem suficientes.

   Assim terminou a insurreição.

Júlio César

Créditos: História da República Romana, de Oliveira Martins

Peniche, 12 de Novembro de 2022

António Barreto

sábado, 29 de outubro de 2022

Porque morrem as democracias

 

As Democracias também morrem

 

   A Democracia é uma ideia fascinante, caracterizada pela soberania popular delegada, pela separação de poderes - legislativo, executivo e judicial - e pelo primado da lei, com o propósito de garantir a defesa das liberdades - de expressão, de participação económica e política - da dignidade humana e de ausência de qualquer tipo de discriminação.

   A atividade democrática implica a coexistência de múltiplas plataformas de informação e debate, com caracter aberto e universal, capazes de fomentar e veicular a turbulência de ideias que, fluindo continuamente, hão-de consubstanciar as características do regime em todas as vertentes.

   Sempre que tais plataformas subvertem a sua função colocando-se, encapotadamente, ao serviço de quaisquer interesses particulares, enfraquecem a democracia, originando tensões de vária ordem que, não sendo corrigidas por mecanismos democráticos constituídos para o efeito, em última análise, podem originar guerras civis e ao advento de regimes autoritários.

   Habituámo-nos a olhar para a Democracia como indiscutível e a dissipar as ocasionais dúvidas ou persistentes perplexidades, com a célebre expressão, paradoxal, atribuída a Churchil, segundo a qual “A Democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”.

   Porém, estabelecidos os pilares primordiais, a Democracia deve ser um processo evolutivo de aprimoramento contínuo dos mecanismos que conduzam à universalidade efetiva, e não apenas teórica, do acesso à dignidade de qualquer cidadão; quem quer que seja, onde quer que seja e qualquer que seja a sua condição.

   Quando, um dia, ouvi um líder africano - julgo que Kadafi - afirmar que a Democracia não devia aplicar-se a todos os povos, fiquei perplexo! O descaramento da afirmação era, então para mim, uma tentativa tola de o ditador justificar a autocracia que estabelecera no seu país.

   Mas não esqueci; hoje compreendo melhor a ideia; a compulsão do poder subverte as elites políticas, e a baixa maturidade cívica da população, quando ocorre, torna-a vulnerável à demagogia, à mentira e até ao medo que, insidiosamente, os poderes instituídos vão disseminando.

   Foi assim, com um arregalar de olhos, que aqui há tempos me deparei, surpreendentemente, com um opúsculo - de um dos alfarrabistas que frequento -, com o título “Contra a Democracia” da autoria dum tal Alfredo Pimenta. Tratei logo de o “abarbatar”, ler e indagar a biografia do autor.

   Alfredo Pimenta (1882/1950) foi um intelectual, académico e político destacado - historiador, poeta, ensaísta, jornalista -, natural de Guimarães, com profusa obra literária - num total de 167 obras publicadas. As origens humildes não o impediram de frequentar colégios de qualidade, graças ao seu talento que cedo suscitou importantes apoios locais. Envolveu-se em atividades políticas e, aos “trambolhões”, lá conseguiu licenciar-se em Direito, área que detestava. Ateu primeiro, fervoroso católico depois, patriota, teórico da Mocidade Portuguesa, defensor do regime nazi, crítico dos Aliados, amigo de Salazar e Monárquico absolutista (Um perfil e tanto!)

   Eis alguns extratos do que pensava Alfredo Pimenta da Democracia, num discurso dirigido a universitários, em finais de Outubro de 1948 - candidatos Óscar Carmona e Norton de Matos -, vésperas de eleições presidenciais.

   “Se, de facto, somos inimigos do Comunismo, e das suas torpezas, das suas blasfémias, das suas indignidades, das suas misérias e das suas infâmias, façamos a guerra impiedosa e permanente ao que a produz, ao que é a sua fonte e a sua razão de ser. Numa palavra, combatamos a Democracia; ataquemos a Democracia.

   Corre mundo e entrou em todos os meios a blague sinistra de que, por serem variadas as máscaras da Democracia, não se sabe já o que a Democracia seja. Poliforma, é certo; a sua substância, porém, é inalterável. E esse seu polimorfismo é o recurso interessado daqueles que a Democracia envenenou. E é à custa desse polimorfismo que a Democracia medra, se infiltra, conquista, perverte e leva ao Comunismo.

   Democracia cristã; Democracia orgânica; Democracia positiva; Democracia social; Democracia temperada; Democracia liberal; Democracia isto; Democracia aquilo; Democracia aqueloutro, são máscaras do mesmo erro, pseudónimos do mesmo mal, disfarces do mesmo cancro: a Democracia.

   O polimorfismo satânico que a Democracia apresenta é o fenómeno moderno; desconheceu-o Aristóteles; desconheceu-o S. Tomás.

   Para os dois, a Sociedade podia ser monárquica, se governa um; aristocrática, se governam alguns; democrática, se governam todos.

   Mas o governo de todos é um mito, porque é um absurdo. A sociedade é uma realidade; o governo é outra. Não há sociedade sem governo - proclamou-o Augusto Comte. Pode governar um; podem governar alguns; não podem governar todos. A Democracia que é o governo de todos é conceito metafísico, abstração pura.

   A Democracia nunca se realizou. Sociedade que tentasse realizá-la suicidar-se-ia. Sociedade a governar-se a si própria nunca existiu, porque a mesma noção de sociedade implica organização e hierarquia, e portanto governantes que mandam, governados que obedecem. A Democracia é a negação da organização e da hierarquia: todos mandam, todos governam, todos são soberanos. Nunca se viu; nunca se poderá ver. O mal da Democracia está, antes de mais nada no mito que a constitui, na mentira que representa, na mistificação idiota que personifica.

   As massas são crédulas, ingénuas e estúpidas. Os seus exploradores, os que vivem, enriquecem, engordam, trepam e se fazem à custa dessa credulidade, dessas ingenuidade ou dessa estupidez, são os profiteurs da Democracia, tão repelentes e tão sujos, como aqueles cadastrados que vivem à conta das desgraçadas que pertencem a quem as compra.

   O Comunismo, última fase da vida evolutiva da Democracia, é menos indigno que esta - porque é franco, é lógico, é desassombrado. Os defensores, os propagandistas, os filósofos, os agentes, os sacerdotes da Democracia, ou são comunistas que se desconhecem, ou comunistas que se disfarçam.

   Combata-se o Comunismo como consequência da Democracia; mas combata-se a Democracia como antecedente do Comunismo.

   Defender a Democracia e combater o Comunismo é de imbecil. Opor a Democracia ao Comunismo é de ignorante.

   Se a Democracia, sociedade em que todos governam, não existe, que é que existe com o nome de Democracia? Existe a sociedade em que alguns se governam - mentindo, iludindo, sofismando, arrastando o povo atrás da sua mentira, levando-o, cego e surdo, atrás duma ilusão!

   As massas não raciocinam: creem. E quanto mais compactas e numerosas são, mais obtusa e irrefletida e infantil é a sua crença.

   Não há almas coletivas, não há razões coletivas, não há inteligências coletivas. As massas têm instintos, não têm Razão; têm reflexos, não têm discernimento. Porque as seduz a Democracia? Porque as encanta o Comunismo? Precisamente porque são bárbaros e absurdos.

   Mas essas Democracias que por aí passeiam sua vida, que são afinal? São burlas escandalosas e é à sua qualidade de burlas que devem o poder viver.

(…) Eles sabem, como todos nós sabemos, que a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade, são entre os homens, mistificações, nuns, superstições, noutros.

(…) E as massas creem…E até creem na mais estupenda das calúnias com que se pretende desonrar o Catolicismo - a de que a Democracia é de natureza Católica!

(…) Para os Católicos a resposta é só uma: “Não há poder que não venha de Deus” - Ou, no latim da Vulgata: non est potestas nisi a Deo. Até o poder ilegítimo? Nunca o Apóstolo o disse, nem podia dizê-lo. Porque antes dele já S. Lucas ensinava: “Devemos obedecer mais a Deus do que aos homens: “obediri opportet Deo maggis, quam hominibus”. Logo, há dois Poderes, há duas Autoridades: o Poder ou a Autoridade de Deus; e o Poder ou a Autoridade dos homens. Se pode haver conflito entre os dois, é porque um deles não emana de Deus. Logo, nem todo o Poder vem de Deus. Só vem de Deus o Poder que reconhece Deus como sua fonte de origem. A Democracia tem como dogma fundamental que o Poder está na própria Sociedade, e desta emana. Logo, a Democracia não vem de Deus1.

   Se a Democracia não vem de Deus, o católico não pode obedecer voluntariamente à Democracia, nem ser seu apologista, defensor ou serventuário.”

   Descontando a espantosa apologia da Monarquia Absolutista e do nazismo, a estrutura de raciocínio relativa *a Democracia, não é destituída de senso.

   Perante a atualidade política nos regimes democráticos - Ocidente -, nomeadamente em Portugal, Espanha, França, EUA, Brasil, etc., e o que sucedeu com a Venezuela, o Chile, o Uruguai, etc., dei comigo a pensar se a Democracia não será a armadilha do Socialismo.

  Certo, certo é que a Democracia está cheia de armadilhas que os oportunistas, falsos democratas, demagogicamente, insidiosamente, vão lançando e normalizando, na obstinada compulsão do poder que lhes permite, e às suas clientelas, apropriarem-se das riquezas dos povos. Por tudo isto é imperioso conduzir os regimes democráticos a níveis que impeçam o seu desvirtuamento.

   Finalmente, fiquei a perceber melhor a razão primordial da incompatibilidade do Republicanismo com o Catolicismo e da insana perseguição deste pelos regimes republicanos.

                                                                 Alfredo Pimenta

1Ver o ensaio teológico-político do autor: A Igreja e os Regimes Políticos, Lisboa, 1942.

Peniche, 29 de Outubro de 2022

António Barreto

domingo, 23 de outubro de 2022

Parabéns Benfica

 

Parabéns Benfica

 

   A vitória da passada sexta-feira sobre o rival do norte foi, para mim, um feito histórico do Benfica “moderno”. E foi um feito histórico porque o clube encontrou-se consigo mesmo, com a sua cultura, com a sua força, com o seu talento, com a sua determinação. Sem constrangimentos mentais ou materiais, o Benfica bateu-se, sem medo de querer ganhar, sem medo de perder.

   É este o “meu” Benfica, o que perfuma os relvados da Europa e do mundo com a sua arte, a arte de jogar futebol, encantando adeptos e adversários, granjeando respeito e admiração geral.

   E é isto que alguma gente não percebe; que mais que ganhar, interessa a forma como se ganha, a forma como se está no desporto, que não deve ser, nunca deveria ser uma guerra, para atenuar frustrações da vida, alimentar ideias de grandeza patológicas ou simplesmente servir de compensação de contornos políticos.

   O Benfica ganhou porque foi igual a si próprio, planeando, trabalhando com competência e união, a tempo, para o objetivo assumido de ganhar, de cabeça levantada, olhos nos olhos, com respeito mas sem medo.

   Cabe aqui recordar Eusébio, cujas distintas qualidades atléticas eram mobilizadas por uma superior força mental; embevecido perante a constelação de estrelas que constituíam a equipa do Real Madrid, de que se destacavam Di Stefano e Puskas, o jovem Eusébio - de vinte anos -, não perdeu a vontade indomável de ganhar; “mas eu queria ganhar”, confessou-nos ter pensado, há não muito tempo.

   E é este, quanto a mim, o seu principal legado, que deveria ser recordado no clube, espalhando pelos locais estratégicos do estádio esta sua singela e sincera recordação.

   Rui Costa conheceu esta força, viveu-a - foi escolhido pelo Pantera Negra, para as escolinhas do clube -, pisou os grandes relvados da Europa e do mundo, ao serviço dos seus clubes e da Seleção nacional, por onde espalhou o génio tranquilo e perfumado do seu futebol, conquistando títulos, deixando um rasto de admiração e respeito que perduram no tempo, graças também à cordialidade e respeito que sempre demonstrou ter por todos; colegas, técnicos, dirigentes, adeptos, etc.

   O Benfica renasce pela mão de um dos seus “filhos”, que, francamente, julgava transviado, enredado na retórica das obras, do “já ganhámos muito”, do “não podemos ganhar sempre”, do “ os outros também têm que ganhar”, do “mais tarde ganharemos muito”.

   Era nisto, afinal que consistia a “refundação do clube”, planeada pela Direção precedente; o conformismo e a solidariedade populista.

   Mas o Benfica ganhou também por outra surpreendente razão: a equipa de arbitragem foi o que sempre deveria ter sido; capaz de interpretar e aplicar as leis do jogo!

   Francamente não estava à espera, sobretudo depois de saber quem seria o VAR, o conhecido e “azarado” Tiago Martins.

   Recordo os dois campeonatos precedentes, o último, em que, contra o mesmo adversário, nos dois jogos, foram anulados dois golos ao Benfica por fora de jogo, um por 4 cm, outro por…2 cm, e o anterior – 2020/2021 - em que nas 32 primeiras jornadas o Benfica tinha assinaladas a seu favor zero penaltis! Zero, enquanto este adversário, no mesmo período já contabilizava 15 - ou 16!

   O caminho é este; parabéns Benfica, parabéns Rui Costa, parabéns Roger, parabéns equipa.

   Vamos em frente e seja o que Deus quiser, mas que ninguém diga ou pense sequer, que o Benfica tem medo.

   Nós, adeptos, estaremos ao vosso lado; lembrem-se disso quando enfrentarem os adversários; batam-se por vós e…por nós, que somos a alma do clube.




Peniche, 23 de Outubro de 2022

António Barreto

sábado, 22 de outubro de 2022

Quem Traíu o 25 de Abril?

 

Quem traiu o 25 de Abril?

 

   Mostra-nos a História que, em geral, os vencedores contam-na à sua maneira, invariavelmente enaltecendo os seus feitos contra as forças do mal, inevitavelmente defendidas pelos vencidos, ocultando as suas próprias fraquezas e os eventuais méritos daqueles.

   A independência incondicional das Províncias e Estados ultramarinos portugueses, era uma solução possível entre outras, dependente da escolha das populações.

Ora vejamos o que pensavam alguns dos protagonistas do pós-25 de abril:

Almeida Santos; Ministro da Coordenação Interterritorial, 21/5/1974, República:

“Lourenço Marques, 21, O Ministro Português da Coordenação Interterritorial, António de Almeida Santos, que a independência será uma das opções de um referendo as realizar em Moçambique dentro de um ano.

   Disse que o referendo que vai ser organizado em cada um dos territórios ultramarinos dentro de um ano seria “mais ou menos baseado no princípio de um homem, um voto”.

   Depois de informar que os menores de 18 anos não votariam, acentuou que não se trataria de um referendo adequado caso fosse seguido o sistema anterior de apenas votarem as pessoas que sabem ler e escrever.

   A respeito da luta que há dez anos grassa no território contra os guerrilheiros da Frelimo, o dr Almeida Santos afirmou estar “absolutamente fora de questão”, admitir a possibilidade de não se chegar a acordo com os dirigentes da Frelimo.”

(O sublinhado é meu)

Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros, O Século, 23/5/1974:

   “Mário Sares sublinhou que Portugal pretende a descolonização (e não o neocolonialismo) e que procura contactos bilaterais com os movimentos africanos, a fim de acelerar o processo para a autodeterminação.”

Palma Carlos, Primeiro-Ministro, em entrevista a La Vanguardia, Diário de Notícias, 18/5/1974:

   “Barcelona, 17. “A criação de um estado federal é uma solução óptima a considerar, mas tal fórmula depende das circunstâncias. (…)

   É um problema muito delicado, em que o Gabinete começou já a trabalhar e a seu tempo poderemos dar a resposta.”

General Costa Gomes, em Antuérpia, 7/6/1974, Diário de Notícias:

   “Antuérpia, 6 – “Estou convencido de que Angola decidirá continuar portuguesa. Em Moçambique a situação é mais complicada, mas o espírito português será decisivo”, declarou o general Costa Gomes em entrevista a To The Point International, revista de expressão inglesa publicada em Antuérpia.”

   Estas declarações ajudam-nos a perceber melhor as causas da demissão de Palma Carlos Primeiro Ministro do I Governo Provisório e do descalabro das unidades militares enviadas para os territórios ultramarinos nesse período; Portugal ficou sem poder negocial, por sua própria iniciativa.

   Os ideais do primitivo MFA foram defraudados pela dinâmica partidária de esquerda que prevalecia na época, com a população eufórica e embevecida com o fim do “fascismo” e o advento da “liberdade” e “prosperidade”.


Peniche, 22 de Outubro de 2022

António Barreto


sábado, 15 de outubro de 2022

Um Pouco de História (XIV)

 

A República Romana

Regresso a Itália

 

     Marco António, braço direito de César após a morte de Cúrio em África, ficara, por decisão daquele e durante a sua ausência, com a regência de Itália. Soldado temível, sem requintes de vestuário e de espada sempre à cinta, o hercúleo Marco António, uma espécie de Adónis, era adorado pelos seus soldados, com os quais confraternizava pelas tabernas de Roma.

   Rodeando-se de artistas, cómicos, mímicos, bufos, músicos e meretrizes, o regente transformou a cidade num enorme bordel, passeando-se nos braços da sua amada Cíteris, a mais famosa, num carro puxado por dois leões, ao som dos coros de harpistas e do exotismo de bailarinas.

   Famílias decentes foram obrigadas a acolher prostitutas em suas casas; os banquetes sardanapalescos sucediam-se transformando a cidade num gigantesco bordel. Marco António, exuberante, rindo de tudo e de todos, ostensivo e autoritário vivia em estado de embriaguez permanente, chegando a vomitar em plena Tribuna num dos Comícios. Companheiro de César na desbragada juventude, era desprezado, temido e usado por este.

    Perante a rebelião organizada pelos defensores dos aristocratas Célio, Milo e Dolabela, que procuraram sublevar as cidades de Túrio e Cápua, com o objetivo de restaurar a República, Marco António não hesitou em opor-se-lhe, dominando-a, garantindo o domínio de César. Os insurgentes, receosos de perder privilégios, planeavam abolir todas as dívidas e dar alforria a todos os escravos.

   Regressando a Itália em 45 a. C. com a finalidade de preparar a expedição a África, onde se reorganizava o que restava dos exércitos de Pompeu, César, eleito Cônsul, substituiu o desacreditado Marco António por Lépido na regência de Itália.

   Este, entretanto, casara com a viúva de Clódio, Fúlvia, mulher abastada e com ambições políticas, que o convenceu da necessidade de adotar uma postura decente e grave.

Fúlvia

(Continua)

Créditos a: História da República Romana, de Oliveira Martins

Peniche, 15 de Outubro de 2022

António Barreto

sábado, 8 de outubro de 2022

Um Pouco de História (XIII)

 

A República Romana

Do Egipto ao Oriente

 

   Uma vez no Egipto, César decidiu dirimir o conflito real. Instalou-se com duas legiões e oitocentos cavalos em Alexandria, no palácio dos Ptolomeus, suspendeu as hostilidades, nomeou árbitros e restaurou no trono os irmãos-esposos. Aos segundos filhos do Auleta, Arsínoe e Ptolomeu, o Moço, atribuiu os rendimentos de Chipre. Para si impôs uma indemnização de dez milhões de dinheiros.

   Repousava nos braços da jovem Cleópatra - de 16 anos -, que se viu a braços com a insurreição dos alexandrinos. Arsínoe e seu valido Ganimedes comandavam a rebelião nacionalista que alastrara a toda a cidade. Alexandria era uma metrópole cosmopolita, maior que Roma, que as forças de ocupação romana, devido à longa permanência, adotaram juntando-se aos sediciosos.

   Salvou César os reforços que chegaram por mar; uma legião da Síria que tinha chamado, e Mitridates de Pérgamo, filho do lendário Mitridates do Ponto, com um exército multitribal.

   Este desbaratou as forças de Arsínoe, juntando-se-lhe César, que conseguira romper o cerco à ilha do farol onde se refugiara. As forças egípcias foram aniquiladas em batalha ou afogados no Nilo, incluindo o rei Dionísio.

   César, de novo magnânimo, exortou os egípcios a cultivarem a paz, deixando três legiões de guarnição à capital. Entregou o trono à sua amada Cleópatra juntando-lhe o irmão mais novo, Ptolomeu o Moço, mandou prender Arsínoe em Itália e anexou Chipre à República.

   Sanado o problema do Egipto, que lhe ocupara todo o inverno de 47-48 a. C. urgia resolver os problemas pendentes no Oriente, para depois fazer a limpeza final em África onde se tinham reunido as forças de Pompeu.

   Em cinco dias resolveu o assunto; chegou, viu e venceu; entregou a coroa do Bósforo a Mitridates como recompensa do apoio no Egipto, deu a Arménia ao rei da Capadócia, puniu os aliados de Pompeu, regulou todos as questões pendentes e regressou a Itália para os braços da sua Cleópatra, onde iria preparar a última expedição a África.

A Morte de Cleópatra - Jean Baptiste Renault

Créditos a: História da República Romana, de Oliveira Martins

(Continua)

Peniche, 08 de Outubro de 2022

António Barreto